Broken Arrow
4 Capítulo Três

Capítulo Três.
Você coloca seus braços
ao meu redor e eu me sinto em casa.
(Arms — Christina Perri)
O céu começava a tomar uma pigmentação arroxeada; estrela alguma o ponteava, sequer a lua houvera conquistado seu espaço aquela noite, não irradiando com seu prateado pelos cantos da cidade. Porquanto, nuvens escuras encobriam todo céu, dando um tom púrpuro incomum e mui bonito, porém, assustador; clarões rasgavam o céu, resplandecendo em meio à cor exótica que o preenchia.
Outrora, uma chuvarada violenta e lenitiva lavara toda Wembley, pondo em completo escorregadio suas calçadas e estradas.
No entanto, sequer a fina garoa que recaía sonolenta por toda a cidade naquele instante, conseguia diminuir a animação dos jovens que, envoltos a capas de chuvas ou abrigados por seus grandes guarda-chuvas, engrossavam e estendiam as filas do lado de fora da Wembley Arena; era notória toda a algazarra, suas vozes em tons acima do normal ecoavam por toda a Engineers Way. Gritos agudos chegavam ao interior da arena em ruídos abafados.
Melody Lewis ocupava, de forma displicente, lugar no estofado forrado em bege e de largura mediana. Mesmo que sonolenta, os ouvidos apurados captavam ao longe toda a histeria dos fãs, as mãos distraidamente embrenhavam-se entre os fios aveludados do cabelo de Zayn; espantosamente, Malik permitira alguém, além do mesmo ou sua cabelereira, por as mãos em seu cabelo idolatrado.
Com os olhos fechados, o jovem natural de Bradford apoiava suas costas sobre as coxas fartas, semicobertas pelo short jeans, da Lewis; os joelhos repousavam no braço do sofá, contudo, o restante de suas pernas pendiam soltas; o sofá que não comportava seus 1,75 de altura.
Estavam entocados no vasto e bem abastecido camarim destinado exclusivamente ao Malik; o luxo excessivo estava em quaisquer cantos os quais seus olhos fossem.
Sonolentos, ambos aguardavam, em notório tédio, alguém da equipe surgir para os guiarem à produção para o show que ocorreria em poucas horas.
— Você vai ter que arrumar meu cabelo depois. — a voz grave de Zayn ecoou. Abrindo os olhos, o cantor fixou suas íris acastanhadas ao rosto fino da inglesa que pôs sua atenção em Malik; a sonolência lentamente dissipando-se. — Não saio desse camarim no estado crítico que deve estar meu cabelo.
— Quando nos conhecemos, eu senti muita vontade de mexer no seu antigo topete. — confidenciou Melody em um tom de voz distraído, os dedos automaticamente trilhando por entre o cabelo desfeito, onde há meses atrás houvera sido um topete. Então riu baixo: — Mas eu não vou concertar nada, você sabe, existem pessoas muito bem pagas para fazer isso por mim.
— Veremos Lewis. — a ameaça flutuou no ar, ao que Zayn revirara os olhos em repreensão à maneira esnobe que por vezes Melody adequava-se. Era óbvio para aqueles que trabalhavam com a inglesa, a ausência de modéstia e humildade nela. — Mas continue, porque é somente hoje.
Instantaneamente Melody arqueou uma das sobrancelhas e retirou as mãos, desaprovando a ordem do mais velho; não recebia ordens, era ela quem rendia dinheiro para poder dar ordens.
Os lábios rosados entreabriram-se, pronta para proferir quaisquer respostas malcriadas a entoação anterior de Zayn. Todavia, não fora inteligente seu ato de erguer ambas as mãos; os olhos acastanhados, que pareciam perfurar qualquer quê em seu campo de visão, pregaram-se onde Melody desejava veemente não ser.
— Ei, gostei das suas pulseiras. — ditou em sua voz jovial, esbanjando singeleza ao tomar entre suas mãos ásperas as dela, conduzindo um dos punhos a uma proximidade maior do rosto de feições paquistanês.
Subitamente Melody sentiu o corpo enrijecer; o ar tornou-se escasso e pesado. Uma revirada incomoda alojou-se no estomago vazio ao que um frio perpassava a espinha dorsal. Instantaneamente Melody encolheu para si ambas as mãos, retirando-as do campo de visão do moreno; Zayn logo elevou seus olhos aos acastanhados da cantora, uma das sobrancelhas erguida, a testa franzida em par a uma expressão estranha, desconfiando que algo errado pudesse estar ocorrendo com a amiga.
— Minha mão é horrorosa e me dá nervoso quando olham ela de perto. — em um agudo ela falou rápido; desesperados, os olhos desviando-se dos acastanhados masculinos, reprimindo o repentino desejo de se lançar contra a parede repetidas vezes, ao se dar conta da asneira que havia dito. Todavia, em seu interior, torcia que o inglês cresse em seu conto.
Zayn a estudou atentamente, os olhos buscando algum resquício de brincadeira ou sinceridade na morena. Melody, sem sequer notar, prendeu o ar, olhando para a parede a sua frente, em uma fuga ridícula dos olhos do cantor.
— E depois eu sou o estranho pela paixão por meu cabelo. — Zayn ditou por fim, rindo leve ao tentar descontrair a atmosfera tensa que sentiu surgir; contudo, notoriamente sua expressão, antes em desconfiança, suavizava-se; o vinco entre as grossas sobrancelhas suavizavam de imediato.
Lewis lutou contra a feição de alívio que buscava transparecer em seus traços delicados; todavia, muito boa em atuar, deixara um sorriso desenhar os lábios rosados e uma pequena risada ecoando ao longo do camarim.
— Então admite que é apaixonado pelo seu cabelo? — questionou em extrema diversão, a voz transbordando uma ânsia quase imperceptível para trocar de assunto.
Não se importara em prestar atenção no que Zayn proferia em sua defesa; os pensamentos, mui deturbados, tomaram a mente e lhe tamparam a audição. Abruptamente tornara-se sensível as pulseiras que lhe cobriam os pulsos, as sentindo pesar no contorno fino do braço; os recentes machucados pulsaram doloridos sob o aperto firme dos acessórios e Lewis simplesmente lutou internamente para não expressar tamanha repulsa sobre si mesma.
Em meio as emaranhadas reflexões repugnantes ao ser monstruoso o qual transformara-se, Melody sequer percebeu que Zayn observava milimetricamente a face delicada.
E que, explicitamente em seus olhos acastanhados, destacava-se a desconfiança ainda muito intacta.
——
Tem de ficar magra, fora o bordão que incansavelmente perseguira Melody Lewis desde que se tornou consciente da diferença dela para as demais garotas; fora a imposição que todos exigiram de si.
O sibilar do vento ecoava sobre a ausência de quaisquer ruídos; um zunido ecoava levemente por seus ouvidos.
Mecanicamente, se colocou de lado enfrente ao espelho límpido, emoldurado de uma estupenda imitação de ouro, pegando toda a vertical da parede recentemente tingida em rosa.
Os olhos acastanhados observavam a imagem refletida. Prendeu a respiração, severamente retraindo a barriga; encarou o perfil e soltou o ar em um suspiro resignado, derrotado.
O maldito espelho persistia em expor a estúpida garota obesa que ainda assombrava-a, a fazendo sentir repulsa por quem um dia houvera sido; ou alguém que muito ainda era.
Repentinamente se sentiu com raiva de si mesma; levou ambas as mãos ao ventre e apertou a pele em demasiada força. Muito embora, nem o incomodo latejante dissolvera toda aversão por si mesma.
Fechou os olhos, pontilhos avermelhados tomando foco em meio a escuridão sob as pálpebras. O excesso irrelevante de cobranças postas sobre si, desde mui nova, ecoou na mente perturbada.
Ainda em sua infância percebera a falta de igualdade, que muitos esfregavam maldosamente em sua cara, da sua perceptível barriga saliente para as inexistente das garotas ao seu redor; nunca fora magra, ou nunca se considerara em devido patamar.
E o peso em excesso lhe deixara marcas.
Sem permissão, lembranças amargas azedou seu paladar; sempre obrigada a possuir um peso no padrão das demais garotas da sua idade. Incontáveis foram as vezes que fizera dietas não recomendáveis, desejando que seu esforço fosse ao menos reconhecido, todavia, logo que Marietta, sua mãe, colocava seus olhos esverdeados na garota, era sempre acompanhado pelo quão gordinha ela se encontrava.
Não agia por mal, Melody bem sabia, Marietta apenas queria seu bem acima de tudo, queria que recebesse os mesmos olhares desejosos que as garotas da sua idade começavam a receber de seus admiradores. No final das contas, de um modo estranho e dolorosamente sofrido, sua mãe não queria que se tornasse alvo fácil para risadinhas de escárnio acompanhadas de comentários maldosos ou todos aqueles olhares de repulsa.
Recordava cada olhar em repreensão; cada fitar esnobe, as palavras horríveis às quais para quem as profere não parecem ofensividade, todavia, letais a quem são destinadas.
Porém, não mais importava se as mágoas ainda não houvessem cicatrizado sobre seu antigo eu, não ligavam para a forma que usara para perder peso; secara a partir dos quinze anos, quando descobriu como por para fora tudo o que comia em gula, já que suas dietas irresponsáveis não pareciam ter eficiência.
Supostamente era linda, corpo esbelto e, aparentemente, conseguira atingir a perfeição; rendia dinheiro e somente isso bastava.
Fingia sentir satisfação quando lembrava que aqueles que a humilharam um dia encontravam-se em um patamar muito abaixo do seu; Melody encontrava-se muito rica e famosa, era ela quem atualmente pisava nos demais inferiores a si.
Com o suspiro resignado preso a garganta, Melody pôs a jaqueta de couro, tentando dissipar toda a neblina que lhe tomava a mente; o cachecol vermelho emoldurava o traje, caído reto após passar pela nuca, seu fim tocando-lhe o cós do jeans enegrecido.
O desgosto faiscava nas íris acastanhadas, refletidas no espelho emoldurado; Melody encontrava-se pronta. E também consciente que o repugnante perfil refletido não era verdadeiro.
Mesmo assim, era aquela imagem que a assombrava todo o tempo; perseguia como uma sombra. Era a real vivencia de que um dia a fizeram ser insignificante por não possuir um corpo de modelo; por a fazerem se sentir como se nunca pertencesse a lugar algum. Aquele reflexo pertencia a figura que já muito fora humilhada, alguém que grudara em sua mente e lhe mostrava constantemente o quão nunca seria boa o suficiente.
Repentinamente escutou ruídos ecoarem pelo camarim. Passos diversificados, cada vez mais próximos. Desperta de seus pensamentos sádicos, Melody aguçou os ouvidos, alarmada.
— Melody?! Você está bem? Já são sete horas. — a voz melodiosa ressoou abafada e preocupada; os nós dos dedos chocando-se contra o material de madeira clara, cometendo alarde.
Melody inevitavelmente revirou os olhos; era Allyson, sua nova Personal Style. Melody sabia que não encontrava-se realmente preocupada e sim receosa com algo que desse errado viesse ser prejudicial ao encaminhamento do show que, ao final do mês, renderia o salário na conta de cada um.
— Não te interessa se estou bem. Ainda está muito cedo para a minha hora de entrar no palco, então não finja alguma preocupação. Eu sei meus compromissos e não estou te pagando para ser meu rádio relógio. — Lewis entoou ácida, momento sequer os olhos despregaram-se dos acastanhados que refletia o espelho. Não se incomodou com o modo rude o qual tratara Allyson, quiçá com a opinião e xingamentos rondando a mente da subordinada; Anne, a quem Allyson substituíra, simplesmente não aguentara a pressão de trabalhar com Melody Lewis e ela realmente não estava importando-se caso Allyson trajasse o mesmo caminho.
Aprendera que pessoa alguma iria se preocupar consigo caso não tivesse algo a oferecer. Não importa o que tem dentro de si, sua história de vida ou a força que pode possuir; a sociedade pressiona, matando fragmento por fragmento do que contém em si.
Beleza exterior em par de bens materiais passaram a possuir mais valor que honestidade ou humanidade.
É criado um padrão de vida, exigem que esqueça seu verdadeiro eu, manipulando diversificadas pessoas, tornando-as algum tipo cômico de robô perfeitinho, lhe induzindo a ser o que querem, não o que realmente almeja ser.
Fora o que Melody fez. Apagara o sorriso verdadeiro, tornara-se incapaz de enxergar felicidade em singelos atos, tornara-se consciente da maldade do mundo, não mais proferindo o que realmente passava por sua mente; a inocência estava morta.
Pouco a pouco fora se tornando pior. Permitiu que seu real eu sumisse em algum lugar profundo dentro de seu âmago, tomando o molde de garota perfeita a si. A doçura e ingenuidade tornaram-se amargura e superioridade excessiva, cedendo abertura para a Melody que muitas vezes se encontrava com a cabeça enfiada em algum sanitário, o cabo da escova de dente na goela.
Melody Lewis converteu-se em mais um rótulo, um produto o qual houvera imposto alto preço; vendera sua moral.
O resumo de tudo era simples: Melody simplesmente se rendera a sociedade.
Quando não se pode lutar contra, se junta à causa.
——
Ao sul de Lanarkshire, na Avenida Torrance Wynd, o velocímetro do esplendoroso ônibus de turnê marcava 120 km/h; em alta velocidade deslizava pelo asfalto plano e abundantemente molhado da estrada.
A chuvarada os acompanhava ao longo do trajeto percorrido. O chacoalhar do ônibus era como sonífero para seus passageiros; o ressonar calmo dos passageiros era de notória calmaria ao longo do corredor do segundo andar do ônibus de turnê; aquele era um ônibus cheio de conhecidos e vários sonhos, escorrendo como as gotas da chuva que lambiam as janelas.
Melody Lewis revirava de um lado para o outro, o cansaço assolava o corpo curvilíneo, no entanto, o sono não lhe pesava as pálpebras ainda carregadas de maquiagem; o sono sumira no que se acomodou ao colchão afofado do beliche acoplado a parede do veículo.
A tela acesa do IPhone tornava-a consciente do horário avançado. Seu estômago contorcia-se, dolorido; com ruídos, pedia por qualquer refeição. Talvez fosse este o motivo para tal insônia.
Desistindo da inútil espera ao sono, Lewis se deixou dar crédito ao estômago faminto, afinal, o jejum quase chegava ao terceiro dia.
Determinou ir à busca de quaisquer alimentos no primeiro andar, sabia que os armários houveram sido abastecidos outrora naquela noite antes da partida de Wembley.
Abriu a cortina de linho azul que tampava sua visão do corredor desabitado; as cortinas dos demais encontravam-se devidamente fechadas, dando a quase certeza que houvera sido a única infernizada pela maldita insônia.
Tentando não cometer barulho para não acordar ninguém, a inglesa pôs, com delicadeza, os pés descalços sobre o carpete plano; o leve tremor do ônibus em movimento era perceptível em sua sola.
Andou devagar pelo corredor em, cautelosamente pôs um dos pés sobre o primeiro degrau e fora ai que os ouvidos captaram ruídos no andar inferior. Prosseguiu o trajeto, barulho algum de seus movimentos. Andando adiante, já no primeiro andar, logo uma cabeleira loira lhe tomou seu campo de visão.
Niall encontrava-se deitado despojadamente sobre o estofado esverdeado, acoplado a parede metalizada à direita do veículo. Os olhos semicerrados, os braços cruzados displicentemente atrás da cabeça, aparentemente imerso ao filme que assistia.
Por curiosidade, elevou os olhos acastanhados a TV de LCD pendurada à parede. A face pálida de Leonardo DiCaprio com ainda pouca idade preenchia a tela.
Titanic; ela reconheceria de olhos fechados.
— Titanic? — indagou em sua voz aguda surpreendente baixa, todavia, suficiente para tomar a atenção do irlandês. Em supetão, Niall sentou no sofá e virou a cabeça em direção a cantora, a expressão contorcida em alarde, os olhos levemente arregalados.
No entanto, ao que a imagem de Melody preencheu seu campo de visão, o reconhecimento tomou seus olhos azulados; faiscaram em alegria ao varrerem a figura feminina ainda nos trajes do show. Um sorriso desenhou os lábios masculinos ao que Horan constatara os pés descalços sobre o assoalho gélido; as madeixas escuras presas em um coque frouxo, dando-lhe privilegiada visão do pescoço. Naquele instante, Melody lhe parecia somente uma garota normal.
— O ônibus não tem muitas opções de DVD e Liam não quis me emprestar os dele porque eu o acordei para pedir. — explicou, os ombros encolhendo-se ao que a expressão um tanto tímida traçava a face esbranquiçada. Retornou a reclinar sobre o estofado plano do sofá; antese elevara uma das mãos, os dedos dobrando-se ao chamar Melody para perto.
Em uma breve risada nasalar, Lewis se pusera a caminhar em direção ao irlandês, deitando no espaço escasso que Niall oferecera ao seu lado. A cabeça repousou sobre o ombro do mais velho, os olhos instantaneamente fixados a cena que lhe exibia a TV.
— Mesmo que essa Rose seja uma filha da puta egoísta, eu gosto do filme. — de maneira subida, comentou no tom de voz aguda levemente irritadiça, quebrando o silêncio crucial que flutuava em par das falas dos atores na TV.
Niall pregou suas orbes azuis sobre a garota que tinha os olhos agarrados a TV e o cenho franzido; um singelo sorriso brincava nos lábios do cantor, achando graça ao comentário súbito.
— Porque ela é uma filha da puta egoísta? — questionou em curiosidade, os olhos esquadrinhando a face injuriada da Lewis. Geralmente, os comentários femininos ao filme não eram como o dela. Crescera ouvindo os comentários sentimentalistas à trama, o quão intenso fora Jack por fim a sua vida em troca da de Rose; fora uma história de amor arrebatadora.
— Tinha lugar na taboa para os dois! Tudo bem, talvez a taboa fosse realmente afundar com o peso deles juntos. Mas mesmo assim, se todas as bobeiras de sentimentos que narra o filme realmente existissem, essa vadia teria preferido dar o lugar a ele; claro, ele não aceitaria. Então ela deveria morrer junto a ele ao invés de apenas assisti-lo morrer, ou melhor, praticamente dormir enquanto ele morria. — Melody entoou revoltada em um só fôlego, expondo em explícita ira a sua tese. Os olhos tempestuosos elevaram-se, chocando-se com as safiras um tanto esbugalhadas de Horan. — Se o amor realmente existisse e fosse o que dizem por ai, ela teria preferido morrer junto com ele à viver sem ele. Por isso eu digo irlandês, o amor não existe. As pessoas são egoístas demais para amarem alguém.
Niall mordiscou o próprio lábio inferior, degustando cada vírgula do que Melody ditara fervorosamente em seu posto de rainha do gelo; sempre soubera que Melody era complicada. Não que garotas ao todo fossem criaturas fáceis de compreender, todavia, Melody era um enigma de proporções alarmantes; Lewis sequer se encaixava no padrão de atos femininos óbvios. Horan geralmente se encontrava atado, simplesmente sem saber o que esperar da cantora de olhos opacos.
Os orbes achocolatados voltaram-se novamente ao filme, cravando-se novamente à tela da TV. Todavia, Niall não desviara seus olhos dela; esquadrinhava cada traço bem marcado do rosto de uma beleza extraordinária. Varria cada expressão, deslumbrando os ângulos extremamente chamativos para ele.
Nunca definiu Melody como a garota perfeita, definitivamente Niall encontrava-se plenamente ciente que ela era totalmente o contrário de perfeita. A jovem inglesa definia-se repleta de defeitos e, ridicularmente, eram tais defeitos que o atraíam de modo anormal.
— Se amor não existe, no que resume a maioria dos casais felizes hoje em dia? — após alguns minutos, rebateu ele ao que Melody proferira. Satisfação relampeou em seus olhos ao que capturara a atenção da morena; esta, voltando com seus olhos a ele, arqueou uma de suas modeladas sobrancelhas.
— Porque você acha que se têm tantos divórcios? Antes, você casava e era obrigado a viver para sempre com tal companhia, mas hoje em dia, se cansou, parte para outra. Simples assim. Amor é uma questão de doença, possessividade e egocentrismo. Comodismo e breve dependência. — em indiferença, Melody ditou de modo singelo, permitindo um sorriso de lado ao perceber que pusera Niall sem argumentos.
— Eu te amo e não sou doente, possessivo ou qualquer idiotice que você disse. — Niall fitou Melody em visível desafio ao se impor contra sua tese. Todavia, não esperara o revirar de olhos, notoriamente entediado, que a garota fez.
— É diferente Niall, estamos falando de algo carnal, não fraternal. O que sente por mim é afeto, carinho, nós temos um laço fraterno. É algo totalmente diferente do que estamos debatendo. — articulou com as mãos, sua conclusão dos fatos.
Niall mordiscou o canto do lábio inferior, travando uma luta interna para não vomitar verdades sobre Melody; seus olhos azulados instantaneamente abandonaram Lewis para voltar a prestar atenção ao filme.
Fora Melody então que não desgrudara os acastanhados da figura acolhedora que era o cantor irlandês. Seus olhos viajaram em cada singelo detalhe da face esbranquiçada; as bochechas naturalmente coradas. A suave expressão concentrada, um tanto emburrada, não cometera alteração; os azuis celestes fixos a tela de LED, pareciam absorvidos, muito embora, ela o conhecia muito bem para saber do conflito interno que ocorria com ele sobre o debate anterior. Os lábios finos, originalmente rosados, encontravam-se entreabertos e ressecados; os fios aloirados totalmente desgrenhados. Em intensa brancura era a pele leitosa que revestia seu corpo; poderia se contar grande maioria das suas pequenas e discretas pintinhas espalhadas pelo rosto e pescoço. As sobrancelhas grossas em par aos cílios claros emolduravam a face esbranquiçada e enfeitavam os olhos de um azul em diversos tons intensos. Facilmente o associaria com uma criança em traços de homem. — Afinal, porque você me ama mesmo?
O irlandês buscou os olhos castanhos da morena, e não houve hesitação em colidi-los; explicitamente, algo que Niall não conseguia identificar, relampeava nos olhos femininos.
Possuidor de enorme sotaque, Niall Horan sempre fora intensamente doce e divertido; brincalhão em demasia e, por vezes, infantil ao extremo. Simplesmente um menino preso ao corpo de um homem quase feito. Horan evitava palavras impensadas, constantemente com medo de machucar alguém. Melody por vezes o invejava; Horan possuía uma alma livre, de moleque sonhador e realizado. Dedicado, atencioso, evitando sempre expor-se demais por medo de magoar suas fãs, que eram seu tesouro; ele exibia realmente quem queria ser. E Lewis indagava-se insistentemente a si mesma: como alguém como Niall poderia suportá-la?
Por mais que sempre a citassem nos diversos tabloides como a doce e extrovertida Melody Lewis, por trás dos bastidores reconhecia ser hipócrita, egoísta, racista, arrogante e metida. Ela era assim, queria ser assim, cultivava inúmeras razões para o ser e não via motivos algum para deixar de ser.
— Porque a pergunta? — indagou hesitante, um vinco tomando forma entre suas sobrancelhas; todavia, um tom levemente vermelho apareceu em suas bochechas e inevitavelmente Melody sorriu ao perceber.
— Nos conhecemos há bastante tempo e você costumava ser meu fã. E eu sei que é diferente agora, você me conhece de verdade, sabe como sou atrás dos sorrisos estampados em revista e a pose de menina moça, sabe que eu s...
— É seu modo de se rebelar. — extravasando suavidade, Niall interrompeu o longo discurso que Melody provavelmente faria. Observou os olhos levemente alarmados e bastante surpresos da cantora, estudando seus variados tons de castanho. Não desejava escutar dela mesma, que Melody houvera se transformado em uma estrela mimada qualquer. Estranhamente, Horan insistia em dizer que a jovem inglesa que conhecera anos atrás, tão amável, encontrava-se encoberta em um canto qualquer, ocultada no interior da cantora arrogante; estava maquiada. Ele via aquela menina de outrora, gritando no silêncio do olhar frio, suplicando por redenção; desejando poder voltar.
Melody sequer conseguiu rebater algo, ainda encontrava-se presa ao olhar de Niall, tão intenso que parecia ler cada segredo escondido por muito tempo. Em tais momentos, Melody conseguia a quase certeza de que Niall Horan a conhecia melhor do que ele demonstrava.
— Eu não conheço seus traumas Mel, mas eu reconheço que parte de toda essa capa de arrogante e mimada é a forma de você mostrar a si mesma que ainda não se rendeu ao molde que te impuseram. Que você não é perfeita como dizem por ai. E por mais superficial que você tem sido, todos esses defeitos é a forma de não se perder totalmente no manequim de princesa Barbie que querem que se encaixe. — ditou em tom de voz lento, o sotaque irlandês por vezes acentuado. Elevou uma das mãos, as pontas dos dedos roçando na bochecha da garota, em um agradável afago. — Eu ainda sou seu fã Melody. E eu não me importo com toda essa pose de patricinha, porque eu vejo mais do que isso em você.
— Oh Niall, como eu gosto de ti. — declarou com a voz notoriamente embargada; não se importou com a figura sentimental que permitiu transparecer, simplesmente deixara a imagem impenetrável de lado, afundando seu rosto entre o ombro e o pescoço do irlandês. A pequena felicidade em ter alguém com quem contar dominou-lhe; apesar dos sangues diferentes, Lewis sempre soubera que cultivavam forte ligação. — Você é o irmão que eu sempre quis ter.
A expressão de Niall, outrora alegre, instantaneamente desmoronou e o irlandês agradeceu aos céus por Melody não estar o encarando. Não queria o posto de irmão postiço, ansiava por muito mais. Queria Melody Lewis em avidez, exclusivamente para ele.
Percebeu o movimento da jovem cantora e subitamente forçou um sorriso, lutando contra os sentimentos adversos. Melody aproximou sua face a poucos centímetros do rosto de traços irlandeses. Ele estudou seus olhos, como amava os acastanhados que o lembrava um mar de chocolate derretido; naquele instante pareciam tão doces e quentes como há muito tempo não via.
Melody sorriu brevemente e em um subido, grudou seus lábios nos finos do irlandês.
Estupefato, Horan deliciou-se com os lábios carnudos grudados aos seus, repentinamente. Tão breve como uma brisa morna no verão, fora também sua ida. Explícito nos olhos da cantora estava o modo fraterno que acompanhava todo o ato; para ela fora somente um selinho amigável.
Todavia, os lábios do loiro formigavam; fez uso de tamanha força para não erguer uma das mãos e tocar os lábios para certificar que o toque dos lábios femininos fora real.
Lewis contornou a cintura do irlandês com o braço esquerdo, ficando de lado; a face recostou agradável sobre o peito do cantor, inalando o perfume tão familiar; o pano macio da camiseta de algodão lhe acariciando a bochecha. Niall Horan a fazia se sentir em casa.
O cantor automaticamente abraçou o corpo miúdo da cantora, ainda maravilhado para comentar algo.
O que fora estritamente inocente para Melody, a Niall desencadeara turbilhões de sentimentos e sensações. Fora como acender uma chama interna, lambendo, como fogo sobre pólvora, as veias; um choque térmico alastrava seu corpo, dando-lhe a sensação de ser banhado por lavras. Sentia-se quente, em brasas, seu sangue borbulhava.
O simples contato de ambos os lábios despertara dentro do irlandês um desejo febril de ter mais que um selinho, era um desejo tão forte que Niall desconhecia.
E ao que assistia a cantora de beleza estonteante adormecer entre seus braços, ele atingiu a certeza que queria mais dela.
Não queria ser somente o amigo quase irmão.
Ele ansiava ser o homem capaz de lhe salvar.
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