Broken Arrow
7 Capítulo Seis
Notas iniciais
Primeiramente, eu queria dedicar esse capítulo para Anna, essa linda que fez a primeira recomendação da fic *-* Obrigada flor, eu fiquei toda boba e muito feliz com a recomendação haha
Aqui está mais um capítulo para vocês.
Boa leitura flores (:
Capítulo Seis.
Eu olho para meu reflexo no espelho.
Por que estou fazendo isso comigo mesma?
Perdendo minha cabeça por um pequeno erro.
(Who You Are — Jessie J)
Um relâmpago iluminou todo o banheiro escuro no momento em que Melody o adentrou. A morena bateu a mão no interruptor, iluminando todo o lustroso e frio ressinto.
As grossas gotas de chuva batiam com força no vidro escuro, lambendo o basculante fechado, localizado a poucos centímetros depois do teto, sob a banheira.
Melody caminhou a passos lentos até a bancada da pia e apoiou as mãos na mesma. Seus olhos subiram até o reflexo que o espelho, límpido e grande, refletia. Fitou os olhos castanhos, fundos e inexpressíveis. Não conseguia sentir mais nada, ou talvez sentisse tudo, só não houvesse mais a capacidade de se decifrar; não sabia mais quem era aquela que o espelho mostrava.
Fechou os olhos com força, tentando se negar a sucumbir àquela ânsia de consumar aquele ato sujo. Mas somente no que conseguia pensar era toda a comida que havia posto no estômago durante aquela tarde. Talvez para uma pessoa normal, almoçar demasiadamente bem não significava pensar ter engordado alguns quilos, muito menos se sentir tão mal por isso; no entanto, era apenas isso que passava pela mente de Melody. Seu estômago dava voltas e doía, enquanto sua mente era, pouco a pouco, controlada.
Tentou se acalmar, decidida a não se entregar tão facilmente. Havia pouco mais de uma semana que não se curvava em um vaso e punha para fora tudo o que tinha no estômago, e isso era um grande mérito para a morena. Um dia ruim não valeria o tempo que esteve tentando se controlar. Tudo o que tinha de fazer era sair daquele banheiro e afastar aqueles pensamentos; ela tentava inutilmente se iludir.
Entretanto, Melody tinha plena consciência que ao abrir os olhos e se encarar no espelho, veria toda a comida ingerida durante aquela tarde em seu corpo. Os vergonhosos quilos, que sua consciência pesada dizia ter ganho, estariam estampados para todos verem o quanto Melody não era boa o suficiente.
A cantora sabia que era fraca, nunca conseguiria parar. Era perca de tempo tentar se controlar, perdera o controle de si mesma a muitos e muitos anos atrás. Crescera vendo as outras garotas de sua idade serem magras, comiam tudo o que queriam e não tinham toda a vergonha e gordura que Melody tivera. Era só fechar os olhos para todas as palavras que lhe eram proferidas como pressão para se tornar magra, virem à tona. Sempre se culpava pelo o que comia, sempre se sentia envergonhada. Pensando bem, nunca houvera uma época de sua vida em que vivera sem a pressão de ter de entrar no padrão.
E tudo o que queria era não sentir aquela pressão em seu peito, não ter aquele bombardeamento de emoções. Era difícil continuar firme, era difícil lutar contra o que sempre fazia em momentos como aqueles. Era mais um vício sujo na sua conta.
Abriu os olhos, sabendo e aceitando que perdera o jogo. Voltou a fixar os olhos no lixo refletido; aquela era ela, fraca a ponto de se curvar ao molde que lhe impuseram.
Seus olhos logo desceram para a nécessaire aberta sobre a bancada de mármore claro e sem prolongas, levou a mão direita até a pequena maleta, pondo a escova de dente em mão.
Deu poucos passos até o vaso sentindo o nó se formar na garganta e o estômago girar. Sentiu nos joelhos o beijo frio do piso de mármore branco, quando se ajoelhou ao chão. Pôs a tampa do vaso para cima ligeiramente, querendo prolongar aquele momento, esperando que algo a impedisse daquele ato. Tola, ninguém ou nada, poderia a salvar. Ela não tinha redenção.
Levou o cabo da escova a boca e o forçou ir de encontro à goela, a garganta protestou contra a violação e logo sentiu a ânsia do vômito. Despejou tudo o que comera para dentro do vaso, sentindo o gosto amargo lhe tomar a boca.
Fechou a tampa do vaso e levou uma das mãos a descarga. Sentia a cólera tomar cada célula de seu corpo, enquanto escutava o barulho da água levando cano a baixo o conteúdo no vaso.
Forçar o vômito se tornara mais fácil durante os anos, passou a não precisar repetir o ato várias vezes para por tudo para fora, talvez por passar a comer quase nada ou talvez por aquele hábito já fazer parte da sua rotina; provavelmente ambas as hipóteses.
Encostou a bochecha na parede, estremecendo ao contato do mármore gelado com seu rosto quente.
Conforme as batidas do seu coração iam desacelerando, Melody tentou entender como poderia ser o exemplo de milhares de adolescentes. Tudo não passava de uma mera farsa, um grande teatro. Estava presa a uma mentira, que a obrigava prender junto seus fãs. A Melody que eles tanto idolatravam não existia. Não havia o que se inspirar nela, ela era um fracasso, um lixo.
Era somente uma perdedora tapando seus problemas com a abertura de outros.
——
As luzes piscavam dentro de um enorme globo no centro da pista e a fumaça artificial, feita de gelo seco, enevoava o meio do salão, fazendo com que fosse meio difícil discernir a confusão de corpos que rodopiavam na pista de dança ao som da batida eletrônica de Party Rock do LMFAO; o som ecoava tão alto por todo o pub francês que, vez ou outra, fazia tremer ligeiramente as paredes e o chão.
Melody estava sentada em um dos altos bancos de metal no bar, enfrente ao balcão que pegava toda uma extensa parede do pub, de um lado ao outro. A monera se distraía com o olhar perdido nas prateleiras, empenhada em tentar reconhecer algumas das bebidas ali postas; como era típico em bares, prateleiras e mais prateleiras eram cobertas com bebidas de todos os tipos e cores.
Um copo com menos de dois dedos de um líquido verde dentro estava a sua frente e Melody já não saberia responder se aquele seria o quarto ou quinto copo da doce batida misturada com vodka; quiçá fosse o sexto. A questão era que se encontrava um tanto tonta e provavelmente, se continuasse ali por mais algum tempo, não conseguiria andar sozinha.
— Não acha que já chega de beber por hoje? — a voz calma e aveludada veio de trás da garota e Melody sentiu a palma da mão quente lhe tocar um dos ombros nu; não precisou virar de imediato para reconhecer quem a abordara, o aroma cítrico do perfume masculino junto ao delicioso cheiro natural que emanava da pele de Niall era inconfundível.
— Foi Liam que mandou você aqui? — indagou divertida, sentindo sua frase ser proferida um tanto lenta; definitivamente estava bêbada. Virou um pouco no banco, podendo encontrar os brilhantes olhos azuis do irlandês tão próximo aos seus.
— Também. — confessou Niall, então corou ao constatar a pouca distância entre seu rosto e o da garota; se fosse corajoso o suficiente, poderia facilmente encostar seus lábios ao dela sem ter de mover pouco menos que alguns centímetros, mas ele não era.
Deu um passo para trás, afastando-se alguns centímetros e forçando um sorriso para disfarçar seu desconforto. Melody não parecia ter percebido absolutamente nada.
A morena revirou os olhos voltando-se para frente do balcão, levou a mão direita ao copo e tomando-o, bebeu o resto do conteúdo ali imposto. Soltou uma risadinha ao se virar novamente para Niall e constatar sua expressão repreendedora.
— Não seja tão chato como Liam. Vem, vamos dançar. — Melody disse divertida e um tanto alterada, apoiando uma das mãos no balcão do bar para saltar do banco alto. Ao por os pés no chão tudo ao seu redor girou e se não fosse Niall ao seu lado, lhe segurar, provavelmente teria estatelado de cara ao chão. Soltou outra risada, apoiando-se em Niall e firmando os saltos no chão. Deu os primeiros passos quando tudo voltou ao foco e sentiu que estava segura, podendo andar sem cambalear. — Percebeu que é sempre você que acaba dançando comigo?
Pena que é com Harry que você sempre acaba a noite, pensou Niall com desgosto, mordendo a ponta da língua para que não corresse o risco de proferir aquelas palavras; não saberia onde se esconder caso pronunciasse seu pensamento em voz alta.
— Pois é. — foi somente o que Niall respondera, sendo puxado pela mão da garota para o meio da pista de dança.
As respirações ligeiramente ofegantes, o calor dos corpos com o suor brotando de seus poros junto aos milhares de odores e perfumes, se misturavam entre o farfalhar de pessoas movendo-se no compasso da batida eletrônica na pista de dança.
Um pouco distante, reconheceu Zayn dançando de um jeito engraçado com uma garota ruiva, muito bonita, a sua frente. Ela se divertia com os passos atrapalhados e inventados do moreno, rindo bastante enquanto Zayn parecia se sentir com a aparente atenção da garota. Sentiu pena da ruiva, pois já era a quarta garota que via com Zayn desde que chegara ali.
Quando Malik decidiu esquentar as coisas entre ele e a acompanhando da vez, Melody decidiu não mais prestar atenção e voltou a encarar Niall, rindo de seus passos tão atrapalhados e fora do ritmo quanto os que Zayn fazia mais a diante.
For a second you were here, why you over there?
It's hard not to stare the way you moving your body
Like you never had a love
Never had a love
— Eu amo essa música. — Melody exclamou em um quase grito, sorrindo eufórica para Niall que dançava desengonçadamente a sua frente. Niall reconheceu a batida de How to Love ecoar pelo recinto e logo a voz de Lil Wayne preencheu seus ouvidos e todo o canto do pub mais badalado de Paris.
Melody fechou os olhos, mexendo o quadril no ritmo da batida enquanto cantava a música em alto e bom tom. Ela reconhecia que aquela música dizia muito de si.
Niall correu os olhos pelo corpo da garota, não conseguindo disfarçar a intensidade contida neles. Melody usava um simples, porém muito sexy, vestido tomara que caia, que destacavam suas curvas e subia alguns centímetros por suas coxas bem torneadas, conforme ela movimentava o corpo. Seu longo cabelo castanho estava desalinhado fazendo com que alguns fios colassem no rosto bem desenhado e maquiado; as mãos eram jogadas para cima movimentadas em sincronia com o resto do corpo e um pequeno sorriso brincava em seus lábios avermelhados.
When you was just a young'un your looks was so precious
But now your grown up
So fly it's like a blessing
But you can't have a man look at you for five seconds
Without you being insecure
Melody abriu os olhos, encontrando as brilhantes orbitas azuis de Niall pregadas em seu rosto, seus olhos pareciam ter dedos e ela podia senti-los acariciando seu rosto. Ficou um tanto envergonhada ao perceber o quão intenso era o olhar do garoto sobre si, ele não a olhava com o habitual carinho e ternura; era um olhar mais maduro, um olhar de homem; até parecia desejo.
No entanto, se pegou refletindo que Niall não era o tipo de garoto que sentia desejo por alguém feito ela. Afinal, o que um garoto de tão bom coração, inteligente, educado e carinhoso veria em alguém como ela, que era totalmente o oposto de suas qualidades? Niall não era alguém com quem ela poderia usufruir de seu desejo somente por uma noite, pois acima de tudo, Niall também era como um irmão e para ela, nunca passaria disso.
De repente, tudo a sua volta começou a rodar, as pessoas ao seu redor pareciam se movimentarem em câmera lenta. A música, as vozes e as risadas se confundiram na mente de Melody, porém, ela continuou a dançar e um sorriso largo lhe rasgou o rosto; era somente o efeito de todo o álcool ingerido naquela noite.
Niall se aproximou timidamente e pôs as mãos sobre sua cintura, aproximando seus corpos. Aquele contato fez seu coração acelerar e ele sentiu-se enrubescer como um adolescente. Então, seu estômago deu um nó.
You never credit yourself so when you got older
It's seems like you came back ten times over
Now you're sitting here in this damn corner
Looking through all your thoughts and looking over your shoulder
Melody decidiu por ignorar o olhar de Niall, fingindo não ter consciência de que o mesmo lhe olhava com toda aquela intensidade imposta em seus olhos azuis. Talvez o irlandês houvesse passado um pouco da conta nas bebidas, como ela fizera; foi no que ela tentou se convencer para não ter de se preocupar com nada e continuar a dançar.
Desviou os olhos de Niall olhando um ponto qualquer sobre os ombros do mesmo, e em meio a todas aquelas vozes e risadas, que se misturavam no ar e bagunçavam seus pensamentos, foi quando o viu pela primeira vez naquela noite. Estava do outro lado da pista, com as costas coladas a parede e uma das pernas dobradas, com o pé sobre a parede também. Brincava entre os dedos com o que parecia ser um papel escuro e mantinha um sorriso estranho no rosto enquanto a encarava; seus olhos verdes cintilavam, aquele olhar profundo e insano lhe dizia algo completamente distorcido de tudo que já constatara nos olhos de Harry, não eram somente os verdes frios de quase sempre, continha mais ali e Melody se viu frustrada por não poder compreender o que se passava neles.
Ela sentiu algo queimar dentro de si e a tontura voltou um tanto mais forte. Escutou Niall dizer algo que não fizera coerência em sua mente e logo desviou dos olhos verdes de Harry, que pareciam lhe queimar, e voltou sua atenção a Niall, seus olhos azuis junto ao sorriso caloroso foscaram seu campo de visão e o rosto do loiro pareceu duplicar a sua frente.
— Niall, não estou me sentindo muito bem. — murmurou, fechando os olhos por alguns segundos. Tudo a sua volta estava rodando, sua cabeça latejou e sua visão ficou embaçada. Tentou respirar fundo, mas o ar quente junto à mistura de diversos perfumes e olores lhe embrulhou o estômago.
— O que? — questionou Niall aproximando-se mais um pouco, sua expressão se transformando em um ponto de interrogação por não ter escutado um quê sequer do que Melody falara.
Melody voltou a abrir seus olhos e aquela imensidão azul estava a sua frente, como o mar convidando-a para mergulhar. Uma garota poderia facilmente se perder naquelas profundezas azuis e gostar disso, pensou Melody. Logo balançou a cabeça, espantando aqueles pensamentos desconexos. Constatou então que ela e Niall estavam próximos demais.
A morena sentiu o corpo de Niall chocar-se contra o seu, a respiração cálida do rapaz, na mesma sincronia que a dela, batia de encontro com seu rosto, lhe entorpecia o corpo e embaralhava a mente. Fechou os olhos, forçando-se a se lembrar de que aquele era Niall, seu melhor amigo, e não Harry, o garoto com qual podia brincar sem se importar; quem poderia beijar e não ter de se explicar.
Fechou os olhos, sentindo seu cérebro dar um nó. E logo percebera que fechar os olhos não fora algo inteligente a se fazer.
Niall sentiu o sangue correr mais lentamente pelas veias e, por um breve momento, pareceu enfraquecer. A boca avermelhada de Mel estava tão convidativa a um beijo que ele desejou que estivessem sozinhos. Entretanto, pego de surpresa, Niall percebeu que não se importava com os outros ao redor, até porque, pareciam alheios demais em suas danças para prestar atenção neles. A ousadia e a coragem, sensações nunca provada antes, o revigorava; Niall se sentia determinado e destemido. Ele a queria naquele exato segundo, e essa necessidade atingiu seu corpo com uma alta carga de calor. Ter os lábios de Melody sobre os seus em um toque mais íntimo do que o selinho fraternal que haviam trocado no ônibus de turnê chegava a ser uma vontade febril.
You had a lot of dreams that transform to visions
The fact that you saw the world affected all your decisions
But it wasn't your fault
Wasn't in your intentions
— Niall, o que... — Melody começou a indagar baixinho, mas não lhe restara tempo para completar a pergunta. Antes que aquela coragem se esvaísse de seu corpo, Niall grudou seus lábios nos dela e tudo se dissipou na mente de ambos. A língua dele roçou-lhe os lábios, pressionou-se entre eles. Ela levou as mãos de encontro ao ombro do loiro e cravou os dedos ali. Entreabriu os lábios e permitiu que Niall aprofundasse o beijo.
Beijavam-se em sincronia, suas línguas se roçavam e enroscavam com graça; até parecia que dançavam naquele compasso já há muito tempo. Todavia, Niall não estava tão entregue a ponto de deixar de perceber uma coisa: Ela não se esquivou, mas também não se rendeu completamente.
Beijar Niall era uma sensação definitivamente nova e estranha; não era um beijo feroz e rude como costumava trocar com Harry, pelo contrário, o beijo do loiro era doce e aveludado, ao mesmo tempo em que era exigente e intenso. No entanto, não lhe despertava a dependência que os beijos de Harry lhe proporcionavam e não tinha todo o desejo que compartilhava com o moreno. Era como beijar alguém fraternal demais para ser mais do que um grande amigo.
Beijar Niall também parecia demasiadamente errado. Nunca se permitiria iludir o garoto ou machucá-lo, não poderia ser tão indiferente a ele quanto era com Harry. Niall era totalmente adverso a Harry, o loiro tinha um coração e sentimentos, sentimentos esses que ela não queria ferir e muito menos se envolver.
O irlandês era como parte da sua família; era como um irmão a quem ela poderia se acolher e apegar sem se sentir atraída para seus problemas familiares; Niall sempre conseguia lhe trazer paz e dissipar todos os embaraços na mente.
Além do mais, Melody não poderia fazer Niall feliz. Ela não conseguiria nutrir sentimentos, não só por ele, como por qualquer outro garoto. Apenas não era o tipo de garota que se apaixonava, por simplesmente não acreditar em um amor que a faria sofrer, não queria amar alguém a ponto de se dilacerar para poder vê-lo feliz; aquele tipo de amor para ela não existia. Era um pensamento demasiadamente egoísta, mas essa era a verdadeira Melody; ela era a típica garota problema, egoísta demais, fraca demais e medrosa ao extremo, uma alma manchada por segredos sujos. Niall definitivamente não merecia alguém como ela.
Tudo isso a impedia de ter algo a mais do que uma grande amizade com Niall. Entrar em algo tão insólito podia significar perder muito e Melody gostava de se manter segura o suficiente sobre a linha tênue entre a lucidez e a insanidade a qual se equilibrava; não queria correr o risco te ter um descontrole, queria se manter assim, não precisava de mais motivos para castigar a si mesma com algum objeto afiado.
See, I just want you to know
That you deserve the best
You're beautiful
You're beautiful, yeah
And I want you to know, you're far from the usual
Far from the usual
Niall sabia que aquele momento significava cruzar uma estrada delicada com Melody. Talvez uma estrada que ele não pensaria duas vezes em traçar. Estava ligado àquela garota e a forma como seu coração e sua mente reagiam a ela o advertiram que, depois que caiu, não conseguia mais levantar. Ela estava no sangue que corria em suas veias, em seus pensamentos enquanto ele dormia ou trabalhava.
Abruptamente Melody dera um passo para trás, quebrando o beijo e todo o contato com o corpo do rapaz. Ela parou, sentindo ondas de calor e respirando com dificuldade. Provavelmente sua expressão estava tão atordoada quanto à dele.
Seus olhos se voltaram para o ponto da parede onde, outrora, avistara Harry. Não entendeu o porquê, mas desejou veemente que o moreno não houvesse presenciado a mais um passo erradico de sua vida medíocre; talvez por não querer que Styles tivesse mais uma prova do quão estúpida poderia ser. Contudo, tudo o que vira em sua direção foram seus olhos verdes cintilarem maldosos, muito embora também estivessem nevoados e indecifráveis, e logo Harry se desgrudou da parede, sumindo entre a aglomeração de pessoas.
Voltou seus olhos para Niall e o assistiu abrir a boca para logo a fechar, repetidas vezes; tinham muito o que falar, sobretudo, aquele não era o local e nem o momento apropriado para se fazer.
— Eu preciso tomar um ar. — resmungou, virando as costas para o garoto e caminhando entre o emaranhado de corpos suados que lotavam a pista de dança. Obrigou a não pensar na besteira que fizera e se empenhou em se firmar nos saltos, suas pernas estavam bambas, muito embora seu estado bêbado parecesse ter subitamente atingido um grau excepcional de melhora.
E aquele beijo se tornava mais errado a cada passo dado.
See you had a lot of crooks tryna steal your heart
Never really had luck, couldn't never figure out
How to love
How to love
See you had a lot of moments that didn't last forever
Now you in this corner tryna put it together
How to love
How to love
——
A batida eletrônica de uma música qualquer chegava abafada aos seus ouvidos e, vez ou outra, acompanhada de gritos eufóricos.
Melody esfregou as mãos sobre os braços desnudos, desejando ter um grosso casaco sobre seus ombros, lhe embrulhando com seu calor. Todavia, respirou de bom grado o ar extremamente gélido para dentro dos pulmões; sua cabeça rodava com o tanto de emoções que havia tido em um tão curto período de tempo.
Sua boca estava sensível e intumescida do beijo dele. E por causa daquele beijo sabia que estava em apuros.
Droga! Ele a beijara, ela pensou, chutando uma pedrinha para o meio fio. O que mais a aterrorizava era que ela havia retribuído. Isso não podia acontecer, ela simplesmente não podia ter deixado acontecer; maldita hora que fora beber além da conta.
Sabia que disfarçar e fingir que nada acontecera não iria funcionar com ele, provavelmente Niall iria querer por tudo em pratos limpos e Melody sentia medo disso. Medo de dizer ao garoto que aquilo não passara de um descuido e que não mais se repetiria, assim podendo estar afastando dela mais uma das pessoas mais importante de sua vida. Pois nunca vira em Niall um olhar tão intenso e cálido de desejo como vira naquela noite, e muito menos chegaria a cogitar a hipótese de um olhar daquele porte, vindo de Niall, poderia ser dirigido a ela; nunca nem mesmo chegara a suspeitar de que o garoto poderia nutrir algo por ela. Não, não e não! Ele não podia sentir nada além de amizade por ela, simplesmente por não ter nexo. Provavelmente Niall havia bebido um tanto e agido por impulso, assim como ela.
Também havia outros fatos a se considerar. Suspeitava que Niall conseguisse ver além de suas camadas e muros de segurança, mas de longe, Niall conhecia a verdadeira Melody; a Melody que ia muito afundo de maquiagens, sorrisos forçados, cabelos impecáveis e indiferença; a Melody que se trancava no quarto e punia a si mesma por nunca ser boa o suficiente, a Melody que sentia nojo de si mesma. Se ela não gostava dela mesma, como alguém poderia gostar? Não queria que Niall a amasse, pois não era o que Niall achava conhecer, muito menos o que Niall merecia ter.
Suas emoções tumultuavam-se de tal forma que não estava pronta a encarar. Retribuir ao beijo de Niall fora um erro e talvez fosse um erro sem reparação.
O vento lhe atingiu a pele desprotegida como agulhas, esvoaçando seus cabelos e a fazendo-a estremecer. Poderia voltar para o calor do pub ou somente adentrar o mesmo para pegar seu agasalho, deixado na mesa a qual Louis e Liam provavelmente estariam sentados, junto a sua bolsa, mas a garota se recusava em ter de enfrentar mais alguma emoção naquela noite. Queria somente um pequeno tempo para espairecer, então respiraria fundo, pegaria um táxi com destino ao hotel e iria direto para sua cama. E assim terminaria sua noite, sem mais dores de cabeça.
Doce ilusão.
Notas finais
Ei leitoras fantasmas, podem aparecer, eu não mordo haha
Beijões fofas. xx
Fale com o autor