Broken Arrow

5 Capítulo Quatro




Capítulo Quatro.
Quando você tenta o seu melhor,
mas não tem sucesso.
Quando você consegue o que quer,
mas não o que precisa.
(Fix You — Coldplay)



A névoa baixa escoava sobre a cidade como uma manta flamejante; flutuava contra o céu nublado, manchado de roxo. Extremamente gélido era aquele fim de tarde do, outrora, agitado domingo. Uma garoa fina recaia sobre a incontida Londres em par da fria brisa qual soprava sem piedade as vestes e cabelos da população inglesa que caminhava apressadamente pelas ruas, focada em suas obrigações.

O dia das mães chegara; prenominavam as lojas e suas fortes campanhas, ruas enfeitadas de corações, flores e extensos cartazes de mães e filhos aos abraços e sorrisos irritantemente felizes. Mesmo com o tempo chuvoso, o fluxo de pessoas às ruas e restaurantes parecia ter triplicado; as principais avenidas encontravam-se congestionadas por conta da quantidade em excesso de carros que saíam as ruas para terem um dia especial com uma das pessoas mais importante de suas vidas, no caso, suas mães.

O toque do telefone ecoou histérico por todos os cantos da sala, cortando o silêncio mórbido. Um leve estremecer perpassou pelo corpo esguio ao que levara um pequeno susto pelo barulho repentino.

Melody soltou um longo e doloroso suspiro, as finas gotas do chuvisco lambiam a grande janela qual ocupava toda uma parede da sua sala, enquanto através da mesma, a morena observava as luzes da cidade acenderem-se conforme o céu escurecia e a noite melancólica sorrateiramente chegava.

— Mel? — a melodiosa voz, doce e calma, da sua irmã mais velha ressoou pela secretária eletrônica e ecoou por toda a extensão da sala bem decorada e excepcionalmente equipada com móveis e eletrônicos de última geração. — Melody, estamos aqui na casa da mamãe e... Se você estiver me ouvindo, me atenda.

Naomi, em uma pausa, permitiu o silêncio prevalecer por alguns segundos; talvez torcendo que a parte ainda humana da irmã pudesse se comover, todavia, não mais conhecia a nova Melody. A morena não moveu sequer um dedo neste meio tempo. Permaneceu estatelada, os olhos acastanhados grudados ao vidro límpido, assistia atentamente as pessoas que pareciam tão próximas uma das outras; haviam muitas famílias que caminhavam juntas, sem parecer incomodadas com o frio, absortas em um estupor de felicidade que Melody desconhecia.

— Bem, se você puder... Venha dar um abraço na mamãe e em nós... Han... Ryan está com saudades... Quer dizer, todos nós estamos. — Naomi respirou fundo, o gesto soou em um ruído pela secretária eletrônica, seguido de mais uma pausa melodramática. Melody sentiu o coração apertar a citação do sobrinho de apenas dois aninhos recém-feitos; os olhos lembravam os seus acastanhados, conforme as madeixas claras remetiam a mãe; também sentia falta dele. Orgulhosa, estava negando a si mesma a falta que sentia de todos. — Se precisar de qualquer coisa me ligue. Nós te amamos.

Com força, a acastanhada cerrou as pálpebras, degustando do amargo que tomara seu paladar. Não se permita sentir, não pode sentir; repetira a si mesma mentalmente, como um mantra sagrado, ao que o silêncio voltou a recair sobre o apartamento.

Sem hipocrisia, Melody admitia a si mesma ser extremamente egoísta. E gostava; recebera o egoísmo como um grande amigo, que a ajudara a ser melhor que tudo, melhor que todos. Fechara-se ao mundo, tentando ser indiferente aos outros que ainda se importavam com ela.

Não se importava; recitou à si mesma. Tolos eram eles que acreditavam em uma Melody que não mais existia.

Foi sozinha que aprendera que fugir dos problemas era sempre a melhor das soluções. Em todo tempo fora somente ela com ela mesma que por tudo passara e aprendera a lutar. Ninguém nunca conseguiu a ajudar.

Era essa a atitude da personalidade forte e indestrutível que insistia ser dona. Muito embora, no final das contas, não passasse de uma fraca, covarde e infantil; correndo dos problemas com medo estúpido e doentio de sofrer.

E só em correr, já sofria.

Melody encontrava-se absorta em seus complexos e repulsa por si mesma, e sequer se deu conta dos passos lentos que soavam abafados pelo assoalho bege. Somente tornou a si, quando, repentinamente, sentiu duas mãos fortes cingirem, firmes, sua cintura delgada e o forte odor do perfume másculo, estupendamente amadeirado, a inebriou.

— Você deveria começar a trancar a porta, nunca se sabe quando um maníaco tarado pode invadir seu apartamento. — soara displicente em seu tom de voz habitualmente rouco; Harry permitira um sorriso divertido desenhar seus lábios naturalmente rosados. A cantora, apática, assistiu pelo reflexo claro que a janela lhe proporcionava, Styles inclinar sua cabeça e depositar um beijo molhado em seu pescoço, beijo que sequer lhe causara cócegas.

— O que você está fazendo aqui? — em um ato repentino, virou-se a ele, ainda com a cintura presa às mãos grandes do garoto. A cabeça pendera um pouco para trás, com o intuito de encarar os olhos esverdeados que, ao contrário dos seus, faiscavam vida.

Harry trajava somente uma enegrecida calça de moletom, negligentemente recaía larga por seus quadris e delineava sua pélvis, expondo a barra acinzentada da sua boxer Calvin Klein. Os cachos aveludados levemente úmidos e o estupendo odor pós-banho, lhe davam a certeza que Styles houvera recém saído do banho. Por alguns instantes odiou Simon por ter lhe comprado um apartamento logo abaixo da cobertura ostentosa de Harry Styles, o que facilitava bastante as visitas repentinas que o infeliz a proporcionava. Se outrora o problema fora o fato dele ser dono da cobertura e ela não, atualmente o problema se estendia por ter de morar tão próxima a figura detestável do cantor.

— Vim te fazer uma visitinha, Lewis. Você tem andado afastada essa semana. — risonho e divertido, puxou o tronco da acastanhada junto ao seu, em um movimento brusco, que investido em outra, teria arrancado suspiros, mas que em Melody cometera somente no revirar de olhos habitualmente entediado.

Houvera mesmo se afastado, a Melody. Completava pouco mais de uma semana que evitava não somente Harry, como os demais. Imune a quaisquer tipos de conversas, só se comunicava quando era estritamente obrigada a falar durante a agenda lotada de shows.

Tal semana, contrariando todo seu eu atual, fora um tanto infeliz e comicamente emotiva em excesso para Melody. Passara toda a viagem trilhada de Oxford à Manchester e, logo após, Liverpool, decidindo o que faria ao domingo das mães; por seu único desejo, ansiava poder apagar devida data do calendário anual. Desde que resolvera morar sozinha e fugir do seu problema, o dia das mães era uma data que extremamente a incomodava, pelo motivo de ter que conviver, mesmo que por poucas horas, com seu pai.

Não queria demonstrar suas emoções perante o conflito interno de ir ou não parabenizar a mulher que a pôs ao mundo; e não desejando demonstrar que algo abalava a inabalável rainha de gelo, preferiu se manter devidamente afastada até que aquela data comemorativa chegasse ao seu fim.

E, sortuda que só, Harry escolhera justo o bendito dia para lhe abordar.

— Você não deveria estar passando o dia com a sua mãe? — mecanicamente questionou, a voz aguda soou baixa, quase em um murmuro. Pondo ambas as mãos ao peito desnudo de Harry, o empurrara para longe, mantendo uma distância segura do corpo másculo que emanava desejo e luxuria. — Vai embora Styles, não estou para suas gracinhas hoje.

— Vou para casa dela mais tarde. — majestosamente ignorara o que fora demandado pela mais nova, retorquindo sua indagação. As esmeraldas estudaram-na com meticulosa atenção, um brilho estranho no olhar. — E você, ainda está fugindo?

Travara uma luta interna contra a surpresa querendo lhe tomar os traços da face delicada; o ar se tornou escasso enquanto a surpresa a deixava sem palavras. Se perguntou desde quando Harry havia tal conhecimento; somente ela e os familiares sabiam de tal distanciamento que a cantora houvera imposto entre ela e a família, em seu ato egoísta e sádico de tentar não ser abalada por absolutamente nada.

Harry observava-a atentamente, o olhar maldoso e em um sorriso vazio, estudava cada reação da garota.

Lewis sentiu um incômodo no estômago e chegou a cogitar a ideia de que, seja lá o que houvera comida pela ultima vez, sairia por sua boca, sujando o carpete claro da sala.

— Fugindo? — indagou Melody, a voz soando baixa e um tanto fraca. Mentalmente xingou-se pela falha, desviando os olhos das orbes esverdeadas que fitavam-na, sem piedade e em extrema diversão. Pigarreou, decidindo tomar controle da situação. — De onde tirou essa ideia totalmente sem noção?

— Certas coisas sobre você não passam despercebidas por mim. Ainda não percebeu que somos iguais Melody? Dois egoístas filhos da puta. — Melody invejara a displicência de Harry, com louvor Styles atingia uma indiferença maior da qual ela ansiava em ter. Uma vontade de socar o rosto bem desenhado do cantor a tomou; Melody bem sabia o pivô da raiva repentina que desabrochara em seu interior e a consumia aos poucos. Reconhecia a verdade por trás das palavras de Harry, e por saber, odiava. Não desejava ser igualada a alguém tão ridículo como Harry.

— Não me iguale a um merda como você. — demandou por entre os dentes, sentindo o rosto esquentar devido ao sangue que borbulhava de raiva. — E desde quando você se importa com algo sobre mim? Quer saber? Foda-se. Saia daqui agora.

— E eu realmente não me importo. — a expressão inabalável deixava Melody nervosa, a levando em um nível elevado de irritação. Aproximou-se novamente dela, pondo ambas as mãos na base de suas costas e as desceu firmes até as nádegas cobertas por uma pequena boyshort, chocando então o corpo da garota contra o seu e a impediu de se afastar. — Até que, seja lá o que for, comece a me privar de certos favores seus.

— Vai se foder Harry. — mandou sem paciência, sentindo em seu intimo certo incomodo sem sentido. Deveria sentir nojo por ser tocada de tal forma pelo cantor; Styles dormia com tantas garotas de seus mais variados tipos, cor e condições, que era arriscado pegar uma doença por entrar em contato com suas mãos sujas.

Tentava esconder o desejo de ser tão indiferente quanto Harry, porém, no fundo, aquele jeito ridículo do garoto tratá-la a incomodava profundamente.

Logo odiou a sensibilidade que adquirira naquela data, culpando o fatídico dia das mães por seus pensamentos conflituosos.

— Eu mandei você ir se fuder. — repetiria ao perceber que o moreno não se mexera e o sorriso de lado continuava irritantemente estático.

— Pois é isso que eu vim fazer com você. — rebateu Styles, o sorriso cafajeste desenhando os lábios rosados em par aos olhos transbordando malicia.

A palma de suas mãos formigaram, com a enorme vontade de voar contra a face esbranquiçada do cantor, entretanto, antes que Melody pudesse realizar tal façanha, sentiu os lábios carnudos do inglês pressionados, famintos, contra os dela.

Em conflito, hesitou em afastar-se ou se deixar ir. No entanto, desejosa por alguma distração que, mesmo que somente por algum tempo, a livrasse do real conflito do dia, permitiu ser tomada pela atmosfera de excitação que rondava Styles.

Que se ferre. Pensou. Usaria Harry como sempre faziam um com o outro.

Embrenhou as mãos entre os fios úmidos do cantor, ao que o beijo, transbordando segundas intenções, tornava-se demasiadamente selvagem e quente. Styles, lhe prensando contra o vidro gélido, a ergueu em um movimento ligeiro; as pernas bem torneadas cingiram de forma automática a cintura máscula, os pés cruzando às costas do inglês. Orgulhosos, suas línguas travaram uma batalha acirrada, qual não sairia um perdedor ou vencedor.

As mãos pequenas desenharam as costas largas do cantor, passeando lentas, sentia o aveludado da pele de Styles; o calor emanando fervente em cada gesto. Um suspiro lhe escapara entre o beijo, sentindo cada célula entrar em combustão. A cabeça recaíra para trás, o gemido contido soara sem som ao entreabrir dos lábios; Harry mordiscou o pescoço esbranquiçado e não hesitou em deixar marcas as quais Melody, caso não se encontrasse em êxtase, obviamente ralharia.

Nem sempre fora assim, como se enxergassem um ao outro somente como um meio de obter fácil prazer. Antes de tal relação complexa, houvera uma amizade e certa cumplicidade entre ambos os cantores; Melody sentia que ela e Harry compartilhavam algo em oculto, em suas trocas de olhares e nos sorrisos pequenos, mesmo sem entender ou sequer saber o que. Implicavam um com o outro, todavia, de forma saudável e extremamente amigável. Consistiam em uma amizade sem todas aquelas formas frias e cheias de intenções de machucar um ao outro.

Então Harry entrou em um relacionamento conturbado com Caroline Flack e, mesmo sem se simpatizar nada com a mulher, Melody não pôs abdicações ao namoro; o moreno parecia gostar mesmo da mulher mais velha. E foi em meio a todo aquele emaranhado negativo entre a mídia, Harry e Caroline, que Melody passava por sua transformação e Harry, ocupado demais com a nova namorada, não se dera conta.

Ela ainda lembrava o quão fria fora com ele, quando Harry precisara dela no que Caroline mostrara ser uma verdadeira vadia. Caso fechasse os olhos, poderia facilmente voltar a visualizar o garoto parado a sua porta, os perplexos olhos avermelhados assistindo a sua risada sem humor, escutando o quanto fora idiota por ainda acreditar em amor, ou o quão fora burro em acreditar no amor de uma mulher que tinha praticamente a idade de sua mãe, entre tantas outras palavras qual o intuito de humilhá-lo parecia palpável. Sem perceber, naquele dia fora ela mais vadia que Caroline Flack. Talvez, naquele instante, quebrara todo o encanto que Harry houvera tido por ela, o decepcionando. A pessoa que ele pensava que o consolaria e a última que o julgaria, fora a que o fizera se sentir ainda pior do que estava.

E enquanto que para Melody fora Caroline que provavelmente mudara Harry, transformando-o em um perfeito Don Juan sem coração, nunca se dera conta de pudera ter ferido acidamente o cantor naquele dia, o expondo ao ridículo enquanto pisava sem dó em todos seus sentimentos. Nunca passara por sua mente que fora ela que o ensinara a nunca depositar expectativas ou sentimentos em uma pessoa, pois elas sempre podem te machucar.

Um abismo se estendeu entre os dois depois de tal episódio e, quando se dera conta, estava na cama de Styles após uma festa qualquer; não de uma forma carinhosa ou calorosa, mas de um jeito que nunca imaginara tocar Harry, de forma tão bruta e fria, que chegou a se assustar.

Desde então fora assim que passaram a se tratar, como brinquedos que usavam e abusavam o quanto queriam, sem medir as consequências que seus atos poderiam refletir um ao outro no futuro.

E mesmo depois de tudo dito e realizado entre ambos, aquela ligação sem sentido continuava intacta entre os dois. Como se compartilhassem um mesmo segredo, uma mesma dor. Eram como imãs de polos opostos, por mais que fugissem, não haviam chances de se repelirem.

Um gemido lhe escapou, sorrateiro, o som baixo e rouco a assustou, ao que sentiu suas costas baterem, sem sutileza alguma, contra a parede gélida da sala. Apertou as pernas ao redor de Styles, sentindo seu centro contrair-se, almejando por algum atrito. Suspirou baixo, puxando os cachos aveludados, sentindo as mãos másculas adentrarem seu moletom pesado e o erguer sem muitas dificuldades; estava entregue demais para resistir aos atos quentes do cantor. Os beijos molhados lhe tomaram o colo, os toques firmes subiram, acariciando seu quadril e cintura, parando, sorrateiros, próximo aos seus seios. Suspirou alto ao senti-lo acaricia seu mamilo, tão lento que mais lhe parecia uma tortura; o gemido fora abafado pelos lábios carnudos de Styles a beijando com demasiado desejo, sentindo os dedos apertando-se contra seus seios, firmes e dolorosamente quentes; chamas, ela estava em chamas.

Em segundos suas peças de roupa estavam sendo arremessadas para um canto qualquer da sala.

E lá estavam eles, envoltos naquelas maldosas trocas de favores.

——

Parou. A madeira escura que cobria a maior parte do material da porta de entrada da construção, após o aguaceiro que caíra ao anoitecer, tornou-se quase preta.

Observou, apreensiva, as janelas fechadas; a luz acesa ultrapassava o fino tecido das cortinas e iluminava escassamente o jardim que complanava a frente do imóvel.

Não conseguiu ir adiante.

Estatelada, observou atentamente cada dobradiça da porta, sem realmente fixar seus pensamentos em tais; os fios pontilhados pela garoa que recaía, sonolenta, por toda Londres naquele fim de noite friento.

Tentou se convencer de que repentina decisão de rumar até a casa dos pais nada mais era do que a vontade de provar a si mesma que era indiferente e forte o suficiente para não se importar com nada ao seu redor, provando que era inabalável aos traumas partilhados no casaréu duplex, de muros beges e grandes janelas de vidro fumê.

Abafando, em meio aos pensamentos, a certeza de que o impulso que a levara ali, fora simplesmente os laços sentimentais que continuava intacto com a família, mesmo com seus atos mais insanos e egoístas de tentar o arrebentar.

Maneou a cabeça, tomando uma lufada de ar, sentindo o nariz arder com o vento gelado. Deu meia volta, mordendo o canto do lábio inferior. Fora uma ideia ridícula, aquela.

Não era forte o bastante; não quando havia de enfrentar seus fantasmas, após quase dois anos sem o ver.

Um barulho baixo, todavia, audível aos ouvidos sensíveis da cantora, a travou no terceiro e último degrau de mármore escuro. Observou o restante do caminho de pedras, qual a levaria para longe da porta dos Lewis.

Alguém mexia nas chaves e girava a maçaneta. O ar tornou-se escasso e os pensamentos embaralhados.

— Melody?! — a voz potente irrompeu no silêncio da noite. A morena cerrou as pálpebras, puxando o ar de forma desesperada para dentro dos pulmões.

Abriu os olhos e não soube responder onde surgira a repentina fagulha de coragem, no entanto, indo contra todos os alarmes que soavam altos em sua mente conturbada, Lewis girou nos calcanhares e o encarou, séria.

Seus olhos debateram com acastanhados tão parecidos com os seus. O formato, a cor, e o gelo; pareciam-se tanto que a assustou.

Alguns poucos traços do rosto magro encontravam-se demarcados por rugas; o cabelo um tanto mais curto dês da ultima vez que o vira, alguns fios esbranquiçados misturavam-se com o preto predominante.

Ainda era dono de uma postura altiva, a altura relativamente alta e o corpo imponente; em conjunto, dono de uma aparência agradável e semelhante à dela. Não haviam formas de negar, parecia-se com o pai de uma maneira impressionante e externamente incomoda; compartilhavam do mesmo tom de cabelo escuro, a pele alva, lábios grandes e o queixo quadrado.

Melody sentiu a voz sumir e o corpo congelar. A constatação da incrível semelhança parecia-lhe intolerável.

Um sorriso morto rasgou os lábios finos do homem e Melody sentiu o ar se esvair ao constatar que aquele era um de seus sorrisos; será que até nisso ele a acompanharia?

— Que bom que finalmente resolveu aparecer. — ele comentou em uma fingida euforia; ao menos ela deduzira assim, simplesmente por não conseguia crer em alguma lastra de humanidade no homem que denominava como seu pai. Voltou-se para casa, pondo apenas a cabeça para o lado de dentro. — Naomi, sua irmã está aqui.

Não houvera abraços, beijos ou palavras que demonstrassem afeto ou saudade. Sempre fora assim entre eles, o relacionamento era frio e formal, sem deixar espaço para um abraço ou qualquer outra demonstração de afeto ou carinho. Agora que pensava no assunto, a última vez em que se haviam tocado remontava à sua infância, quando costumava ser chamada de sua garotinha.

— Mel! — a voz animada de Naomi surgira repentina, ao que, com os pés descalços, descia as escadas como um raio e tomava a irmã entre seus braços, em um aconchegante e apertado abraço. Melody demorou um pouco a corresponder, ainda estuporada por aqueles malditos sentimentos relativos ao homem a sua frente, entretanto, logo tratou de apertar Naomi contra si, fechando os olhos; inebriando-se com o perfume aconchegante que somente a mais velha conseguia ter.

Fora a irmã mais velha que quebrou o contato, afastando-se um tanto da mais nova, para estudá-la com olhos transbordando carinho. Melody não pode se impedir de pensar que aquele deveria ser o olhar que Jeremy deveria oferecê-la. Contudo, em momento algum esperou algo do tipo vindo do pai. Há muito tempo havia aprendido a não impor expectativas sobre o homem, simplesmente para não ter o trabalho de se desapontar de novo e de novo; sempre.

— Eu estava indo te buscar. — comentou Naomi em uma risada baixa.

Era bonita, a Naomi. Continha sete anos a mais que Melody e usava um moletom que engolia seu corpo franzino. Era dona de encaracolados fios dourados, que lhe moldavam o rosto fino e recaíam até o fim de suas costas. A pele mostrava quase imperceptíveis sardas em volta do nariz e os olhos esverdeados eram emoldurados por grossas sobrancelhas bem feitas. Naomi, ao contrario de Melody, era idêntica a mãe.

Um barulho a puxou do estupor de saudade compartilhada com a mais velha e Melody assistiu, com um estúpido pesar, Jeremy descer as escadas e passar ao seu lado, pondo-se a andar pela calçada com as mãos dentro dos bolsos do jeans escuro, a passos lentos, sem ao menos despedir-se.

O estômago revirou. Imaginava para onde ele iria.

Então soube imediatamente que nunca deveria ter saído de casa naquele dia das mães.

——

Era tarde da noite. O céu encontrava-se enegrecido, as nuvens tomavam quaisquer de seus pontos, ocultando as estrelas ou a lua a pino; o vento soprava forte, esvoaçando para os lados a copa das árvores. Ao sul do Lanarkshire, na Avenida Torrance Wynd, um ônibus de turnê passava em alta velocidade na estrada lisa e deserta. Ao interior do veículo cumprido e luxuosamente equipado, os seis cantores encontravam-se deitados, cada um em suas respectivas cabines, alheios a estrada por conta da atmosfera sonolenta que os envolvia.

Arfou, sentando repentinamente sobre o colchão macio; os olhos levemente esbugalhados fixaram-se à parede de aço pintada de azul, logo a sua frente. O suor umedecia a nuca e causava-lhe uma sensação desconfortável.

O bizarro sonho voltara a assombrar; os sorrisos vazios estampavam seus pensamentos, no entanto, acompanhavam olhos sem vida que pareciam ser pertencentes a alguém há muito já morto.

Melody elevou as mãos, passando-a pelo rosto, em um gesto cansado; apertou as têmporas em movimentos circulares e tomou fôlego, inspirando longamente. As batidas, quais outrora martelavam seu peito como se seu órgão vital ansiasse por rasgar sua pele e soltar longe, aos poucos normalizaram-se, junto a respiração pesada. A garganta seca parecia arranhada, o gosto de ferro amargava o paladar; o pulso pulsava latejante com a dor.

Os olhos desceram, parando sobre os pulsos tapados pela manga cumprida do moletom largo, os lábios rasgando-se em um sorriso amargo. Sem sequer evitar, como um soco no estomago, foi tomada pelas lembranças da noite anterior.

Eu quero dormir, então espero que ela não demore aqui. Aquelas simples palavras haviam machucado mais do que ela imaginara; Jeremy ainda poderia feri-la, constatou. E antes que Marietta pudesse abrir a boca para responder algo à altura, Melody adentrou a cozinha dizendo que iria embora como ele desejava.

Patética.

Nem mesmo conseguira dizer todo o nojo e repulsa que sentia pelo homem. Mais parecera uma criança qual não conseguia se defender ou criar uma resposta madura o suficiente para o acertar tanto quanto havia sido nocauteada.

Marietta ainda tentara consolar a filha, dizendo-a que o pai estava bêbado. Mas Melody pôs a máscara e vestiu a armadura, acabando por brigar com a mulher. Simplesmente cansada da mesma desculpa, da mesma dor. Ele não mudava, nunca mudaria.

Então lá fora ela novamente, ao chegar em casa, fora de encontro a única forma de escape, ansiando por desabafar com a sua boa e velha amiga: a lâmina.

Houvera uma determinada época que Melody chegara a segurar-se em uma esperança tola de que tudo poderia mudar. Ao atingir o auge, reconhecida mundialmente por seus talentos, Jeremy parecia estupendamente maravilhado; a exibindo como uma joia rara, que somente ele houvera tido sorte de ter. E durante alguns anos, Lewis conseguira se sentir feliz em servir de prêmio, em uma esperança desgraçada de mais cedo ou mais tarde, ser realmente importante para ele; conseguira quase acreditar que o impressionara com suas façanhas de atuar e seus dotes de cantora. Decidida a mudar para agradá-lo, para que finalmente o visse a fitar com orgulhosa estampado nos olhos castanhos; almejando que a amasse. Todavia, ele nunca pareceu se importar; sequer a notava de verdade. Percebera que somente era a princesa quando estava junto aos conhecidos dele; era como uma taça a exposição. Então aprendeu que nunca se pode tocar em um coração inexistente.

E em seu íntimo ela tinha consciência que toda indiferença de Jeremy ainda doía nela.

Naquele domingo teve a confirmação de que se afastar sempre fora o melhor a se fazer. Triste, diriam uns, necessário, pensava ela. Estava submersa em um mundo novo, sem sentimentos, sozinha.

Uma letra surgiu em sua mente e acendendo a luz pregada ao teto da cama, a garota pegou a bolsa localizada aos seus pés. Remexia-a com certa urgência, a procura de papel e caneta.

A letra estava tremida e garranchosa por conta do pulso latejar em protestos contra o esforço em escrever; talvez pegara pesado nos cortes na noite anterior.

Você tem um coração oco, mas é pesado em seu peito.

Eu tento tanto lutar contra isso, mas não tem jeito.

Não tem jeito.

Você não tem jeito.

Releu algumas vezes, sentindo os olhos arderem. Travou o maxilar e olhou para cima, impedindo-se de derramar uma lágrima sequer por algo que não deveria ser tão importante. Que não deveria doer tanto.

Voltando a deitar a cabeça sobre o fofo e alto travesseiro, Melody ergueu a manga do moletom no braço esquerdo, analisando com desgosto o machucado inchado.

Soltou um suspiro. Quantas vezes prometera a si mesma de que iria parar? Lembrava-se do início, do quanto chorou encolhida em um canto qualquer do antigo quarto; ainda era uma criança, uma criança que fora obrigada a crescer rápido demais.

Então fez de novo, prometendo ser a última vez, então teve outra e mais outra. E tornou-se como um vício do qual sem, talvez, não soubesse como manter a sanidade.

Melody estava tão submersa a pensamentos nebulosos e estupendamente melancólicos, que não ficara ciente dos pequenos barulhos ao lado de fora, alertando que alguém levantara da cama.

Aconteceu muito rápido.

O barulho da cortina sendo aberta a despertou de seus devaneios. Um frio lhe perpassou a espinha. Abaixou rapidamente a manga do moletom.

Entretanto, já era tarde.

Seu corpo congelou diante daqueles olhos que a encaravam com extremo pavor.

— Mas que merda é essa?

Notas finais
E então, o que acharam? Deixem reviews com suas opiniões, dúvidas e palpites, eu vou amar respondê-los =) Beijos fofas. xx