Broken

23 Epílogo


Notas iniciais
A explosão aconteceu. Nada mais poderia ser feito. Contudo, nada podia ser previsto. Elas embarcaram para um mundo sem volta? Ou foram felizes para sempre?
No mundo real não existia finais felizes. Mas... Já em outros mundos...

O corpo nunca pareceu tão entorpecido quanto elas sentiam. Após uma colisão forte, em ambos os corpos, nada mais foi sentido.

“Criança da fronte pura e límpida

E olhos sonhadores de pasmo!

Por mais que o tempo voe e ainda

Que meia vida nos separe,

Irás por certo acolher encantada

O presente de um conto de fadas [...]”

Emma Swan se ouviu pensar. Onde havia lido isso? Fora ela quem pensara isso?

Então, a loira passou a sentir sua mão um pouco dolorida. Nada mais que um suave incômodo. O calor que a envolveu, respondia sua inconsciente pergunta; estou sozinha? Não, pois ela segurava firmemente a mão de sua esposa. Não precisava enxerga-la para ter certeza de que era ela. Os olhos ainda não tinham sido abertos, portanto, Emma era refém de seus sentidos pouquíssimos usados: tato, olfato e audição. Novamente, uma voz soou em sua cabeça:

“Não vi teu rosto ensolarado,

Nem ouvi tua risada latina,

Lugar algum por certo me será dado

Doravante em tua jovem vida...

Basta que agora consintas sem mais nada

E ouvir este meu conto de fadas.”

Desta vez, a voz não lhe originara. Não, era um tom aveludado e rouco. Mais como sua esposa o faria. Contudo, Emma não se preocupou em desvendar tal mistério, visto que a grande incógnita se resumia ao fato de não poder enxergar onde estava. Ela se permitiu sentir o lugar, pois por instinto achou que era o que deveria fazer. A brisa lhe trazia o jasmim, e um pouco de margaridas. O estranho era Swan conseguir diferir uma da outra. Também havia violetas, boa parte delas. Com os segundos se arrastando, ela pode sentir seu corpo não mais entorpecido, apenas dormente, como num sonho. Algo pinicava sua nuca, algo que, agora, exalava um aroma agradabilíssimo de grama refém cortada. Era isso! Estava deitada num jardim? Em um pasto? Mas por que ninguém procurava por ela? Por que Regina não chamava sua esposa para acordar? Afinal, aquilo era um sonho?

“Ei!” Emma quis dizer. “Se sei que estou dormindo, por que não simplesmente acordo?” Continuou a si perguntar, embora não fosse capaz de responder a si mesma. Então, novamente a voz retornou:

“Um conto iniciado outrora,

Sob o sol tépido do verão -

Mera cantiga, que apenas marcava

O ritmo de nossa embarcação -

Cujos ecos na memórias persiste

E ao desafio dos anos resistem.”

Swan passou a se perguntar se deveria reconhecer tal poema. Ou talvez a voz cuja voz lhe recitava. Mas tudo estava confuso ainda. Ela sentia a mão da esposa segurar a sua, como haviam prometido. Não poderia ser ela ao falar, poderia? Não, certamente não.

O aroma tornou-se carvalho, daí para outras espécies de arvores bastante cheirosas, uma delas o eucalipto. Então, estavam numa floresta? Mas o poema se referia a uma viagem, uma navegação. O que seria isso? Uma piada?

“Vem ouvir antes que uma voz inevitável,

Portadora de amargo presságio

Venha chamar para o leito indesejável

Uma donzela contristada!

Somos só crianças, querida,

Inquietas, até que o sono nos dê guarida.”

Emma prendeu a respiração para ouvi-la. “Querida” a voz disse num tom sério, aveludado e latino. Era ela. Regina Mills, sua esposa. Emma abriu os olhos lentamente, sem antes perceber algo em sua outra mão. Uma quentura também, uma presença. Semelhante à da mão da morena, porém em tamanho reduzido. Isso só alimentou mais a curiosidade.

Assim que o clarão de amenizou, uma camada verde tomou seus olhos, assim como o som dos passados a cantar soaram suavemente em seus ouvidos. Regina estava a sua frente, com um cabelo maior do que se lembrava, e vestida completamente diferente do que vira antes. Um vestido longo e branco, com um arco enfeitado com todas as flores que conseguia lembra o nome; jasmim, margarida, violetas... Não havia maquiagem no rosto detalhadamente desenhado da morena, de modo que sua cicatriz no lábio superior ficasse mais visível isenta de disfarces. Regina a olhou e sorriu suavemente, como quem compreendesse sua estranheza, e fitou o corpo da loira. Emma também estava vestida de forma diferente, usava um vestido mais justo de menor que a da noiva, mas também branco.

Regina apertou sua mão, pedindo que ela prestasse atenção em suas próximas palavras.

“Fora o gelo, a neve ofuscante,

A loucura soturna da tempestade...

Dentro, o calor do fogo crepitante,

Que a infância alegre aconchega.

As palavras mágicas vão logo te tomar:

Não darás ouvido ao vento a uivar.”

Swan aproveitou a pausa para analisar a situação; Regina segurava um livro grosso com páginas amareladas e com uma capa revestida em couro marrom. Seus olhos achocolatados brilhavam ao olhar a frente, não só para Emma quanto um pouco mais para a esquerda. Logo, a quentura tornou-se morna e alvo da atenção da loira, que respondeu com um misto de reações: surpresa, alívio, confusão e medo.

O cabelo espetado e bagunçado do menino moldavam o delicado rosto e os olhos mistos. Emma seguiu o calor de sua mão, ele a estava segurando fortemente. Até o fim. Além do fim, como dissera. Ela não se conteve, precisou abraça-lo e constatar que lá estava de fato.

A risada natural e deliciosa de Regina aqueceu ainda mais o coração atordoado da loira. Sentiu que deveria acompanha-la, deixando seu corpo se entorpecer das dores. Perdoar o passado que agora, estava muito, muito longe delas. Emma sorria como uma criança ao ganhar um brinquedo novo. E Regina, sem largar sua mão um segundo, prosseguiu com a história:

“E ainda que um suspiro saudoso

Venha perpassar esta história

Por ‘dias felizes de verão’ e por

Sua glória agora extinta -

Decerto não tornará ofuscada

A alegria de nosso conto de fadas.”

-Onde nós estamos? -A voz de Emma saíra tão morna e calma, que mal podia acreditar que vinha de si mesma.

-Estamos em paz, querida. -Respondeu Regina.

Henry rapidamente se soltou de sua mão e correu para o topo da colina, que Emma tinha absoluta certeza que não estava antes lá. Regina riu e apertou a mão da esposa, puxando-a para acompanhar o filho. Elas correram até o topo, onde Henry admirava, em pé, a belíssima imagem que lhe era exposta. O céu aberto, o sol ameno, as árvores dançando com a brisa e um castelo enorme em seu fundo.

-Mãe. -Henry disse sem tirar os olhos da paisagem, segurando a mão livre de Regina. -Mãe. -Repetiu, segurando com a outra a mão de Emma. -O que é aquilo?

Emma apoiou sua cabeça no ombro da morena. Ela podia relaxar agora, estava tudo bem.

-É a nossa casa. -Respondeu Regina.

-Até o fim? -O menino perguntou olhando para as mães.

-Além do fim. -Responderam Emma e Regina juntas.

Notas finais
Poema original: "Alice: Através do Espelho".
Obrigada por tudo. Até a próxima.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!