Realidade Ou Alucinação?

Dia dos namorados, o London obviamente fez um grande evento temático com direito a cupidos e correio elegante. O pub estava rendendo bastante dinheiro para Simon desde que Sage virou atração no fim de semana, e ele já pensava em ampliar o local. Godfrey estava bem, se sentia orgulhoso com o crescimento de Sage e o que mais o fazia feliz era saber que ela estava feliz também.

“Sorrindo a toa. Isso quer dizer alguma coisa.”

Simon brincou entregando uma garrafa de cerveja para Godfrey.

“As coisas estão indo muito bem. Minha carreira continua sólida, meus investimentos têm rendido bastante e as coisas com Sage estão ótimas. Acho que nunca estive tão alinhado com tudo na vida.”

“Acho que é a primeira vez que vejo o seu bom humor não ter uma manchinha. Isso é bom. E você sabe que mais do que todos eu te desejo toda sorte do mundo.”

Godfrey apenas sorriu para o amigo e voltou sua atenção para Sage. Era impressionante como as coisas aconteceram para o chinês, no dia em que deu tudo errado para ele, as coisas começaram a andar nos trilhos. Talvez aquela coisa que dizem sobre termos que nos livrar do que nos prende, mesmo gostando muito, era a realidade.

“Um centavo por seus pensamentos.”

Sage se aproximou sorrindo para o chinês que sem demora se levantou para abraça-la.

“Meus pensamentos valem mais do que um centavo.”

“Ah é?”

“Eu estava pensando em você, e eu tenho a leve impressão de que você vale mais do que um centavo, hm?”

Como sempre Godfrey fez Sage rir, fazia tempo que a morena não se sentia bem perto das pessoas e o chinês era exatamente o que ela precisava para lhe dar um pouco de ânimo.

“Vem cá, vamos sentar ali. Você ainda vai cantar?”

“Não, aquela foi a última música.”

“Ótimo, vamos conversar.”

Godfrey pediu uma cerveja e uma Coca-Cola para Mary-Elizabeth e guiou Sage para uma mesa mais escondida, queria um pouco de paz e tranquilidade. A morena se sentou e Godfrey sentou-se ao lado dela o que foi algo fora do comum.

“Quero que me ouça bem e ficar bem perto de você, hm?”

“Está bem, sobre o que quer falar?”

As bebidas rapidamente chegaram e logo estavam a sós na medida do possível estando dentro de um pub. Godfrey serviu Sage e logo em seguida deu um gole em sua cerveja.

“Sobre o que eu quero falar? Sobre nós dois. Veja bem, já faz um mês que estamos juntos e eu estou pronto para colocar um título nesse relacionamento. O que me diz, Sage Summers? Vamos oficializar esse relacionamento o tornando um namoro de verdade?”

Aquela pergunta não pegou Sage de surpresa, na verdade a deixou feliz, mas desejou que fosse diferente. Desejou que o nome dito fosse Liraz Cisneros e que Godfrey soubesse todas as coisas que estavam acontecendo em sua vida. Pensou em contar naquele momento, mas teve medo que o chinês fosse embora com ódio dela e isso a machucaria mais do que fugir de Drake. A felicidade estava estampada no rosto de Sage isso era claro, mas dentro dela existia o medo. Godfrey era um homem totalmente diferente, responsável e relativamente conhecido. A morena encarou o chinês que sorria apreensivo e decidiu que pensaria na fama de Godfrey depois, acharia um jeito.

“Se você está pronto, eu estou pronta. A partir de hoje sou sua namorada.”

Falar aquilo em voz alta teve uma força que Sage não imaginaria ter.

“Não vai achar brega, por favor, mas eu quero fazer as coisas direito, então comprei isso pra gente.”

Godfrey pegou uma caixinha que dentro tinha dois anéis de prata, um gesto comum entre casais, mas que para Sage poderia ser sua sentença. A morena se esforçava para não deixar transparecer o medo, Godfrey parecia tão feliz que estragar aquele momento não era uma opção. Enquanto o chinês colocava o anel em seu dedo, Sage procurou por Mary Elizabeth para mostrar o que estava acontecendo, mas ao invés de encontrar a garçonete encontrou os olhos azuis e frios que conhecia bem. Um frio lhe percorreu a espinha a fazendo tremer.

“Ficou perfeito.”

A voz de Godfrey a distraiu por um segundo, mas logo olhou para o bar novamente. Ele havia sumido.

“Está tudo bem?”

“Sim, tudo ótimo! Quero mostrar o anel para Mary-Elizabeth.”

Sage selou os lábios de Godfrey para tranquiliza-lo, o que funcionou perfeitamente. Eles continuaram ali na mesa conversando, fazendo planos, trocando carícias. Teria o medo pregado uma peça em Sage? Ela acreditou que sim, pois conhecendo como ela conhecia Drake Brumman, ele não teria agido daquela forma. Com certeza ele partiria para briga, iria querer arrancar a cabeça de Godfrey e expor as mentiras que ela estava contando. Um alívio fez Sage relaxar e permitindo que ela curtisse sua noite com seu agora namorado.

Terror

Mais uma noite como tantas outras no London. Estava tudo correndo perfeitamente bem. Sage cantava as músicas pedidas pelos frequentadores do pub e Godfrey estava sentado no sofá olhando encantado para namorada. Tudo estava certo até que a paz foi perturbada. Tiros foram ouvidos e de repente todo mundo estava no chão. Godfrey se levantou tentando ir ao encontro de Sage quando outro tiro foi ouvido e o chinês caiu. Havia sido baleado na perna esquerda.

“Eu disse Liraz! Eu disse para que não brincasse comigo, mas você teve que fazer mais uma das suas gracinhas.”

Sage estava paralisada no palco. As lágrimas caiam incontroláveis e mais do que tudo ela queria saber como Godfrey estava. Drake devagar andou até Sage e a olhou sorrindo.

“Quantas vezes vou ter que explicar que não adianta fugir e que você é minha? Você acha que mudando o nome e viajando pode se livrar de mim? Eu sempre, SEMPRE, vou te encontrar porque você é minha!”

Nesse momento Drake pegou a mão de Sage e com brutalidade lhe arrancou o anel chegando a quebrar seu dedo. A dor era absurda, mas ainda mais absurda era aquela situação.

“Drake, por favor...”

“O que? Não quer que seu namoradinho morra?”

E foi aí que Simon tentou ser corajoso e Drake, sem pensar duas vezes, atirou em uma de suas pernas também.

“Eu ainda estou sendo bonzinho demais, não estou atirando para matar, mas quando eu começar, as coisas vão complicar e tudo por sua culpa, Liraz. Você sempre complica as coisas. Por sua causa eu tive que matar o Andrés, por sua causa eu tive que contratar gente pra vigiar sua família. Por sua causa eu estou com a raiva que estou!”

E mais um tiro foi dado sem saber se alguém foi atingido causando uma agitação dentro do pub.

“Eu vou com você Drake.”

“Não Sage.”

Godfrey disse tentando se levantar e então Drake riu se aproximando do oriental e o pegou pelo cabelo.

“Ela te enganou direitinho. E pelo que eu vejo você quer colocar as mãos no que é meu, não é mesmo?”

“Drake, por favor, deixa ele em paz, eu vou com você. Me perdoa pelas coisas que eu fiz, eu vou com você.”

A morena implorava e chorava de medo e vergonha. Sentia que aquele momento era sua culpa, pois se tivesse ido embora quando percebeu que já tinha o dinheiro, as coisas não teriam chegado a esse ponto.

“Será que eu o deixo viver?”

O gringo apontou a arma para a cabeça de Godfrey fazendo com que Sage gritasse em desespero. Godfrey tentava se livrar de Drake, mas era em vão. Aquela brincadeira de gato e rato era divertida para o gringo, mas de repente as coisas mudaram.

“Me diz chinês, você está apaixonado pela minha garota?”

“Deixa ela em paz.”

“Ah, você quer que eu a deixe em paz?”

Os olhos frios de Drake encararam Godfrey e em seguida se voltaram para Sage.

“Ela é linda, não é mesmo? Sempre foi, todos a queriam, mas eu tirei a sorte grande. E é por isso que se ela não vai ficar comigo, também não vai ficar com você!”

Sem que Godfrey pudesse evitar, Drake atirou na cabeça de Sage que caiu morta no palco.

***

Um grito de pavor tomou conta do quarto. Godfrey acordou desnorteado sem entender o que estava acontecendo então finalmente viu Sage ajoelhada na cama chorando de soluçar.

“Amor, o que houve?”

O chinês tentou abraça-la, mas Sage se esquivou, parecia estar em outro mundo gritando e chorando. Godfrey se virou para ela e a segurou pelos braços.

“Sage se acalma, sou eu! Sage!”

Foi quando a morena finalmente ouviu a voz de Godfrey e o olhou aterrorizada. Não podia acreditar que os pesadelos a perseguiram até o único lugar onde tudo era calmo e tranquilo. Godfrey finalmente conseguiu abraça-la e ela se encolheu segurando a camisa dele com força.

“Foi só um pesadelo, está tudo bem eu estou aqui.”

“Não me solta, por favor.”

“Não vou soltar, não se preocupe. Agora se acalma; hm? Eu estarei aqui quando acordar.”

Aos poucos Sage foi se acomodando nos braços de Godfrey, mas não conseguia parar de chorar. Aquela situação estava angustiando o chinês porque não havia muito que ele pudesse fazer já que Sage não disse nada sobre o pesadelo. Tudo que ele fez foi manter a promessa de que ficaria ali com ela e não a soltaria.

Acerto de Contas

Por volta das 9h00 da manhã Sage acordou. Sentia a cabeça doer e o corpo cansado como se tivesse feito horas de musculação. Respirou fundo se dando conta de onde estava quando finalmente pode sentir a carícia suave de Godfrey em seu cabelo.

“Hey... bom dia.”

Sage se virou para ele e sorriu de canto tentando parecer o mais natural possível.

“Bom dia.”

O chinês sorriu e suavemente selou os lábios de Sage com carinho. Ele não se movia bruscamente tentava ser o mais delicado possível para não assustá-la, mas precisava saber o que estava acontecendo.

“Você está bem?”

“Acho que sim.”

“Quer falar sobre o que houve essa madrugada?”

Um longo suspiro saiu dos lábios de Sage. A morena não sabia realmente o que fazer. Mordeu o lábio pensando em como poderia abordar o assunto e então olhou para Godfrey novamente.

“Eu... eu as vezes tenho pesadelos, mas eu pensei que aqui com você, na sua casa, eles não me seguiriam.”

“E sobre o que são esses pesadelos?”

“Morte.”

Um frio percorreu a espinha de Godfrey o que fez com que ele abraçasse a namorada ainda mais apertado.

“E você sempre acorda desse jeito?”

“Acho que sim. Algumas vezes acordo gritando, outras chorando. Tem vezes que acordo andando pelo quarto, eu não tenho ideia de como acontecem essas reações.”

“Sage, eu não quero que fique sozinha naquele apartamento.”

“Mas amor...”

“Não tem ‘mas’. Eu estou preocupado com o que vi essa madrugada e quero poder ser capaz de te proteger, de te dar segurança. Hoje mesmo quero que pegue suas coisas e as traga para cá. Quero que more aqui comigo.”

Aquilo foi inesperado e mais poderoso do que o pedido de namoro, ou a primeira noite em que fizeram amor. A vida de Sage mudou em pouco tempo e a mudança para o apartamento de Godfrey seria a mudança definitiva onde tudo poderia ir bem ou mal. Se as coisas seriam assim, e o chinês pensava nesse próximo passo, nada mais justo Sage finalmente contar sobre sua fuga mesmo que isso causasse o rompimento do relacionamento. “A gente aceita o amor que acha que merece”. Será que Sage seria tão merecedora do amor que Godfrey começava a demonstrar?

“Tudo bem, eu me mudo pra cá. Se isso faz você se sentir tranquilo.”

“E pelo fato de que não consigo mais ficar sem você, e mais, você já tem ficado bastante aqui não tem por que mais você gastar com aluguel.”

De certa forma aquele cuidado e a lógica de gastar dinheiro a toa fizeram sentido. Godfrey abraçou Sage com muita força e beijou sua testa com carinho.

“Eu tenho que fazer umas coisas de trabalho hoje pela tarde então, quando eu voltar, nós vamos até seu apartamento pegar suas coisas, hm?”

A morena apenas assentiu com a cabeça concordando com o Godfrey. Naquele dia mesmo ela contaria toda sua história, revelaria todos os segredos, e finalmente se libertaria das amarras. Apenas estava insegura com o que viria depois, mas como dizia sua avó: quem não morre, não vê Deus. Por volta do meio dia Godfrey se despediu de Sage para encontrar com o empresário. Ele faria algum trabalho publicitário e como combinado, a morena o esperaria para irem até seu apartamento e em seguida, ele a levaria para o trabalho. Apesar do medo e da hesitação, Sage estava tranquila, apenas pensativa. Ficou imaginando o que Godfrey diria e como reagiria. Claro que pensamentos negativos passavam por sua mente, mas a maioria eram coisas boas e felizes que a faziam se perguntar se finalmente ela era digna de um final feliz. Sage se arrumou e arrumou suas coisas para trabalhar. Pegou as chaves do apartamento e ficou na sala esperando por Godfrey para poderem fazer o que planejaram. Conforme os minutos passavam Sage ficava mais e mais nervosa. Contaria tudo depois que voltassem para o apartamento.

A campainha tocou e Sage estranhou. Ela se levantou olhando no relógio quando a campainha tocou novamente.

“Já vai. Esqueceu a chave, chino?”

A morena correu para atender a porta e quando a abriu seu coração parou e tudo parecia ter ficado em um vácuo.

“Olá Liraz, senti sua falta.”

Os Segredos da Caixa de Pandora

Já passava das 16h00 e Godfrey tentava ligar para Sage já que estava atrasado para leva-la ao trabalho. A morena não atendia o celular, talvez estivesse brava por ter que pegar o ônibus até o pub. O chinês correu até o apartamento e assim que chegou percebeu algo errado; a porta estava entreaberta. A passos lentos e cuidadosos, Godfrey entrou no apartamento, olhou em volta não vendo nada fora do lugar.

“Sage?”

Chamou estranhando o silêncio e enquanto ia para a cozinha ligou mais uma vez para a garota. Primeiro toque e nada de resposta até que finalmente ouviu o celular dela tocando na sala de estar. Godfrey mais do que depressa foi para o cômodo onde encontrou a bolsa e o celular da namorada sobre o sofá. Ele olhou em volta mais uma vez e chamou por ela novamente sem resposta. Um aperto no peito o fez respirar profundamente e sem mais demora ligou para Simon.

“Hey Godfrey! Tudo bem por aí?”

“Oi Simon. A Sage por acaso já chegou aí?”

“Não, ela está atrasada. Pra falar a verdade eu já liguei umas duas vezes e ela não atendeu o celular. Aconteceu alguma coisa?”

Um frio percorreu a espinha do chinês que ficou mudo e pensativo tentando entender o que possivelmente poderia ter acontecido.

“Godfrey? Você está aí?”

“A Sage sumiu! As coisas dela estão aqui em casa, mas ela não está em lugar nenhum!”

“Já tentou o apartamento dela?”

“Ainda não.”

“Então vamos até lá. Eu estou saindo daqui e te encontro na porta do prédio.”

Godfrey concordou ainda um tanto atordoado. Ele não sabia o que poderia ter acontecido e aquela porta entreaberta era mais do que suspeita. Teria ela fugido? Sage vivia falando em juntar dinheiro para o próximo destino, mas seria ela capaz de ir embora sem dizer nada? Godfrey estava pensativo e pisou tanto naquele acelerador que fez o percurso até o apartamento de Sage em menos tempo do que de costume. Assim que parou o carro em frente ao prédio pode ver Simon estacionando logo atrás dele. Os dois não tiveram tempo de se cumprimentar já que Godfrey correu subindo as escadas.

“O que está acontecendo?”

“Não sei Simon, mas tem algo errado.”

A apreensão era tanta que os dois correram as escadas. A preocupação de Godfrey e a curiosidade gritavam dentro dele fazendo o peito apertar. Assim que parou em frente a porta do apartamento, o chinês começou a bater chamando pela namorada.

“Sage! Sage, você está aí? Sage!”

Simon não sabia o que fazer, mas enquanto Godfrey chamava por Sage ele ligava para o pub para saber se a morena havia aparecido. A resposta já era a esperada: Sage ainda não havia aparecido no London e pelo jeito nem no apartamento estava. Godfrey já visivelmente perdia a calma, esmurrava tanto a porta que quase a derrubava. O escândalo era tanto que eventualmente alguém do andar apareceu.

“Hey, para com o barulho. A garota não está em casa.”

O chinês se virou para a mulher no fim do corredor e como um robô se aproximou dela.

“Como você sabe?”

“Ela esteve por aqui mais cedo, eu estava chegando do mercado quando a vi sair com uma mochila nas costas e um cara.”

“Um cara?!”

Aquela informação pegou Godfrey de surpresa. O coração disparou e o peito apertou de tal maneira que ele não sabia se a odiava ou se preocupava.

“Sim, um cara loiro, forte e alto. Na hora que cheguei ela estava saindo abraçada com ele.”

A vontade do chinês era de quebrar a cara do tal loiro e dizer umas boas verdades para Sage. Ele começou a andar de um lado para outro pensando no que estava acontecendo. Teria ele sido trocado novamente? Por que nada que ele queria dava certo? A respiração estava pesada, sentia vontade de gritar e falar coisas que estavam entaladas, mas onde estava Sage para ouvir?

“Godfrey, achei a chave!”

Simon havia mexido no batente da porta e em cima achou a chave reserva. Godfrey não sabia se ia adiante com isso ou se simplesmente deixava a traidora de lado, mas assim que Simon abriu a porta seu peito apertou novamente. Os dois entraram no pequeno apartamento e logo começaram a procurar por algo, só não sabiam o que. As memórias de Godfrey transbordaram voltando ao primeiro dia que esteve naquele lugar. Se Sage realmente tivesse fugido com o tal loiro então ela seria pior que Tulisa e seu discursinho barato sobre por que teria que deixa-lo.

“Meu Deus!”

O chinês ouviu a voz de Simon vindo do quarto e sem demora foi ao seu encontro.

“O que houve?”

O dono do pub apenas apontou para a cama e então Godfrey pode ver alguns passaportes e um caderno com capa de couro.

“Será que ela é algum tipo de criminosa?”

“Se é, é uma criminosa muito ruim! Não levou nada da minha casa!”

Que pensamento absurdo! O que será que essa garota escondia? Godfrey se sentou na cama e logo começou a mexer nas coisas que estavam ali. Havia alguns passaportes com nomes diferentes, isso indicava que ela viajava muito e mentia sobre quem era. Quando finalmente pegou o caderno uma foto e alguns papéis caíram junto com outro passaporte. O passaporte era espanhol e o nome era de Liraz Cisneros, a foto era de uma família em um iate e atrás dela dizia “Vacaciones de Los Cisneros”.

“O nome dela não é Sage.”

“O que?”

“Da uma olhada nisso.”

Godfrey entregou a foto e o passaporte para que Simon visse e voltou sua atenção para os papeis em sua mão. Um era uma certidão de casamento e o outro o registro de divorcio. Ambos tinham o nome Liraz Cisneros e Drake Brumman. Um misto de emoções explodiu dentro de Godfrey e então ele abriu o caderno. Havia milhões de coisas escritas e algumas fotos, em uma delas Liraz sorria ao lado de homem alto e loiro.

“Era o ex-marido dela.”

“O que?”

“O homem com ela é o ex-marido dela.”

“Como assim?”

“A mulher do fim do corredor disse que tinha visto um homem loiro e alto, olha aqui a foto. Tenho certeza que é o ex-marido dela.”

Simon pegou a foto e respirou fundo como se uma bomba caísse em seus ombros.

“Eu vou ligar para o London para dizer que não vou voltar.”

Godfrey assentiu com a cabeça e então começou a olhar o caderno. Notou que cada coisa escrita era datada de cinco anos atrás e isso o interessou fazendo com que ele começasse a ler o que ele entendeu ser um diário.

—

Por que meu cabelo desarrumado e minhas roupas amassadas acusam que passamos mais do que uma noite comum de sono? Porque os beijos dele são traídos pelas marcas que seus lábios deixaram na minha pele.

—

Ok era algo antigo, mas Godfrey sentiu ciúme do mesmo jeito. Drake parecia algo intenso na vida dela apenas por aquelas palavras, mas ainda assim era intrigante. Qual teria sido o motivo do divorcio?

—

Paixão... ela está dentro de nós, adormecida... e apesar de indesejada e espontânea ela se libertará abrindo suas mandíbulas gritando.

Ela fala por nós, nos guia, a paixão nos domina e nós a obedecemos... que outra escolha temos?

Paixão é a fonte de nossos melhores momentos, a alegria do amor a o êxtase da dor.

Às vezes machuca mais do que nós aguentamos. Se pudéssemos viver sem paixão talvez pudéssemos ter um pouco de paz, mas seríamos vazios... salas vazias, fechadas e úmidas. Sem paixão nós estaríamos totalmente mortos.

—

Um namoro proibido? Romeu e Julieta do mundo moderno? Seja lá o que fosse Godfrey se viu preso naquelas palavras, o ciúme era forte, pois se perguntava se era capaz de despertar tal sentimento em Liraz.

—

Minha fé continua inabalável, agora eu aceito o tempo com meu coração porque é a única coisa certa. Só o tempo abraça e completa tudo. É um prodígio místico que sozinho completa o mundo.

—

Tristeza foi o que Godfrey leu naquele registro, mas uma ponta de alivio também já que parecia que ela havia terminado o relacionamento, mas o chinês estava enganado e a raiva tomou conta dele assim que ele leu a próxima página.

—

Minha mente odeia meu corpo, meu corpo odeia minha alma... eu fecho os olhos e luto no meu próprio abismo. Agora eu sou feita apenas de machucados.

—

Simon voltou para o quarto e notou Godfrey um pouco agitado.

“O que houve?”

“Olha isso! Por isso o casamento acabou. Ele a agredia!”

Aquela era a prova que o chinês teve de que ela não o estava traindo e sim evitando que algo ruim acontecesse.

—

Os pensamentos secretos dos homens percorrem todas as coisas: sagradas, profanas, puras, obscenas, importantes e simples sem vergonha ou culpa. Então por que uma pessoa aparentemente doce é tão prepotente e brutal quando desafiada? Porque durante todas nossas vidas homens usam máscaras sobre máscaras.

—

“A gente precisa ligar para a polícia, ele fez alguma coisa que ela sabe!”

“Como assim?”

“Não sei Simon, mas parece que ele fez algo cinco anos atrás e ela descobriu.”

—

As pessoas dizem que nascemos para amar e que o amor é o começo da existência e seu único fim. Bem, eu tenho algumas perguntas: Do que sou feita? Como eu ainda estou vivendo? Quando deixarei de existir?

—

“Para reportar um desaparecimento precisamos esperar 72 horas.”

“Eu sei, mas vamos até a delegacia, quem sabe ela ou ele estão sendo procurados?”

Simon concordou que era uma boa ideia, quem sabe conversar com as autoridades faria alguma diferença?

“Godfrey, você fica aqui e eu vou até a delegacia dizer o que encontramos. Levo as fotos e as certidões. Parece que todos os passaportes dela estão aqui então eles vão ter que voltar para pegar e assim poderem sair do país.”

Não era uma má ideia, por isso Godfrey acabou concordando com Simon.

“Cuidado e, qualquer coisa me avisa; hm?”

“Pode deixar.”

Godfrey sentou no sofá e voltou a ler o diário para entender realmente o que acontecia.

—

Ninguém odeia outra pessoa quando a despreza, somente quando a vê como igual ou superior.

—

Agressão; era isso que aquela pequena frase queria dizer. Aquilo abalava Godfrey que aos poucos ia entendendo os receios e medos de Liraz.

—

Ele não tinha limites, ele era realmente charmoso... ele me abraçou forte e enquanto sussurrava no meu ouvido ele me levou ao completo êxtase e naquela noite eu fui dele totalmente.

—

A cada palavra escrita Godfrey percebia o domínio que Drake tinha sobre Liraz. O chinês não conseguia entender como ele fazia, mas era eficaz e fazia Liraz ficar ao lado dele mesmo com medo.

—

Violento, mais violento ele pega minha cintura. Ele move em reação e como um desesperado me deseja... paixão as vezes é violenta e violência não tem freios assim como a paixão.

—

Estava claro e estampado o que havia acontecido. Aquela pequena observação explicava o porquê dela parecer tão apreensiva quando se tornaram mais íntimos. Godfrey estava indignado e triste, não sabia o que Liraz poderia estar passando nesse momento, nem o medo que estaria sentindo.

—

As pessoas acham que sabem o que é a realidade e sobre do que se trata a vida. Elas acham que sabem tudo porque podem pensar. O que elas não querem que exista simplesmente não existe exceto, talvez, em seus sonhos ou pesadelos. Elas veem sombras nas paredes imaginando que o mundo é exatamente como ele é. Mas elas nunca olham para quem está fazendo as sombras.

—

Solidão. Como alguém poderia chegar a esse ponto e ainda lutar para viver?

—

Quanto mais as coisas mudam mais elas continuam as mesmas. Eu não sei quem foi o primeiro a dizer isso, talvez tenha sido Shakespeare ou talvez Sting, mas no momento expressa minha falha trágica e eu acho que não estou sozinha nisso. Quanto mais eu conheço as pessoas mais eu percebo que essa é a falha de todo mundo. Ficar exatamente o mesmo o quanto for possível, ficar perfeitamente imóvel é melhor de algum modo e se você tiver que sofrer pelo menos a dor é familiar porque quando você decide dar o primeiro passo, abrir seu coração ou; fazer algo inesperado; quem sabe que outro tipo de dor você estará esperando? Há uma grande possibilidade de a dor ser pior. Então você mantém seu “status quo” e escolhe a estrada já conhecida. Não parece tão mal se você pensar a respeito de outras falhas. Você não é um viciado em drogas, não matou ninguém e não é nada além de um pouco mais de si mesmo. E finalmente quando mudamos, eu não acho que seja como um terremoto ou uma explosão e de repente você é uma pessoa diferente. Eu acho que é o tipo de coisa que poucas pessoas notam; somente se olharem bem de perto o que graças a Deus elas nunca fazem. Mas você percebe. Dentro de você essa diferença é enorme e você espera ter se tornado a pessoa que você será para sempre para não ter que mudar novamente.

—

Finalmente Godfrey achou o começo de tudo. O fim de Liraz e o começo de várias outras vidas.

—

Ele pegou seu medo, sua humilhação e as esmagou com seu punho. Ele abriu sua mão, ele fez diamantes. Seus diamantes são fúria... ele tinha diamantes nos olhos.

—

Mais uma vez a demonstração do abuso que sofria. Drake era um homem calculista e dominador, usava agressão e cada vez que Godfrey notava isso, o coração dele apertava e a vontade de encontrar Sage aumentava.

—

Poder e igualdade... creio que é a hora de sair por aí e consegui-los. Acredito que essa é a minha chance porque eu posso fazer isso. Já os outros... não posso dizer o mesmo.

—

E ali estava o canhoto de uma passagem para o Brasil. Godfrey entendeu por que ela queria dinheiro desesperadamente e era isso que os olhos dela escondiam toda vez que ele percebia que ela queria lhe contar algo.

“Por que não me disse nada? Por que não confiou em mim para ajuda-la?”

A resposta era fácil: medo!

—

Quando se sente falta de alguém não quer dizer que estejamos separados, mas sim que já estivemos juntos.

—

Um suspiro pesado se fez ouvir naquela pequena sala de estar. Godfrey notou a data no topo da página, era véspera de Natal. Aquela frase se referia à família.

—

Tudo de que tenho certeza é de que não tenho certeza de nada e hoje eu escondo segredos que se contorcem dentro de mim e me deixam fraca. Seja prudente, a melhor segurança descansa no medo.

—

E uma passagem para a Noruega.

—

O erro foi dele!

Eu o amei um dia com todo esse amor efêmero que nasce numa fantasia e não chega ao coração.

Nem amor foi!

Foi apenas uma leve impressão, um querer indiferente que na presença dele estava vivo e morto na sua ausência.

—

Um sorriso discreto brotou dos lábios de Godfrey. Ali estava a certeza de que Liraz não sentia nada por seu agressor e mais do que antes ele queria protege-la e mantê-la a seu lado, apenas precisava encontra-la. Ele deu uma olhada em seu celular e ainda não tinha notícias de Simon.

—

Um homem veio até mim, nunca vi um sorriso tão lindo quanto o dele. Eu não consegui desviar de seu olhar, parecia que nos conhecíamos de um sonho, parecia que ele me conhecia e olhou diretamente para mim.

—

O dia em que Liraz chegou ao London e conheceu Godfrey. Realmente, ele quem foi até ela perguntando sobre o porquê fazíamos escolhas erradas. De certa forma, em meio ao caos da vida dela, o oriental foi uma coisa boa que tinha um sorriso lindo. O chinês riu do próprio pensamento e respirou fundo. Mais do que nunca queria encontra-la.

—

Amizades são feitas de pequenos gestos então, acho que ao invés de amar meus inimigos devo cuidar de meus amigos.

—

Liraz havia feito alguns amigos no London. Mary Elisabeth, Simon... nesse tempo todo de fuga ela não foi próxima de ninguém. Era bom saber que ela agradecia por tê-los no caminho.

—

Assim que eu o vi me apaixonei, assim que me apaixonei eu suspirei, assim que suspirei perguntei o motivo e assim que eu encontrei o motivo eu procurei por um remédio.

—

“Se apaixonou e me deixou com cara de idiota pensando no que fazer pra ganhar esse sorriso!”

Em meio às coisas ruins, saber o que Liraz sentia algo bom era extraordinário. Talvez ele pudesse fazer com que ela confiasse nele.

“Onde você está?”

—

As vezes eu desejo que você esteja sonhando comigo... e dentro de mim... então por favor, não acenda uma chama que nunca poderá apagar.

—

Godfrey desejava que essa chama ainda estivesse acesa. Ele se levantou e olhou pela janela para respirar e pensar melhor. Fechou os olhos por alguns segundos tentando imaginar onde ela estaria; pedindo para que não tivesse dado tempo de Drake tê-la levado para longe. Mais uma vez o chinês olhou para o celular e nada de Simon entrar em contato.

—

Ser convidada para ir a um restaurante que odeia. Esquecer as coisas. Comer morangos doces e quando morder o último este está azedo. Tirar as piores notas nos testes mais fáceis. Suas meias serem os brinquedos preferidos do seu gato. O telefone tocar quando está no chuveiro. Encontrar duas páginas coladas numa revista. Levar o lixo pra fora vestindo moletom, chinelos com o cabelo bagunçado e encontrar o cara mais lindo da rua. Acordar cedo nas férias. Terminar um livro que ama. Seu namorado gostar de alho e você não. Pela regra, os caras mais bonitos terem namorada... essas são algumas das piores coisas que podem acontecer na vida de uma garota normal.

—

Liraz era uma garota normal, pelo menos era o que Godfrey queria que ela se sentisse assim. Ele passou a mão pelo cabelo e então viu a última coisa que escreveu.

—

Há momentos na vida que fazem você, que estabelecem o rumo do que você será. Às vezes, são breves e sutis, às vezes, não são. A verdade é que, mesmo que veja que estão vindo, você não está pronto para os grandes momentos. Ninguém pede que a vida mude, não é mesmo? Mas ela muda. Por isso, o que somos? Indefesos? Marionetes? Não. Os grandes momentos virão, não pode impedir. É o que você faz depois disso que conta. É aí que você descobre quem você é. Você vai entender um dia...

—

Na verdade Godfrey não precisou de um longo tempo para entender. A vida de Liraz mudou e sempre mudava e, enquanto ela fugisse do ex-marido, sempre mudaria. Godfrey e o London foram o pouco de estabilidade que ela teve e era disso que ela precisava. O que Liraz descobriu sobre si mesma nesse momento? Estaria ela lutando pela vida ou simplesmente havia se rendido? Tanta coisa passava pela cabeça de Godfrey e quanto mais ele pensava, mais complicado tudo ficava. Ele olhou mais uma vez para a rua e então seu celular tocou. Era Simon.

“Godfrey?”

“O que houve? Achou alguma coisa?”

“Sim, muita coisa. Sage... quero dizer... Liraz está sendo procurada na Espanha. A família a procura há cinco anos. Ela foi vista pela última vez em Salamanca um ano depois de seu desaparecimento e desde então ninguém sabia de seu paradeiro. Drake Brumman, o ex- marido; é procurado pelo assassinato de Andrés Rivera que por acaso era amigo de Liraz. Drake é suspeito de tê-la sequestrado já que ninguém o havia encontrado.”

“E agora? O que vão fazer?”

“A policia emitiu um aviso por todo o Canadá, estão atentos aos documentos com o nome Sage Summers.”

“O que eu posso fazer?”

“Fique aí... a polícia está a caminho e pode ser que..."

Um barulho interrompeu Simon.

“Godfrey? Você está aí? Godfrey?”

A Batalha Final

Enquanto Simon falava, Godfrey ouviu vozes vindas do corredor e o barulho da porta sendo destrancada. Ele pensou rápido e jogou o celular no chão esperando que Simon ouvisse o que estava acontecendo e rapidamente correu para o quarto se escondendo.

“Como você pôde esquecer seu passaporte? Estamos voltando para casa! Você não é mais essa garota que criou. você é Liraz. MINHA LIRAZ!”

Godfrey os olhava de longe e pode ver o rosto de Sage vermelho. O lábio estava machucado os braços tinham marcas também. Drake havia batido nela. A raiva tomou conta do chinês, mas ele não podia agir por impulso.

“Onde está o passaporte?”

“No quarto.”

Sem qualquer aviso Drake desferiu um tapa no rosto de Sage fazendo com que ela se desequilibrasse e caísse no chão. Godfrey quis gritar, mas se calou, tinha medo que algo piorasse naquele momento.

“Só me faz perder tempo!”

Drake foi em direção ao quarto e Godfrey conseguiu se esconder atrás da porta. Enquanto Drake pegava o diário de Liraz com os passaportes que ficaram para trás, a morena pode ver o celular de Godfrey no chão. O coração dela disparou de ansiedade e principalmente de medo. Ela notou que havia uma ligação com Simon em andamento então rapidamente guardou o aparelho bolso da calça enquanto se levantava na esperança de que o dono do pub continuasse ouvindo o que estava acontecendo e tomasse alguma providência.

“Vamos, temos que ir andando. Você não aprende, não é mesmo? Você NUNCA aprende!”

Mais uma vez Drake pegou Liraz pelo braço a puxando em direção à porta. Godfrey não podia deixa-la ir então, sem qualquer plano, saiu de seu esconderijo podendo finalmente ver Drake de perto.

“Você não vai levá-la a lugar algum.”

O sangue de Liraz congelou em suas veias. O que Godfrey estava fazendo? Ele estava louco? O coração dela disparava se lembrando dos pesadelos que teve cujos finais não eram nada bons. Drake se virou devagar e como um louco começou a rir.

“Então você é o namoradinho iludido? Foi com você que essa vagabunda resolveu me trair?”

A voz de Drake era calma e fria. Era algo perturbador, algo que Godfrey nunca havia visto antes. Drake apertou o braço de Liraz com força fazendo com que ela esboçasse uma expressão de dor.

“Ela não traiu você. Vocês se divorciaram.”

“Acha mesmo que um papelzinho qualquer faz com ela não seja mais minha? Essa mulher será minha para sempre e não há nada que possa fazer.”

Liraz olhava para Godfrey com medo. Ela tremia e mordia o lábio apreensiva.

“Amigo, vamos conversar.”

“Conversar? O que você tem a dizer? Se desculpar por ter levado a minha mulher para cama? Isso não tem perdão e ela sabe que terá uma consequência não é mesmo?”

Novamente Drake a puxou apertando seu braço. As lágrimas caiam do rosto de Liraz e ela já não conseguia mais encarar Godfrey, sentia vergonha e medo exatamente como no sonho.

Durante aquele momento tenso as sirenes foram ouvidas, e a policia rapidamente começou a evacuar o prédio. Drake ao invés de entrar em pânico começou a rir.

“Sério isso? Sério? Você chamou a policia, japa?”

“Não chamei. Meu amigo quem deve ter chamado, nós estávamos procurando por Liraz faz horas.”

E foi aí que Drake finalmente mostrou sua face completa. Ele puxou uma arma apontando para Godfrey e em seguida para a cabeça de Liraz.

“Drake, por favor. Não precisa disso, vamos conversar.”

O chinês tentava manter a calma enquanto Liraz chorava cansada. Era notável o fato dela não resistir nem lutar mais e isso era preocupante.

“Você não entende, japa. Desde o primeiro dia que nos vimos essa espanhola é minha. Liraz é minha e sempre vai ser. Foi por isso que não reagi ao teatrinho de vocês naquele bar ridículo. Pensa que não vi a troca de alianças?”

Liraz não tinha imaginado, era Drake mesmo no bar a observando de longe.

“Você não pode ser dono de alguém.”

“POSSO E SOU!”

A voz de Drake era alta e forte, parecia que o pequeno apartamento tremia toda vez que ele se alterava. Liraz olhou para Godfrey como se implorasse para que ele deixasse tudo aquilo de lado, como se dissesse que tudo estava acabado e que aquele momento era o fim. Nem a presença da polícia dava esperanças de que ela saísse viva daquela situação. O peito de Godfrey apertou novamente, Liraz parecia cada vez pior e ele não podia imaginar o que ela estaria sentindo. Movido pelo desespero, o chinês deu um passo em direção a Drake que apontou a arma para Godfrey.

“Fica longe. O que você está pensando? Eu te emprestei ela por alguns dias, está na hora dela voltar pra onde ela pertence.”

Ainda desesperado Godfrey deu outro passo e sem pensar duas vezes Drake atirou em sua direção. Liraz gritou e Godfrey paralisou. O tiro atingiu a estante ao lado do chinês e só então ele pode perceber o tamanho da loucura de Drake.

“Eu não tenho problema nenhum em atirar em você. Aliás, eu acho que sua existência é um nada. O último que tentou algo com Liraz eu eliminei então eu não tenho problema em te matar também.”

Aquilo doeu fundo em Liraz. Por tanto tempo ela queria acreditar que Drake era inocente, que ele não havia matado Andrés, que ela havia se enganado confundindo outro homem com Drake, mas aquela confissão a destroçou.

“Drake... chega... eu vou com você... já peguei o passaporte.”

O gringo segurou Liraz com firmeza a usando de escudo caso fosse pego de surpresa. Para provocar o oriental Drake a levou a força para o canto da sala onde a beijou. Liraz tentou se esquivar, mas não conseguiu e; ver aquela cena; despertou mais raiva em Godfrey. Agora era ele quem não teria problemas em matar Drake.

“Manda a polícia embora, japa. Anda! Nós vamos embora ainda hoje!”

“Eu estou sem meu celular.”

“GRITA PELA JANELA PELA PORTA, SE VIRA! MAS TIRA ELES DAQUI!”

O chinês engoliu seco e, devagar, foi até a porta a abrindo cautelosamente. Primeiro deixou com que os policiais vissem suas mãos vazias e então saiu.

“Não é o Brummam!”

Um dos policiais gritou e correu na direção de Godfrey.

“O senhor está bem?”

“Ele não quer os policiais por perto, ele quer que vocês se afastem.”

Os olhos de Godfrey eram intensos e o policial entendeu que deveriam ter outro plano. Os policiais se movimentaram e Godfrey voltou para dentro do apartamento.

“Eles estão saindo do prédio.”

“Até que você é eficiente, mas não é o bastante. Eu preciso de um plano para sair daqui com essa tonta que me fez perder tempo esses anos todos!”

E com esse ódio Drake segurou o cabelo de Liraz batendo sua cabeça na parede fazendo com que seu corpo amolecesse.

“VOCÊ NÃO PRECISA BATER NELA!”

Godfrey estava revoltado com o que Drake estava fazendo e se sentia impotente por não poder fazer nada naquele momento. Drake então riu e puxou forte o cabelo de Liraz.

“Eu faço o que eu quiser!”

“Drake...” A voz de Liraz era fraca “Deixa ele ir... eu estou com você... nós podemos fugir... deixa o chino ir.”

“Chino? É assim que você chama seu namoradinho?”

Mais um tapa estalou no rosto de Liraz e Godfrey se aproximou.

“PÁRA DE BATER NELA!”

Drake apontou a arma para o chinês e Liraz se encolheu.

“Cansei de falar com você... cansei... vou acabar logo com isso, mas vou ser bonzinho. Pode se despedir dele, Liraz. SE DESPEDE!”

A morena se mexeu fraca e olhou nos olhos de Godfrey. O oriental estava assustado e enquanto olhava para Liraz percebia a arma apontada para si.

“Me... me desculpa por isso... por tudo... eu... eu não queria que você sofresse com tudo isso...”

“Que demora!”

Drake engatilhou segurando a arma com mais firmeza.

“Eu... eu não queria ser a primeira a dizer, mas... eu... eu te amo, chino”

O sorriso sumiu do rosto de Drake e lentamente ele se virou para Liraz. As palavras dela pareciam uma faca enfiando em seu peito. Ele começou a tremer e olhava para Liraz desacreditado.

“Você disse que o ama?”

O chinês deu mais um passo em direção a eles e dessa vez Drake nem o censurou. Liraz chorava olhando nos olhos frios do ex-marido e assentiu com a cabeça.

“Eu... eu te amei um dia... mas olha o que você fez comigo. Você... você matou meu amor por você e por... por muito tempo eu achei que não ia amar de novo.”

Quanto mais Liraz falava, mais Drake se sentia enojado e decepcionado. Godfrey deu mais um passo e então Drake apontou a arma novamente. Ele segurou Liraz pelo pescoço e ela respirou fundo o olhando. O rosto machucado e vermelho; havia sangue e o medo estampado ali. Foi naquele momento que a ficha de Drake caiu e como um desesperado ele começou a tremer.

“Liraz que vergonha. O que um homem deve e não deve fazer por uma mulher? Para ser dela? Para ser o tipo de homem que nunca...” Finalmente Drake começou a chorar “Para ser um homem bom do tipo que uma mulher o olha com admiração, o perdoa e o olha com respeito e amor? Ele seria amado e tudo ficaria bem, certo?”

Godfrey o olhava confuso, não entendia nada e não podia agir já que a arma estava apontada para ele e, a qualquer movimento brusco, Drake poderia mata-lo ou matar Liraz.

“Podemos descansar agora? Podemos, Liraz?”

O som alto do tiro foi ensurdecedor. Os policiais rapidamente entraram no apartamento, prontos para agir quando Liraz gritou apavorada. Godfrey finalmente abriu os olhos e viu a morena chorando histérica. A parede e o rosto de Liraz estavam respingados de sangue e ela tentava empurrar o corpo de Drake para tirá-lo de cima dela. Assim que ela conseguiu, sem pensar duas vezes, correu até Godfrey e o abraçou forte sendo acolhida por ele. Drake havia se matado com um tiro na boca. Talvez naquele momento ele havia notado o quão nocivo ele foi privando Liraz de viver.

“Está tudo bem... acabou.”

Godfrey acariciava as costas de Liraz tentando acalmá-la. Ela sabia que tinha acabado e o choro era o desabafo de cinco anos de inferno que viveu fugindo de um lado para outro no mundo.

***

Naquela mesma noite, Liraz e Godfrey foram levados para o hospital. O médico internou Liraz por causa dos machucados e para fazer uma avaliação psicológica devido ao trauma. Já o chinês deixou bem claro que não sairia do lado dela.

“Não fique com medo; hm?”

Liraz respirou fundo e olhou para Godfrey.

“Sei que você quer esclarecer tudo, mas primeiro o mais importante. Fica tranquila, eu estou aqui e não vou a lugar algum.”

A morena mordeu o lábio e com o celular de Godfrey nas mãos lentamente digitou os números. Logo Liraz começou a chorar mordendo o lábio e o chinês segurou sua mão para lhe dar apoio.

“Mamá? Soy yo, Liraz. Drake está muerto, se acabó... luego vuelvo a casa.”

De Volta Às Raízes

Por volta das 3h00 da manhã, Liraz acordou. Não teve pesadelos, estava com sede. Godfrey estava ao lado dela, ele não dormia; apenas a olhava.

“Hey... está tudo bem?”

“Sim. Estou com sede.”

O chinês beijou sua testa e rapidamente se levantou pegando uma garrafa de água.

“Gracias...”

Godfrey sorriu e voltou a sentar ao lado de Liraz e ficou ali acariciando o cabelo dela.

“Me desculpe.”

“Pelo que?”

“Por toda confusão, por ter te colocado naquela situação com Drake, por não ter confiado em você, por ter mentido...”

“Está tudo bem, você teve inúmeros motivos para fazer tudo isso. Me responde uma coisa?”

“Claro.”

“Você ia embora?”

Liraz respirou fundo e, para surpresa de Godfrey, ela negou com a cabeça.

“Não. Na verdade eu ia te contar tudo depois que pegasse minhas coisas no apartamento.”

“Por que não contou antes?”

“Era difícil confiar nas pessoas. Drake sempre ameaçava, dizia que tinha gente me seguindo então eu não sabia ao certo o que fazer. Só que eu percebi que eu podia confiar em você.”

“Eu sinto muito por tudo que passou com Drake.”

“Não sinta, de certa forma, se não fosse ele me perseguir eu creio que nunca te conheceria. Te veria apenas pelas fotos nas revistas.”

Aquela resposta deixou Godfrey estranhamente feliz.

“De onde você realmente é?”

“Sou de Manacor, uma ilha na Espanha.”

“E como é sua família?”

“Eles são as melhores pessoas do mundo! Sabe, eu não sou uma garota comum, na Espanha sou bem conhecida e meu rosto deve estar estampado nos jornais e revistas agora. Minha família é dona de uma rede de hotéis eu sou tipo a Paris Hilton, só que azarada.”

Liraz riu suavemente e foi a primeira vez que Godfrey a viu relaxada de verdade.

“Você disse que era bailarina.”

“Era não! Ainda sou! A dança é algo que eu amo e nunca vou deixar de lado. Apesar de não praticar, ainda espero voltar para um estúdio mesmo que seja tarde para uma carreira.”

“Parece que você tinha uma vida certa, onde conheceu Drake?”

“Em um bar. Eu comecei a cantar em alguns lugares em Manacor e numa noite Drake apareceu com seu irmão gêmeo Derek. Nós conversamos a noite toda, ele parecia tão doce e eu boba com meus 19 anos, acabei me apaixonando.”

“Você chegou a ser feliz com Drake?”

“Sim, mas foi tudo muito rápido. Em um mês de namoro eu me casei contra a vontade da minha família e fui embora para os EUA, lá começou o meu tormento. Drake se irritava com coisa pequena e achava que todos os homens do mundo me queriam. Ele arrumava brigas por causa de ciúme e uma noite, depois de voltarmos de um jantar, ele me bateu. Peguei minhas coisas e voltei para Manacor. Implorei o perdão dos meus pais que me acolheram e disseram que cuidariam de mim, que eu não tinha com o que me preocupar. Dias depois Drake apareceu na minha porta pedindo perdão, mas eu já não confiava nele só que, como eu ainda era inocente e burra, aceitei voltar a namorar pelo menos.”

“Ele continuou te machucando?”

“Sim. Ele me agredia ainda, mas não batia onde era visível. Eu escondi por muito tempo o que ele fazia, até que ele matou meu melhor amigo. Drake achava que Andrés queria me tirar dele, a parte irônica é que Andrés era gay.”

“Eu sinto muito.”

Godfrey abraçou Liraz e ela respondeu o abraço com um beijo em seu rosto. Estava confortável mesmo que fosse naquela cama de hospital. Podia sentir que não estava mais sozinha.

“Posso perguntar outra coisa?”

“Pode.”

“Você disse que me ama, é verdade?”

Aquela pergunta pegou Liraz de surpresa. Ela começou a rir e então respirou fundo encarando o namorado.

“Eu não queria ter dito primeiro, mas é verdade. No meio dessa confusão toda eu me apaixonei por você e... eu te amo.”

O momento não era o mais romântico, mas foi perfeito para ouvir aquelas palavras. Godfrey selou os lábios de Liraz e suspirou a olhando nos olhos.

“Aceitamos o amor que achamos merecer, não é mesmo? Então eu aceito o seu amor, porque depois de tudo isso, eu ainda consegui fazer esse sentimento despertar em você. Não sabe como me sinto feliz e honrado. E... eu também te amo, minha espanhola linda.”

***

Manacor – Espanha

Finalmente o tormento de Liraz chegou ao fim. Ela não queria que Drake morresse, mas infelizmente as coisas foram assim e pelo menos esperava que suas últimas palavras tivessem sido de arrependimento. Por algum tempo ela continuou teve pesadelos sobre aquela noite, mas dessa vez não estava sozinha para lidar com eles. Aos poucos sua vida foi voltando ao normal e, eventualmente, ela voltou para casa. Godfrey sabia que depois daquela noite a vida de Liraz passaria por uma grande mudança e que tudo seria um recomeço. Finalmente ele conheceria a namorada como deveria ser e seria paciente apesar do temperamento forte. Ele queria estar ao lado dela.

“Esse lugar é lindo.”

Godfrey abraçou Liraz que suspirou fechando os olhos brevemente.

“Senti falta daqui. Minha abuela costuma dizer que quando se é jovem se tem raízes e asas. As raízes são para lembrar que se tem casa e as asas para quando for embora, a parte difícil é saber quando ir embora e, por essa parte eu já passei.” Liraz sorriu abraçando Godfrey bem forte. “Preciso um pouco das minhas raízes e de você que agora é minhas asas.”

The End

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