Bring Me To Life
1 Chapter I
Nova Identidade
Faz exatamente três dias que ela chegou em Vancouver e, mesmo depois desses três dias, ela ainda se sentia exausta. Suas olheiras são evidentes e ela as encara no espelho se assustando com o que vê. Ela não é nem sombra do que costumava ser. Está magra, seus ossos aparentes são sinais de refeições que deixou de fazer, sonos que deixou de dormir e uma vida turbulenta que passou a levar. Com o dinheiro que havia sobrado de sua última viagem, ela alugou um apartamento e comprou tinta para tentar mudar o cabelo novamente. Não deu muito certo. A tinta loira não pegou direito no cabelo castanho o deixando manchado dando uma impressão de queimado no sol. Ela não é mais a mesma. Suspirou pesado lembrando-se da vida que levava quatro anos atrás e olhou seu pequeno apartamento. Num canto estava a mochila que ela não ousava desfazer, quem sabe quando teria que se mudar novamente?
“Hora de ir à luta!”
Mais um país, mais uma cidade e mais uma procura pelos subempregos que lhe garantiriam uma vida simples sem chamar muita atenção como vem sendo nesses últimos quatro anos. Sentou-se no sofá e de sua mochila tirou um caderno com capa de couro. Uma parte daquele caderno estava marcada com papéis, anúncios de empregos recortados de jornais e algumas identidades falsas. Uma amargura tomou conta dela e um nó se formou em sua garganta e, por mais que estivesse acostumada a essa vida, já estava cansada. Ela queria uma trégua, sair de trás das trincheiras com uma bandeira branca e se render. O problema é que se fizesse isso, não teria certeza sobre seu futuro ou se ao menos o sobreviveria.
“Quem eu serei agora?”
Pacientemente ela analisou cada foto e cada nome na sua lista, fazia combinações e riscava os nomes usados recentemente. Precisava de algo que combinasse com ela, e com o sotaque espanhol que insistia em se fazer presente e bem forte quando ela estava preocupada. Foi cautelosa nos prós e contras de seu novo ‘eu’ e finalmente escolheu sua nova identidade: Sage Summers, imigrante de Porto Rico que tentava fazer a vida no Canadá.
London
Sage saiu do apartamento por volta das 16h00 com um dos anúncios em mãos. O cargo era de garçonete o qual experiência tinha de sobra. Claro que seu sonho não era ser garçonete, acho que o de ninguém é, mas em seu caso era o que sempre pagou melhor nesses quatro anos rodando o mundo. O mundo. O mundo parecia tão pequeno para ela que não parou em um só lugar por muito tempo. Se contasse isso a alguém com certeza já imaginariam como Sage se divertiu muito por onde passou. Que engano. A rotina era a mesma: de casa para o trabalho e do trabalho para casa, sendo invisível, preocupada para não ser notada e, quando sentia que algo estava prestes a dar errado, ela arrumava suas coisas e ia embora.
Um olhar para o céu cinzento daquele dia frio e Sage fechou o casaco para se proteger enquanto caminhava. Pelo que havia visto a rua onde ficava o tal pub que estava contratando era perto, o que realmente facilitava as coisas. Andou umas cinco quadras a passos apressados, mal olhava as pessoas que passavam por ela, apenas soube que chegou ao seu destino quando viu o letreiro com o nome: “London”.
***
O bar tomava a esquina, tinha o estilo das tavernas inglesas. Com certeza o nome fazia jus à aparência. Apesar das portas ainda estarem fechadas, havia pessoas trabalhando arrumando mesas e fazendo a limpeza. Sage sabia muito bem como era isso. Ela devagar abriu uma das portas entrando calmamente no local quando foi recebida por uma mulher que aparentava mais ou menos uns 30 anos.
“Boa tarde, posso ajuda-la?”
“Boa tarde. Eu estou procurando o Sr. Webbe... eu vim por causa do anúncio.”
“Ah claro! Por favor, pode vir por aqui.”
A mulher guiou Sage pelo salão onde os funcionários limpavam as mesas deixando tudo em perfeito estado para quando os clientes chegassem. O lugar não era muito grande, e tinha um estranho conforto. As mesas ficavam distribuídas de forma ordenada e do lado direito ficava uma área mais reservada. Havia um sofá enorme e uma mesa de centro lembrando aquele café Central Perk que era ponto de encontro dos amigos do seriado Friends. Do lado esquerdo estava um pequeno palco, o que indicava que o pub recebia atrações ao vivo. Com certeza o lugar era movimentado o que significava boas gorjetas.
“Simon! Tem uma moça aqui querendo falar contigo. É sobre o anúncio.”
Sage ajeitou a jaqueta de couro tentando melhorar sua aparência quando ouviu risadas vindas do fundo do salão. Havia uma mesa bem no canto como se estivesse escondida e dois homens bebiam e conversavam. Com certeza tinham passagem livre no pub, isso era comum principalmente se fossem da máfia ou amigos do dono. Máfia. Esse era um pré-julgamento muito forte, e que por um segundo a fez pensar em como as pessoas a viam. Um esqueleto ambulante e apático? Uma garota pobre lutando para sobreviver? Um zumbi? Isso era assustador.
“Eu não acredito, só pode ser brincadeira!”
Uma voz grossa ecoou pelo salão chamando a atenção de todos ali. Sage virou para ver do que se tratava e notou um oriental alto com cara de poucos amigos entrando no pub. Percebeu que as pessoas ali presentes o conheciam porque sem demora ele se dirigiu até a mesa onde estavam os dois supostos mafiosos. Um conversa um tanto quanto cheia de gesticulações, algumas palavras de simpatia e o oriental se aproximou do bar logo se curvando e apoiando os cotovelos no balcão.
“Mary Elisabeth, me dá um Huangjiu, por favor.”
A mulher que recebeu Sage mais do que depressa correu para trás do balcão para atender ao pedido do oriental. Sage não o olhou, simplesmente ignorou sua presença ao seu lado, pois ela podia sentir que ele a olhava. Ela mordeu o lábio enquanto o oriental a analisava, ela era um rosto novo ali isso era óbvio enquanto ela sentia uma certa inquietação afinal, Sage passou muito tempo sendo invisível para de repente ser notada. A garota então respirou fundo e numa tentativa de fazer com que ele parasse de olha-la se virou para ele e sorriu levemente.
“Pode me responder uma coisa?”
Sage se surpreendeu com aquela pergunta, mas não desviou o olhar tão pouco o ignorou, apenas assentiu com a cabeça o encorajando a fazer a pergunta.
“Por que o amor sempre complica as coisas?”
Aquela pergunta atingiu Sage em cheio a deixando um pouco desconcertada. Lembrou-se de sua vida quatro anos atrás e aquele período de tempo em que teve uma pessoa ruim a seu lado. A garota olhou bem nos olhos do oriental e lambeu os lábios.
“Aceitamos o amor que achamos merecer.”
O oriental franziu o cenho, aquele era um bom argumento. Ele retomou a sua postura ficando alto e imponente novamente, chegou a abrir a boca para responder, mas foi interrompido.
“Olá, desculpa a demora, sou Simon Webbe dono do pub.”
Salva pelo gongo!
“Por favor, pode me acompanhar por aqui.”
O proprietário do pub era um negro alto, magro e possuía olhos negros tão intensos que pareciam ver através dela. Ele não era velho, deveria ter uns trinta e poucos anos, e uma coisa Sage tinha certeza: Simon Webbe era inglês. O sotaque cockeney entregava que o nome do pub era também o nome da cidade de origem dele.
O Azar do Chinês
Precisamos conversar...
Foi essa a mensagem que acordou Godfrey naquele dia. Como se aquela semana já não estivesse difícil o suficiente, a mensagem de sua então namorada Tulisa com certeza não melhoraria as coisas. O chinês modelo e ator que vivia cruzando os mares entre um trabalho e outro, decidira ficar em Vancouver por Tulisa e pelo jeito daquela mensagem, foi a pior coisa que fez... e foi. Pela tarde, depois de uma reunião com seu agente sobre alguns trabalhos como modelo para uma marca conhecida, ele encontrou Tulisa que sem dó nem piedade apenas disse.
“Não estamos dando certo. Sabe, você é muito carente, parece que tenho que cuidar de você o tempo todo e está me sufocando. Não quero um filho e sim um namorado, por isso andei pensando muito e decidi que é melhor cada um seguir caminhos diferentes.”
Mas as coisas não pararam por aí, ela havia dado a facada, agora era a hora de girar a lâmina no peito dele e abrir a ferida o suficiente para sangrar. Tulisa se levantou pegando sua bolsa e seu casaco suspirando daquele jeito que mulher faz quando quer demonstrar pena.
“Eu andei conversando muito com Anthony também... nós vamos voltar. É melhor assim.”
Godfrey apenas abriu a boca e ali ficou imóvel. De todas as coisas que podiam acontecer de ruim, por aquela ele não esperava. O oriental ficou ali sentado no Starbucks pensando e pensando, não sabia o que tinha dado errado, afinal, o namoro não tinha nem um mês. O ódio tomou conta dele. Primeiro pensou em matá-la, depois pensou em mandar a máfia chinesa matá-la, até que finalmente aceitou a situação. Cachorra! Godfrey precisava conversar com alguém e nada melhor do que beber com seu melhor amigo Simon. Foi por isso que o oriental estava no London àquela tarde, precisava desestressar e acabar com aquele sentimento de raiva e dor porque, por mais que aparentasse ser um cara durão, uma coisa daquelas não passaria sem ser percebida.
Parabéns
Enquanto Sage ia para o outro lado do salão, Simon olhou para Godfrey com aquele olhar de ‘já falo com você’. Godfrey entendeu o recado, sabia que o amigo estava desesperado atrás de uma nova garçonete já que a antiga havia literalmente casado e mudado para Toronto. O oriental pegou a bebida agradecendo Mary Elisabeth e voltou para a mesa onde estavam os dois amigos.
***
“Por favor, sente-se.”
Simon apontou para o sofá e Sage mais do que depressa se acomodou ali esperando pela entrevista. A rotina era a mesma, só precisava lembrar sua nova identidade.
“Vou precisar de algumas informações suas, tudo bem?”
Sage assentiu com a cabeça e forçou um sorriso. Fazia tempo desde a última vez que deixou escapar um sorriso sincero e agradável.
“Qual seu nome?”
“Liraz Sage.”
“Sobrenome?”
“Cisneros Summers.”
“Endereço?”
“Granville Street, 1018 apartamento 6B.”
“Você não parece canadense, de onde você é?”
“Espanha Porto Rico.”
“De longe, hein? E o que faz aqui em Vancouver?”
“Estou fugindo de um psicopata que quase me achou nos EUA Eu morava nos EUA e já não estava bom ficar por lá, então resolvi recomeçar aqui no Canadá.”
“Entendo, e você já trabalhou como garçonete?”
“Sim, tenho uma boa experiência. Trabalhei em alguns bares enquanto morei nos EUA e na Europa, América do Sul e na Austrália também.”
“E sabe fazer drinks?”
“Sim trabalhei como bartender enquanto ainda vivia na Dinamarca e na Irlanda.”
“Como se faz uma Pina Colada?”
“Rum, suco de abacaxi, leite condensado e leite de coco.”
“Daiquiri?”
“Rum prata é claro, calda de caramelo e bastante gelo.”
Simon estava satisfeito com as respostas rápidas enquanto para Sage, aquilo não passava de uma revisão de tudo que fez nesses quatro anos andando de um lado para outro.
“Quando pode começar?”
“Quando quiser.”
“Amanhã às 18h00?”
“Claro!”
“Parabéns, o emprego é seu!”
Como uma boa menina Sage cumprimentou Simon fechando o negócio, e sem demora ele começou a explicar a rotina do trabalho. O ganho já era outra história. Receberia C$11,28 por hora mais as gorjetas, e isso era bom considerando o custo de vida. Simon mostrou cada canto do local, queria que Sage ficasse familiarizada com o ambiente que realmente parecia um pedaço da Inglaterra com posters, fotos e artigos de artistas e bandas do país.
Cansaço
Eram 22h00 e Sage estava visivelmente cansada. Apesar do dia não ter sido corrido e tudo ter dado certo para sobreviver em Vancouver; as viagens começaram a ficar cada vez mais cansativas. Sentada naquela sala minúscula tentava comer o macarrão com queijo feito no microondas, mas a fome nunca estava por perto. Sentia saudade de casa, da comida da mãe, do colo do pai, dos conselhos do meio irmão maluco que morava na Inglaterra. A vida normal e comum que tinha fazia falta, mais do que ela poderia imaginar quando tomou a decisão de fugir. Quatro anos. Quanto mais tempo ela teria que continuar nessa vida? Estava cansada, cheia de ter que se esconder, de mentir, de não ser quem era. Perdeu a fome e decidiu ir dormir, já que os pensamentos não queriam desligar.
Ao entrar no pequeno quarto lembrou-se de sua casa na Espanha, em Manacor mais precisamente. Quem via as condições nas quais morava agora não imaginava que Sage era uma garota de família rica e que não precisava passar pelo aperto que passava. Um longo suspiro para tentar relaxar e assim que fechou os olhos deu de encontro com os olhos do chinês alto que encontrou no pub. O coração disparou e Sage abriu os olhos rapidamente como se acordasse de um pesadelo. A pergunta que ele fez mais cedo a deixou inquieta, pois sua resposta era a sua realidade. Quatro anos atrás ela aceitou um amor que acreditava merecer e agora vivia uma vida de fugitiva, invisível aos olhos de quem passava, sempre escondida. Ela passou as mãos pelo rosto tentando afastar aqueles pensamentos, e depois de algumas horas virando de um lado para outro na cama, conseguiu dormir.
Rotina
Era 8h00 da manhã e Sage acordou assustada. O coração disparado, o corpo trêmulo e a sensação do medo tomava conta dela toda. Dessa vez não foram os olhos do chinês que a fizeram acordar e sim os olhos azuis que mais pareciam pedras de gelo, e ela os conhecia muito bem. Melhor do que qualquer um podia imaginar.
“Foi apenas um sonho... um sonho muito ruim.”
Dizia a si mesma tentando se acalmar. Engoliu seco esfregando os olhos e se levantou da cama. Que saudade sentia de sua antiga vida antes de ter que fugir de um lado para outro. Lembrou-se de sua casa e voltou a ter 10 anos. As lembranças de momentos felizes a confortaram. Sage tinha uma vida boa na Espanha, era de uma família abonada dona de uma rede de hotéis, tinha outro nome também: Liraz Cisneros, e há anos não o ouvia em voz alta, tanto que não tinha certeza de que atenderia se alguém a chamasse assim. Sage entrou no banho, mas as memórias – que agora eram constantes— não iam embora. Lembrou-se que tinha muitos amigos em Manacor, mas os melhores eram Dana, Tina e Andrés. A realidade era triste, ela havia perdido os amigos, havia perdido Andrés. Os sentimentos estavam misturados novamente e o cansaço finalmente a estava matando, mas ela não podia deixar de lutar pela própria vida. Sage então respirou fundo e saiu do banho, precisava ser forte, pelo menos mais um pouco. Tinha esperanças de que pararia de fugir em breve. Nem era uma esperança e sim um pressentimento que lhe dizia que ou ela voltaria para casa ou morreria e, sinceramente, a última opção já não era mais tão assustadora. Ela havia chegado ao seu limite, essa era a realidade.
***
A noite estava movimentada, muita gente entrando e saindo do London, estava realmente uma loucura. Sage tinha prática, sabia exatamente como lidar com o público e sempre era muito simpática com todos o que lhe rendera muitas gorjetas. Simon estava satisfeito com seu trabalho e Mary Elisabeth feliz por finalmente ter ajuda, mas era apenas isso. Sage era fechada, não falava muito apenas trabalhava, o que começou a gerar especulações sobre a recém-chegada. Com um sorriso lindo, ela começou a chamar a atenção de alguns clientes que chegaram a dar seus números de telefone para ela, mal sabiam eles que Sage nunca ligaria, não procurava relacionamentos, muito menos aventuras. Entre tantos clientes encantados com aquele sorriso havia um em especial sentado no cantinho dos mafiosos como ela mesma havia apelidado o lugar perto da janela. O chinês azarado, com a semana terrível, não tirava os olhos de Sage desde que chegou no London e ela podia sentir isso. Toda vez que passava perto da mesa de Godfrey ele sorria de um jeito diferente, ou tentava chamar a atenção da garçonete, mas ela não retribuía. O chinês tinha a impressão de que ela estava focada em seu trabalho, mas a verdade era que ela havia notado os olhares, apenas não os retribuía. Sage aprendera a fazer a desconexão entre seus sentimentos e suas expressões faciais e agradecia por essa habilidade. Após anos dissimulando o sofrimento, a vergonha, a confusão, a humilhação e o medo, ela podia caminhar indiferente, a fachada imperturbável quase destituída de vida a não ser, claro, quando pensava no motivo de sua fuga. Quando pensava naqueles olhos azuis frios Sage era viva, e como!
***
Já passava da 1h00 da manhã quando o último cliente saiu. Sage estava cansada, estava desacostumada a atender tanta gente, mas valeu a pena. O bolso cheio de gorjetas lhe garantia uma boa compra no supermercado já que sua geladeira parecia um deserto gelado. O London finalmente estava vazio exceto pelos amigos de Simon que praticamente moravam naquele lugar. Sage não prestava atenção neles, apenas descobriu que Mary Elisabeth era noiva de um dos “mafiosos”.
“Você foi um sucesso essa noite!”
Mary Elisabeth tentava puxar uma conversa com Sage, parte era para tentar fazê-la interagir com os outros e parte por curiosidade já que ela não dizia nada.
“Muita gente gera muito dinheiro, isso é bom.”
Apesar do sorriso simpático, Sage nem ao menos olhou para Mary Elisabeth, dobrar toalhas parecia ser mais importante do que conversar com qualquer um ali. Podia até parecer antipatia, mas a verdade era que Sage não queria fazer amizade com ninguém. Amigos eram responsabilidades e isso ela não podia ter, principalmente porque poderia coloca-los em perigo exatamente como aconteceu com Andrés.
“Mas não só com os clientes... tem gente que está de olho em você.”
Mary Elisabeth, pelo que Sage havia entendido, era divorciada e estava recomeçando a vida. Ela não tinha filhos, mas precisava se virar já que não queria voltar para casa dos pais. Mary Elisabeth trabalhava no London já fazia algum tempo quando conheceu Matthew, amigo de Simon, e começaram a namorar.
“Não quer saber quem é que está de olho em você?”
Não, Sage não queria saber, não tinha interesse algum nisso, mas se desse essa resposta ficaria conhecida como a pessoa mais antipática do mundo. Pacientemente Sage colocou as toalhas dobradas sobre o balcão e olhou para Mary Elisabeth com um sorriso no rosto.
“Me diz, quem está de olho em mim?”
“God.”
“God?”
A garçonete sorria como uma criança arteira enquanto assentia com a cabeça. Ela estava tão empolgada, parecia determinada a ser um tipo de cupido. Sage lambeu os lábios e a olhou de canto sem entender nada.
“Quem diabos é God?”
“O chinês amigo do Simon e do Matt.”
Sage negou com a cabeça e não pôde evitar rir. Ela mal havia chegado em Vancouver, mal tinha conseguido um emprego e já estava sendo alvo de algum tipo de pegadinha. Ela detestava acabar com os sonhos de Mary Elisabeth, mas realmente não estava interessada.
“Sage, pode vir aqui, por favor?”
Como um milagre Simon interrompeu aquela conversa constrangedora. Sage sorriu para Mary Elisabeth e sem demora foi até o cantinho dos mafiosos onde estava o chefe sentado com os amigos.
“Você foi muito bem hoje. Não esperava tudo isso de você, parabéns. Mas não resolvemos como quer seu pagamento. Vai ser semanal ou mensal?”
Maldita informação dada por Mary Elisabeth. Por culpa dela Sage percebeu que enquanto Simon falava ela estava sendo analisada, não pelo dono do pub e sim pelo chinês. Ela olhou de canto de olho para ele e notou que ele sorria enquanto bebia seu whiskey. Aquilo desviou sua atenção até que ouviu Simon a chamando de novo.
“Sage?”
“Claro... o pagamento.... semanal... prefiro que me pague semanalmente, é mais fácil para mim.”
“Então eu já te pago no sábado, está bem?”
“Ótimo... mais alguma coisa?”
“Já terminou tudo?”
“Sim, dobrei as toalhas, ajeitei as bandejas e ajudei Erik com as mesas.”
“Eficiente! Gostei mesmo de você... pode ir pra casa, vá descansar.”
O chinês ainda a olhava e isso fez com que Sage tivesse um mau pressentimento.
Tentando A Sorte
Os olhos de Godfrey acompanharam Sage enquanto ela ia em direção ao bar para terminar seu serviço.
“Qual é, God! Mal levou um fora e já quer arrumar outro problema?”
Simon não era burro, sabia que Godfrey era apaixonado por Tulisa já fazia um bom tempo e, se ele estava de olho em Sage era apenas pelo quesito vingança. Mas dessa vez, apenas dessa vez, talvez Simon estivesse errado. Não, o chinês não havia deixado de gostar da ex e muito menos esperava que as memorias fossem apagadas só por causa do sorriso de Sage, mas havia algo nela que era diferente, que ele nunca tinha visto antes e isso despertou sua curiosidade. O que Sage tinha era algo mais comum do que ele pudesse imaginar e que se soubesse, talvez, fugisse de volta para China.
“Quem mandou contratar uma garçonete bonita?”
“Sério, não faz essa menina ir embora ela é boa; o pessoal gostou dela.”
“O que acha que eu vou fazer?”
“Não sei, talvez conquista-la e depois dar o fora para ficar com a Tulisa.”
Godfrey riu dessa resposta absurda de Simon.
“Meu amigo, nunca vai acontecer, essa garota morreu para mim, não quero nada com ela. O que eu quero é conhecer essa tal Sage.”
Isso era um pouco estranho, ainda mais vindo de alguém que tinha acabado de perder um amor. Mas desde que Sage disse sobre aceitar o amor que achava merecer, Godfrey ficou pensativo, queria mesmo entender aquele ponto de vista, por que ele achava que merecia tão pouco? Mais um gole para terminar o whiskey e Godfrey viu Sage sair. Ela se despediu dos outros garçons e acenou para Simon. O chinês não esperou muito, jogou o dinheiro na mesa e se levantou pegando a jaqueta.
“Aonde você vai?”
“Preciso falar com ela, Simon.”
O dono do pub balançou a cabeça em negação imaginando que logo teria que contratar outra garçonete. O chinês estava empenhado, quem sabe uma conversa com Sage mudaria sua sorte?
***
Já era quase 2h00 da manhã e Sage andava um tanto apressada pelas ruas de Vancouver. Fazia frio e a cada respiração podia-se ver a fumaça saindo de sua boca. Lembrou-se dos invernos em Manacor o que remetia ao Natal que estava próximo. Fazia quatro anos que não comemorava o Natal, nem Ano Novo, nem aniversário, nem data nenhuma, tudo culpa do seu mau julgamento que foi se apaixonar por um gringo de olhos azuis que ficou obcecado pela espanhola e resolveu que, se ele não pudesse tê-la ninguém mais poderia ter. Sage sentiu ódio de si mesma, tanto que pensou seriamente em se jogar na frente do ônibus que passava.
“Não vale a pena, fugi tanto tempo pra me manter viva!”.
Pensamentos desse tipo estavam em sua cabeça ultimamente. Sage estava cansada e a ponto de se entregar a qualquer coisa, mas sua família ainda a mantinha em pé. Virou a esquina ainda com os pensamentos em Manacor quando uma Maserati prata parou ao seu lado. O coração de Sage quase saiu pela boca e a lembrança do carro cinza quatro anos atrás correndo pela rua perto do estúdio de dança acertando Andrés em cheio a deixou tonta. A espanhola cambaleou tendo que se apoiar no muro. Sua primeira reação depois do susto foi querer fugir, mas então notou que do carro não saiu o gringo de olhos azuis e sim Godfrey com uma expressão preocupada.
“Está tudo bem? Eu te assustei?”
Sage fechou os olhos brevemente e respirou fundo se recompondo tentando parecer normal.
“Eu estava distraída.”
“Me desculpe, eu realmente não queria te assustar.”
Com a velha gentileza oriental, Godfrey segurou os ombros de Sage esperando que ela se acalmasse. Ele realmente não tinha ideia do que aquele momento a fez lembrar...
*** Era um dia lindo em Manacor, as pessoas estavam nas ruas porque era verão e as férias estavam chegando. Sage — antes conhecida como Liraz — saía da universidade com seu melhor amigo Andrés, que como ela, cursava artes. Eles brincavam planejando as férias e enquanto Andrés atravessava a rua, um carro cinza apareceu em alta velocidade atingindo Andrés em cheio. O carro não parou para socorrer. Sage correu até o amigo e o viu cheio de sangue, a respiração entrecortada, e quando olhou para esquina notou que dentro do carro estava o gringo. Com os olhos azuis brilhando ele sorriu sarcástico acelerando o carro sumindo ao virar a esquina. As últimas palavras que disse para seu melhor amigo foram: me perdoe. ***
“Está tudo bem, eu estava distraída e o cansaço também me consumiu, eu não estava prestando atenção.”
O chinês sorriu assentindo com a cabeça e naquele momento Sage notou que, perto dela, ele era um gigante.
“Eu te levo em casa.”
E lá vamos nós. Várias vezes pessoas se ofereceram para leva-la para casa, o problema era que quanto menos pessoas soubessem onde ela morava, melhor. Mas aquele dilema sempre a corroía e a impedia de ser gentil, mas o que tornava a situação ainda pior pela simples informação que Mary Elisabeth lhe dera no pub. Sage considerava muita coisa naquele momento, mas estava exausta e teria que caminhar ainda algumas quadras. Ela mordeu o lábio com um ar pensativo, olhou em volta e suspirou voltando a olhar para o chinês.
“Tudo bem, eu aceito a carona, mas só hoje!”
O tom era de brincadeira, mas queria deixar claro que não aceitaria mais caronas de Godfrey, não porque o achasse antipático, mas porque não queria envolve-lo em nenhum tipo de drama. Sage olhou de um lado para o outro de uma forma um tanto suspeita e assim que o chinês abriu a porta do lado do passageiro; a espanhola entrou rapidamente. Godfrey achou um pouco estranho, mas não questionou, apenas imaginou que ela estava realmente cansada, louca para ir para casa.
“Então, para onde vamos?”
“Não muito longe, Granville Street.”
“Realmente é perto, mas andando te cansaria mais com certeza.”
Aquela conversa fiada já não interessava mais Sage, ela já havia passado por isso várias e várias vezes. Ela apenas sorriu assentindo com a cabeça e olhou pela janela. Godfrey então a olhou notando que ela mordia o lábio inferior, de alguma maneira aquilo o fez sorrir e sua curiosidade aumentar.
“Não fomos formalmente apresentados. Me chamo Godfrey, mas meus amigos me chamam de God.”
“God... tipo Deus?” Sage perguntou franzindo o cenho enquanto Godfrey ria.
“Pode me chamar assim se quiser.”
Agora uma das sobrancelhas de Sage estava erguida. Com certeza não iria chama-lo de Deus.
“Qual o seu sobrenome mesmo?”
“Gao.”
“Então é assim que eu vou te chamar: Gao.”
Aquilo foi um tiro no nada, Godfrey quis agradar, encantar com o charme que lhe era um dom natural, mas acabou criando um desconforto.
“Qual seu nome mesmo?”
Ele tentou novamente.
“Liraz Sage.”
“E de onde você....”
Antes mesmo que Godfrey pudesse terminar sua pergunta Sage o interrompeu.
“Sou de Manacor na Espanha San Juan em Porto Rico, e meu prédio é logo ali.”
Ouch! Doeu. Foi um corte direto e reto, sem aviso prévio e sem enrolação. Godfrey parou o carro em frente ao prédio e Sage o olhou.
“Gracias pela carona.”
Sage sorriu e aquele sorriso fez com que Godfrey esquecesse o fora. Rapidamente a morena abriu a porta do carro e sem ao menos olhar para trás, entrou no prédio. O chinês ficou ali por alguns minutos e não soube bem o que aconteceu, mas sabia que fugir daquele jeito ela não iria. Seus dias de fossa passaram a ser dias de caça!
O Pesadelo
“É difícil entender que as coisas não podem ser assim? Por que você fez o que fez?”
“Eu disse que não estava de brincadeira, Liraz. Eu disse que as coisas ficariam feias se você não se acalmasse e pensasse direito sobre a gente.”
“Por que você não entende que não existe mais a gente?”
E com essa pergunta Drake sorriu de canto de um jeito totalmente perverso, se aproximou de Sage e sussurrou entre os dentes a olhando nos olhos.
“Você é minha.”
Os olhos azuis e frios do gringo com aquele brilho assustador fizeram com que Sage acordasse de repente se debatendo na cama. A respiração pesada, entrecortada, fazia com que ela tremesse. O susto e o medo dele tê-la encontrado não a deixavam em paz nesses últimos anos. Mais uma vez o cansaço bateu e ela quis correr dali, se mostrar e se entregar para Drake de uma vez para que pudesse parar de fugir. Naquele momento precisava de seus amigos e principalmente de sua família. Pensou em ligar como sempre fazia de tempos em tempos para que eles soubessem que ela estava bem. O problema nessas ligações é que ela nunca falava nada, apenas ouvia a voz de sua mãe e de seu pai as vezes.
Sage saiu da cama ainda trêmula e foi até a cozinha beber um pouco d’água. O apartamento pequeno estava todo aceso. Precaução. Que vida era aquela? Quanto mais o tempo passava, menos as coisas faziam sentido, mas então ela se lembrava das ameaças. Fugir era o que lhe restava, não queria que nada ruim acontecesse com sua família. Já recomposta, Sage voltou para o quarto, checou a hora e ainda era madrugada, mas depois daquele pesadelo terrível ela não conseguia mais dormir. Pegou sua mochila e se sentou na cama enquanto a revirava. Achou seu diário e respirou fundo tendo em mãos os registros de suas lembranças boas e ruins. Parece algo da idade da pedra, mas manter um notebook poderia ser perigoso. Hackers por todos os lugares. O silêncio a estava matando e por conta disso ligou a TV para lhe fazer companhia. Que vida triste. Sage achava que nem o mais solitário dos homens se encontrava nessa situação deplorável.
Papo de Homem
A rotina de Godfrey era um tanto exaustiva, mas uma coisa ele não dispensava: a academia, afinal seu corpo era seu meio de vida já que ele era modelo, mas a academia também era um meio de aliviar o stress. Entre um exercício e outro, ele e Simon conversavam sobre a vida, e aquele dia os dois tinham um assunto pendente.
Era 8h00 da manhã quando Simon entrou na academia procurando pelo chinês e não demorou a encontra-lo.
“Hey God!
“Simon! Como é que vai?”
Os amigos se cumprimentaram enquanto se preparavam para correr na esteira. Uma conversa casual se iniciou até que Simon chegou no assunto que queria.
“E então, God? Conseguiu o objetivo?”
“Como assim?”
“Oras, você foi atrás da Sage depois que ela saiu. Conseguiu um convite para uma conversa mais íntima?”
O chinês quase perdeu o equilíbrio enquanto corria na esteira. Raramente levava um não, e quando levava não se apegava a detalhes, partia para a próxima. Ele era bem da linha ‘se não quer tem quem queira’, mas algo em Sage o deixou interessado, um pouco mais do que deveria.
“Simon... sua funcionária está intacta e eu nem ao menos consegui falar com ela direito.”
“Como assim?”
Era difícil admitir, pois dessa vez Godfrey havia perdido feio uma batalha. Mas pelo interesse repentino em Sage, resolveu não inventar nenhuma história. Ele finalmente parou de correr desligando a esteira.
“Eu a encontrei no meio do caminho e depois de insistir muito ela aceitou minha carona. Falou pouco, nem me olhou direito, e quando cheguei no prédio onde ela mora, ela simplesmente disse obrigada e saiu fugindo.”
“Fugindo?”
Simon parou de correr também e começou a ficar realmente interessado na história de Godfrey.
“Será que minha nova funcionária está metida em algo ilegal?”
“Não faço a menor ideia, mas vou descobrir.”
“E como vai fazer isso?”
“Não sei ao certo, mas acho que tenho uma ideia.”
O sorriso do chinês era do tipo enigmático, e disposto a realmente descobrir o que Sage escondia.
Surpresa
As horas daquele dia não passavam. Mais e mais Sage se sentia presa apesar de livre. O gringo a havia condenado a uma prisão pior do que se estivesse realmente encarcerada. Impacientemente, após olhar o relógio pela milésima vez, se deu conta de que já era hora de ir para o trabalho. Sem muita pressa, Sage pegou suas coisas e saiu trancando bem o apartamento. Não queria arriscar. Desceu as escadas evitando uma conversa com uma vizinha e assim que colocou os pés na rua se surpreendeu com o que viu.
“Hey!”
Godfrey a esperava encostado no carro com um saco marrom em uma das mãos e um copo na outra. Sage ficou parada por alguns segundos digerindo o que estava acontecendo, até que a curiosidade bateu.
“O que faz aqui?”
“Bom... eu te trouxe um lanchinho da tarde, um reforço para a noite de hoje já que estamos no sábado, o dia da loucura no London.”
“Sério isso?”
O chinês assentiu com a cabeça e se aproximou de Sage.
“Trouxe pão de canela e um mocaccino. Hoje o dia está frio.”
Era verdade, o inverno estava ficando mais intenso e Vancouver castigava no frio. Uma bebida quente não faria mal. E o pão de canela? O que aquele chinês era? Vidente? Aquele lanchinho era exatamente o que Sage costumava comer quando saía das aulas de dança, era como um ritual. Fazia tempo que ela não pensava nisso e sem notar esboçou um sorriso.
“Acho que esse sorriso diz que aprovou minha surpresa, hm?”
Sage o olhou e mordeu o lábio sem saber o que dizer. Por que do nada esse chinês resolveu notá-la?
“Sim, eu aprovei... obrigada.”
Como um coelhinho assustado, Sage pegou o copo e o saco de papel marrom das mãos de Godfrey. Ele sorriu vendo o jeito tímido e até um pouco manhoso dela, tão diferente da noite anterior.
“E eu vim também para te levar para o London.”
Muita coisa ao mesmo tempo. Por anos Sage havia conseguido ser invisível e acreditou realmente que em um dos países mais neutros do mundo continuaria dessa forma. Muita coisa realmente.
“E então?” Godfrey abriu a porta do carro “Podemos ir?”
Um pouco hesitante Sage assentiu com a cabeça e devagar entrou na Maserati prata. ‘Isso é loucura, você não pode se expor assim!’, e não podia mesmo! E se o gringo a encontrasse novamente? E se ele fizesse novamente o que fez em Manacor? Ela sabia que por mais que dissessem que a culpa não era dela, eles a culpavam por não ter protegido Andrés como deveria. Novamente aqueles pensamentos a faziam sair da realidade e Godfrey notou que havia algo errado.
“Está tudo bem?”
“Sim.” Sage respondeu rapidamente enquanto abria o saco de papel “Só uma leve dor de cabeça, mais nada.”
O chinês não disse nada, apenas assentiu com a cabeça dando partida no carro. Alguns segundos dirigindo e aquele silêncio ensurdecedor apareceu. Godfrey não sabia o que dizer e Sage; estava distraída bebendo seu moca e comendo seu pão de canela. Tantas lembranças. Tantas memórias interrompidas.
“Eu costumava comer isso depois das aulas de ballet.”
Aquilo foi repentino, uma pequena parte do mistério revelado sem ao menos uma pergunta.
“Você é bailarina?”
“Era em M... em San Juan.”
E uma enorme mordida no pão de canela foi dada para disfarçar o erro quase cometido. Godfrey sorriu e a olhou rapidamente.
“O pão de canela está bom?”
Sage assentiu com a cabeça e continuou comendo. Não disse mais nada, seguiu o caminho calada e Godfrey não insistiu, decidiu ter outra tática para que ela confiasse nele e respeitou seu espaço.
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