POV Elizabeth

Frio. Está muito frio.

Encolho as pernas e puxo o cobertor. Ele é tão macio. Escuto a porta se abrir e segundos depois, a luz do sol invade o quarto, batendo no meu rosto. Puxo o cobertor e me cubro completamente.

– Hora de se levantar, senhora. – escuto a voz de uma das criadas.

– Não, hoje não. – reclamo.

– Precisa estar presente. – o cobertor é puxado de mim e o frio me atinge. – Hoje, a senhorita vai assumir tudo.

Elas puxam minhas pernas e depois meus braços, fazendo com que eu seja forçada a sair da cama.

– Por que não vai tomando banho enquanto arrumamos o quarto e preparamos suas roupas, hein? – a mais velha delas, Lena, sorri. Concordo e me arrasto para o banheiro.

O banheiro já estava quente e abafado pelo vapor quando entrei. Fechei a porta atrás de mim, tirei o pijama e abri o chuveiro, entrando em seguida.

Quando saí do banheiro enrolada em um roupão, o quarto já estava devidamente aquecido e Lena me sentou em frente à penteadeira. Ela secou meus cabelos e começou a escová-los, quando Ava chegou com meu café. Assim que o terminei começaram a me maquiar. Hora de parecer uma boneca.

A maquiagem destacava tanto o meu rosto, que eu não reconhecia quando me olhava no espelho. Não sei o que elas passavam no meu cabelo, porque ele ficava castanho ao invés de ruivo, além de ficar mais curto de o normal, já que normalmente ele ia até minha cintura. Eu mudava completamente.

Meu nome é Elizabeth. Fiz 16 anos a duas semanas e hoje vou receber o que meu tio chama de presente, mas, na verdade, nenhum de nós dois tinha o direito de possuir: poder.

Minhas criadas me ajudam a levantar e solto um suspiro de cansaço, que é interrompido pela falta de ar. O vestido azul é muito justo na cintura. Ele ia até o chão e as mangas iam até o cotovelo. O decote era tão forçado que os seios que eu mal tinha, apareciam.

– Está linda! – Lena sorri.

Forço um sorriso e agradeço, saindo do quarto. Desço as escadas e noto que eu era a única que faltava. A esposa do meu tio me lança um olhar de desdém e se afasta. Ele se aproxima.

– Como se sente? – ele sorri animado.

– Nervosa. – respondo. – Não sei se estou pronta...

– Claro que está!

– Mas a Ellen não concorda, não é?

Ele suspira e passa as mãos no rosto. Pela primeira vez reparo no quão velho e cansado ele está. Anthony sempre aparentou ser bem mais novo do que é. Conforme me acostumava com sua presença, eu achava que ele estava na faixa dos 30, quando na verdade, estava próximo dos 50. Não lembro muito do meu pai, a não ser por fotos, mas eles são bem parecidos.

– Ellen não quer deixar o poder e abrir mão do privilégio de ser a primeira-dama de um país... – ele me encara e balança a cabeça.

– Correção: primeira-dama mundial. – sorrio ironicamente e ele fica sério.

– Não comece. – ele adverte. – Não aqui, não agora.

Me desculpo e ele se afasta para conferir se tudo está pronto para o anúncio.

– Aposto que está adorando isso. – Ellen praticamente brota do meu lado.

– Estou amando. – ela não parece ter notado meu sarcasmo, porque a vejo fechar as mãos com força. – Isso é exatamente o que quero. Quero que você me soque bem na frente dessa gente, porque aí finalmente teremos um motivo para trancá-la pelo resto da vida em uma das selas nojentas do Centro Humanitário Ilegal.

– Eu vou acabar com você! – ela sorri quando um fotógrafo aparece em nossa frente.

– Até lá, querida, eu já terei esmagado você. – sorrio e beijo sua bochecha, me afastando em seguida. Consigo sentir seu ódio, o que me deixa com a sensação de missão cumprida.

Fico com meu tio ao lado do palco, onde a transmissão acabou de começar. O apresentador (nunca me lembro do seu nome) começa e é aí que começo a tremer.

– Este é um aviso presidencial. – ele sorri o seu sorriso de “Estou sendo forçado a estar aqui às 8h da manhã”. – Bom dia! Hoje teremos o anúncio mais importante da semana. Chamo nosso presidente, Anthony Briand, e sua sobrinha, Elizabeth Briand.

Então meu tio entrelaça nossos braços e subimos ao palco. Já estou tão acostumada que nem noto o sorriso no meu rosto. Meu tio começa a falar várias coisas das quais não presto atenção. Quando noto que ele começou a falar das guerras, eu volto ao meu modo “ativo”.

–... Quando meu avô assumiu o poder e interferiu nos cursos da guerra, fazendo com que a Quarta Guerra Mundial acabasse antes de atingir o seu auge, ele conseguiu garantir um futuro para a humanidade. Assim, por anos, seu poder foi passado para o meu pai, em seguida para o meu irmão, mas com seu acidente, o poder veio à mim de maneira inesperada. Hoje, depois de quase 10 anos no comando, quero informar que dentro de uma semana, o poder será oficialmente passado para minha sobrinha, que deveria tê-lo assumido há muito tempo...

Não presto atenção no que ele fala depois, porque consigo sair dali antes que ele termine. Não vou ficar assistindo o que vai dar começo ao fim da minha vida, porque tudo que sai da boca de Anthony na frente de todo o país, não passa de uma grande mentira.

Não faço parte de uma família que tem o poder, o controle do mundo nas mãos. Faço parte de uma família de assassinos.