Bring Me Back To Reality.
3 Capítulo 3: Sem Saída.
Notas iniciais
Afastei-me vagarosamente do balcão e sentei-me no sofá, apoiando a cabeça nos joelhos. Senti as mãos grandes e quentes de Oliver abraçando minha cintura.
– Quando esse inferno vai acabar Oliver? Quando? – perguntei atônita. Embora eu tiver certeza de que meu rosto estava congelado em choque e embora um grito estrondoso estivesse preso em minha garganta, eu não iria chorar. Eu já havia cansado de ficar com medo.
– Você está bem? – Oliver perguntou com a voz aveludada e carinhosa que sempre usava comigo quando eu estava em algum momento de fragilidade. Como se a voz dele pudesse me quebrar.
– Sim, estou. – levantei-me, escapando de seu abraço. – Vamos à delegacia? Esse desgraçado não pode escapar dessa vez. – eu estava determinada.
Oliver me olhou por um momento, parecendo querer entender a minha reação e depois levantou com a mesma determinação que eu ostentava.
– Vamos.
Fomos trocar de roupa. Era quase madrugada e estava extremamente frio lá fora. Teríamos de ir a pé e não parecia que ia parar de nevar tão cedo então precisávamos nos aquecer o máximo possível.
– Pronto? – Oliver perguntou escondendo seus cachos em um gorro azul.
– Pronto. – eu disse, colocando meu gorro preto.
Oliver pegou as chaves e colocou cuidadosamente o pacote dentro de um saco de lixo. Ele estava com uma careta de nojo e estremeceu quando amarrou o saco e jogou dentro de sua mochila.
Saí, tomando cuidado para ficar bem distante da mochila e esperei que ele trancasse a porta.
O silêncio tomava conta do prédio. Fomos até o elevador lentamente, procurando não fazer barulho nenhum, como se Derek fosse sair de qualquer apartamento com seu facão e nos atacar. Inevitavelmente lembrei-me de meu sonho com Helena, em que ela estava morta no quarto dos meus pais e a mesma frase do bilhete estava escrita na parede. Senti um arrepio subindo-me pela espinha. Como ele poderia saber?
O elevador chegou e a porta se abriu.
Havia um homem com um casaco preto com a gola levantada cobrindo-lhe a face.
– Boa noite. – eu disse.
Oliver me olhou com a sobrancelha arqueada.
– O quê? – perguntou.
– Estou dando boa noite ao homem. – respondi em um sussurro, para que o homem de casaco não ouvisse.
– Sarah, não há ninguém além de nós nesse elevador.
Olhei novamente para a figura de preto no canto do elevador.
Ele girou a cabeça lentamente para que eu pudesse ver seu rosto.
Seu rosto completamente desfigurado.
E então seu rosto estava refletido em todos os espelhos do elevador. Meus olhos procuravam um ponto fixo e limpo para parar e olhar, mas ele estava em todos os lugares.
Fixei-me no rosto preocupado de Oliver. Seus belos olhos castanhos amarelados, os pequenos cachos loiros que estavam para fora do gorro, sua boca bem desenhada e avermelhada, a barba que crescia em seu queixo, a ruga em sua testa vincada de preocupação. Seu belo rosto ajudou-me a me distrair, embora o homem de rosto desfigurado estivesse logo atrás de seu ombro, como uma sombra.
Depois de um tempo que se estendeu em demasia, o elevador parou no térreo. Oliver me puxou para fora do elevador. Uma última olhada para trás. O homem sorriu e acenou e então, o elevador se fechou.
Oliver segurou meu rosto em suas mãos, puxando para que eu o olhasse.
– O que você viu? – perguntou-me.
– Um homem.
–Sim. E como ele era?
– No começo ele estava com um casaco preto, cobrindo o rosto, mas depois ele se virou e o rosto dele estava completamente desfigurado.
– Ele se parecia com o Derek?
– Eu não sei, eu, eu acho que não.
– Tem certeza?
– Eu não sei Oliver!
– Está bem, está bem. – ele me abraçou. – Desculpa te pressionar assim, mas eu fico nervoso com você, amore mio!
– Tudo bem, eu sei que você só quer me ajudar. Agora, vamos logo à delegacia pelo amor de Deus?
– Vamos.
Saímos ás pressas, despertando o vigia do turno da noite que dormia em frente ao computador.
Andamos o mais rápido possível pelas ruas de San Diego. A delegacia mais próxima ficava á quarenta minutos de casa. Chegar até lá, naquele frio cortante, andando o mais rápido que podíamos e com cuidado para não escorregar na neve fazia o ar de meus pulmões sair fazendo um caminho que mais parecia fogo do que oxigênio.
Chegamos ao prédio e suspiramos quando entramos e o ar se tornou mais quente por conta do aquecedor. Tiramos os casacos e fomos até o policial mais próximo.
– Queremos fazer uma denúncia. – anunciei.
O homem negro de aparentemente trinta e poucos anos me olhou debochado.
– Ok. E o que dois adolescentes gostariam de denunciar?
– Isso. – Oliver disse, pegando o saco de lixo e tirando de dentro dele o pacote.
– O que é isso? – um ligeiro interesse passou pelos olhos do policial.
– Estávamos indo dormir quando ouvimos uma batida na porta. Atendi e tudo o que havia era o pacote.
O policial abriu o pacote e ele não pôde conter o horror em seus olhos cor de avelã. Ele levantou a cabeça e nos olhou muitíssimo sério.
– O delegado irá vê-los.
Assenti, segurando a mão de Oliver.
Fomos levados até a pequena sala do delegado. Em sua mesa havia uma placa identificando como Delegado John Monroe. Um copo de café expresso repousava na mesa junto com uma pilha de arquivos.
– Sentem-se, por favor. – ele disse. Seu tom era autoritário e um tanto apressado, como se quisesse que fôssemos embora logo.
– Bem, viemos fazer uma denúncia. – Oliver disse com a voz firme.
– E qual é a sua denúncia, filho?
– Bom, estávamos prestes á dormir hoje quando ouvimos a campainha tocando. Olhei pelo olho-mágico e não vi nada então abri a porta e encontrei apenas o pacote. – ele depositou o pacote em cima da mesa.
O delegado levantou uma sobrancelha, desconfiado. Ele abriu o pacote rapidamente e o choque congelou-o por um breve momento.
Limpou a garganta.
– Vocês tem alguma ideia de quem possa ter feito isso? – um homem no canto da sala digitava tudo desde quando Oliver comunicara que tínhamos ido fazer uma denúncia.
– Na verdade, temos um suspeito. Derek.
– Perdão filho, não me recordo dos nomes de todos os criminosos. Pode especificar esse tal de Derek?
– Ele sequestrou meu namorado — apontei para Oliver. – e minha prima á dois meses.
– Ah sim, você é a Srta. Jackman, não é?
– Sim.
– Ah sim... E por que vocês suspeitam dele?
– Ele costumava ameaçá-la, mas ela nunca fez uma denúncia. – Oliver disse, apertando minha mão.
– Posso perguntar o motivo, Srta?
– Bom, obviamente na época eu não sabia que era ele, ele se autointitulava por “Anjo da Morte”. Eu tinha medo de sair de casa para fazer uma denúncia e meus parentes nunca chegaram á saber, então ficou por isso mesmo.
– Entendi. – o delegado disse. – Bem, nós iremos investigar. Faremos uma análise para saber de quem são estes olhos e vamos continuar na busca por Derek. Sugiro que vocês voltem para casa e se sentirem ameaçados podem nos ligar que mandaremos uma escolta policial.
– Ok. – eu disse.
Assinamos alguns papéis e saímos. Colocamos os casacos. Eram 2:00 AM e as ruas estavam muito escuras. Oliver passou um braço pela minha cintura e me olhou por uma fração de segundo de um modo estranho que não pude entender.
Começamos á fazer o caminho de volta para casa.
...
Tínhamos andado apenas uma quadra e eu estava morrendo de frio e cansada. Sentia como se minhas pernas fossem paralisar por conta do frio e temi que quando eu tirasse as botas e as meias, descobrisse dez dedos dos pés completamente pretos e necrosados.
Ouvi uma buzina ao nosso lado. Eu e Oliver olhamos para o carro ao mesmo tempo.
– Ei, o que os pombinhos estão fazendo aí no frio? Olhe Oliver, você pode ter o fetiche que for, mas não mate a minha prima de hipotermia! – disse Helena de dentro de um Opala 94 preto.
– Helena! Onde você arranjou esse carro? – perguntei.
– Cala a boca e entra logo, garota! Você também, loirinho.
Entramos no carro.
– É um prazer ver você também, Helena.
– Oi, Rainha! – Laila disse do banco da frente. Seu cabelo estava turquesa e ela parecia ter colocado alongamentos capilares, pois seus cabelos estavam um pouco abaixo da cintura, como os meus.
– Oi, Laila. – Oliver disse.
– O que vocês estão fazendo andando pelas ruas gélidas de San Diego á essa hora da madrugada? – Helena perguntou, aumentando o volume do rádio para que Radioative do Imagine Dragons tocasse mais alto.
– Estávamos na delegacia. – respondi.
– Por que...?
– Derek. – Oliver disse.
Helena freou bruscamente, quase fazendo eu e Oliver colidirmos com os assentos da frente.
– O que tem o Derek? – perguntou, olhando para mim pelo retrovisor com um olhar feroz. Ela ainda não havia se esquecido dele.
– Ele deixou um bilhete perturbador na porta do nosso apartamento.
– O que dizia o bilhete?
– “Olhos azuis, olhos azuis, por que tão cheios de morte?” – recitei.
– E junto havia um belo par de glóbulos oculares azuis. – Oliver disse.
Helena fechou os olhos e engoliu em seco. Olhou para Laila, suspirou e acelerou o carro, saindo do meio da rua.
– É, e vocês? O que estão fazendo andando de carro á essa hora da madrugada? – perguntei.
– Não conseguimos dormir e resolvemos dar uma volta de carro. – Laila disse.
– Ah claro, quem não faz isso, não é? – respondi sarcástica.
– Os que não têm carro? – replicou.
– E os que não são maiores de 16. – Oliver acrescentou.
– Na verdade não é bem assim. Alguém que não é maior de 16 pode pegar um carro emprestado de N pessoas por N motivos. – repliquei.
– Por favor! É sério que vocês estão discutindo isso?! – Helena interviu claramente alterada. Acho que ter dito que Derek tinha dado as caras não fora algo muito inteligente.
– E é sério que você está á mais de 120 km por hora? – Oliver disse.
Helena foi desacelerando o carro ainda com as mãos firmes no volante e parecendo um tanto pálida.
– Quer que eu dirija Lena? – Laila perguntou colocando a mão encima da de minha prima.
Helena assentiu encostando o carro. Ela e Laila trocaram de lugar enquanto eu e Oliver nos entreolhávamos com uma interrogação nos rostos.
Laila acelerou e seguimos todos calados enquanto Waiting for a Friend da The Pretty Reckless tocava.
Laila parou em frente ao prédio onde eu e Oliver morávamos dois minutos depois. Despedimos-nos brevemente e Laila pôs algo na mão do meu namorado.
– Só por precaução. – ela disse dando de ombros, mas olhando-o profundamente nos olhos.
Oliver assentiu e guardou o objeto no bolso do casaco, depois pôs a mão na minha cintura e me guiou até o prédio.
– O que ela te deu? – perguntou.
– Shh. – sussurrou e deu um “oi” ao vigia noturno. – Em casa eu te mostro.
Fomos pelas escadas. Eu não entraria no elevador por um bom tempo.
Abrimos a porta e pude ver Oliver varrendo o local com os olhos.
– Fique aqui. – disse e foi checar o restante dos cômodos.
Voltou e soltou um suspiro pesado.
– Laila me entregou isso, para, você sabe... Casos de emergência. – tirou algo do bolso. Um canivete suíço.
– Ah sim. Bem, faz sentido. – eu disse.
– E, eu estava pensando Sarah... Acho que você deveria ter aulas de algum tipo de luta. Pra você aprender á se defender.
– Entendo. Mas, que luta?
– Bem, existem inúmeros tipos de luta para você escolher. Mas amanhã nós vemos isso, você precisa descansar.
– E você também.
– No meu caso você sabe que não é necessidade, é força do hábito mesmo.
– É verdade. – eu ri.
Fomos para o quarto e trocamos de roupa. Depois de checarmos se tudo estava bem trancado e o alarme ligado, deitamos na cama e tentamos desfrutar de algumas horas de sono tranquilo juntos. Apenas algumas horas de paz, pois, a paz parecia-nos inalcançável.
Mas Derek pagaria dessa vez. Eu não o deixaria escapar-me por entre os dedos de novo.
Dessa vez, ele não teria para onde fugir.
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