Bring Me Back To Reality.
1 Capítulo 1: De Volta Á Nova Vida.
Notas iniciais
O relógio girava na parede branca. Tic, tac, tic,tac.
- Sarah, como você tem se sentido nesses dois meses aqui na nossa clínica? – Dr.Anderson me perguntou não desviando os olhos do caderninho de capa preta.
- Muito bem. – menti. – Aqui é como se as vozes não pudessem me atrapalhar, como se houvesse uma barreira na minha mente. É só que...
- O que?
- Eu sinto falta dos meus pais! – que mentira absurda! – E do meu namorado e da minha prima e dos meus amigos. – Isso era verdade, apesar de minha única amiga ser Laila.
- Eu sei. Estranharia se você não sentisse falta, pensaria que você teria algum problema de afetividade. E, realmente, você tem se comportado muito bem. Vou te fazer uma proposta.
- Uma proposta? – aquilo poderia ser bom.
- Que tal encarnar seu melhor espírito aventureiro e voltar ao mundo lá fora? – finalmente desviou os olhos do maldito caderno e me olhou. Ele estava com todo o ar de quem estava me fazendo um favor. Bom, ele estava mesmo.
- Eu acho que estou preparada.
- Ótimo! – ele parecia se deleitar. – Não se preocupe minha jovem, com a medicação você conseguirá se controlar e poderá viver uma vida normal.
Uma vida normal? Não enquanto eu não achar Derek.
- Obrigada por me ajudar, doutor. Muito obrigada.
Vi um sorriso enorme se formar em seus lábios e enrugar mais ainda seu rosto. Não pude deixar de sorrir de volta.
- Não há de quê, Sarah Jackman. Não há de quê.
A consulta acabou e as pilhas do relógio também. Eu não sentiria saudades do tic, tac.
Andei pelos corredores da clínica. Os corredores horrendos da clínica em cinzas horrível de São Diego jamais se comparariam aos corredores brancos da clínica de São Francisco. Mas ainda assim, era uma clínica psiquiátrica.
Eu não levava chicotadas a todo tempo como na outra clínica e um corpo católico não geria o local. Era apenas mais uma clínica, como qualquer outra. Graças a Deus por isso. Mas a rotina era demasiada monótona na clínica e os instrumentos ainda não possuíam cordas. Não tocar me fazia querer subir pelas paredes.
O local também estava em ótimas condições e não caindo aos pedaços. Esse era um dos pontos importantes.
E também havia a falta dele. A que surrava meu peito todo dia. Eu ainda não havia aprendido a como não precisar dele.
Mas pela primeira vez eu estava feliz. Eu poderia estar em seus braços em breve e eu poderia compor de novo em breve. Não podia ser tão ruim.
Segui para a sala de recriação. Eu fora convidada pela minha enfermeira chamada Jessie para uma sessão de música. Jessie estava fazendo estágio na clínica e seus vinte e dois anos a fazia parecer mais como uma amiga do que uma enfermeira. Mas ela ainda era uma enfermeira.
Edward estava sentado no chão, sozinho. Aquilo era estranho, Edward jamais saía do quarto. Resolvi tentar me aproximar.
- Oi Edward, tudo bem?
- Oi Sarah. – fez sinal para que eu me sentasse, o que eu fiz. O garoto de quinze anos não se parecia com ele mesmo. Edward evitava ao máximo contato e a depressão o engolira. Como ele estava falando?
- Que bom que você saiu do quarto. – eu disse, tentando parecer inofensiva.
- É minha última noite aqui. Meus pais estão se mudando para o Brasil e eu vou ir com eles.
- Que ótimo! Você vai poder conhecer outro país!
- Eu vou ficar internado numa clínica lá. Em Curitiba ou alguma coisa assim.
- Ah sim. Mas não desista, você vai sair da clínica logo.
- Você acha mesmo?
- Acho.
Eu mentia com frequência na clínica.
- Olá pessoal, como estão? – Peter disse quando entrou e ocupou o centro da roda.
Respondemos que estávamos bem como de costume.
- Eu conversei com os outros enfermeiros e resolvemos que não tem problema. Vamos fazer uma coisa diferente hoje. Quem aqui sabe tocar algum instrumento?
Levantei a mão junto com alguns outros.
- O que você toca Sarah? – perguntou-me Peter.
- Violão, guitarra,gaita e ukelele. – respondi.
- Quer tocar um pouco para nós.
Uma faísca se acendeu em mim.
- Sim, eu quero! – respondi prontamente.
- O centro da roda é seu.
Fui ao centro e peguei o violão. Primeiro verifiquei se estava afinado, — mania de violonista – e depois pigarreei um pouco.
- Essa música fui eu que compus e se chama Last Breathe.
I am nothing more a shadow.
I am hiding me in the dark.
I don’t like when you disappears.
I suppose I’m alive.
When you are in your last breathe
I put my mouth in your
And raised you from me
When I am in my last breath
You come and put your mouth in your
Hug me for free
Quando eu terminei recebi os aplausos de todos. Jessie estava sorrindo e me convidou para sentar perto dela quando saí do centro da roda.
- Isso foi lindo! Não sabia que você tocava e cantava tão bem! – ela disse.
- Obrigada. É só o que eu faço desde que sou pequena.
- Você é muito boa nisso. Sentirei saudades de você quando for embora.
Você diz isso porque nunca me viu tendo um ataque. – pensei.
- Eu também vou sentir saudades suas. – mentira.
Outras pessoas se apresentaram. Bella tocou seu violoncelo lindamente, Joshua fez todos nós pularmos tocando guitarra e depois relaxamos com o ukelele de Meg. E então Edward foi ao centro da roda. Sem falar nada ele se sentou no velho piano e começou. Todos estávamos no mais profundo silêncio.
Aquela era a música mais linda que eu já ouvira. Os dedos de Edward faziam uma música suave sair do velho piano de cauda preto e encherem o ar do lugar com uma calmaria que poderia me fazer dormir e ter os melhores sonhos. Eu invejava aquele talento.
Aplaudimos o máximo que conseguimos quando ele terminou. Edward agradeceu acanhado e voltou a se sentar. Estávamos chocados com o que acabávamos de ouvir e não conseguíamos proferir nenhuma palavra.
- Bom. – Peter quebrou o silêncio. – Isso foi lindo demais. Parabéns, Edward. Podem ir, está na hora de dormir.
Fomos para nossos quartos em silêncio. Dei um sorriso á Edward quando passei por ele. Ele apenas assentiu estranho e foi para a ala das crianças. Segui para a ala dos adultos junto com minha colega de quarto, Tabitha. Não dissemos nada, não conversávamos muito.
Dr. Anderson me parou no meio do caminho.
- Sarah. Conversei com seus pais. Você volta amanhã de manhã para a casa. Arrume suas coisas. – disse.
- Obrigada, doutor. Vou arrumar minhas coisas.
- Ok.
Saí e vi que Tabitha estava me esperando na porta do quarto.
- O que ele queria, Sarah? – perguntou-me.
Estava tão concentrada em seus belos traços afrodescendentes que me toquei da pergunta dois segundos depois.
- Eu vou embora amanhã de manhã. – eu disse simplesmente.
- Sarah, isso é ótimo!
- Sim, é.
- Quer ajuda para arrumar suas coisas?
Dei de ombros.
- Se você quiser me ajudar.
- Sim, eu quero. Vamos.
Guardamos minhas coisas. Eram poucas. Tive de encontrar meus pais no saguão para pegar minhas Roupas De Ir Embora. Eles não me pareciam muito felizes. Mas eu não me importei, pois tive a melhor surpresa de todas.
- Oliver! – eu disse e me atirei em seus braços.
- Bella ragazza eu senti tanto a sua falta! – disse e me deu um selinho.
- Ele quer te falar uma coisa. Já concordamos com tudo, só depende de você. – minha mãe disse.
- O que foi amor? – eu disse.
- Eu troquei de emprego assim que saí da clínica e fui para uma das lojas da Hollister. O salário era o suficiente então juntei minhas economias e comprei um apartamento pequeno. Suficiente para duas pessoas então... – deu um sorriso largo.
- Quer que eu vá morar com você?! – eu disse sem fôlego.
- Se você quiser. Você teria que arranjar um emprego, mas...
- É claro que eu quero! – abracei-o.
Eu estava explodindo de felicidade. Eu iria morar com Oliver! Meus pais não pareciam se importar com isso mas eu não ficaria triste.
- Então, amanhã de manhã eu venho te buscar, ok?
- Ok. – eu disse.
Com relutância me despedi deles e depois me despedi de meus pais. Eu estava tão feliz que não conseguia me aguentar.
Deitei a cabeça no travesseiro e sorri. Amanhã seria um ótimo dia.
...
Acordei bem disposta e feliz. Esperei Tabitha sair para eu colocar minha roupa. Vesti a calça de couro, a camiseta das The Donnas, o blusão xadrez verde escuro e a jaqueta de couro junto com os coturnos. Coloquei o gorro e as luvas. O inverno realmente havia chegado.
Fui tomar meu café da manhã. O mingau de aveia não estava muito gostoso, mas era melhor comer do que ficar de barriga vazia. Esperei ansiosamente para que o Dr. Anderson chegasse e me dissesse que eu podia ir embora. Essa hora chegou.
- Sarah, seu namorado está lá fora te esperando. Lembre-se das consultas ao psiquiatra toda semana em sua cidade e de tomar os remédios diariamente para dormir, ok? – me disse com o sorriso que o deixava mais enrugado.
- Ok. Tchau.
- Tchau.
Fui quase correndo para fora e vi a caminhonete cabine dupla de Oliver parada na frente da clínica. A boa caminhonete reconfortante com a pessoa que me trazia alegria.
- Oi amor. – eu disse entrando e jogando a mochila no banco de trás.
- Oi, amore mio. – disse. – Dormiu bem?
- Sabendo que eu vou morar com você como posso dormir mal?
Ele sorriu e me beijou.
- Vamos? – perguntou.
- Vamos. – eu disse animada.
As horas de viagem foram acompanhadas por boa parte da discografia do AC/DC. Perguntei á ele sobre isso e seu argumento foi que “ AC/DC combina com a estrada.”
Dormi grande parte do caminho, sem sonho algum. Eu ainda estava dormindo quando Oliver estacionou e sussurrou no meu ouvido.
- Acorde, amore mio. Chegamos na sua nova casa.
Acordei de imediato e tirei o cinto. Oliver sorriu com a minha pressa. O prédio era até simpático.
Subimos para o décimo quinto andar e abrimos a porta do apartamento 13. Uma sala simpática com uma parede preta me recebera.
- Não repare no tamanho. Isso aqui é minúsculo. – Oliver disse e foi deixar minha mala no quarto.
Explorei um pouco o apartamento. Era realmente minúsculo. Um quarto com uma cama de casal e um guarda-roupa pequeno, uma cozinha, a sala com a parede preta e um banheiro menor ainda. Mas mesmo assim, eu estava morando com o meu namorado. Não tinha coisa melhor.
- O que achou? – Oliver perguntou quando eu abri o guarda-roupa e vi todas as minhas roupas junto com as roupas dele lá. E meu violão servia de decoração na sala.
- É perfeito para nós dois. Quem trouxe as minhas coisas aqui? – fechei o guarda-roupa e sentei-me na cama.
- Seus pais. Foi ontem á noite.
- Ah sim. Onde está Helena?
- Ela e Laila também estão trabalhando. Arranjaram empregos na Starbucks.
- Então eu sou a única vagabunda aqui?
- Não. Você vai estudar em qualquer lugar que você quiser.
- Eu posso dar aulas de violão também. – sugeri.
- Isso! E depois você vai fazer faculdade de música.
- Sim! E você pode fazer de línguas!
- Ou culinária.
- É.
Sorrimos. Nós estávamos sentados em nosso quarto, na nossa casa, decidindo sobre o nosso futuro. Eu nunca havia sonhado com isso.
- Mas, agora, no presente... – ele disse e me olhou malicioso, andando para a cama. – Você não vai me escapar.
- Não vou é? – perguntei tirando a jaqueta e os coturnos.
- Não. –sussurrou no meu ouvido e fez um caminho de beijos até as minhas clavículas.
- Então, eu sou sua. – declarei.
Ele sorriu e tirou a camiseta.
Eu realmente esperava que nós fôssemos felizes ali.
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