Notas iniciais
E aí,estão gostando?Enjoy and Enjoy

Engoli em seco.

– O-os policiais podem me ligar aos assassinatos com isso?

– Eles não sabem que é você. Você não denunciou que estava sendo ameaçada, então esta Sarah escrita na parede é um borrão na história. — Helena disse.

– Mas essa Sarah sou eu.

– Mas ninguém sabe. -ela retorquiu.

– Mas eu sei! – gritei.

Lágrimas rolaram livremente. Oliver me abraçou, me pegou no colo e se sentou no sofá. Chorar estava sendo frequente demais para mim.

– Shh, está tudo bem. — ele sussurrou contra o meu cabelo.

– Quando esse inferno vai acabar? Quando?

Oliver continuou me abraçando. Alguém sussurrou na minha cabeça: ”Nunca.”. Gemi e abracei Oliver, enterrando o rosto em seu peito para sentir o cheiro de seu perfume. Eu deveria estar feliz com ele ali, não deveria?

Helena disse que ia me trazer uma água com açúcar e foi até a cozinha. Oliver continuou me abraçando e sussurrou algumas palavras em italiano. Aquilo me acalmou um pouco.

Helena voltou com a água, que estava cheia de açúcar. Eu nunca tomara e descobri que o gosto de água com açúcar era horrível.

Oliver me levou até o quarto e me deitou na cama.

– Durma, bella raggaza. Eu ficarei aqui com você. — ele se deitou ao meu lado e me abraçou, acariciando meus cabelos. Acabei adormecendo.

O outro sonho foi pior do que o primeiro. Eu não via sua face, mas sentia-o batendo-me com uma barra de ferro. Suas mãos enluvadas seguraram meu queixo e me fizeram tomar algo ácido. Tossi sangue e os meus dentes. Minha garganta estava sendo corroída. O assassino mantinha-se nas sombras e em silêncio. Eu não sabia dizer se era ele ou ela, pois sua silhueta estava embaçada. Vi a barra do meu vestido negro sendo queimada. É isso? Vou morrer carbonizada?

Então algo me empurrou e eu balancei pendurada pelos pulsos, o fogo alastrando-se pelo meu vestido. Gritei apavorada, sentindo a carne queimar. Balancei mais uma vez, meus pulsos sendo cortados pela corda.

Despertei gritando.

Oliver me abraçava enquanto eu gritava e chorava. Ele tentava me acalmar, mas eu era apenas um corpo trêmulo e lágrimas. Helena apareceu em seguida e me trouxe um copo de água com açúcar. Aquilo estava se tornando um ciclo infernal. Bebi a água com gosto terrível e abracei Oliver.

– Eu tive um pesadelo horrível. — eu disse entre soluços.

– Shh, está tudo bem, bella raggaza. Eu estou aqui com você e está tudo bem, ok? Shh... — Oliver beijou o topo da minha cabeça enquanto acariciava o meu braço. Acalmei-me parcialmente e parei de chorar.

– O que você sonhou amore mio?

– E-eu. — engoli em seco. Acalme-se criatura. – Eu estava pendurada pelos pulsos no teto de uma sala desativada da escola. O assassino estava me torturando. Ele me bateu com uma barra de ferro e tacou fogo na barra do um vestido e eu estava queimando e meus pulsos estavam se cortando com a corda e foi tão real. — abracei-o.

– Está tudo bem, amore mio, foi apenas um pesadelo. Não se preocupe, eu estou aqui com você e vai ficar tudo bem. Você consegue voltar a dormir?

Fiz que não com a cabeça. Dormir era a última coisa que eu queria naquele momento.

– Está tudo bem. Vamos para a sala assistir TV então. Vem. — ele segurou o meu braço, como se eu pudesse dar um passo em falso e cair a qualquer momento. Certamente, eu poderia.

Helena voltou para o quarto e disse que qualquer coisa era para nós a acordarmos. Ela estava dormindo no quarto dos meus pais.

Oliver e eu assistimos á uma maratona das três primeiras temporadas de Supernatural antes que o sol nascesse e depois por argumentos de que “Supernatural não combina com claridade” assistimos Sociedade dos Poetas Mortos.

Fizemos o café por volta das 07h00min am. Waffles e muita calda de chocolate eram o cardápio, junto com ovos mexidos com bacon e três copos de café expresso que eu e Oliver saímos para comprar. Nenhum de nós dois sabíamos fazer café, o que era vergonhoso.

Helena acordou lá pelas 08h30min am e ficou encantada com o nosso café da manhã e lisonjeada por termos esperado-a para comer. Nossos cafés ainda quentes a acordaram e enquanto eu comia preguiçosamente meus ovos com bacon, Oliver e Helena já haviam acabado com metade da pilha de waffles.

Depois de nos fartarmos com o café da manhã decidimos dar uma caminhada pela praia, mesmo que estivesse bastante frio para San Diego. Colocamos nossos moletons, calçamos nossos tênis e fomos caminhar. Três loucos caminhando pela praia, isso vai ser legal.

Caminhamos à beira da praia, cantando Rock’n Roll do Led Zeppelin. Todos os outros que caminhavam nos olhavam como se fossemos loucos. Mas, por exceção de Oliver, nós éramos mesmo.

Oliver aproveitou para fumar dois cigarros e Helena lhe roubou um. Fiquei esperando-os anotando algumas ideias para músicas em um caderninho que eu trouxera numa mochila pequena. Seis minutos depois fomos embora.

Encontramos Derek e Laila comprando o café da manhã numa padaria e fumando. Perguntamos se eles queriam ir para a casa com a gente, mas eles disseram que não. Eles tinham que fazer alguma coisa e não podiam perder tempo.

Voltamos para casa e Helena resolveu dormir um pouco antes de fazer ou comprar o almoço. Oliver e eu decidimos ler Precisamos Falar Sobre O Kevin.

...

Estávamos quase terminando a parte em que a mãe de Kevin fora visitá-lo na prisão e ele estava com o olho de vidro da irmã, quando ouvimos um grito da vizinha. No momento pensamos que não fosse nada, mas depois disso ouve um silêncio terrível. Decidimos ir ver se estava tudo bem.

– Katherine? — bati na porta. Silêncio.

Oliver bateu mais forte. Àquela altura ele já conhecia minha vizinha.

– Katherine? — ele disse com a voz grave.

Decidimos entrar. A porta estava destrancada.

– Sarah, vá para casa. — ele disse, lendo os meus pensamentos. Nós já sabíamos o que acontecera.

Fui para casa tremendo, Helena levantara e quando me viu naquele estado já teve ideia do que acontecera.

– Aonde? — ela perguntou enquanto me amparava.

– Na vizinha. Ele está chegando perto, Helena. — eu disse enquanto tremia.

Meia hora depois Oliver voltou.

– Sarinha, os policiais nos querem na delegacia para prestar depoimento.

Assenti e apenas troquei o moletom por um suéter preto mais confortável e troquei os tênis de corrida pelos meus bons e velhos coturnos.

Prestamos depoimento, dizendo apenas que ouvimos os gritos e depois o silêncio, estranhamos e fomos ver o que acontecera quando achamos o corpo. Na verdade, eu não vira o corpo. Oliver disse que era pior do que os outros. Os hematomas estavam pelo corpo todo, a cabeça pendera quase caindo e a língua saíra para fora da garganta, chegando até os joelhos. Dei graças a Deus por não ter visto.

Voltamos para a casa e eu coloquei Born To Raise Hell do Motörhead para tocar muito alto enquanto limpava meu quarto. Oliver me ajudou. Achei um pedaço queimado de pergaminho e estranhei muito. Suspirei. Mais um bilhete.

“Ela foi gritar por socorro quando eu dei um golpe em sua cabeça com uma barra de ferro e no resto de seu corpo. Ela tentou se arrastar quando eu a peguei pelo pescoço e a pendurei no chuveiro. Ela tentou me bater quando eu quebrei suas pernas. Ela está morta agora e conforme a minha lista, seu nome está chegando.”– Anjo da Morte.

Meu nome está chegando. Ele está chegando. Eu iria morrer em breve, aquilo era um aviso. Derrubei meu pote/cinzeiro num baque estridente e caí no chão, fitando o vazio e tremendo. Oliver leu o bilhete e depois me pegou no colo, me colocando na cama. Ele virou meu rosto levemente e me fez olhá-lo.

– Preste bastante atenção no que eu vou te dizer, amore mio. Você não está sozinha. Eu e a sua prima estamos aqui e vamos te proteger de qualquer coisa, nem que tenhamos que matar para te proteger. Nós faremos qualquer coisa para te manter a salvo, ok? Acho que está na hora de te levar pra casa dos meus avós.

Neguei com a cabeça continuamente.

– Não, Oliver. Ele pode me seguir e colocar seus avós em risco. Eu vou ficar aqui e vou tentar viver a minha vida normalmente, com a segurança de vocês. Obrigada por não me abandonar. — me virei e deitei a cabeça em seu peito. Podia ouvir seu coração batendo continuamente num ritmo um pouco acelerado. Tão diferente do meu...

– Como eu poderia te abandonar, Sarah? Você está na minha vida a tempo demais para eu não me importar e você é uma parte fundamental dela.

– Sou, é?

– É claro. Você me amparou e agora eu estou te amparando, mas eu não faço isso por obrigação, eu faço isso porque te amo.

– Eu também te amo.

...

Uma semana depois eu estava pronta para voltar para a escola. Não sei como eu conseguira, mas eu realmente tinha sentido saudades daquele lugar, mas por conta dos sonhos minha animação era parcial. Coloquei calças jeans e meus coturnos, minha camiseta do Sonic Youth caiu perfeitamente junto com meu blusão xadrez. Arrumei os cabelos com os dedos e não passei maquiagem. Coloquei minha safira, que combinava com o azul do meu blusão e o azul dos meus olhos e fui para fora de casa. Oliver me esperava no meu portão.

Por decisão mútua decidimos que Oliver me levaria e me traria todo dia de caminhonete. Depois de muitos protestos ele me deixou ajudar com a gasolina e fomos indo enquanto comíamos um lanche que Helena fizera. Salame, maionese, alface e tomate. Era delicioso.

Chegamos à escola e Oliver me ofereceu o braço. Aceitei e enganchei meu braço no dele. As pessoas já haviam se acostumado com nosso namoro, que agora era real, mas ainda causávamos murmúrios e Oliver era criticado pelos “amigos” por eu não ser uma vadia do mês e sim uma namorada séria.

Lemos metade do final de Precisamos Falar Sobre O Kevin, mas infelizmente o sinal bateu. Especulações sobre eu ter faltado à semana passada inteira eram criadas aqui e ali, mas eu não me importava. Eu sabia o que acontecera, Oliver sabia e Helena sabia e isso era tudo o que importava. Era o simples pensamento de que, as pessoas que importavam precisavam saber a verdade e o resto que falasse, pois eles não eram importantes.

Eu tinha mais uma aula de filosofia naquele dia e o professor passou um trabalho que eu prometi para mim mesma que daria meu melhor para fazê-lo. Tínhamos que responder a pergunta: O que fazer para sair deste labirinto de sofrimento?

Mas as curvas do meu labirinto eram grandes demais e cada uma guardava uma surpresa dolorosa. Meu labirinto era gigantesco e complexo. E obviamente, eu não possuía um mapa para me orientar por entre as curvas de dor e desespero. Eu era pega de surpresa por tudo e meu labirinto era enlouquecedor. Eu poderia sentar-me e desistir ou poderia continuar andando, mas tanto faz, eu continuaria sofrendo. Lutar era quase impossível já que eu era desprovida de armas e a única que eu possuía era o amor. O amor de Oliver e de Helena me fortalecia. Era como um elixir para me tornar forte para percorrer o labirinto, mas eu continuaria sendo atacada. E agora, eu poderia ser morta. A resposta me seria complexa. Ele nos dera o semestre inteiro para responder. Talvez nesses meses eu tenha a resposta.

Amanda me olhou, o globo ocular pintado de preto e as íris vermelhas por conta de lentes de contato. Quase dei um pulo quando vi seus olhos, eu não me acostumara com isso ainda.

– Viu, o Oliver me disse para eu cuidar de você. Está tudo bem?

Suspirei. Nós tínhamos discutido por causa disso, mas se a situação fosse contrária, eu faria a mesma coisa.

– Eu estou com alguns problemas de saúde, acho que ele quer alguém vigiando caso eu passe mal. Deus sabe como ele queria poder fazer isso por si próprio.

Boa parte da manhã foi normal, depois fomos para o intervalo e eu fiquei com Oliver.

– Hey, Sarinha.

– Oi, Ollie.

– Ollie?! — ele perguntou.

– Sim. Posso te chamar assim?

–Pode, mas é um apelido diferente.

Dei uma risada fraca e tasquei-lhe um beijo na bochecha.

– Não importa, você me chama de Sarinha e eu te chamo de Ollie.

– Ok, amore mio. — ele me deu um selinho.

Comemos o kibe de soja que a cantina estava dando junto com limonada e inúmeras opções de saladas.

A aula de trigonometria estava sendo perfeitamente normal, até que um bilhete veio voando da janela até a minha carteira que era grudada na janela.

Amanda entrou atrasada e ocupou a carteira da frente.

Li o bilhete enquanto meu corpo inteiro se arrepiava.

“Menos dois e ainda por cima de manhã? Acho que estou quebrando minhas próprias regras. O que acha da garota sentada na sua frente? Ela pode não ter sua doença ridícula, mas seria um ótimo passatempo. Talvez estupro seguido de assassinato. Seria uma boa. O que acha? Preciso saber da sua opinião, ela é muito importante para mim.”– Anjo da Morte.

Engoli em seco e levantei a mão.

– Professor, não estou passando bem, posso sair da sala?

–Sim, pode ir. — ele respondeu.

– Espera Sarah. — Amanda disse.

– Não Amanda, é só uma tontura, não se preocupe.

Sai da sala correndo e por sorte esbarrei em Oliver voltando do banheiro.

– Sarah, o que foi?

– Ele vai matar a Amanda. — sussurrei e lhe entreguei o bilhete.

A cor sumiu de sua face.

–Nós precisamos cuidar dela.

– Como?!

– Eu não sei!

Fiz menção de cair, mas ele me abraçou e me segurou enquanto minhas pernas vacilavam.

Um avião de papel acertou minha cabeça.

– Ai! — eu disse e peguei-o.

“Cuidado com o fogo.”– Anjo da Morte.

E então, o alarme de incêndio tocou.

Notas finais
E então?Quem vocês acham que é o Anjo da Morte?Deixem seus comentários e tchau!