Bring Me Back To Life
7 Capítulo 7.
Notas iniciais
O resto da semana com Oliver foi simplesmente maravilhoso. Nós observamos mais as estrelas, comecei a compor uma nova música e Oliver havia escrito mais duas poesias. Fora uma semana produtiva.
Eu estava meio triste por estar voltando pra casa, realmente queria ficar por lá mais um pouco, só para me livrar um pouco da cidade e de todo o barulho, mas já era fim de semana e eu havia prometido para a minha mãe. Mas tudo bem, eu tinha marcado com Oliver para ajudá-lo em cálculo naquele mesmo dia e depois iríamos para a praia, então eu não ficaria muito tempo trancada.
Pelo menos era o que eu achava.
–Tchau Oliver, te vejo daqui a pouco. — me despedi.
–Tchau. Até daqui a pouco. Não esquece que a gente vai direto pra praia.
–Impossível esquecer, você disse isso o caminho inteiro. Tchau. — peguei as minhas malas e entrei em casa. Não tinha ninguém.
–Que estranho. — pensei alto.
Subi para o quarto e joguei as minhas coisas em cima da cama. Ouvi o barulho do armário lá em baixo.
–Mãe? — desci.
O armário estava intacto, não havia nenhum vestígio de alguém por ali.
Mas eu ouvi a porta bater tão forte...
Alguém começou á rir maquiavelicamente.
–Quem está aí?!
“Aqui.” A voz estranha brincou.
– A onde você está?! – gritei.
“Adivinha...”
Ah não, isso não.
–Não! Sai da minha cabeça! Sai! -gritei e dei socos na minha cabeça.
“Você vai ficar igual a sua prima, meu amor. Vai ser jogada num lugar imundo com cheiro de ferrugem, sem ninguém para te ver. Você não pode fugir de você mesma.”
–Sai! — subi as escadas correndo e me tranquei no quarto.
“Eu não vivo na cozinha, idiota. Eu vivo aqui, nesse lugar bagunçado e podre que você chama de cabeça. As pessoas sentem pena de você.”
Gritei de ódio e horror e joguei a cadeira do computador no espelho do guarda-roupa, que se partiu em inúmeros cacos.
Olhei o vidro quebrado com um desejo estranho.
“Vamos lá. Um corte, dois... Uma veia importante e você vai conseguir morrer por completo. O que acha?”
Abaixei num canto tirando a calça e ficando apenas com a minha camiseta do Sonic Youth e calcinha. Coloquei as mãos nos ouvidos, mas ainda conseguia ouvi-la.
“Vamos lá. Só uma jugular e tudo isso some. Vai! Pegue um caco! Pegue!”
Liguei para a primeira pessoa que me veio á cabeça.
Oliver.
–Alô, Sarinha? — ele parecia confuso por eu estar ligando.
–Oliver, pelo amor de Deus, me ajuda! Eu estou sozinha em casa, mas tem algo de errado comigo! Vem aqui, por favor! — implorei entre soluços. Eu estava apavorada.
–Calma Sarah, calma! Eu estou indo agora! — desligou.
Continuei chorando em pânico. Então tive uma ideia.
Talvez uma música alta bloqueasse o som da voz...
Corey Taylor começou á rugir com People=Shit, mas não deu certo, eu ainda ouvia aquela coisa dentro do meu crânio zombando de mim.
Fitei meus olhos azuis safira no pedaço rachado que sobrara no espelho.
Eram olhos azuis safira de um psicótico.
Sentei perto dos cacos e comecei a contá-los: um, dois, três cacos...
Um, dois, três cortes...
Oliver chegou e arrebentou a porta do meu quarto. Meu estado era deplorável. O cabelo bagunçado, maquiagem borrada, chorando, sentada no chão abraçando os meus joelhos e balançando. O sangue que saia dos meus pulsos escorria pela minha perna e sujava o tapete que á 15 minutos atrás era branco.
–Sarah?! Que merda você fez?! — ele simplesmente correu até mim, tirou a camisa, puxou os meus pulsos e amarrou-os na blusa para estancar o sangue.
Sorri de um jeito assustador e o olhei.
–Você consegue ouvi-lo? Consegue?
Ele negou e me pegou no colo, me levando para a sala e me colocando no sofá.
–Sorte a sua. Eles estão todos aqui. — coloquei o indicador na cabeça, eu havia perdido a sanidade por inteiro. — E sabe qual é o problema disso, Oliver? É que eu sei que não existe, mas eu não posso deixar de ouvir, não posso deixar de ver e isso te deixa em pânico, não deixa?
–Sim, deixa. É horrível e te corrói.
–Sim. Mas, eu não devia estar ouvindo isso.
Minhas pálpebras pesavam. O corte era profundo demais. Era sangue demais...
–Eles... Eles estão me chamando.
–Sarah me ouça, se concentre em mim. Sarah!
–Tão... cansada... — murmurei e me entreguei á escuridão.
Acordei com uma luz extremamente forte me cegando. Minha cabeça latejava e uma máquina apitando quase perfurava o meu crânio.
Olhei para os meus pulsos: estavam enfaixados. Eu vestia uma camisola desconfortável de hospital e podia sentir os cheiros nauseantes de remédio.
Cara, por quanto tempo eu fiquei apagada?
Pressionei o botão para analgésicos, já que sentia uma dor horrível na cabeça e nos pulsos. Respirei fundo e pressionei um botão para chamar uma enfermeira.
“Lá vem bronca...” — pensei e me endireitei na cama.
Meus pais entraram acompanhados por uma enfermeira, eles pareciam acabados, mas minha mãe parecia estar com... Raiva?
Podia ver Oliver atrás do meu pai, já que a diferença de altura entre eles era gritante. Ele parecia tão cansado quanto os meus pais e extremamente preocupado. Não pude deixar de lançar um sorriso tranquilizador para ele, que retribuiu com um olhar de “graças a Deus por você estar bem”.
A enfermeira me deixou na companhia das três pessoas preocupadas na minha frente. Três pessoas que eu odeio machucar ou preocupar.
Meu pai se sentou ao um lado, com um sorriso no rosto, mas no outro instante se desmanchou.
–Você é idiota ou o que garota? Precisa chamar atenção desse jeito?! E porque você ligou para esse garoto ao invés da sua mãe?! Acha que ele se preocupa mais com você do que nós dois?!
–Como é que é? — perguntei em um tom frio, mas já sabia a resposta.
–Por que você não cortou mais fundo, ein?! — ele segurou meu pulso e apertou o corte, gemi de dor, mas não desviei o olhar. — Você não é corajosa o suficiente para se matar?!
Era tanta fúria que chegava á doer. Meus olhos queimavam. Não de lágrimas, de raiva.
Olhei para a minha mãe.
–Você não vai dizer nada?
Seu lábio inferior tremeu, a verdade estava pendurada na ponta de sua língua, eu sentia isso.
Ela abriu e fechou a boca, esperei paciente e fria pela sua resposta.
–Ele... — engoliu em seco. — Seu pai está certo, filha...
–Não me chame de filha. — cortei-a. — Prossiga.
–Seu pai está certo. Você não pode continuar com isso! Pagamos o tratamento para você á anos, mas você nunca melhora! E você preferiu pedir ajuda a esse garoto que nem sabemos quem é ao invés de me ligar! Estamos á ponto de desistir de você!
Suspirei.
–Isso foi... Esclarecedor. Tudo está mais claro agora. Vocês dois, saiam daqui agora. Oliver, você fica.
–Como é?! — meu pai estava furioso.
–Você me entendeu. — retorqui.
Meus pais saíram nada satisfeitos. Era tanta a raiva neles que era quase possível ver uma áurea escura ao redor deles. Ou talvez fosse só a minha mente mergulhada em loucura me pregando peças.
A porta se fechou e não consegui manter a máscara fria, simplesmente irrompi em lágrimas inconsolavelmente. Havia um nó gigante na minha garganta que dificilmente se desfaria. Abracei minhas pernas e enterrei a cabeça nos meus joelhos, soluçando. Senti duas mãos quentes e fortes me envolvendo em um abraço apertado e silencioso. Oliver afagou minhas costas e se manteve calado, me reconfortando com o silêncio.
Controlei-me o suficiente para olhá-lo. Seus olhos estavam inchados. Ele andara chorando.
–Obrigada por sempre estar comigo. — disse baixinho e tornei a enterrar o rosto no calor de seu peito.
–Estarei aqui sempre que precisar, Sarinha. Sempre que precisar.
–Mas, e se eu não precisar de você, mas te querer por perto, você vai estar comigo?
Ele sorriu e beijou minha testa.
–Vou estar aqui te atormentando até quando você se enjoar da minha cara e estiver quase me esganando. Mas não se preocupe com nada agora, ok?
–Sabe o que eu queria agora?
–O que?
–Um frapuccino de chocolate da Starbucks.
Ele deu uma risada fraca e depois me olhou sério.
–Você quer mesmo? — perguntou.
–Sim, mas não se preocupe, eu tomo quando eu sair daqui.
–Não precisa esperar tanto, Sarinha. Agradeça por eu ter trazido você em um hospital com uma Starbucks na frente.
–Não, Oliver! Não precisa!
Ele foi saindo e disse que já voltava.
–Fique aqui comigo... — sussurrei quando ele fechou a porta atrás de si. Não sei se ele pôde ouvir, mas eu realmente queria que ele ficasse ali comigo. Na verdade, ele era a única companhia que eu queria.
Quinze minutos depois ele voltou com dois frapuccinos de chocolate, um venti e outro grande e alguns cookies.
Dei um sorriso afetado para Oliver. Eu me sentia demasiado entorpecida e era daquilo que eu precisava: frapuccinos de chocolate, cookies e boa companhia.
“Ou talvez...” — pensei e prendi um pouco a respiração. — “Talvez eu não precise de companhia de qualquer um e sim da companhia dele.”
Parei de pensar e apenas me concentrei na minha bebida, nos cookies que eu dividia com Oliver e no noticiário.
Havia uma notícia sobre a Clínica Psiquiátrica de São Diego. A clínica onde Helena estava internada.
O prédio estava em chamas.
Tentei absorver a informação do noticiário: a clínica havia pegado fogo, provavelmente por conta de rebeldes. Não era ela por inteira, apenas a ala leste, onde ficavam os dormitórios. Os pacientes que dormiam naqueles quartos não teriam como dormir na clínica, e por não serem os piores casos iriam passar uma estadia na casa de parentes.
E Helena estava na lista. E a única família dela era a minha.
–Parece que você e a sua prima vão fazer uma festa do pijama... — Oliver comentou.
Dei uma risada fraca e mordisquei um cookie.
–Sim, vamos. E você não nos verá fazendo guerra de travesseiros, com pijamas curtos e confortáveis. — debochei.
–Pois é. Ficarei em casa dormindo e sonhando com esse momento mágico.
Ele suspirou dramaticamente.
–E pior ainda, querido. Provavelmente a enfermeira dela ficará em casa e se ela for bonita o suficiente...
–Eu vou ao banheiro. — levantou-se.
–Ah cara, que nojo!
–Brincadeira. Eu vou ver quando você vai receber alta. Já volto. — ele me deu um beijo consideravelmente perigoso no canto dos lábios e saiu.
Suspirei entediada e logo terminei meu frapuccino. Olhei para o teto, para o soro pingando e entrando nas minhas veias, para a terrível camisola de hospital e meus pulsos. Eu havia feito um estrago bem grande.
Oliver voltou e se sentou ao meu lado novamente antes que eu pudesse esconder meus pulsos embaixo das cobertas. Ele fitou-os um pouco e depois correu os dedos levemente pelas ataduras. Gemi um pouco, ainda doíam.
–Desculpa. — ele recolheu a mão. — Você vai embora daqui a pouco, provavelmente em duas horas. Quer que eu fique aqui com você?
–Por favor. — segurei sua mão apesar da dor.
–Tudo bem. — deu um sorriso fraco e beijou minha mão. — Ficarei com você o tempo que quiser.
–Obrigada, Oliver. Obrigada mesmo.
–Não precisa agradecer. Agora, me diga, o que você quer fazer enquanto espera a sentença de regime aberto?
–Hum... Não sei. O que sugere?
–Quer ler alguma coisa?
–Você trouxe um livro? — me animei.
–Merda. Não, não trouxe. Estava esperando que você negasse.
–Sem graça... Você sabe alguma poesia de cor? Não precisa ser de outra pessoa, pode ser sua, você pode até criar uma agora. — ele riu. — É sério, Oliver! Eu estou seca por uma poesia.
–Tá bom, vou ver o que posso fazer por você, bela raggaza.
–Bela raggaza?
–Sim. Significa “garota bonita” em italiano.
–Você fala italiano?
–Há tantas coisas que você não sabe sobre mim... — suspirou.- Ok, lá vai.
Ele limpou a garganta e começou:
Em uma folha de papel amarelo com linhas verdes
ele escreveu um poema
E o intitulou “Chops”
porque era o nome de seu cão
E era o que estava em toda parte
E seu professor lhe deu um A
e uma estrela dourada
E sua mãe o abraçou à porta da cozinha
e leu o poema para as tias
Era o ano em que o padre Tracy
levava todas as crianças ao zoológico
E ele deixou que cantassem no ônibus
E sua irmãzinha tinha nascido
com unhas minúsculas e nenhum cabelo
E sua mãe e seu pai se beijaram tanto
E a garota da esquina mandou para ele
um cartão de Dias dos Namorados assinado com vários X
e ele teve de perguntar ao pai o que significa X
E seu pai deixou que ele dormisse na sua cama à noite
E era sempre lá que ele dormia
Em uma folha de papel com linhas azuis
ele escreveu um poema
E o intitulou “Outono”
porque era o nome da estação
E era o que estava em toda parte
E seu professor lhe deu um A
e o pediu para escrever com mais clareza
E sua mãe não o abraçou à porta da cozinha
por causa da pintura nova
E as crianças disseram a ele
que o padre Tracy fumava cigarros
E largava as guimbas no banco da igreja
E às vezes eles faziam buracos
Que era o ano de sua irmã usar óculos
com lentes grossas e armação preta
E a garota da esquina riu
quando ele pediu para ver Papai Noel
E os garotos perguntaram por que
a mãe e o pai se beijavam tanto
E seu pai não o cobria mais na cama à noite
E seu pai ficou furioso
quando ele chorou por isso
Em um pedaço de papel de seu caderno
ele escreveu um poema
E o intitulou “Inocência: Uma Questão”
porque a questão era sobre uma garota
E isso estava em toda parte
E seu professor lhe deu um A
e um olhar muito estranho
E sua mãe não o abraçou à porta da cozinha
porque ele nunca o mostrou a ela
Foi o primeiro ano depois da morte do padre Tracy
E ele esqueceu como terminava
o Creio em Deus Pai
E ele pegou a irmã
se agarrando na varanda dos fundos
E sua mãe e seu pai nunca se beijavam
nem mesmo conversavam
E a garota da esquina
usava maquiagem demais
O que fez ele tossir quando a beijou
mas ele a beijou mesmo assim
porque era a coisa certa a fazer
E às três da manhã ele se aninhou na cama
seu pai roncava alto
É por isso que no verso de uma folha de papel pardo
ele tentou outro poema
o intitulou de “Absolutamente Nada”
Porque era o que estava em toda parte
E ele se deu um A
e um corte em cada maldito pulso
E se encostou na porta do banheiro
porque nessa hora ele não pensou
que poderia alcançar a cozinha.
Ele parou de falar. Lágrimas silenciosas escorriam pelos meus olhos.
–Por que essa poesia, Oliver?
–Me pareceu adequado... — disse e me olhou como se pedisse desculpa.
–Com toda a certeza, é perfeitamente adequado. — dei um sorriso fraco e segurei sua mão.
E assim eu adormeci, com três cortes em cada maldito pulso e o pensamento de que algo estava profundamente errado.
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