Notas iniciais
HEY! É, eu sei que eu demorei desta vez, mas eu fiquei sem internet então... Bem, leiam logo e vamos parar de enrolação. Enjoy and Enjoy.

Acordei no dia de Hallowen com o cheiro de waffles, terra molhada e a bela mistura do canto dos pássaros e Blackbird dos Beatles. Calcei as pantufas e olhei-me no espelho. Minha safira azul destacava-se na minha clavícula e fazia meus olhos azuis safira parecer um pouco mais vivos do que realmente eram.

Tomei um banho quente enquanto Strawberry Fields Forever também dos Beatles tocava lá embaixo. Prendi o cabelo num coque alto e coloquei uma camiseta do Motörhead, calças jeans escuras, all star e um cardigan preto. A música no andar debaixo parou e eu pude apreciar o absoluto silêncio por alguns segundos.

Desci e encontrei a avó de Oliver fazendo enfeites de Hallowen na cozinha enquanto Oliver e o seu avô estavam sentados à mesa comendo e conversando.

– Bom dia. – anunciei.

– Bom dia. – responderam em uníssono.

Sentei-me e me servi com waffles. Aparentemente uma playlist dos Beatles fora montada, pois segundos depois Hey Jude começou á tocar.

– Beatles? – perguntei.

– Os Beatles combinam com o outono. – Oliver respondeu. — E a vovó ama os Beatles.

– Maria deve chegar hoje de tarde. – ela acrescentou. – Os Beatles me mantêm animada o suficiente para esperar por ela.

– Entendi. Sou uma grande fã dos Beatles também, Sra. Fedrizzi. – comentei.

– Pode me chamar de Elizabeth, querida.

– E á mim pode chamar de Peter. – o avô de Oliver completou.

– Tudo bem.

Terminamos o café e enquanto o Sr. Peter ajudava a Sra. Elizabeth com os enfeites, eu e Oliver fomos para a sala assistir alguma coisa na televisão.

Oliver se sentou em uma poltrona e eu sentei-me em seu colo e ficamos boa parte do tempo assim, juntos, assistindo e ouvindo a respiração um do outro.

Meu pensamento voltou-se para Helena. O que estava acontecendo com ela na clínica? E como as freiras não percebiam nada? Eram tantas perguntas rondando a minha cabeça que eu poderia escrever uma agenda telefônica com elas.

Lembrei-me de quando eu tinha 14 anos e ela 15. Nós havíamos apostado quem comia mais wasabi e quem perdesse contaria um segredo. Obviamente eu perdera e contei a ela que eu bebia escondido e para a minha surpresa ela entendeu perfeitamente e disse que bebia também quando estava assustada ou ansiosa. Então ela me contou um segredo: as vozes que ela ouvia mandavam matar a si mesma com um coquetel de todos os seus remédios e ter uma overdose e ela realmente estava cogitando essa possibilidade. Eu não entendera o pedido de socorro na época, pois contei isso à minha mãe e dentro de duas semanas ela foi internada. Culpei á mim mesma todos os dias da minha vida e agora, no mais puro presente, eu me culpava novamente e sentir essa culpa corroendo-me dia a dia me matava de pouco em pouco.

– No que você está pensando, amore mio? – despertei quando Oliver sussurrou no meu ouvido.

Pensei um pouco.

– Nada. Nada de importante. – dei-lhe um selinho. – Acho que vou tocar um pouco de violão.

– Então eu acho que vou assistir você tocando violão.

Sorri e o beijei, depois subimos para o meu quarto. Comecei a tocar Could It Be Another Change do The Sample enquanto Oliver se acomodava deitado na cama, fitando o teto e mergulhado em pensamentos. Fiquei pensando no que ele estava pensando, mas então me voltei aos acordes novamente e tudo que eu sentia eram meus dedos nas cordas.

Quando a música acabou peguei Oliver me observando pensativo.

– O que foi Ollie? – perguntei com a voz suave.

– Nada, amore mio. – ele disse, mas na verdade não parecia que as coisas iam bem.

Larguei o violão num canto e fui até ele na cama.

– Amor, o que foi?

Ele sorriu e me beijou.

– Nada que você deva se preocupar, bella raggaza.

– Oliver...

– Shh, está tudo bem. Não é nada demais, só algumas coisas que eu posso resolver por mim mesmo. Não se preocupe ok?

– Ok.

– Ótimo. Agora, me diga, você tem fantasia para hoje?

– Fantasia? – franzi o cenho.

– Sim. Hallowen não é Hallowen sem fantasia e eu não posso perder a oportunidade de te ver fantasiada em algo quase minúsculo.

– Ah, então você já até decidiu o comprimento da minha fantasia sem eu nem ao menos ter dito que tenho uma ou que vou vestir uma?

– Ah, você vai. Nem que eu tenha que colocar a fantasia em você.

– Ok, mas onde eu vou arranjar uma fantasia?

Ele sorriu e sem dizer nada me conduziu até o porão. Prateleiras com livros empoeirados estavam dispostas em fileiras, junto com um baú.

– Deixei aqui para você, para fazer uma surpresa. – ele comentou.

Abriu o baú e tirou de lá de dentro uma fantasia curtíssima de Alice No País das Maravilhas. Com toda a certeza, eu iria parecer uma stripper.

– Oliver eu vou ficar parecendo uma stripper.

– Não vai não.

Peguei a minha fantasia observando-a de cima a baixo, o que não era um trabalho no mínimo cansativo, pois eu nem precisava mexer a cabeça de tão curta que era a peça.

– E do que você vai se fantasiar?

– De Oliver.

– Ah! Então eu vou ser a única idiota fantasiada!

– Shh... – ele me envolveu na cintura – Você nem sabe como é minha roupa e não vai saber até a hora certa.

– É sério isso, vadia chata?

Ele deu uma gargalhada e disse ainda rindo:

– Sim, é.

– Tudo bem. Só espero que não seja algo muito escandaloso, vadia chata.

– Acho que você vai gostar.

– Ok. Agora eu vou ter que me acostumar com a ideia que eu vou parecer a Alice versão stripper.

Ele fez um caminho de beijos do meu ombro até a minha boca e depois sussurrou no meu ouvido.

– E você acha que eu escolhi essa por quê?

Dei-lhe um tapa no ombro e sussurrei em seu ouvido.

– Só por isso, você não me verá mais até a hora da festa.

Peguei minha fantasia, dei-lhe um beijo e saí com passos firmes. Eu já tinha uma ideia de como eu complementaria a fantasia, mas como eu disse, ele não iria me ver pelo resto do dia, somente no almoço.

Fiquei lendo sonetos de Shakespeare no meu quarto por longas três horas. Os sonetos me inspiraram em uma nova música, que eu comecei á compor no violão. O soneto XVIII em particular me inspirara de um modo inexplicável e das palavras de William Shakespeare surgiu uma música. Eu amava aquele.

Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

Depois que copiei o soneto em meu caderno a avó de Oliver entrou no quarto dizendo que o almoço estava pronto. Desci e encontrei Oliver se servindo. Ele me dirigiu um sorriso enorme e depois se sentou á mesa. Servi-me com o purê de batata, o arroz e a salada e me sentei ao seu lado.

O almoço foi silencioso, o único barulho era a respiração de nós quatro e o tilintar dos talheres. Oliver levantou-se depois de ter terminado, deu-me um beijo na bochecha e foi lavar o prato. Quando eu terminei, fiz o mesmo na esperança de encontrá-lo, mas ele já havia terminado o serviço.

Subi ao meu quarto novamente e encontrei meu caderno aberto. Meu coração gelou. Ele me encontrou aqui?

Li o que haviam escrito numa das folhas e meu coração aqueceu-se novamente, enquanto eu sorria calorosamente.

Nesse outono eu prometi á mim mesmo

Que te amaria com ternura e te esquentaria

Nos meus braços abertos e te abraçaria

E sentiria seu cheiro e me satisfaria

Por você ser minha por todas as estações

E no verão eu te refrescaria com gargalhadas

E no inverno te manteria aquecida e feliz

Enquanto te recitaria meus versos sinceros

Que outrora eram feitos vagamente

Mas que agora me iluminavam e me acalmavam

Enquanto te abraçam e eu rezo

Para que seu mal seja retirado e seu bem multiplicado

E agora eu juro que te ajudarei e te beijarei

Por todas as estações do ano e em todas as situações

–Oliver

Deixei o caderno em cima da escrivaninha, aberto na página do poema de Oliver. Deitei-me na cama e peguei um cobertor e com os pensamentos perdidos em meu namorado, adormeci.

Acordei cinco horas depois. O sol estava se pondo e o crepúsculo fazia com que as sombras do quarto e a luz do sol poente que entravam no meu quarto parecessem a coisa mais bela já vista.

“Bela e perigosa. Não é, Sarah?” – a voz em minha cabeça perguntou.

Resmunguei, tentando ignorar a onipresença da minha mente doentia e fui tomar um banho. Deixei que a água me lavasse de tudo que precisasse descer pelo ralo. Saí e vesti a minha fantasia. Meias 7/8 rendadas cobriram as minhas pernas expostas e saltos 20 transparente com o salto em formato de revólver foram parar nos meus pés. Cacheei o cabelo com chapinha e destaquei meus olhos com uma mistura de preto e um leve toque de azul metálico. Alguém bateu em minha porta quando terminei de passar o batom coral e eu fui atender.

Oliver estava parado diante da porta. Ele estava mesmo vestido de Oliver, mas estava lindo com calças cáqui, camisa social branca e jaqueta de couro. Ele me olhou de cima á baixo e deu um sorriso torto de aprovação masculina.

– Você está deslumbrante. – ele disse.

– Então eu estou parecendo uma prostituta e você diz que eu estou deslumbrante? – eu disse.

Ele deu uma risada fraca.

– Continua deslumbrante. E a safira combinou com todo o azul. – ele se aproximou e me beijou. – Vamos descer?

– Vamos. Seus avós não vão me achar uma vadia?

– Não. Eles viram a fantasia. E você não está parecendo uma vadia.

– Aham. Tá bom.

– Sarah, é sério.

–Tá, vamos logo.

Fomos para a sala. Os avós de Oliver estavam lá. Eles me olharam de cima á baixo, avaliando minha minifantasia e deram um sorriso de aprovação. Pensei que eles estivessem brincando, mas então notei que eles realmente haviam gostado. Aliviei-me com isso e finalmente pude me sentir confortável. Ficamos sentados por certo tempo. Enquanto eles conversavam eu brincava com a safira do meu belo colar. Maria saiu da cozinha e sentou-se ao lado da avó de Oliver. Cumprimentei-a e logo depois vimos vários faróis adentrando pelo quintal. Saímos e então eu vi dezenas de pessoas fantasiadas espalhadas pelo gramado. Então, a festa havia começado afinal.

Um DJ encarregou-se de animar a legião de fantasiados e me senti bem ao ver que eu não era a única com uma fantasia minúscula. Na verdade, algumas garotas superavam o comprimento da minha saia. Avistei um par de olhos pintados de preto e sorri ao ver Amanda fantasiada de vampira. Uma fantasia óbvia para ela admito.

– Ei Sarah! – ela me cumprimentou. – Você está linda!

– Obrigada, você também. Não sabia que você vinha nas festas do Sr e da Sra. Fedrizzi.

– Meus pais são amigos deles. Normalmente é legal porque eles não se comportam como pessoas de idade. Você verá.

– Ok.

Senti os braços de Oliver me envolvendo por trás pela cintura.

– Oi Amanda. – ele disse.

– Oi. Por que você nunca usa uma fantasia?

– E por que você nunca troca de fantasia?

Segurei a risada e vi um sorriso com um leve tom de escárnio se abrir nos lábios de Amanda.

– Isso já não é da sua conta. Foi bom te ver, Sarah.

– Foi bom te ver também, Amanda.

Ela saiu e me virei para Oliver. Um sorriso vitorioso se estampava em seus lábios.

– Como você é delicado. – comentei.

– Eu sou um cavalheiro, amore mio. Vem, tenho algo para você no seu quarto e não, não é o que você está pensando. – ele abriu um sorriso malicioso. — Não agora.

– Ok.

Segui-o até o quarto. Ele acendeu a luz e vi um buquê de rosas azuis dentro de um vaso em cima da cabeceira. Um pacote prateado estava em cima da cama. Fui até ele e o abri. Peguei o presente, um vinil novinho do Led Zeppelin e sorri.

– Você realmente me conhece. Por que o presente?

Ele deu de ombros.

– Só quis te dar um presente.

– Obrigada, amor. – eu disse.

Peguei um bilhete que estava em cima da cama e vi Oliver arquear as sobrancelhas.

– Isso eu não escrevi. – ele disse.

Meu coração gelou. Li o bilhete em voz alta.

“Por favor. O campo? Vocês não perceberam que não podem fugir de mim? Eu sou um pesadelo onipresente, seus imbecis. É melhor vocês irem logo, o tempo está passando e não sei o quanto Helena pode aguentar. Tic ,Tac. Tic, Tac.”- Anjo da Morte.