Brincando Com o Inimigo
23 Capítulo Vinte e Três.
Notas iniciais
Atena passou a mão no cabelo e suspirou.
Ela estava sentada à beira da cama, encarando à porta a sua frente sem saber o que fazer.
Afinal, é difícil tomar uma decisão racional quando não se sabe o que está sentindo. Ou melhor, quando se sabe o que está sentindo, mas não quer admitir isso a si mesma.
A deusa precisava decidir o que fazer com relação a Poseidon, mas não era uma decisão fácil.
O que ela faria? O afastaria? Iria deixar-se levar? Contaria a verdade agora? Esperaria até o casamento para contar a verdade? Esperaria até o momento mais oportuno?
Não. Nenhuma das alternativas agradava à deusa. Muito menos a última, pois o momento ideal poderia jamais chegar, e ela se culparia a cada dia mais por esconder a verdade dele.
E o medo de que ele descobrisse a verdade! Essa era, sem dúvidas, a pior parte.
Se ele falasse com qualquer uma das deusas donzelas, essa deusa poderia dizer a verdade sobre o juramento, e, além de bravo, Poseidon exigiria o resto das explicações, o que poderia deixa-lo triste ou mesmo aborrecido, e isso não seria nada bom.
Atena se levantou e foi em direção ao banheiro, decidindo tomar um banho e falar com Afrodite no dia seguinte.
Ela poderia estar preocupada com o futuro, mas estava disposta a aproveitar este dia antes de ser afogada pelo rio das preocupações.
(…)
A deusa saiu do banheiro escovando os cabelos, uma das coisas que ela mais gostava de fazer. A sensação da escova passeando pelos fios dourados e molhados a acalmava.
A porta foi aberta, deixando um Poseidon hesitante entrar.
Ele olhava para todos os cantos do quarto, menos para o que a deusa da sabedoria estava, até que seu olhar pousou sobre o criado mudo.
Ele franziu a sobrancelha e falou:
– Ainda não arrumaram esse relógio? Não é atoa que você vive acordando cedo, sempre acha que são nove horas...
– Mas você não tem jeito mesmo... – Atena tinha um sorriso mínimo nos lábios, enquanto se aproximava do deus.
– O que?! É verdade!
– Sempre inventando alguma coisa para se livrar de alguma acusação...
– Olha quem fala.
– Diz o ser que prefere “A Bela e a Fera” a “O Rei Leão”. – Atena murmurou.
– Porque “A Bela e a Fera” é melhor do que “O Rei Leão”!
– “A Bela e a Fera” é muito previsível!
– “O Rei Leão” também!
– Vamos tirar a prova?!
– Só se for agora.
(...)
Poseidon apertou o play e se sentou ao lado de Atena na cama. O DVD de A Bela e a Fera começou a rodar.
– Poseidon.
– Sim?
– Vamos fazer uma aposta?
Poseidon abriu um sorriso de lado e virou para encarar o rosto de Atena.
– Que tipo de aposta?
– Vamos ver aos filmes, e se A Bela e a Fera ganhar você pode me pedir uma coisa, qualquer coisa, e eu vou ter de fazer. Já se O Rei Leão ganhar, você terá de fazer o que eu mandar.
O sorriso de lado de Poseidon aumentou gradativamente e ele respondeu:
– Feito.
E com isso ele passou o braço ao redor dos ombros de Atena.
(...)
O filme d’O Rei Leão acabara, e nenhuma palavra havia sido trocada desde que os dois fizeram a aposta. Eles só tinham olhos para os filmes, atentos aos detalhes para não perderem a aposta.
Suas posições eram completamente diferentes desde o inicio do primeiro filme. Poseidon estava com os braços ao redor da cintura de Atena, o queixo apoiado no ombro da deusa, sua bochecha colada ao pescoço dela, fazendo com que o deus pudesse sentir seu doce perfume que tanto o encantara. Já Atena tinha as costas inteiramente apoiadas no tórax e na barriga do deus, a testa apoiada no pescoço dele, e a nuca relaxava no peitoral de Poseidon.
– Acho que eu ganhei. – Poseidon falou, com a voz rouca, ao ouvido de Atena.
A deusa levantou minimamente a cabeça para encontrar os olhos dele — que a olhavam de forma intensa — que não estavam muito longe dos dela.
– Eu acho que não. – Atena disse quase que em um sussurro.
– Eu tenho certeza de que ganhei.
– Eu tenho certeza que você está errado.
– Atena... – Poseidon estreitou o olhar, tirando o queixo do ombro dela e afastando o rosto do dela.
– Poseidon! – Atena se desvencilhou dos braços de Poseidon, ficando de pé a frente do deus.
– Ah, qual é Atena?! A Bela e a Fera é melhor do que Rei Leão!
– Você só diz isso porque odeia O Rei Leão!
– Ao contrário! Eu adoro! É o meu segundo filme da Disney favorito!
– E A Bela e a Fera é o meu segundo filme favorito da Disney!
Poseidon tinha os braços cruzados em frente ao corpo, e Atena batia o pé freneticamente no chão enquanto mantinha as mãos nos quadris.
Se algum deus, um dia, chegou perto de morrer por contato visual, esses deuses foram Poseidon e Atena naquele momento.
– MARRIE! – Os dois gritaram em uníssono, saindo do quarto à procura da garota.
Cinco minutos depois, os dois entraram na cozinha discutindo, assustando a Marrie que olhava à cena confusa enquanto comia sua sopa.
– Hey! – Marrie chamou, mas foi ignorada pelos deuses – Hey! – tentou de novo, sendo ignorada mais uma vez.
Marrie suspirou e subiu na cadeira, colocando a mão sobre concha em volta dos lábios.
– HEEEEEY! – ela gritou, sendo ouvida dessa vez.
Os dois param de discutir e olharam para ela como se fossem duas criancinhas que acabaram de ser pegos no flagra pela mãe enquanto discutiam sobre quem ganharia o ultimo pedaço de bolo.
– Mas o que está acontecendo aqui?! – Marrie perguntou, chocada com a atitude pueril dos dois.
– Diga a ele/ela que O Rei Leão/A Bela e a Fera é o melhor filme?! – os dois falaram em uníssono, apontado um para o outro.
– O que?! Tudo isso por causa de clássicos da Disney?!
(...)
Depois dos dois almoçarem e explicarem tudo a Marrie – ocultando algumas partes vergonhosas – ela finalmente falou:
– Então quer dizer que todo aquele tempo em que vocês estavam trancados no quarto da Atena, vocês estavam vendo filmes da Disney? E eu que deixei de chamar os dois para o almoço porque pensava que estivessem fazendo coisas mais interessantes...
Poseidon engasgou com a sopa, arregalando tanto os olhos que Marrie pensou que eles fossem saltar do rosto de seu “pai”. Já Atena, que não tinha entendido, franziu o rosto e ficou observando a face de Marrie, tentando entender o porque de Poseidon ter ficado daquele jeito.
– Como sabia que eu estava no quarto de Atena? – Poseidon perguntou logo que se recuperou.
Ao ouvir a voz do deus, Atena percebeu – com muito atraso – o que Marrie havia querido dizer. A deusa ficou mais vermelha do que um pimentão.
Marrie deu de ombros e respondeu:
– Você não estava no seu quarto e sua cama estava arrumada. E já que você saiu de dia, eu te conheço ao ponto de saber que você voltaria para passar a noite aqui.
– Enfim – Atena finalmente retornara a sua cor normal – qual filme é melhor? O Rei Leão, ou A Bela e a Fera?
Marrie revirou os olhos e respondeu:
– Vocês estão loucos? É como falar à um mortal que ele só vai poder beber água ou comer pelo resto de sua vida! Não dá para escolher! Empate!
– Mas e a aposta?! – Poseidon perguntou.
– Cada um realiza um desejo do outro, simples.
(...)
Atena foi com Poseidon até o quarto dela e pediu que ele se deitasse na cama.
– O que você vai fazer, ou melhor, o que eu vou ter de fazer para você?
Atena caminhou até a sua estante de livros, puxando um volume e se sentando ao lado do deus na cama.
– Ontem eu comecei a ler uma trilogia, mas não consegui acaba-la. Esse é o ultimo livro, e eu quero que você o leia para mim.
Atena estendeu o livro, mostrando a capa ao deus. Era “Belo Casamento”, da Jamie McGuire.
Poseidon abriu um singelo sorriso, e Atena se aconchegou no deus, apertando sua cintura e pousando sua cabeça em seu peito. O ouvido sobre o coração dele, que batia ritmadamente.
Poseidon começou a leitura.
(...)
– Já está bom. – Atena falou, os olhos fechados, a expressão relaxada.
Poseidon lera por cerca de duas horas, e a deusa não falara nada. Ela apenas ficou quietinha deitada sobre ele, ouvindo sua voz.
Ela abriu os olhos e levantou a cabeça, encontrando o olhar do deus sobre ela. Ele tirou um fio de cabelo do rosto dela, acariciando delicadamente sua pele, e pousou a mão no pescoço de Atena.
– Acho que é a minha vez de pedir uma coisa.
A deusa assentiu, engolido em seco.
Ela sentia todo o seu corpo tremer sobre o toque de Poseidon, e queria mais daquilo. Queria sentir sua respiração junto a dela, os lábios junto aos seus.
Ele tirou a mão do rosto dela, e com um movimento rápido, ele pegou um travesseiro e o bateu sem força no rosto da deusa.
– Guerra de travesseiros!
Atena riu, embora decepcionada, e contra atacou.
Os dois se batiam avidamente, sorrindo feito duas criancinhas.
Os lençóis já estavam todos bagunçados, e os travesseiros jogavam plumas para todos os lados.
Poseidon bateu em Atena com um pouco mais de força, ela caiu com a barriga para cima sorrindo, e ele passou as duas pernas em volta da cintura dela, segurando seus pulsos contra o colchão.
– Você se rende? – ele perguntou divertido.
– Nunca! – ela respondeu, no mesmo estado que o deus.
Poseidon chegou mais perto do rosto dela, suas respirações quase se condensando.
– Tem certeza? — ele perguntou calmamente, mas não se referia à rendição.
– Absoluta – ela respondeu séria, entendendo o que ele queria dizer.
Poseidon chegou ainda mais perto dela, colando seus lábios.
Atena suspirou com o contato, o que fez o deus soltar os pulsos dela. As mãos de Atena foram subindo pelos braços dele, sentindo os músculos dos braços dele sob suas mãos, até que elas chegaram ao cabelo dele.
Poseidon se apoiava em seus cotovelos para não machucar Atena, mas quando ele pediu passagem com a língua, a deusa começou a se levantar devagar, dando a Poseidon a oportunidade de passar as mãos pela cintura de Atena.
Os dois estavam ajoelhados na cama. Atena puxava a cabeça do deus para mais perto de si, e Poseidon abraçava sua cintura, colando seus corpos.
Aquele beijo não havia sido como das duas outras vezes. Nesse, eles se beijavam de forma calma, apaixonada, como se só existissem os dois, e o mundo fosse apenas algo a parte.
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