Brincando Com o Inimigo
9 Capítulo Nove.
Notas iniciais
Poseidon e Athena passaram a tarde lendo e ouvindo músicas. Nesse tempo, poucas conversas se sucederam. E essas poucas eram do tipo:
“- Fome? – pergunta ele.
— Aham. – reponde ela.
Ele abre o frigobar e lhe joga uma maçã.”
Mas essas conversas não eram assim por qualquer rixa, briga, ou coisa do tipo. Ambos estavam simplesmente muito concentrados em suas leituras para quererem falar.
Poseidon se levantou e foi até a janela de vidro. Athena o seguiu, indo para o seu lado.
— O que foi? – perguntou ela.
— Já vai começar a escurecer.
— E qual é o problema?
— Nenhum, ao contrário: a vista é linda.
— Pensei que não desse para ver o pôr do sol por causa da água.
— E não dá. Mas a água passando do claro para o escuro... – Sua voz morreu, deixando audível apenas o som do crepitar da lareira, uma vez que a música havia parado há um tempo.
Athena não discutiu, apenas observando.
De fato, a água começou a escurecer, muito lentamente. Primeiro ela parecia da cor do céu depois de uma tarde de chuva, só que mais azul. Depois foi ficando mais escura, até que de fato anoiteceu.
À noite a água parecia o céu noturno. Mas, ao invés de preto, parecia um azul muito escuro. E, por mais que não tivessem estrelas nem lua, ainda era uma linda visão, pois era uma cor límpida e brilhante.
— Eu te subestimei – disse Athena, recebendo um olhar confuso de Poseidon — pensei que você só tivesse feito a parede de vidro por causa da luz natural.
Ele riu antes de olhar novamente para fora.
— É... Eu gosto dessa vista. Me ajuda a pensar. Quando as coisas ficam difíceis, eu sempre venho aqui e olho. É bom pra espairecer e...
— Colocar as ideias no lugar – completou.
— Sim, exatamente isso.
A deusa virou-se, percebendo que ele disse exatamente o mesmo que ela horas atrás. Quando o faz, vê que o dono dos olhos verdes a encara.
De repente, três batidas ressoam na porta.
— Acho que é hora do jantar. – diz Poseidon.
— É... Então... Vamos?
— Vamos.
(...)
Assim que se sentam, o jantar começa a ser servido.
— Então, o que você resolveu fazer com a questão das roupas? – ele perguntou, com um sorriso no rosto.
— Ah, amanhã eu vou ao mundo mortal comprar roupas. E depois eu vou ao Olimpo torturar Afrodite. Já planejei tudo: vou amarrá-la em uma cadeira e obrigá-la a ver enquanto rasgo cada uma de suas roupinhas de grife. Se ela ameaçar tentar se soltar, eu falo que as unhas dela podem quebrar e pronto — disse a loira, dando de ombros.
— Entendi. – disse ele, sorrindo – E a que horas nós vamos comprar as roupas?
— Nós?
— Sim, eu preciso de um casaco. E você do meu cartão de credito.
— Quem disse que eu preciso do seu cartão de credito?
— Caso você tenha se esquecido, é a minha esposa.
— E daí? Que ideia ridícula de patriarcado é essa? Eu não dependo de você. Sem contar que ainda tenho o meu cartão. E os nossos cartões são do Cassino Lotus, não temos nem fatura para pagar depois.
— Nesse caso, acho que não tem nenhum problema em você usar o meu. E sei que você não depende de mim, mas você fica fofa brava.
— Você é impossível... – murmurou a deusa.
— Mas, afinal, a que horas saímos? – ele perguntou.
— Você não desisti mesmo, não é?
— Não — respondeu ele simplesmente, arrancando um suspiro da deusa antes de ela responder:
— Amanhã é segunda-feira, então pouca gente vai fazer compras... Podemos ir à tarde, depois do almoço.
— Vocês poderiam ficar lá até terça? – disse Marrie, entrando na sala de jantar.
— Marrie! – disse Athena, assustada com o comentário dela.
— Ei, por que ficaríamos lá até terça? Nós podemos fazer aqui tudo o que faríamos lá. – falou Poseidon, o tom malicioso em sua voz arrancando um revirar de olhos cinzentos.
Athena fulminou Poseidon com o olhar, mas ele simplesmente deu de ombros e depois respondeu:
— O que? É verdade!
Marrie, divertida, tinha um pequeno sorriso travesso nos lábios. Ela se sentou a frente de Athena e disse:
— Não sejam bobos. O pessoal quer terminar a obra lá em cima – com esse comentário, Marrie ganhou toda a atenção da deusa. – Por isso eles falaram comigo, disseram que seria melhor se todos ficassem fora amanhã à noite. Eu vou para casa da Jully, e pensei que como vocês iriam sair amanhã de tarde, poderiam já ficar por lá – ela terminou, dando de ombros.
— Acho que tudo bem, já que é só por uma noite. Eu tenho um apartamento na cidade. O que você acha, Athena? – perguntou Poseidon. Ele e Marrie a olhavam com expectativa.
— Eu acho que... — começou ela, incerta — Pode ser. Podemos passar em uma livraria e pegar alguns livros. Afinal, não vamos passar a tarde toda fazendo compras. – falou.
— É uma bo...
— Nem pensar! – Marrie interrompeu Poseidon – Vocês não vão sair daqui para fazer exatamente a mesma coisa lá! Eu não deixo! Nada de livros!
— Mas... – Tentou começar Athena, antes de ser interrompida por uma Marrie furiosa.
— Nada de "mas''! Vocês estão proibidos de ler!
— Marrie, eu acho que... – Poseidon começou, mas quando recebeu o olhar furioso da garota, hesitou.
— Acha o que? – perguntou Marrie, arqueando as sobrancelhas em um gesto desafiador e ameaçador ao mesmo tempo.
— Que, se nós não vamos ler, vamos fazer o que?
— Se virem! Aluguem um filme, façam uma pizza, brinquem de massinha! Qualquer coisa! Só. Não. Leiam. – ela se levantou e foi embora.
— Que medo — soltou Athena.
— É...
— Sabe, eu nunca vi você deixar ninguém falar com você desse jeito, pelo menos não sem você ameaçar mandar essa pessoa pro Tártaro. Mas Marrie... Ela não teve medo, te enfrentou como se fizesse isso o tempo todo, e você não fez nada. Aposto que ela não foi sempre imortal. Tenho certeza de que isso foi coisa sua. Qual é história por trás disso tudo?
Poseidon suspirou antes de responder:
— Você é muito enxerida. Sabia disso?
— Não sou enxerida, só curiosa. Faz parte do posto de deusa da sabedoria.
— Bem, parte do meu trabalho é ficar de olho nos meus súditos, e tentar manter um certo equilíbrio entre as vidas e mortes, o mundo mundano e meu reino. O pai de Marrie era um pescador, com quem eu muito simpatizava, uma vez que sempre devolvia os peixes jovens e tratava a todos de forma gentil. Um dia, ele levou Marrie junto consigo, e eu fiquei curioso com isso.
“Quando ceguei mais perto, ouvi Marrie falando: papai, a mamãe vai voltar? Ele respondeu: não, filhinha, a mamãe mora no céu agora."
"A Marrie tinha cinco anos, e aquilo despedaçou meu coração. Eu voltei pro reino e, depois de um tempo, descobri que tinha uma tempestade no local em que eles estavam.
"Quando cheguei lá, Marrie se afogava, e seu pai estava morto. Consegui salvá-la e a trouxe para o reino. Concebi a imortalidade dela, e a criei como se fosse minha filha.”
Ele terminou o relato, levantou a cabeça, e olhou nos olhos de Athena.
— Entendi. Ela é como uma filha para você. – disse Athena.
Ele assentiu com a cabeça, pensativo.
— Eu vou indo. Passei a tarde na biblioteca e não organizei nada das papeladas do meu escritório — disse Poseidon. — E como não ficaremos aqui amanhã à tarde...
— Você não foi o único que deixou as responsabilidades de lado hoje. Até amanhã, então?
— É, até amanhã.
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