Athena tinha leviana consciência da mirabolância de seus planos. Entretanto, só tomou noção do quão estranho ele parecia ao ver as diferentes expressões que tomaram a face de seu pai.

O choque, todavia, foi o que mais se acentuou. E a deusa da sabedoria não poderia culpá-lo, afinal, tendo em vista que acabara de pedir para ser acorrentada ao seu maior inimigo.

— Perdão, filha – começou Zeus – mas receio não ter entendido bem.

Athena, entendendo a confusão de seu pai, apenas sorriu.

— Sei que parece estranho e, na verdade, é. Mas procure entender, pai. É a única forma que terei de me livrar do meu voto de castidade.

Zeus franziu a testa, uma ruga se formando entre suas sobrancelhas castanhas.

— Está dizendo que mentiu para mim por todo esse tempo, filha?

A deusa suspirou, abaixando a cabeça. Seus cachos loiros lhe caíram sobre o rosto, formando uma cortina que escondia suas bochechas coradas e os olhos cerrados. Seu braço direito passou sobre sua barriga, segurando seu cotovelo esquerdo.

Athena estava envergonhada. Em uma posição defensiva que há tempos não tomava, o que chocava o deus dos deuses. Ela sabia que teria de passar por isso. Que teria de invalidar aquilo que para todos era uma verdade.

— Por vezes eu te perguntei se você havia feito uma cláusula de objeção, e você sempre negara. Agora, milênios depois, você vem me dizer que mentiu? E, pior ainda, que a sua cláusula é justamente Poseidon?!

Athena levantou a cabeça abruptamente. A respiração que se acelerava somada ao tom de voz de Zeus revelam sua iminente exaltação, e o que ela menos queria era um escândalo. Muito pelo contrário.

— Não. Não fale do que você não sabe, pai. Se eu menti, principalmente para o senhor, tive meus motivos. E lembre-se que eu jamais lhe dei motivos para desconfiar de mim. Nunca te trai.

Zeus semicerrou os olhos, desconfiado. Provavelmente, se se tratasse de qualquer outro deus, ele surtaria. Mas, por se tratar de seu braço direito e sua querida garotinha, ele estava em uma espécie de conflito interno.

— Acho bom que você tenha uma boa explicação para isso tudo – disse ele simplesmente, tomando seu lugar na sala dos tronos.

Athena suspirou.

— Eu fiz o juramento na intenção de manter o mais afastado possível de mim os pensamentos passionais, já que sou a deusa da razão. Simplesmente não podia correr o risco de me apaixonar e ser influenciada pelas emoções. Fiz o juramento para cumprir as minhas obrigações enquanto deusa, e estava absurdamente certa das minhas decisões. Bem, até o dia do juramento chegar.

“Eu estava insegura, com medo de me arrepender. Por isso, fui conversar com Afrodite. Ártemis havia me dito que tinha sido aconselhada sabiamente por ela quando passara pelo mesmo dilema que eu, ao fazer seu próprio voto.

“Apesar de não acreditar que Afrodite pudesse me ajudar, principalmente porque ela era contra o meu voto, eu fui atrás dela. E me surpreendi ao constatar que ela fora, de fato, muito útil. E esperta.

“Eu contei a ela como estava me sentindo. Que o juramento era a minha melhor saída para não me deixar levar pelas emoções. Que era o certo a fazer. Que eu estava com medo de me arrepender. Mas, mesmo com tudo isso, eu tinha medo de colocar uma cláusula de objeção porque, seu eu colocasse, ela seria meu calcanhar de Aquiles.

“Aquele poderia ser meu ponto vulnerável, uma ponta de passionalidade que eternamente me cutucaria. Uma tentação a um passo de distância, e esse passo poderia me levar para a beira de um abismo, onde qualquer sopro seria capaz de me derrubar.

“E, então, Afrodite me deu uma solução. Ela me disse que fizesse uma cláusula, mas uma tão absurda e difícil que eu teria de pensar inúmeras vezes antes de decidir usá-la. Assim, eu não o quebraria por qualquer recaída.

“E, mais importante do que isso, ela me disse para que eu não contasse a ninguém, para não correr o risco de ser chantageada. Para não ser tentada.

“E foi o que eu fiz, pai. A minha cláusula de objeção é consumar um casamento com um dos três grandes. Isso, principalmente na época, era impossível. Você, além de ser meu pai, era casado com Hera. Hades já havia dado a romã a Perséfone e, apesar de eles ainda não serem casados, eu sabia que Hades a obrigaria cedo ou tarde. E Poseidon... ele havia acabado de se casar com Anfitrite, além de ter acabado de se tornar meu maior inimigo.

“Obviamente, eu pensaria muito antes de quebrar meu juramento com qualquer um dos três. Sem contar, que precisaria de uma brecha muito específica para conseguir. No caso, o divórcio de um dos três grandes, algo quase impossível de Hera conceber.”

Zeus ouviu todo o relato de Athena atentamente, pensativo. Quando a deusa cessou seu discurso, um tenso instante de silêncio se fez presente até que o deus tomasse um posicionamento.

— Considerando o sacrifício que você está se dispondo a fazer — começou Zeus – acredito que realmente queira se livrar de seu voto.

— Na verdade, é algo que há tempos venho pensando. Eu era muito nova, nossa cultura muito forte e presente. De fato, eu estava muito vulnerável. Muito suscetível a golpes. Mas, nos tempo atuais...

— Você já não se vê inclinada a sucumbir diante de uma tentação. – Concluiu Zeus, ao que Athena assentiu.

— Sim.

— Esse é o único motivo, filha?

Athena mordeu os lábios, ponderando se deveria dar mais força à sua história ou não.

— Não. Não é o único motivo. Não é de hoje que venho sendo taxada como fria, e é inegável que há motivos para isso. Mas quero mudar isso, pai. Sempre quis ser respeitada, mas temida... essas palavras não são sinônimas, entende?

— Perfeitamente.

— Então... você está de acordo?

Zeus suspirou, pesaroso.

— Eu preciso pensar, filha. Preciso de você no Olimpo, para me ajudar. E Poseidon, obviamente, ficará furioso se tiver de se casar com você. Por outro lado... não vejo ninguém mais indicado para casar-se com ele. Quer dizer, você sempre estaria do meu lado, me passaria as informações e saberia lidar com o reino.

— Eu entendo, pai. Por favor, pense bem. E, se você puder não contar para ninguém que esse foi um pedido meu, eu agradeço.

— É claro. Essa situação já é, por si só, constrangedora o suficiente para você.

Athena assentiu, em concordância.

— Principalmente porque, pelo que você me falou, terá de consumar o casamento, não é mesmo?

A deusa suspirou.

— Para me ver livre do juramento, sim. Mas eu não estou desesperada a ponto de fazer isso logo de cara. E sequer farei, se não me sentir confortável.

— Bem, — disse Zeus, levantando-se – se eu aceitar, espero que se cuide. Agora, se me der licença, preciso ir.

— Sim – disse Athena – eu também tenho muito o que fazer agora.

A deusa deu as costas ao seu pai, dirigindo-se à porta. Quando sua mão já a segurava, no entanto, um chamado de seu pai a fez voltar a cabeça para atrás.

— Quero que saiba que, apesar de entender seus motivos, fico muito decepcionado por você não confiar em mim. Gostaria que tivesse me contado – disse Zeus.

Athena se voltou para frente, os olhos tristonhos mirando o chão.

— Eu sinto muito por isso, pai – disse, e pode sentir o cheiro de chuva que seu pai deixara ao aparatar.

A deusa suspirou, olhando o alaranjado do sol tingindo o horizonte.

— Infelizmente, você ainda vai se decepcionar muito mais. Mas há coisas na vida que precisam ser feitas.

Notas finais
*Revisado 12/02/2017 Céus, eu não acredito que consegui transformar esse capítulo. Ele era o que eu menos gostava na história toda, e agora está relativamente bom! Muito emocionada ~ risos ~