Notas iniciais
Hey peeople!

Athena costumava acordar devagar, deliciando-se com a sensação dos lençóis macios acariciando suas pernas. Agora, contudo, sentia-se frustrada por não conseguir fazê-lo.

Ainda com os olhos fechados, ela cogitou culpar Poseidon por isso. Talvez a falta de hospitalidade dele ou seu mal gosto para roupa de cama fossem os responsáveis. Ao tornar visíveis as tempestades que estiveram encobertas por suas pálpebras, entretanto, a deusa percebeu que a verdadeira razão para não deleitar-se com seus pequenos prazeres era a de ainda estar usando sua calça jeans.

Tomando consciência de todas as constatações precipitadas que já tivera feito no dia, a deusa suspirou. Sabia que a culpa daquilo era o estresse, a irritação. Era muito fácil culpar Poseidon por tudo, apesar de serem apenas consequências da escolha que ela fez. Não vou chegar a lugar algum assim. Preciso me acalmar, voltar a ser eu mesma, analisar tudo com calma.

Assim, a deusa começou a reparar em seu quarto, o que percebeu que já deveria ter feito antes. As paredes brancas apresentavam pouco contraste com os móveis de madeira clara, bem dispostos ao redor do cômodo. Não havia muitas coisas alí, na verdade. Apenas o necessário, não deixando que o ambiente ficasse poluído.

Além disso, constatou que não havia sinal de quadros, livros, ou nada que exigisse um gosto pessoal. Era um quarto completamente genérico, feito para que ninguém gostasse ou desgostasse. A deusa percebeu que isso devia ter sido proposital. Afinal, como decorar algo para alguém cujos gostos são desconhecidos?

Com esse pensamento em mente, a deusa foi até a sacada, percebendo que o céu noturno tomava conta da paisagem. Com um suspiro, foi até o quarto em busca de sua mala e uma roupa para vestir.

Ao entrar no que ela pensava ser o banheiro, a deusa deparou-se com um closet enorme e cheio de roupas que definitivamente não lhe pertenciam. Decidida a perguntar sobre aquilo a Poseidon depois, a deusa saiu de lá rapidamente.

Uma vez já recuperada do susto, Athena olhou ao redor, até que se deparou com uma outra porta no extremo oposto do quarto.

Tendo adentrado a outra porta e constatado que — graças a Zeus — era o banheiro, a deusa ligou a torneira e deixou que a água quente caísse na banheira redonda enquanto se despia. Assim que entrou, não pode resistir a afundar a cabeça na água.

Ela não pretendia molhar o cabelo, mas também não tomava um banho tão relaxante há tempos.

Athena sempre gostou de banheiros por conta da privacidade, por ser um lugar onde não há necessidade de se fazer uma cara de durona, ser correta a todo tempo, e se mostrar superior a todo mundo. Por ele ser o único lugar onde pudesse ser ela mesma, uma deusa sensível e com sentimentos.

Até porque, nunca foi fácil para ela se mostrar indiferente depois do que aconteceu...

"Não Athena! Pare com isso, você prometeu a si mesma que nunca mais pensaria nesse assunto." Disse sua consciência.

E de que adiantou? Pensou ela.

"Athena, isso pode até ser verdade, mas o que aconteceu não vai, e não pode, voltar."

Isso não está em minhas mãos, nunca esteve, e você sabe disso.

“Mas cabe a você lutar para que isso não volte a acontecer.”

Eu espero que sim porque, do que depender de mim, nada voltara.

(...)

Athena vagava pelo palácio à procura de algum lugar que ela não sabia ao certo onde era. Ou seja: ela tinha se perdido enquanto procurava um local silencioso para sentar e ficar sozinha pensando. Talvez devesse ter ficado no quarto mesmo.

Até que ela passou por uma porta dupla alta de madeira entreaberta, e não pôde resistir a dar uma espiadinha. Porém, quando o fez, perdeu o ar. Aquele era simplesmente o jardim mais bonito que já havia visto em toda a sua eternidade.

Várias rosas coloridas se espalhavam por todos os cantos, principalmente vermelhas (essas que, por coincidência, eram as favoritas da deusa). As árvores eram diferentes umas das outras, uma parecendo ser uma grande jabuticabeira, outra um Pau-Brasil, e uma que ela não conhecia.

A desconhecida, em especial, chamara a sua atenção. Era linda e diferente, com pequenas e finíssimas folhas que caíam em uma cascata verde até o chão. Sem dúvida, a deusa se imaginava sob ela para ler um livro, ou mesmo só escutando algumas músicas do The Beatles enquanto refletia.

No meio do jardim, havia uma linda fonte, onde a água escorria por três níveis de um mármore de cor clara, que contrastava com a grama verde. Dela, quatro caminhos de pedra seguiam pelo jardim, na posição dos pontos cardeais. Dos caminhos principais, menores eram puxados, e estes levavam a diferentes pontos.

— Gostou? – Poseidon perguntou, com uma voz rouca atrás da loira.

— Que susto! Onde você estava com a cabeça para entrar aqui desse jeito?! Eu quase tive uma parada cardíaca aqui! Não que isso fizesse muita diferença já que eu sou imortal e...

— Athena, só me responda: você gostou? – ele a interrompeu. Quando o deus achou que ela faria um escândalo por tê-lo feito, ela apenas abriu um sorriso tímido e respondeu:

— Sim, eu adorei.

Eles ficaram se encarando em um silêncio desconfortável, seus olhos se encontrando: cinza no verde, verde no cinza.

— Está com fome? – Poseidon perguntou para quebrar o silêncio. Athena desviou o olhar para árvore que ela tanto gostou antes de responder:

— Sim, estou morrendo de fome, e isso nem é possível. – ela falou, sorrindo, ainda sem encará-lo.

— Eu imaginei, você dormiu o dia inteiro. – o deus disse enquanto ia até a fonte e se sentava em sua borda. Depois de um tempo, Athena o seguiu, embora ainda estivesse hesitante.

Ela simplesmente não conseguia entender o como, ou o porquê, Poseidon estava agindo tão casualmente. Afinal, eles eram inimigos.

***

Athena parecia assustada, embora Poseidon não entendesse o porquê. Ele estava sendo gentil, não estava? Sabia que ela ainda deveria estar triste por ter sido obrigada a se casar com ele.

O deus também podia notar que Athena estava mal, e por mais que ela lhe chamasse de “boçal”, “estupido”, “egocêntrico” e várias outras coisas que ele nem ao menos se lembrava, Poseidon não gostava de ver as outras pessoas tristes. Mesmo que essa pessoa seja a mimada, irritante, e com complexo de superioridade, da deusa da sabedoria.

Talvez ele seja meio sentimental por isso, mas não realmente se importava.

— Athena, você está bem? – Perguntou o deus.

— Isso não é da sua conta.

Ele já esperava por esse tipo de resposta, portanto apenas continuou, com uma voz calma:

— É da minha conta se você está no meu reino, ainda mais se estiver morando na minha casa, e prestes a se casar comigo. – Disse ele, arqueando as sobrancelhas e ganhando sua atenção.

— Isso não faz sentido.

— Na verdade, nada faz sentido, mas nós sempre podemos compreender pequenas coisas quando somos ajudados.

— Por que você está agindo assim? Por que está sendo tão calmo e paciente com uma pessoa que você sabe que te odeia?

— Porque ninguém merece sofrer, e você está sofrendo.

— Como pode ter tanta certeza de que eu estou sofrendo?

Porque é o que eu vejo nos seus olhos” ele pensou em dizer, mas sabia que se o fizesse, Athena iria embora, e não era de raiva e confusão que ela precisava no momento.

— Eu não nasci ontem, longe disso. Como você poderia estar feliz se está se sentindo traída? E pior ainda: pelo seu próprio pai.

— Talvez não seja por isso que eu esteja triste. – disse ela, o encarando nos olhos.

— E pelo que mais seria?

— Talvez arrependimento, por escolhas que fiz, mas que não deveria ter feito.

— E pelo que você poderia se arrepender? Que decisão a deusa da sabedoria poderia ter julgado errado?

— Quem sabe um dia eu te conte... – disse ela, com o olhar distante, embora abrisse um pequeno sorriso. – Eu não quero mais falar sobre isso. Vamos comer?

O deus dos mares ficou surpreso com a súbita mudança de assunto, até porque estava curioso para saber sobre o que ela falava, mas decidiu não pressioná-la. Ele tinha certeza de que ela já sentia que tinha se aberto de mais com uma pessoa que odeia. “Ao menos o ódio é mutuo” pensou ele, fazendo-o abrir um pequeno sorriso.

— O que foi? – Athena perguntou.

— Ahn?

— O seu sorriso. O que foi?

Merda, já era. E agora?! O que eu falo?!

— Piada interna. – Disse ele e, como o ótimo ator que era, ela acreditou. Ele sabia, contudo, que devia esses créditos a Apolo e Dionísio por terem obrigado todos os olimpianos a fazerem aquelas aulas de teatro ridículas. E Dionísio ainda por cima decidira que iria lecionar as aulas. Ele estava sempre bêbado!

Os dois seguiram comendo em silêncio por um tempo, porém não um desconfortável, e sim de falta de assunto.

— Isso e inacreditável. Nós não conversamos, literalmente, há séculos. Isso se um dia já conversamos, e ainda estamos com falta de assunto?! Qual é o nosso problema?! – disse ela, com um pseudo sorriso nos lábios, como se lesse os pensamentos do deus.

— Talvez essa falta de assunto se deva ao fato de acharmos que iremos acabar brigando se começarmos uma conversa de verdade.

— Ah, nós não brigamos tanto assim!

— Imagine, só um pouco mais que Ártemis e Apolo... – disse Poseidon, sarcástico.

— Mas é claro que não! Eles brigam muito mais do que nós! – ela falou, incrédula.

— Atena, eles só faltam ter inveja das nossas brigas.

— Boçal — começou ela, brincando.

— Mimada — ele retrucou

— Mentecapto.

— Ignóbil — disse ele.

— Olha só... alguém anda ampliando o vocabulário — brincou ela, sorrindo, e voltando a comer.

Notas finais
Gostaram? Sim? Não? Tanto faz, eu não me importo com a opinião de vocês (mentira, me importo sim. Mais até do que deveria) *Reisado 07/06/2020