Notas iniciais
Este pequeno conto surgiu da necessidade de enxergar a vida por um ponto de vista mais luminoso. Espero que gostem!

— O brilho delas faz seus olhos encherem de água, não é mesmo? – aquela voz altiva me despertou dos meus devaneios.

Era uma voz suave e feliz, uma voz que combinava perfeitamente com aquele sorriso radiante e com aqueles luminosos olhos cor de mel.

Eu já vira aquela garota antes. Ela é uma vendedora ambulante daquela praia, que todos os dias, sem falta, estava ali vendendo suas cocadas.

Surpreendentemente, ela surgiu ali, no meu pior momento, e sentou-se ao meu lado na areia da praia de Boa Viagem.

— Sabia que as estrelas guiam nosso caminho? – questionou retoricamente ao deixar sua caixinha de isopor ao seu lado para poder abraçar os joelhos, e levantar os olhos para o horizonte infinito pontilhado por uma centelha de estrelas, que miraculosamente podiam ser vistas mesmo que a luminosidade da cidade de Recife tentasse oculta-las.

Nada consegui responder, apenas suspirei ao abaixar a cabeça. Eu não sabia o que aquela garota queria, nem o porquê de ter se sentado ao meu lado naquele momento tão turbulento. Eu só queria ficar sozinho. Sozinho com meus pensamentos e problemas, sozinho com a minha tristeza.

Meus olhos estavam cheios de água sim, mas não era por conta do “brilho das estrelas”. A verdade é que eu estava pouco me lixando para o brilho daqueles astros incandescentes... por que me importar se eles não eram capazes de resolver a minha vida?

— Com certeza guiam... – ironizei – Deve ser por isso que estou a caminho de um precipício.

— Que dramático! – ela riu baixinho – Elas não estão te guiando para um precipício. Isso é impossível! Pelo contrário, a luz delas está apenas iluminando o seu caminho, então se você viu um precipício é porque elas querem que você veja que há um desafio à sua frente.

— Ah claro. Que grande ajuda. – girei os olhos já me preparando para levantar e ir para longe daquela garota que surgira para interromper minhas reflexões acerca de como resolver minha vida.

— Sim, uma ótima ajuda! – respondeu animadamente como se não tivesse percebido o meu tom sarcástico ou simplesmente ignorando-o por completo.

— O que devo fazer, então? – questionei de forma desafiadora ao cruzar os braços olhando-a de canto.

— Não é óbvio? – ela contrapôs se levantando e batendo a areia da saia do vestido de algodão – Elas te mostraram o desafio para que você consiga procurar uma outra alternativa para seguir em frente. Você não quer deixar o trabalho todo para elas, não é, seu bobo? Afinal, a vida é sua. Elas te mostram o caminho, mas não podem escolher por você.

Aquelas palavras me tocaram de uma forma tão profunda, que senti um misto de sentimentos ruins e bons. Foi ruim perceber que naquele momento eu não estava refletindo sobre como resolver minha vida, mas estava apenas sentindo pena de mim mesmo por todos os acontecimentos negativos recentes. Mas foi bom sentir um pingo de esperança brotar em meu peito, porque pelo que ela disse, tudo não passa de uma questão de escolhas... seria tão fácil assim?

— Eu já vou indo nessa. – ela pegou a caixinha de isopor no chão e me sorriu gentilmente – Ah, e não se esqueça de comprar uma cocada minha quando me encontrar de novo. Eu até te venderia uma agora, pois você está com uma cara de quem está precisando, mas elas acabaram.

— Estou tão ruim assim? – sorri de canto ao abaixar a cabeça um tanto sem graça. Eu deveria estar com uma aparência deplorável.

Também pudera, saí correndo de casa para fugir do meio da briga dos meus pais que estão no meio de um terrível processo de separação. Mas desta vez, diferente das outras, o tópico da briga era o meu futuro. Meu pai dizia que eu iria embora com ele para fazer faculdade de Engenharia Aeroespacial nos Estados Unidos, e minha mãe insistia que eu ficaria em Recife e estudaria Medicina na Universidade Federal para seguir seus passos. O único detalhe é que nenhum dos dois se importou em simplesmente perguntar diretamente a mim o que eu queria, preferiam ficar brigando cegamente como cão e gato.

— Se está ruim? – ela me fitou numa análise evidente – Não, não. Seu cabelo só está um pouco bagunçado, mas não é de todo mal. – ela deu de ombros e sorriu novamente – Se a rebeldia faz parte da nossa vida, porque não faria parte dos nossos cabelos também? Meu cabelo parece uma juba quando eu acordo.

Ela riu.

Ergui os olhos para visualizar os cabelos cacheados dela presos em um coque alto. Ao perceber meu olhar, ela completou.

— Ele preso assim não parece uma ameaça, mas quando está solto parece que tem vida própria.

Desta vez, eu acabei por rir baixo com ela. Não sei como, mas a presença daquela garota com sua conversa boba foi me trazendo uma paz que me parecia distante no meio da bagunça da minha vida.

— Este sorriso combina mais com você. – ela disse satisfeita – Se cuide, viu? Até mais.

Eu nem ao menos consegui responder, apenas fiquei a observar aquele ponto de luz se afastar caminhando pela areia da praia.

É, talvez as estrelas guiem mesmo o nosso caminho.

Notas finais
Isto é algo bem diferente do que eu costumo escrever, mas aqueceu meu coração quando o fiz. O que acharam? Sugestões, críticas, comentários? Aceito todos! Beijinhos :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!