Brilho Tóxico - Saga das Deidades Livro I
2 Bad Dream
Notas iniciais
Acordo sobressaltada depois de mais um pesadelo. Sento-me na cama a arfar como se tivesse acabado de correr uma maratona. Mas não tinha. Não no sentido literal pelo menos... Se bem que reviver aquela noite era tortura maior do que correr a mais longa maratona do mundo.
Passo a mão pela testa, limpando o suor, e bebo um gole de água tentando acalmar os meus nervos. Desisto, atirando-me de volta para a cama derrotada.
Não havia nada de novo naquele pesadelo... Tinha-o tido repetidamente ao longo dos últimos anos, se bem que, ultimamente, este não me atormentava tão frequentemente. Mas é claro que eu não podia ter sossego... Como se já não bastasse ter estado lá nessa noite, a minha mente também me obrigava a revivê-la vezes e vezes sem conta...
Sorte a minha...
Ninguém acreditou no que eu disse ter se passado. Disseram que o trauma que tinha vivenciado me tinha feito criar aquelas criaturas na minha mente.
A morte dos meus pais foi então atribuída a um assalto mal-sucedido. Porém, eu não me conformava. Sabia o que tinha acontecido e como tal só posso concluir que o homem que nos atacou não era um ladrão. Pelo menos não um ladrão "normal".
No entanto, sem ninguém a acreditar em mim nem mesmo a apoiar a minha versão e, também pelo próprio bem da minha irmã, acabei por ceder e não insistir mais no assunto. Porém, cada pesadelo trazia de novo todas as memórias e as dúvidas voltam a surgir.
O que teria realmente acontecido naquela noite? O que era de facto aquilo que me atacou?
O barulho de alguém a bater à porta desperta-me dos meus pensamentos, fazendo-me sentar novamente.
– Pode entrar...
A porta abre-se devagarinho e por detrás desta surge uma cabeça loira com uma sorriso tímido estampado no rosto.
– Ainda na cama, maninha? Que se passa? Trev estará aqui daqui a pouco...
Suspirei e abanei a cabeça.
– Não tive lá uma grande noite... E sinceramente tinha-me esquecido de que dia era hoje... Acho que vou cancelar. Não estou com disposição para passeios.
Minha irmã, Melissa, lançou-me uma olhar zangado e veio se juntar a mim na cama.
– Então, Iry!? Estás à espera deste dia há tanto tempo! Vocês levaram dias a planear esta viagem. Não podes cancelar agora! Eu proíbo-te! — Exclama Mel, fazendo-me rir.
– Como é? Proíbes-me? Só tens 13 anos, menina! Mas está bem! Tens toda a razão... Não posso perder um passeio a Nova Iorque por estar mal-humorada...
– É esse o espírito! Agora vê se te despachas que o avô, ao contrário de certas pessoas, acordou fresco e fez panquecas para nós!
Ponho-lhe a língua de fora e ela imita-me, saindo do quarto em seguida.
Depois do que aconteceu com os meus, eu e Mel fomos entregues aos nossos avós maternos. Foi muito difícil no início, sobretudo para a minha irmã que, sendo tão pequena, não compreendia o que sucedia.
Para tornar tudo pior, a minha avó faleceu três anos mais tarde, vítima de um ataque cardíaco, deixando-nos assim sozinhas com o meu avô.
George Clark é um homem pacífico e que gosta de se sentar no sofá com uma chávena de chá e um bom livro. De vez em quando também se dá ao prazer de assistir a um jogo de basebol, o único desporto que para ele tem algum sentido.
Eu adoro o meu avô mas este é um pouco trapalhão e estava habituado a ter a minha avó para tudo pelo que, desde muito cedo, assumi a "liderança" da casa, passando a desempenhar grande parte da tarefas domésticas e preocupar-me com os assuntos de organização do lar. Claro que o facto de sentir saudades da mulher e da filha não o ajudava em nada.
Sendo assim, um dia em que o avô prepara algo para nós é sempre um dia de alegria e, normalmente, calha em ocasiões especiais.
Neste caso, calhou no dia da minha partida para Nova Iorque, ou melhor, para a a grande cidade mesmo.
Vivo a alguns bons quilómetros da metrópole, numa zona bem sossegada e onde basicamente todas a pessoas se conhecem (não sendo tão benéfico como pode parecer), mas ainda ssim dentro do estado de NY. Deste modo, eu e os meus melhores amigos, Trev e Gabby, decidimos que aos 17 anos era a altura ideal para fazer uma visita à cidade tão falada e, assim, combinámos passar um fim-de-semana prolongado na mesma — algo que temos aguardado com alguma impaciência. E hoje finalmente chegou o dia.
Desço duas escadas de cada vez, dirigindo-me para a cozinha, de uma onde provem o cheiro maravilhoso que adocica o ar de nossa casa. Só o aroma a canela faz logo mudar o meu humor, ajudando-me a esquecer o meu sonho.
De pé, a servir o pequeno-almoço, está o meu avô, assobiando alegremente.
– Poxa, avô, não sabia que a minha saída desta casa te deixava tão feliz...
Meu avô ri-se, abanando a cabeça.
– Nada disso, meu anjo. Mas raramente sais de casa. Tens sempre tanto trabalho e esforças-te tanto que me faz feliz saber que vai desanuviar um pouquinho.
– É, vô, tens razão. — Admito, dando-lhe um beijo na face e sentando-me no meu lugar.
– Olhem a Bela Adormecida decidiu juntar-se a nós... — A minha irmã diz de forma divertida enquanto se senta também, ganhando um olhar ameaçador da minha parte.
Passamos então a comer a refeição preparada pelo Sr. George que, devo acrescentar, estava uma delícia, durante a qual sou bombardeada de conselhos e perguntas acerca da minha viagem.
– Sim, não se preocupem. Não vou andar sozinha em lado nenhum. Trev e Gabby estaram sempre comigo. — Prometo e a campainha toca nesse preciso momento. — Por falar neles...
Dirijo-me à porta em passo semi-apressado pois, conhecendo Trev, sei que se não abrir a porta em 30 segundos este passará a tocar freneticamente na campainha.
Consigo fazê-lo a tempo e deparo-me com um Trev saltitante com um sorriso que parece até magoar de tão rasgado.
– Oi, Iry! Oh meu Deus, estou tãaaaaaoooo feliz! Nem acredito que é hoje mas é! É hoje! Estás pronta? Podemos ir? — Dispara Trev sem conseguir sossegar. Olha para dentro de minha casa e acena — Ah, olá, Sr. Clark e olá, Mel! Então? — Pergunta, voltando de novo a sua atenção para mim.
Coloco as mãos nos seus ombros.
– Ok, Trev, não sei quantos cafés já tomaste hoje mas acho que passaste o limite legal... Acalma-te! Vou só buscar as minhas coisas. Entra por um pouco. — Peço-lhe dirigindo-o para o interior pelo braço.
– Está bem, está bem! Mas ainda temos de ir buscar a Gabby! E não podemos perder nenhum minuto desta fantabulástica viagem! Quem sabe o homem dos meus sonhos não esteja em Nova Iorque! — Trev diz enquanto se senta no sofá da sala.
– Oh, Trev, dúvido que lá haja alguém à tua altura.
– Tens razão, Mel! Como eu não há! Mas pronto, contento-me com lá próximo.
Todos nos rimos, incluindo meu avô, e apesar de toda a minha hesitação esta manhã, estou empolgada por esta viagem.
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