Brighter.
3 Três.
Notas iniciais
As palavras que Annie havia me dito no dia anterior ainda ecoavam na minha cabeça. Agora mais ainda, pois Joe havia acabado de me avisar que estava passando em minha casa por estar com saudade. Ugh. Eu ainda vestia meu pijama do Mickey e minhas pantufas de zebrinha e não me incomodava com o fato de estar descabelada e com olheiras fundas debaixo de meus olhos castanhos, agora murchos de sono. Eu havia acordado tarde demais devido ao fato de minha mãe não estar em casa. A dorzinha irritante em minha região abdominal insistia em continuar, enquanto eu passava minha mão repetidamente pelo local da dor, como se estivesse ninando o tumor em meu ovário. Soava nojento.
Eu sorria enquanto lembrava do dia em que informei minha mãe do atraso da minha menstruação, que nunca tinha atrasado. De duas coisas eu tinha certeza: eu era virgem e eu não tinha sido escolhida como a nova virgem santa pra ser mãe do Jesus do século XXI, então “grávida” estava riscado da lista de merdas que eu poderia descobrir que aconteciam comigo quando chegasse no consultório.
Três palavrinhas: tumor no ovário. Pelo menos eu não ia ter uma cabeça de bebê saindo pela minha genitália. Eca. Enquanto eu tinha um ataque de risos, minha mãe ainda olhava perplexa para minha reação. Acho que ela só estava se guardando para berrar comigo quando chegasse em casa por eu ter interrompido a médica quando ela começou a falar sobre as “opções de tratamento”...
A porta do meu quarto fez barulho, interrompendo meu flashback particular. Fitei o rosto de Joey, que estava sorridente para mim. Quando eu olhava pra ele assim, eu pensava que eu até poderia gostar dele, se ele não fosse tão estúpido às vezes e fosse menos ignorante com meus amigos, eu poderia gostar de Joey.
— Caralho, você nem se deu o trabalho de se arrumar para me ver. – ele fez uma caretinha de nojo.
Não, eu não poderia gostar de Joe.
Respondi com um cotoco, virei-me de costas para ele e fechei os olhos. Eu não estava de bom humor, somando com minha dor e Joey... Meu celular vibrou e eu sorri quando li no identificador de chamadas quem era. Uma parte mínima de minha mente se perguntava por qual motivo eu sorria que nem pobre quando é convidado pra aniversário, mas eu ignorei e atendi.
— Eu posso passar na sua casa mais tarde? – direta e reta.
— Pode, ué. – soltei uma risadinha. – Sorte sua ter ligado cedo. Vou pedir pra minha mãe preparar comida de gente e você janta aqui em casa ou algo do tipo... Ou a gente pode sair. – eu soltei depois de Annie ter ficado calada durante cinco segundos. Eu podia sentir o olhar de Joey queimando minhas costas, e isso me fazia rir.
— Tudo bem. Passo ai às cinco.
Olhei no relógio. Eram duas e meia da tarde. Sorri e concordei, desligando logo depois. Fitei Joey, que estava de braços cruzados e com as sobrancelhas franzidas para mim, me olhando como quem queria me matar. Respirei fundo, puxando todo oxigênio que eu consegui e disse:
— Eu quero terminar com você.
Primeiro ele riu, perguntando se eu estava brincando. Eu só conseguia olhar para ele com cara de tédio, sentir tédio e fazer uma macumba mental para ele sair logo do meu quarto, da minha casa, da minha vida.
— Com quem você ‘ta saindo? – ele soltou, tossindo.
— Com as mesmas pessoas de sempre. Quer dizer, minha mãe também conta?
— Me responde agora com quem você está saindo, Marie? – ele gritava, de um modo que confesso que me assustava.
— Com ninguém, ok? Eu só estou cansada de você, desde o primeiro segundo dessa porcaria de coisa que eu nem sei se posso chamar de relação.
— Quem era no telefone? – enterrei minha cabeça no travesseiro em resposta. – Quem era na merda do telefone?
— Uma amiga, só isso! – eu gritei, jogando meu travesseiro pro alto. Merda. Mil vezes merda.
Joey fechou os olhos e os pressionou com o dedão e o indicador, respirando três vezes antes de dizer:
— Você. Virou. Sapatão.
— Eu. Sou. Hétero. – respondi do mesmo modo pausado em que ele me perguntou.
— Você anda tanto com aqueles seus amigos deficientes que ‘ta pegando a doença também. – ele gargalhou. Senti vontade de vomitar.
— Eles são muito mais normais do que você. – levantei-me da cama com raiva, quase tropeçando em minhas pantufas. – Doente é você, Joey. Você só consegue pensar em si mesmo e nas coisas que te agradam, você quer que viva todo mundo do modo que você acha certo, porque você sempre é o certo, não é mesmo? O único problema é que eu sempre sou errada. E nesse caso, os opostos não se atraem.
A última coisa que senti foi um tapa na bochecha esquerda e o carpete macio do meu quarto batendo com força em minha cabeça.
- Marie? Marie! Caralho, se essa menina não acordar agora eu juro que... Ah, merda. – eu podia ouvir Lúcio sussurrando ao meu lado. Apertei sua mão, que estava segurando minha nuca e a balançando freneticamente. Abri os olhos e pude ver sua expressão passando de preocupada para aliviada. Eu sentia uma leve ardência na bochecha que fora atingida e minha cabeça pulsava.
— Ei, gatinha! Vai ficar tudo bem, ok? – Sammuel apareceu absolutamente do nada na porta do meu quarto e correu até mim, me pegando no colo e colocando na cama.
— Como você está? – Lúcio perguntou a Sam, que assentiu, dizendo que estava tudo bem.
— Mas que merda aconteceu aqui? – eu falei de um jeito meio histérico.
— Eu e o Lu decidimos passar aqui pra te contar as novidades e quando eu entro no seu quarto aquele babaca estava enfiando a mão na sua cara. Enfiei a minha na cara dele e agora ta tudo bem. – Sammy sorriu, orgulhoso de si.
— Pelo menos eu terminei com ele. Acho que por isso ele me bateu... Pera aí, ele me bateu? – Sammuel assentiu e Lúcio gargalhou. – Filho da puta. Por quanto tempo eu fiquei bancando a Bela Adormecida?
— Cinco minutos. – Lúcio sorriu, pegando na mão de Sam e a apertando. As novidades, ok. Eu estava com medo.
— Bem, minha mãe descobriu de mim e do Sam e... foi esquisito. Mas agora ‘ta tudo bem. Saí do armário pra pessoa mais importante da minha vida e agora não preciso mais me incomodar de disfarçar nada pra ninguém.
— Como se antes você disfarçasse. – eu murmurei, recebendo um tapinha de protesto no ombro.
— E a tal Annie? – Sam perguntou e Lúcio se ajeitou ao meu lado na cama, como sempre fazia quando eu ia contar alguma coisa.
— Acho que ela vem aqui mais tarde... inclusive, tenho que me arrumar.
— Calma... rolou alguma coisa ontem?
— Não! Não, quer dizer... Não. – eu ria descontroladamente sem um motivo específico. – Eu gosto de meninos e ela ainda não deu nenhum sinal de que... curta a coisa, sabe?
— Cara, aquela menina falta ter uma faixa na testa escrito “FANCHA” com letras garrafais pintadas de verde neon com luzinhas rosas.
Nós três explodimos em gargalhadas.
Depois de fazer todo o ritual de me arrumar (com o adicional de alguns minutos para o tempo em que passei em frente ao espelho observando a mão de meu ex marcada em meu rosto), liguei minha TV em um canal qualquer e fiquei sentada e segurando vela, esperando Annie chegar.
Quando a campainha tocou, Lúcio saltou da cama primeiro que eu e ficou me empurrando até a porta, enquanto Sam observava a cena com sua expressão de “isso é desnecessário” e eu ria da reação exagerada de Lu. Devo confessar que a minha reação ao ver Annie na porta da minha casa, foi exagerada. Internalizada, mas exagerada. Respiração acelerada demais, batimentos cardíacos acelerados demais, sorriso aberto demais. Ela trazia nas mãos um pacote com um objeto que eu não havia identificado e um sorriso no rosto, que a fazia meio que... brilhar (não havia encontrado alguma palavra boa o suficiente pra descrever).
— Você vai ficar aí fora mesmo ou vai entrar? – eu disse para Annie, que soltou uma risada e entrou meio tímida em minha casa.
— Ahn... Eu pensei que fôssemos só nós duas hoje. – eu segui o olhar da guria e pude ver Sammuel de pé atrás do sofá e Lúcio sentado de pernas cruzadas, ambos sorrindo de um jeito sínico.
— A gente pode ir embora se vocês quiserem – Lúcio sorriu mais ainda.
— Não. Vocês vão ficar. Não vejo problema. Inclusive, meninos essa é a Annie.
— A gente já meio que se conhece. – Sam sorriu e acenou pra Annie, que assentiu para ele. Aquilo estava ficando constrangedor.
— Eu sou o Lúcio. – ele andou até a guria e estendeu a mão para ela, que a apertou sendo simpática.
Annie anunciou que havia trazido dois sanduíches naquele pacotinho, que no fim foram completamente devorados por Lu e Sam, enquanto eu bebericava minha Coca-Cola, ainda surpresa como aquela guria podia me deixar hipnotizada por seus olhos, ou pelo seu cabelo, ou pelo seu sorriso...
Subimos até meu quarto e Lúcio teve um surto psicótico para que alguém colocasse um filme de qual não lembro o título para nós vermos. Eu estava sentada no canto da parede, com Annie ao meu lado e os meninos na outra ponta. Ela brincava com as minhas mãos e implicava sempre que eu ia coçar o nariz ou ficava puxando meu lábio inferior com os dedos – coisas que eu sempre fazia quando me sentia envergonhada. Por um momento, esqueci da existência dos meninos na outra ponta da cama. Esqueci do filme que passava na minha tela plana, esqueci da chuva que caía lá fora ou do meu fio de cabelo que insistia em ficar fora do lugar e Annie sempre o ajeitava atrás de minha orelha. Enquanto eu sentia a guria se aproximar de mim, algo dentro da minha mente gritava em negação, a voz de Joey ressoava pela minha cabeça enquanto ele duvidava da minha sexualidade e do que eu era, os meus pensamentos, a minha certeza da pessoa que eu era, tudo foi por água abaixo. E aquilo também não importava.
Eu só conseguia sentir os lábios de Annie em sincronia com os meus, sua mão pousada de leve em minha nuca e as minhas mãos tentando encontrar um lugar onde ficar. Minha cabeça estava perdida, eu me sentia perdida. Eu estava beijando uma garota. No meu quarto. Eu gostava de beijá-la, eu gostava da presença dela ali. E ao mesmo tempo em que parecia que muita coisa estava mudando, eu me sentia feliz, leve, flutuante e meio idiota.
Abri os olhos e fitei os dela ainda fechados, e sorri quanto a isso. Seu rosto era delicado e bonito de uma forma completamente singular. Eu podia sentir seus cabelos em minhas mãos, podia sentir sua respiração indo de encontro a minha, sua mão subindo e descendo devagar em minha cintura. Eu sentia minha respiração rápida e sentia como se cada célula de meu corpo saltitasse em meio àquela situação. Annie então abriu os olhos, sorriu pra mim e me aninhou de uma forma protetora em seus braços.
Eu poderia ficar ali pra sempre.
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