Brief
2 Capítulo 2 - Café e Más Lembranças
Notas iniciais
- Não é um capítulo longo porque ando sem tempo (e digamos que, inspiração) para me dar ao luxo de escrever algo "publicável".
O vento impulsionado pela chuva batia em minha janela quando acordei naquela manhã. Dei-me conta que havia tido o mesmo sonho novamente, e embora eu tentasse afogá-lo em meu subconsciente, aquele minúsculo barulho das gotas atigindo o vidro me impediam de me concentrar em voltar a dormir.
No sonho eu estava dentro da Space Needle, exatamente no centro de Seattle, observando toda a cidade lá de cima. Minha mão segurava firmemente a de um homem alto ao meu lado (ou talvez ele não fosse exatamente alto, mas eu tinha a sensação de ser pequena ao lado dele, do mesmo modo como minha mão parecia minúscula entre a sua). Levei alguns segundos até tomar conta da situação em que eu me encontrava, e reconhecer o tal homem ao meu lado: estrutura magra, com seus curtos cabelos cor de fogo perfeitamente penteados para trás, um sorriso nos lábios e exaltação brilhando em seu olhar. Eu o conhecia. E esta foi a última vez que o vi antes da ocasião em que o observei sendo enterrado em um buraco no chão.
Não valeria a pena remoer o mesmo sonho pela décima terceira vez (sim, eu contei), por mais que isso o tornasse mais frequente. Por ora, cedi e uni forças para puxar minhas pernas para fora daquela cama, me dirigindo a janela. Por entre as persianas — e as gotas que permaneciam atingindo o vidro — era possível vistar a Space Needle. Quando eu era criança, meu irmão costumava me dizer que era possível ver todo o universo dali, e eu acreditava nisso. Obviamente, não era bem assim, mas a sensação era incrivel, independentemente. Aquilo era o meu universo. Quando subimos lá pela primeira vez, pude ver o conjunto em que morávamos na Columbia Street, e até mesmo a escola elementar da qual eu frequentava dali, e a casa de meus avós à apenas alguns quarteirões de lá. Aquilo era o meu universo. Aquele pequeno núcleo era toda a minha vida até então, e aos meus seis anos, era tudo o que eu precisava para crer que era o suficiente.
Duas batidas em minha porta me despertaram do transe. Provavelmente era checagem — o que os enfermeiros fazem a cada quinze minutos para se certificarem de que você não se enforcou ou cortou seus pulsos ou parou de respirar até desmaiar (a propósito, esse método não é muito viável, uma vez que seja improvável você morrer disso).
Uma Helga surgiu ao entreabrir a porta.
— Sua mãe veio te visitar. — Ela anunciou com um sorriso. Tinha algo no sorriso de Helga que me tranquilizava, o que considero remotamente raro. Quando as pessoas sorriem para mim eu costumo acreditar que elas não querem realmente sorrir, mas estão apenas tentando ser gentis. Helga, por outro lado, realmente me parecia gentil, como se sua esfera eletromagnética fosse carregada de íons positivos, ou algo assim. Eu não sei bem do que estou falando, mas eu posso afirmar que eu sinto essas "coisas". Embora alguns psiquiatras tenham me afirmado que “isso” seja apenas um sintoma desencadeado pela paranóia, eu prefiro acreditar que possuo algum “dom especial” que não tenha nada a ver com meus "problemas" psicológicos.
Helga abriu a porta inteira para dar acesso à minha mãe, e ligeiramente se afastou ao ouvir alguns gritos vindo do corredor.
— Deve ser apenas o Elliott. — Supus, tentando tranquilizar o olhar horrorizado de minha mãe. Elliott é um garoto gentil, embora eventualmente tenha graves ataques de raiva.
Minha mãe se aproximou, observei que carregava um pacote de minha cafeteria favorita em suas mãos. O cheiro de café instantaneamente fez meu estômago implorar por este.
— Como você está hoje? — Perguntou ela.
— Bem — Eu disse, porque essa é a resposta que todos gostam de ouvir. — E um pouco mais velha, eu suponho. — Sorri. Isso foi o suficiente para encher seus olhos de esperança.
— Eu te trouxe isso — ela me estendeu o pacote, pegando um café desde para si. — Você está certa, a comida desse lugar é horrível. — Comentou, torcendo o nariz.
Nos sentamos em minha cama enquanto bebericavamos de nossos cafés e dividiamos um muffin. Minha mãe comentava sobre um de seus alunos que foi aceito em uma famosa academia de Arte em Paris, e sobre a mais nova namorada de Sebastian (também conhecido como “meu único irmão”, e “aquele entre os primeiros em minha lista de pessoas favoritas”)
Embora ela continuasse falando, acho que não disse mais nada relevante.
— Eu sonhei com ele de novo. — Comentei, cortando o assunto. Ela me fitou por alguns longos segundos e engoliu em seco. — Com o papai, digo. Sonhei com o dia em que ele nos levou ao topo do Space Needle.
Uma espécie de melancolia pesou em suas pálpebras.
— O dia em que ele-
— Morreu. — Completei, momentaneamente me arrependendo de tocar no assunto.
— Fazem dez anos na semana que vem, me pergunto como você ainda se lembra disso. — Ela deu mais um gole de seu café. Era visível que além do líquido amargo, ela também tentava engolir suas lágrimas.
— Eu me pergunto o mesmo. — Abaixei a cabeça, pousando o copo de café vazio sobre meu criado mudo.
— Mas não vamos falar disso por enquanto. — Desconversou ela, se ajustando ao meu lado — O que fez ontem a noite? Eu gostaria tanto de poder te levar para casa, mas o Dr. Flanagan disse que seria um pouco arriscado.
Talvez porque desde que recebi o diagnóstico oficial o fato de eu respirar fora de um lugar que não seja cercado por guardas é arriscado, de acordo com ele.
Normalmente eu iria retrucar, mas a verdade é que eu estava genuinamente feliz pelo fato de que ela não pôde vir.
Suas mãos afagaram o meu rosto em concha, embora eu tenha disfarçadamente tentado me desviar destas. É estranho olhar de perto para minha mãe. Digo, ela meio que parece uma versão mais velha de mim mesma (com células que não serão mais substituídas por novas). Nós somos, de fato, muito semelhantes: Estrutura pequena e magra, olhos do mesmo tom escuro de azul, cabelos castanhos, rosto em formato de coração e até mesmo as sardas sobre o nariz. Naquele momento eu gostaria que eu ao menos fosse privilegiada de herdar sua personalidade (aparentemente, essa parte eu tive que herdar de meu pai, juntamente com o maldito transtorno bipolar).
— Tá tudo bem. — Respondi, cautelosamente afastando suas mãos do meu rosto. Eu não gosto de pessoas pegando na minha maldita cara. — Digamos que foi regularmente legal. — Dei de ombros. — Eu conheci um garoto no terraço.
— Um garoto?! — Contrapôs, seu tom escalando para quase três quartos, como se eu nunca tivesse falado com um garoto antes em toda a minha vida. — Eu não vejo você falando com garotos desde... como era o nome dele mesmo?
— Martin. — Complementei. — E eu só falei com ele, mãe. Não é como se eu estivesse saindo com alguém, não comece a se iludir. — Balancei a mão, como se pudesse varrer tal pensamento de sua mente, me arrependendo mais uma vez de ter aberto minha boca para falar sobre mais um assunto. É engraçado como esse pensamento tende a aumentar quando você está falando com seus pais. — A propósito: Eu acho que nunca mais vou vê-lo novamente.
— Isso é o de menos. — Ela passou seu braço sobre meu ombro, abraçando-me de lado — Fico feliz em saber que você anda fazendo amizades.
Depois disso, um formulário de perguntas foi despejado sobre mim. Tentei ignorá-la, mas foi em vão. Por alguma razão, eu não me importei; parte de mim se sentia bem por simplesmente lembrar dele, do "garoto suicida".
Por razões óbvias não mencionei a parte do "suicídio" para ela.
Logo após minha mãe ter ido embora, vesti-me rapidamente e saí pelos corredores perguntando para alguns enfermeiros sobre esse tal de Cameron. Aparentemente, ninguém o conhecia.
Continuei questionando a mesma pergunta aleatória durante toda aquela semana, até me conformar de que não o viria mais.
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