Brida
9 Quase desistindo
Notas iniciais
“Não vou conseguir.”
Brida sentou-se na cama e procurou o maço de cigarros na mesinha-de-cabeceira. Contrariando todos os seus hábitos, resolveu fumar ainda em jejum.
Faltavam dois dias para encontrar-se de novo com Wicca. Durante aquelas duas semanas tinha certeza que dera o melhor de si. Colocara todas as suas esperanças no processo que aquela mulher bonita e misteriosa lhe havia ensinado, e lutou durante todo o tempo para não decepcioná-la; mas o baralho recusou-se a revelar o seu segredo.
Nas três noites anteriores, sempre que acabava o exercício, sentia vontade de chorar. Estava desprotegida, sozinha, e com a sensação de que uma grande oportunidade lhe estava escapando entre os dedos.
Ficou um longo tempo na cama, antes de decidir levantar-se e preparar o café da manhã. Finalmente tomou coragem, e resolveu enfrentar mais um dia, mais uma “Noite Escura Cotidiana”, como costumava chamar desde que tivera sua experiência na floresta. Preparou o café, olhou o relógio, e viu que ainda tinha tempo suficiente.
Foi até a estante e procurou, entre os livros, o papel que o livreiro lhe dera. Existiam outros caminhos, consolava a si mesma. Se conseguira ir até o Mago, se conseguira chegar até Wicca, terminaria chegando até a pessoa que podia lhe ensinar de uma maneira que pudesse entender.
Mas sabia que isto era apenas uma desculpa.
“Vivo desistindo de tudo que começo”, pensou, com certa amargura. Talvez, em breve, a vida começasse a perceber isto, e parasse de lhe dar as mesmas oportunidades que sempre lhe dera. Ou talvez, desistindo sempre no começo, esgotasse todos os caminhos sem dar um passo sequer.
Mas ela era assim, e sentia-se cada vez mais fraca, cada vez mais incapaz de mudar. Alguns anos atrás lamentava suas atitudes, ainda era capaz de alguns gestos de heroísmo; agora estava se acomodando aos seus próprios erros. Conhecia outras pessoas assim – acostumavam-se com seus erros, e em pouco tempo confundiam seus erros com virtudes. Então era muito tarde para mudar de vida.
Pensou em não ligar para Wicca, em simplesmente sumir. Mas existia a livraria, e ela não teria coragem de aparecer lá de novo. Se sumisse, simplesmente, o livreiro a trataria mal da próxima vez. “Muitas vezes, por causa de um gesto impensado meu com uma pessoa, terminei me afastando de outras que me eram queridas.” Agora não podia ser assim. Estava num caminho onde os contatos importantes eram muito difíceis.
Tomou coragem e discou o número que estava no papel. Wicca atendeu do outro lado.
— Não poderei ir aí amanhã – disse Brida.
— Nem você, nem o encanador – respondeu Wicca. Brida ficou alguns instantes sem entender o que a mulher estava dizendo.
Mas Wicca começou a reclamar que estava com um defeito na pia da cozinha, que já havia chamado várias vezes um homem para consertar, e que o homem nunca aparecia. Começou a contar uma longa história sobre os prédios antigos, cheios de imponência, mas com problemas insolúveis.
— Você está com seu tarot aí perto? – perguntou Wicca, no meio da história do encanador.
Brida, surpresa, disse que sim. Wicca pediu que ela espalhasse as cartas sobre a mesa, pois ia lhe ensinar um método de jogo para descobrir se o encanador iria ou não iria aparecer na manhã seguinte.
Brida, mais surpresa ainda, fez o que ela mandava. Espalhou as cartas e ficou olhando, ausente, para a mesa, enquanto esperava instruções do outro lado da linha. A coragem de dizer o motivo do telefonema ia se esvaindo pouco a pouco.
Wicca não parava de falar, e Brida resolveu escutá-la com paciência. Talvez conseguisse ficar sua amiga. Talvez, então, ela fosse mais tolerante, e lhe ensinasse métodos mais fáceis de encontrar a Tradição da Lua.
De repente, como quem penetra em um sonho, Brida percebeu que já não conseguia escutar o que a outra falava. Uma voz, uma voz que parecia vir de dentro dela – mas que ela sabia que vinha de fora – começou a lhe sussurrar alguma coisa. “Você está entendendo?” Brida dizia que sim. “É, você está entendendo assim”, disse a misteriosa voz.
“Some o sete e o oito e você terá o meu número. Sou o demônio, e assinei o livro”, disse um rapaz vestido com roupas medievais, depois que a cena mudou para uma espécie de festa. Algumas mulheres e homens sorriam, e estavam embriagados. As cenas mudaram para templos encravados em rochedos na beira do mar, e o céu começou a se cobrir de nuvens negras, de onde saíam raios muito brilhantes.
Apareceu uma porta. Era uma porta pesada, como a porta de um velho castelo. A porta se aproximava de Brida, e ela pressentiu que em pouco tempo ia conseguir abri-la.
“Volte daí”, disse a voz.
— Volte, volte – disse a voz ao telefone. Era Wicca. Brida ficou irritada porque ela estava interrompendo uma experiência tão fantástica, para voltar a falar de porteiros e encanadores.
— Um momento – respondeu. Lutava para retornar àquela porta, mas tudo havia desaparecido da sua frente.
— Sei o que se passou – disse Wicca. Brida estava em estado de choque, completamente surpresa. Não conseguia entender nada do que estava se passando.
“Sei o que houve”, repetiu Wicca, diante do silêncio de Brida. “Não vou mais falar do encanador; ele esteve aqui na semana passada, e já consertou tudo.”
Antes de desligar, disse que a estava esperando na hora combinada.
Brida colocou o telefone no gancho, sem se despedir. Ficou ainda muito tempo olhando fixo a parede de sua cozinha, antes de cair num choro convulsivo e relaxante.
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