Briarcliff Hollows
2 PT1CP00
Como é difícil ficar, ah
Sem saber de nada
Se eu morrer, se eu morrer
Ölsem — Sena Şener
Parte I
à noite, todos os gatos são pardos
Tudo está confuso. Tudo está turvo. Não apenas a noite está nublada, mas os pensamentos de Imogen também estão, e estes últimos, estão confusos há bastante tempo. Ela nem mesmo consegue se lembrar de como foi parar naquela rua. Rua Teddy Sanders, ela lê em uma placa. O que ela faz ali? Não foi em um beco ali perto que acharam o corpo do calouro da Universidade de Prudence?
Talvez, ela não sabe mais dizer, porque escuta novamente a voz de Arthur Schultz chamando no seu nome.
"Imogen, me ajuda..."
É a voz dele! É sim, é a voz de Arthur!
— Onde você está?! — Ela grita em desespero. — Me diga, eu vou atrás de você, eu te ajudo, mas precisa me dizer onde está!
Tem algumas semanas que isso começou. Ela ouve vozes na cabeça, como sussurros, pedidos de socorro distantes, todos com a voz dele. De Arthur, seu melhor amigo desde sempre, que foi embora pra nunca mais voltar. Imogen passou muito tempo acreditando que isso era só mais um dos sintomas da depressão que começou assolar ela desde o dia em que ele foi embora.
É apenas saudade, ela dizia a si mesmo.
Pensou em recorrer aos seus outros amigos, mas eles também estavam em suas próprias depressões, eles também estavam recalculando suas rotas e procurando uma nova forma de viver sem alguém tão importante do lado. Por anos, eram eles cinco, e agora, ela estava praticamente só. Nem Arthur, nem Milo, nem Takafumi e muito menos Ayanna. Por isso ela está sozinha agora.
— Arthur? — Imogen chama mais uma vez por ele. — É realmente você?
É noite de lua nova e tudo está escuro. Está frio, a neblina toma conta da cidade e já passa das três da manhã, mas nada importa, porque Arthur está em algum lugar, precisando de ajuda.
— Arthur!
Imogen grita mais uma vez. Não há ninguém por perto? As lágrimas correm pelo seu rosto e o medo já tomou conta de todas as partes do seu corpo, ela treme como nunca e sabe que não é por causa do frio, embora esteja fazendo seis graus naquela madrugada.
— Arthur, onde você está? Por favor, apareça...
Duas quadras de distância, Maeve Felix percorre as ruas em roupas maltrapilhas e o rosto ensanguentado; ela respira fundo, olha de um lado para o outro e o celular que ela roubou de um cara qualquer em um restaurante logo na entrada de Prudence. Uma silhueta no meio da rua chama sua atenção, mas o celular vibrando no seu bolso toma conta da sua atenção. Ela atende o mais rápido que consegue, mesmo com a mão tremendo.
— Colin, pelo amor de Deus, por favor, me ajuda... eu n-não sei onde tô, mas-
Um grito rasga o silêncio da madrugada.
— O que foi isso? — Colin indaga do outro lado da linha.
Não é um grito humano. É algo primal. Um som que reverbera pelo chão, que treme nos ossos, que parece carregar o cheiro do sangue.
— Maeve!
Maeve engasga com o próprio ar. Seus olhos se arregalam, e ela gira em um movimento brusco, tentando encontrar de onde veio o som. Nada. Só o poste ali perto, cuja luz insiste em piscar como um aviso. A silhueta desapareceu.
— E-eu não sei...
O peito dela sobe e desce rapidamente. Seu coração bate tão alto que ela mal escuta a própria respiração. O medo sobe como um enjoo. Ela dá um passo pra trás, depois outro.
— Eu tô com medo, Colin... — ela começa a chorar, a voz embargada e infantilizada, como se tivesse dez anos de novo, como se tivesse esquecido como ser forte. — Cadê você? Eu tô com muito medo...
— Não se preocupe, me encontra exatamente no local que te mandei. Eu vou te buscar.
Maeve gira de novo, temendo que o grito volte. Que alguma coisa — qualquer coisa — surja da escuridão. Mas nada. Só o eco da própria respiração e o brilho fraco da lua oculta pela neblina. Ela aperta o celular contra o peito e começa a correr, sem olhar para trás.
Ela ainda não entende, mas acabou de ser a última pessoa a ver Imogen Gataki com vida.
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