Brenda

1 Capítulo único


Notas iniciais
É só a primeira das mil e uma ideias estranhas que eu tive. Acho que escrever isso tudo ao mesmo tempo vai me deixar doida, mas tá.
Curiosidade: Um dos significados de "Brenda" é "pequeno corvo".

Eu a amava. E Brenda amava os pássaros. Amava-os mais que a mim, mais que aos nossos filhos. Passava dias e noites observando seus hábitos e conversando com o nada sobre os “tão amorosos” seres.

Antes de qualquer tipo de julgamento por parte dos leitores, quero dizer que não fiz nada sem pensar ou sem levar em conta os desejos da minha falecida mulher.

Que destino melhor para uma adoradora dos seres com asas? Não... Eu não a matei. Brenda foi acometida por câncer só descoberto na fase terminal. De toda forma, eu não poderia – e não queria – me afastar dela.

Foi então que tive a ideia de fazer de seu corpo uma morada para seus amigos mais fiéis.

Não paguei serviço funerário ou caixão. Na verdade, procurei um daqueles profissionais que empalham animais do jeito antigo, quando aproveitavam todo o corpo e não só o couro. Alguns mamíferos e os humanos têm uma semelhança muito grande entre si. Logo, não haveria de ser muito difícil.

Ela os amava mais do que a própria vida, nada mais justo do que se tornar um lar para eles.

Brenda teve os órgãos internos retirados, a pele recoberta por substâncias que impedem a decomposição e galhos de árvore implantados em diversas partes do corpo. Nas costas, uma abertura onde antes ficariam as costelas foi feita e revestida de madeira e folhas. Depois de um tempo, um corvo fez seu ninho lá. A única parte que ficou intacta foi sua face, antes rosada.

Os galhos implantados em seus braços servem de poleiro para várias espécies de pássaro e todos os dias eu acordo com o som dos seus cantos matinais na janela do meu quarto. Confesso que no início, toda vez que abria a porta da varanda, me assustava. Tonto de sono, achava que a minha mulher havia ressuscitado ou voltado para me buscar... Coisas do tipo.

Mas agora, depois de algum tempo, ver a face meio verde por conta do formol me deixa mais calmo e, de certo modo, feliz. Ela não está viva, mas os pássaros que habitam seu corpo estão. É como se a vida dela fosse transferida para os pequenos seres alados que ela tanto adorava. Agora, sei que Brenda está em paz.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!