Breeding Love
26 Unchained
Notas iniciais
“Desacorrentado”
#POVOliver
— "Querido diário, é o Ollie de novo, e hoje aconteceu uma coisa esquisita…"
Respirei fundo, buscando paciência. Quando você tem uma dia péssimo e tem que fingir o dia todo estar bem, a última coisa que quer encontrar quando entra no conforto e isolamento do seu quarto é sua irmã caçula, deitada em sua cama com as pernas cruzadas e escrevendo em sua agenda pessoal, e ainda com alguma brincadeira estúpida.
— Speedy, não estou no humor — avisei, colocando o terno e a pasta na cadeira da escrivaninha.
— "Eu não reconheço esses sentimentos, diário, é tudo tão novo. Quando vi Felicity com Ray Palmer essa manhã, eu quis pegá-la apenas para mim e quis socar um homem culpado apenas de ver na mulher da minha vida qualidades que eu também conheço, admiro e amo."
Ok, aquilo estava ficando esquisito. Como ela sabia do que tinha acontecido e pior, como Thea poderia estar acertando em cheio cada um dos meus pensamentos? Minha irmã sabia ler mentes? Se soubesse, o planeta como um todo estava fodido.
— "Me disseram que eu estava com ciúmes, mas não pode ser isso, Felicity não é minha, não pode ser. Ela e Tommy pertencem um ao outro, tem um filho juntos, não posso ficar no meio disso e blá blá blá."
— Me dá isso aqui! — Peguei a agenda de suas mãos, foi quando percebi que enquanto fingia escrever, ela estava riscando nomes. — Você destruiu todos os nomes de mulheres dessa coisa? Tinham alguns nomes de pessoas importantes para a empresa, Thea! Investidoras, conselho, acionistas…
— Você dirige uma multinacional de desenvolvimento, por que diabos tem uma agenda de papel? — Deu de ombros, pulando para fora da minha cama.
— Vai me dar outra nova — avisei, guardando a agenda na primeira gaveta do criado mudo.
— Te dou quantas quiser se me contar o babado dessa manhã da Palmer Tech. Detalhe por detalhe.
— Não foi nada.
— Não houve nada? Nadinha? — Estreitou aqueles olhinhos curiosos. — Então você não teve sua primeira crise de ciúmes da vida quando viu Felicity com o doutor Palmer? Claro, teve o Tommy antes, mas como você no fundo sabe que ela não quer mais nada com nosso irmão, só ficou com medinho de verdade quando ela conheceu alguém que talvez possa fazê-la te superar.
— Calada — murmurei, arrancando a gravata do pescoço, meu rosto virando uma carranca.
— É, eu estava certa, realmente é muito interessante. — Se aproximou interessada, tocando pontos inespecíficos do meu rosto com o indicador, como se eu fosse um experimento qualquer.
— Thea! — Tirei as mãos dela de mim.
— Eu vou, mas só porque já estou no meu horário e preciso terminar de me arrumar pro trabalho. Vamos conversar mais sobre isso depois, viu?!
Ray Palmer. Nunca pensei que odiaria o cara.
Quer dizer, ele nunca foi minha pessoa preferida, era muito distraído para um CEO, não dava para ter uma reunião inteira sem que ele soltasse algum comentário de duplo sentido sem querer, ou perdesse o foco com alguma invenção que estava acontecendo apenas dentro da sua cabeça. Devia ser coisa de gênio, mas até dava para levar.
A coisa é que hoje, eu tive que trazer sua atenção de volta para a reunião meia dúzia de vezes, pois desde que soube que eu e Felicity nos conhecíamos, ele não parava de falar dela. Felicity o havia impressionado com alguma habilidade técnica de informática, e o homem só conseguia focar nisso, achando que eu estava gostando de tê-lo babando em cima dela. Minha cara entregava meu descontentamento e era impressionante que ele sequer notou esse detalhe.
— Oliver! Aqui fora, corredor! — Ouvi batidas fortes na minha porta, nem acreditando ao se tratar de Felicity em pessoa. — Tommy! — Bateu na porta da frente e só pela voz eu sabia que ela estava com raiva.
— Felicity? — Saí rapidamente do quarto.
— Que merda está acontecendo aqui? — Tommy também havia sido pego desprevenido com a visita, pois saía de seu quarto ainda terminando de abotoar a camisa.
— Ótimo, os dois aqui, vou economizar saliva.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não se faça de sonso, Oliver, você sabe muito bem. Os dois sabem! — Olhei para Tommy e ele balançou a cabeça, como se mostrasse estar tão perdido naquela conversa como eu.
Eu já estava começando a ficar preocupado, ela não costumava falar assim com ninguém, e fora nossos atritos nas primeiras semanas que nos conhecemos, nunca havia falado assim comigo.
— Eu tenho sido muito paciente — continuou. — Tenho tentado entender os lados, ser compreensiva, afinal estamos ligados por causa do Ben, mas já chega! Cansei de ser boazinha e nunca falar para nenhum dos dois o que estão merecendo ouvir.
— Nunca falar? Você me chamou de mimado e babaca um dia desses — Tommy argumentou.
— Cala a boca, tô falando! — o cortou tão rudemente, que meu irmão se encolheu dando um passo para trás. — Eu não sei como é ser criada por essa família esquisita, em meios a carros de luxo, bilhões da conta, mas fora das paredes de ouro desse castelo, há pessoas lutando de verdade pela vida.
— Mas Ben, seu filho, é até agora o único herdeiro de tud… — Uma olhada mortal dela, e o moreno ergueu as mãos em rendição. — Calei.
— Então esse é meu único aviso antes que eu parta para a baixaria de verdade. Nossa situação atual é culpa apenas das decisões de vocês dois, que pra variar, não me incluíram. Então se optaram por não estarem mais comigo, não tem direito algum de…
— Opa, opa, espera aí. Como assim, "optaram por não estar com você"? — Tommy fez sinal de aspas no ar. — Tudo que fiz quando voltei foi tentar voltar ao que tínhamos.
— Depois de terminar comigo me acusando de fingir uma gravidez e estar te dando um golpe?
— Pela milésima vez, nós não terminamos!
— Pela milésima vez, terminamos sim! Deus, você é tão Ross! — Tommy abriu a boca, como se o choque de ser chamado assim o ofendesse até os ossos. Eu não poderia dizer, nunca assisti nada além de alguns episódios de Friends.
— Eu sou Ross?! Eu morri, por isso não pudemos terminar de verdade!
— Você está vivo o bastante para estar me irritando agora, então… — Deu de ombros, teimosa. — E você, nem fala nada! — Me interrompeu quando eu nem havia aberto a boca direito.
Só que eu não ia contra argumentar, ela estava certa. Eu havia tomado uma decisão e tinha que assumir isso junto as consequências, a questão é que eu ainda não sabia o porquê de estar tomando aquele esporro.
— Desculpa, Felicity, mas ainda não sabemos o que te deixou tão brava, você parecia bem feliz pela manhã. Com o Palmer. — Minha boca amargou bem no final da frase.
— Então vocês não sabem que minha contratação quase certa, no emprego no qual eu amaria trabalhar, foi revogada depois da ceninha de hoje na Palmer Tech? Ou do que aconteceu depois, vai saber o que vocês dois, os poderosos herdeiros da Queen-Merlyn disseram para o cara quando eu fui embora!
Balancei a cabeça para os lados, não fazia ideia do que tinha acontecido. Tommy foi embora logo depois dela, e fora quando Ray trazia o assunto, eu não disse nada sobre, ao contrário. Queria ela comigo na empresa, mas não neguei nenhuma das qualidades que Ray Palmer destacou, e até acrescentei algumas.
— Ah, é sobre isso? — Tommy rolou olhos, como se o assunto não o interessasse mais. — Eu não fiz nada, e não vou ficar aqui sendo acusado de coisas do passado que eu já me arrependi e pedi desculpas um milhão de vezes, ou novamente, por coisas que eu não fiz e questionam meu caráter. Vocês dois realmente pensam o pior de mim — finalizou com mágoa. — Meu filho está lá embaixo? — E foi embora, sem deixar para ninguém nem o direito à réplica.
— Melhor eu também…
— Não, espera aí. — Me apressei para ficar à sua frente. — Espero que saiba que eu não fiz nada sobre sua contratação na Palmer Tech.
— Ah, não?! Agora ninguém fez nada, e aqui estou eu, sem o emprego que eu tanto queria. Eu precisava disso, e antes que você fale que é sobre o salário, não é apenas isso, precisava para me sentir útil como mulher e profissional de novo. Sabia que eu sou muito boa no que faço? Mas já estou há mais de um ano presa nessa teia que virou minha história. — Felicity parecia angustiada e eu só queria poder tirar aquilo tudo dela, nem que fosse preciso carregar eu mesmo. Se ela permitisse, eu daria tudo que ela quisesse profissionalmente, poderia fazer isso.
— Tem a Queen-Merlyn, você sabe.
— E trabalhar pra você? Passo.
— Por que, prefere o Palmer? Grande coisa.
— Não, nem vem. — Ela que já ia embora, parou e voltou para mim com o dedo em riste. — Você não tem direito algum sobre as pessoas que coloco na minha vida, quando só faz algumas semanas que você estava se atracando com Helena de novo!
— A mulher maluca que invadiu meu escritório? Eu vi você beijando Tommy no quarto dele! — me defendi, rebatendo com algo que ainda me incomodava. Se ela não tinha mais sentimentos por ele, como chegaram naquela cena?
— Você estava beijando a tal mulher maluca de lingerie! — rebateu, elevando a voz. — Quer saber, não tenho mais quinze anos para ficar tendo esse tipo de discussão, vai lá e pega quantas ex você quiser, deve ter uma enciclopédia com os nomes delas em algum lugar do seu quarto. Tchau, Oliver.
— Felicity, volta aqui. Felicity! — Corri atrás dela pelas escadas até o hall de entrada.
— O que é? — questionou já sem paciência.
— Você acha mesmo que eu falaria com Ray Palmer para não te contratar? Pensei que me conhecesse melhor.
— Eu achei que sim, mas você tem encontrado seu jeito de me surpreender.
— Tá bom, você quer tanto ir trabalhar com ele, eu faço uma ligação, e você vai trabalhar com ele! — me rendi às suas vontades, já que ir contra estava ferrando ainda mais nosso relacionamento e com minha paciência.
— Eu lá tenho cara de Susan Williams que precisa das suas ligações para conseguir trabalho? Eu juro por Deus, Oliver, que se interferir mais uma vez…
— Desculpa, mas eu não estou conseguindo acompanhar. Você briga comigo quando acha que fiz algo contra você, e briga mais ainda quando quero fazer a favor?
— A participação sua que queria na minha vida não envolvia a empresa ou nada assim, mas se não é do tipo que você está disposto a ter, também não se meta no restante.
Doeu ainda mais do que daquela vez que ela me disse que não me queria em sua vida depois do nosso primeiro beijo. E só isso mesmo para baixar os ânimos do lugar, pois eu já tinha consciência que gritávamos.
— Eu vou descobrir o que aconteceu.
— Oliver! Fique fora disso, já era. — Começou a olhar ao redor em busca de algo. — Onde está Raisa com meu filho?
Estava com saudades de Ben, mas preferi não entrar em mais combates ou ficar mais tempo ali, correndo risco de estender aquela briga. Arrumaria tempo para vê-lo depois, com mais tempo e depois que Felicity estivesse mais calma.
Subi as escadas para voltar ao meu quarto, e finalmente conseguir algum descanso.
— "Querido diário, como eu senti saudades de Felicity!" — E lá estava minha irmã novamente na minha cama, escrevendo na minha agenda. — "Vê-la pela segunda vez no dia, mesmo que tenhamos brigado, me fez sentir vivo de novo. Sinto falta de quando passar o dia juntos era uma rotina, gostaria de ter aproveitado mais aquela época."
— Você deveria ser romancista — comentei com os ombros caídos, e Thea me estendeu os braços para que eu fosse para seu colo, o que eu fiz. — Por que as coisas sempre são tão difíceis entre nós?
— Já te ocorreu a possibilidade de vocês tornarem difícil? — Usou a sua rara voz doce, enquanto fazia cafuné em meu cabelo. — O que aconteceu?
— Tem razão, vê-la com o doutor Palmer me matou de ciúmes, a possibilidade de poder perdê-la me adoeceu.
— É, a briga idiota de "você beijou fulano, mas você beijou fulana". Muito ensino médio.
— Você ouviu?!
— Vocês estavam gritando, coisa linda, a casa toda deve ter ouvido.
— Mas você acredita que eu jamais a prejudicaria de propósito, não acredita?
— Claro que não faria, nenhum dos dois faria. Felicity está magoada, e pode não conhecer vocês o bastante, mas eu sim.
— Felicity nos acusou de ter feito algo que a fez perder a chance de trabalhar lá na Palmer. Mas eu juro, irmã, minha reunião com ele foi puramente profissional, ou eu tentei que fosse.
— Eu acredito em você.
— Felicity não, e não sei como provar pra ela isso.
— Você poderia falar direto com o Palmer.
— Ela me disse com todas as letras para não fazer isso, agir por suas costas só a faria sentir mais raiva de mim.
— Tem razão, deixa comigo então.
— Não se meta, Thea.
— Ela disse que estava tudo certo para trabalhar lá, e do nada tudo dá errado. Não foi nenhum de vocês, mas foi alguém. Vou investigar.
— Mas ela disse…
— Deixa de ser frouxo, Oliver! Você deu sua palavra, mas eu não prometi coisa nenhuma — afirmou resoluta, e resolvi deixar pra lá. Quando ela decidia fazer algo, não tinha quem a dissuadisse.
— Quer ouvir uma coisa estranha? — Me apoiei sobre um cotovelo para olhá-la melhor. — Enquanto eu estava lá quase roendo uma mesa da Palmer Tech, Tommy mais parecia estar se divertindo em me torturar com essa história. E agora, não deu nem moral para a bronca da Felicity, o que será que deu nele?
— Ah, você não sabe?
— Você sabe? — questionei de volta. Se ela soubesse mesmo o que estava acontecendo, eu só queria saber quando minha irmã caçula havia ficado tão inteligente, já que esperta sempre foi.
— Oh, doce e inocente Ollie… — Deu tapinhas em meu rosto. — Não se preocupe, vou investigar isso também e quando tiver meu caso montado, te passo a explicação completa.
— Tá bom, mas por hoje só quero ler um livro e dormir até amanhã.
— Ou você pode ir pra Verdant comigo! — Ficou animada de repente, pulando em meu colchão. — Você não trabalha amanhã, é perfeito!
— Livro e cama. Só. — Fechei os olhos, abraçando o travesseiro.
— Nada de ficar nessa fossa, agindo como se tivesse 85 anos, hoje é sexta, somos jovens. Levanta, toma um banho e fica bem gato pra ir pra boate comigo, lá tem muitas coisas divertidas! Música, álcool, um pilha de livros e relatórios que a contabilidade me enviou e estou com preguiça de revisar…
Só aí entendi o interesse, e foi a primeira coisa que me fez cogitar a possibilidade de sair. Eu me sentia culpado por deixá-la sozinha na administração da Verdant. Poderia ajudar e quase nunca fazia nada.
— Me dá dez minutos — me rendi, levantando para tomar banho, enquanto ela batia palminhas.
~
— Opa, desculpa.
Colocaram a placa de "derrame sua bebida em mim" nas minhas costas? Porque está virando quase uma rotina. Mas resolvi que não ia me importar mais com isso.
— Tudo bem.
— Retiro o que disse. — Foi quando parei de limpar o líquido da minha blusa, foi que vi que a pessoa que havia me molhado era MacKenna Hall. — Tchau.
— Ei, ei, ei. — Corri para acompanhá-la, segurando em seu braço, e ela rosnou impaciente.
— O que é, Oliver?
— A gente pode conversar, só alguns minutos? — pedi.
Mack era um dos meus assuntos inacabados, e desde a última vez que nos vimos no aniversário da Thea, eu procurava um meio de me desculpar com ela.
— Não temos nada para falar.
— Você sabe que temos, por favor. Eu te pago uma bebida, já que a sua está na minha camisa agora. De novo — testei uma piadinha, e ela estreitou seus bonitos olhos negros para mim como se me avaliasse, antes de balançar a cabeça concordando. Nos direcionamos à ala VIP onde era um pouco mais silencioso e poderíamos conversar sem ter que gritar e ainda haviam estofados livres.
— Então, Oliver Queen voltou à caça em boates? — Soltei uma risada única e anasalada.
— Está mais para "Oliver Queen foi arrastado pela irmã caçula para ajudar na contabilidade de boates".
— Hm — murmurou me analisando.
— E você, veio sozinha?
— Você disse que ia me pagar uma bebida.
— Ah, claro. — Fui até o bar e peguei a sua preferida, whisky, e para mim apenas água, estava dirigindo. — Olha, Mack… Te chamei aqui para pedir desculpas.
— O quê?
— O modo como as coisas acabaram entre a gente, e ainda não tivemos a oportunidade de conversar sobre. Eu sei, antes daquilo tudo conversamos e decidimos não continuar, mas aquele show de meses atrás foi desnecessário e eu sinto muito por ter sido a pessoa a te envolver naquela confusão.
— Uau, isso parece ter sido sincero, vindo do rei da mentira e dissimulação.
— Foi sincero, eu juro. Gosto muito de você e não queria que ficasse um clima ruim entre a gente.
— Desculpas aceitas, então. — Tocou o copo no meu, como uma espécie de brinde. — E no fim das contas, nem era de você que eu estava com mais raiva. Sim, você deveria ter sido honesto sobre suas outras "amigas" e mereceu cada tapa que levou, mas o que Helena fez… Mulherzinha deplorável.
— Você não sabe a mais recente.
Lhe contei sobre o que aconteceu na um mês passado e MacKenna ficou mais chocada.
— Invasão de propriedade particular, falsidade ideológica, assédio sexual. Você devia pedir uma ordem de restrição — orientou.
— Foi a primeira coisa que fiz na manhã seguinte, ela não pode chegar a 500m de mim ou qualquer membro da minha família. Mas conta aí… Como você está?
MacKenna me contou sobre seu trabalho, que havia subido de patente e estava adorando trabalhar em sua nova função na Narcóticos, mas que tinha acabado de aceitar uma promoção para se mudar para Coast City. Era melhor por ficar mais próxima da família, e eu fiquei grato por poder encerrar nossa história em bons termos com ela.
— Ah, você não vai adivinhar quem é minha amiga que está aqui hoje. Por falar nisso, é bom eu ficar de olho, ela está soltinha demais. — Se inclinou um pouco para a pista abaixo de nós, a procura de alguém.
— Realmente, tenho nem ideia, você nunca foi de ter amigas mulheres para sair para boates.
— Ah, a gente tinha umas coisas em comum, que acabaram nos unindo. Motivo principal: ranço mútuo por um tal de Oliver Queen.
— Quê?
Segui meu olhar para onde ela apontava, até ver, no meio do povo todo, Laurel dançando loucamente no meio da pista, jogando o cabelo em todas as direções, só parando para segurar em um estranho quando toda a movimentação parece tê-la deixado tonta.
— Aquela é Laurel? — Apertei os olhos para focar melhor e ter minha certeza. — Como no mundo vocês se tornaram amigas?
— Já falei, pra reclamar de você. Na verdade, ela me procurou com um plano infantil de destruir todos os seus ternos e riscar seu carro novo enquanto você estava no trabalho, mas a convenci que a melhor vingança era nos divertirmos mais que você, mal sabia eu que estava liberando uma doida.
— Tenho que te agradecer, eu acho.
— Você deve, e na próxima, pare de namorar essas garotas com parafusos a menos.
— Valeu. Pelo conselho e por salvar a pintura do meu carro. — Ela riu e quando olhamos para baixo, agora Laurel estava no maior amasso com o cara que tinha esbarrado. — Tem certeza que ela está bem? — Não podia evitar me preocupar.
— Deixe-a se divertir, Oliver. A garota namorou e foi fiel a você a vida toda, ela merece uma folga e pegar todos os caras que quiser.
— Você está certa — concordei. Eu não era ninguém para dizer para minha ex noiva como levar a vida. — Mas tomara que ela não cruze com meu irmãozinho e sua nova personalidade libertina.
— Sério? E ele está por aqui? — Olhou ao redor, sorrindo com interesse.
— Mack!
— O quê? Ele é gostoso pra caramba, se está dando mole por aí, não me custa nada marcar check nos dois irmãos.
— Eca. — Fiz careta.
— Mas que história impressionante a dele, hein?! Na época eu vi nos jornais, apenas por cima, o que aconteceu.
— É, foi sim.
Respondi suas perguntas sobre o acontecido com Tommy e conversamos mais pela hora seguinte. Nunca imaginei que seria bom ser apenas amigo de uma ex namorada, era surpreendente legal.
— Ah, não — MacKenna murmurou, parando uma risada no meio e olhando para baixo. — Tenho que ir.
— O que foi?
— Laurel começou a passar dos limites, essa garota não sabe beber. — A acompanhei, impedindo por pouco Laurel de subir em uma mesa sem blusa. — Noite encerrada por hoje, parceira. Vamos.
— Eu… Eu te ajudo.
— Neném, é você?! — Uma Laurel de sutiã semi acordada segurou meu rosto, comprimindo minhas bochechas entre as mãos quando a peguei no colo. — Você voltou pra mim?
— Apenas durma, Laurel. — A ajustei melhor em meus braços. — Eu deixo vocês em casa.
— Ops, alerta de péssima ideia. Já estou chamando um carro, não precisa — MacKenna dispensou, pegando o celular da bolsa.
Não faz sentido, eu levo vocês. Já estava mesmo indo para casa também.
Depois de deixar minha ex noiva deitada no banco traseiro do carro, voltei para a Verdant apenas para avisar minha irmã que já estava indo embora.
— Você vai o quê? Com quem? — gritou, me dando vários tapas. — Não, não. Nada disso, não, não.
— É só uma carona, Speedy.
— Como você acha que um ménage com duas ex namoradas vai ajudar tua história com a Felicity, mano? Não, você não vai!
— Thea, eu sou seu irmão mais velho, palavras como ménage está na mesma categoria de enfiar, por favor, não usa na minha presença! E é só uma carona.
— Me diz uma coisa, Ollie. Por que você gosta de andar na borda, hein?! Existe um largo caminho, onde você pode correr, andar de bicicleta e fazer cambalhotas, mas você tem que passar tão perto do precipício? Você pode cair!
— Ou me jogar, é o que está pensando. Não vai acontecer, relaxe.
— Você beijou Helena — acusou.
— Isso de novo?! Ela me beijou e eu a afastei! — a corrigi. — E eu devo a elas, ok?! Machuquei muito essas garotas, eu não posso ser menos que gentil com elas cada vez que tiver oportunidade, você entende isso?
— Cadê sua jaqueta, Oliver? — Estreitou os olhos e cruzou os braços, observando o detalhe.
— Laurel estava sem blusa — falei rápido e baixo, torcendo para ela não entender.
— Oh, meu Deus! — Colocou as mãos na cabeça e andando em círculos, fazendo drama.
— Você não confia mesmo em mim, não é?!
— Teu passado te condena tanto, meu filho. Você é que chamamos de um cafajeste em reabilitação, não se passou nem um ano que está limpo. E mais, Laurel fica 10% menos insuportável quando está bêbada, e MacKenna sempre foi sua preferida. As roupas de vocês já estão saindo, e ainda nem chegaram em casa, já era tudo, já era!
— Ok, chega de exageros. Não vai acontecer nada, você sabe o porquê. — Felicity. E esse foi o único argumento que a fez acreditar em mim e parar de falar. — Revisei seus livros de contabilidade, deixei algumas coisas marcadas para você dar uma olhada. E se precisar de mais ajuda, só pedir. — Beijei sua testa, antes de sair.
— Só pra você saber, eu tenho acesso remoto às câmeras de segurança lá de casa, eu vou saber a hora que vai chegar. — Balancei a cabeça e fui embora, aquela maluquinha não tinha jeito.
— Você demorou — Mack comentou, colocando o cinto quando entrei no banco do motorista.
— Minha irmã sabe ser… — Grunhi, não sabendo exatamente como terminar a frase sem revelar o conteúdo da conversa.
— Irmãos, eu sei. — Deu de ombros, e eu arranquei.
Deixamos Laurel em casa. Depois que a levei ao quarto, MacKenna cuidou de lhe ajudar com as roupas enquanto eu esperava na sala. Só fomos embora quando ela já estava dormindo tranquila.
— Sabe o que tem me deixado intrigado?
— Não, o quê? — A morena ergueu o olhar do celular para me dar atenção, quando já estávamos chegando no apartamento dela.
— Todo esse cuidado com Laurel. Nem sabia que vocês se falavam, agora saem juntas e você cuida dela como se fosse irmã. O que aconteceu?
— Culpa, neném. — Deu de ombros, e eu entendi. — Sei lá, eu sei que você era a pessoa que devia fidelidade a ela e não eu, mas me sinto mal. Sabia que você era comprometido e tivemos uma coisa assim mesmo, foi errado.
— É, foi errado. — E no fim das contas, acabamos juntos naquela noite, por causa da mesma pessoa e pelo mesmo motivo. Culpa. — Somos pessoas ruins?
— Não, imagina. Somos pessoas boas que às vezes fazem escolhas ruins, é diferente — decretou, quando eu já estacionava na frente do seu prédio.
— Pelo menos agora, sobre esse assunto, podemos colocar a cabeça no travesseiro e ficar mais tranquilos para dormir.
— Dormir juntos? — Ergueu uma sobrancelha sugestiva, e eu optei por encarar a rua vazia à minha frente. Estava aí a tentação da qual Thea me alertou. — Opa, te deixei nervoso? Nunca te vi negar fogo, Ollie. — A risada dela ecoou pelo carro, enquanto sua mão subia por minha perna, que tratei de colocar de volta em seu colo.
— Não, é que… Desculpa, eu não posso.
— Oliver, olha pra mim. — Engoli seco, antes de virar o rosto.
Não queria ser indelicado, ou ofender por rejeitá-la, mas não era apenas que não podia, eu não queria nada com ela ou qualquer outra mulher que não fosse Felicity.
— Você está apaixonado!
— O quê?
— Que coisa mais fofa, você está apaixonado! — concluiu, com uma palma alta.
— O que te faz achar isso?
— Primeiro, seu jeito de encostar em mim e na Laurel, muito respeitoso vindo do cara de mão mais boba que já conheci. Então nada de sugestões maliciosas, nada de álcool, voltando para casa cedo, só precisava tirar a prova e tirei. Você ficou constrangido, não conseguia nem me encarar porque sabia que ia negar o sexo, e seus pensamentos foram direto pra ela. Conclusão, clara e simples, está apaixonado!
— Você está jogando verde.
— E você caiu, bobinho. Além do que, sou uma ótima detetive, não dá pra me enganar.
— Eu te enrolei muito bem por quase um ano, então…
— Cala a boca! — Esmurrou meu ombro repetidas vezes, e eu fiz uma careta.
— Que mão pesada, Deus me livre, Mack! — reclamei, acariciando o local. — E pare de fazer deduções aleatórias e…
— Quem é ela? Espera, não me fala… — Balançou as palmas, antes que eu sequer abrisse a boca. — Vocês não estão juntos, o que é estranho, você sempre costuma ir atrás do que quer, e vai por mim, é muito difícil te negar alguma coisa, o que me diz que não estão juntos não porque você não quer, mas porque acha que não pode. — Bateu o indicador no queixo por alguns segundos, até que seu rosto iluminou. — Felicity! Você está apaixonado pela Felicity!
— MacKenna, isso não… Isso não faz nenhum sentido. — Sorri sem graça.
— Então, quando começou a rolar? Eu gosto de Felicity, e como está o bebê? — Puxou uma respiração profunda pela boca, levando as mãos à boca. — Como seu irmão reagiu?
Resolvi contar tudo para ela. Sempre que precisei me abrir sobre o que tinha acontecido ou estava pensando, eu tinha Tommy, Diggle e Thea, e mais recentemente, Felicity. Só que todos estavam muito envolvidos, não havia opinião imparcial ali.
— Pare de rir, qual a graça nessa história?
— Desculpa, é que é muito fofo. — Apertou minhas bochechas, mas eu a afastei. — Nunca pensei em te ver de caído por alguém, é como a maravilha das maravilhas.
— Ainda não entendi o motivo das risadas.
— Sinceramente, você está sendo bobo. A garota diz que quer ficar com você, e você termina por causa do seu irmão, que pelo jeito… Ah, deixa pra lá. — Dispensou a ideia com um gesto de mão.
— Não, não deixa. Tommy pelo jeito o quê?
— Você não sabe?
— Sério, vocês tem que parar de falar isso pra mim. Não, eu não sei! — minha voz subiu uma oitava e eu já estava ficando sem paciência. Entre Thea e MacKenna, já estava cansado do mistério e de levar pancadas para enfatizarem seus pontos.
— Não importa, Oliver. Só sei que você não pode ficar aí, com todo o drama e tristeza por uma decisão que foi apenas sua.
— Você não entende, não posso magoar meu irmão.
— Tommy é adulto, vai ficar bem. E se está tão preocupado, manda ele pra cá, pode deixar que eu consolo seu irmãozinho. — Fiz uma careta. — E na minha opinião, quem está sobrando nessa história é ele.
— Não seja cruel, Mack.
— Cruel está sendo você, se poupando de felicidade e fazendo a sua garota sofrer. Solte suas correntes, Oliver, quando o assunto é buscar seu amor verdadeiro, vale a pena ser um pouco egoísta. — Era um conselho estúpido. Havia sido egoísta a vida toda, estava na hora de começar a não ser mais.
— Obrigado por me perdoar. — Segurei sua mão, beijando no dorso.
— Não disse que te perdoei.
— E obrigado também pela companhia, foi bom conversar com você essa noite.
— Mesmo que não vá seguir nenhum dos meus conselhos, se te conheço bem. — Sorriu e soltou a mão, deixando um beijo em meu rosto. — Boa noite, Oliver. — E saiu do carro.
— Boa sorte na sua mudança — desejei, e ela se inclinou na janela no carona.
— Boa sorte na sua mudança. — Piscou para mim, entrando no prédio.
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