Breathe
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Kate POV
O som do meu celular tocando me despertou e eu mal podia acreditar. Nós tínhamos acabado de fechar um caso, pelo amor de Deus! As pessoas não podiam me dar um dia de folga? Kate Beckett não merecia uma noite de sono que não terminasse às seis da manhã?
Virei-me na cama, os olhos ainda fechados enquanto eu buscava cegamente pela fonte incessante de barulho. Quando senti o material frio sob minha mão, abri os olhos, imaginando quem era corajoso o suficiente para me acordar em um dia de folga.
Eu havia mandado Castle para casa ontem à noite, com a desculpa de precisarmos descansar e ambos sabíamos que não haveria muito disso acontecendo se eu fosse para o loft ou deixasse-o ficar. De qualquer outra maneira, nós devíamos tomar café da manhã juntos. Mas definitivamente não tão cedo. Voltei minha atenção para o celular.
Lanie. Aquilo não estava certo, ela sabia que não estava de plantão.
— Isso é melhor ser bom, Lanie, eu estou de folga. – Disse quando finalmente atendi, e ela não respondeu a princípio, então continuei. – Por que as pessoas não podem simplesmente parar de matar umas às outras?
Esperei por uma resposta, algo saído direto do seu arsenal de piadinhas, como “porque você estaria desempregada”, mas nada veio e então finalmente senti o clima daquela ligação. Ela continuou não dizendo nada, mas eu podia ouvir sua respiração errática do outro lado.
— Lanie... – disse enquanto me sentava na cama, tensa de repente.
— Kate. – Ela finalmente respondeu. Sua voz, ao contrário do esperado, não me trouxe qualquer alivio. Ela estava tremula, como se segurasse as lágrimas com determinação, fazendo meu estomago doer de preocupação. – Nós, hm... Temos um caso.
Segurei o telefone com mais força quando sua voz falhou na última palavra.
— Certo... O que há de errado?
— Talvez você devesse vir aqui? – Ela parecia distante, receosa e sua sugestão acabou saindo como uma pergunta. Senti os pelos na minha nuca se eriçarem. Aquilo não ia ser bom, eu podia sentir.
— Deveria? – Me ouvi perguntando, e então sacudi a cabeça. – Tudo bem, me mande o endereço, eu vou estar aí em vinte minutos.
Não esperei por sua resposta e desliguei o telefone, me jogando da cama afim de me vestir. Disquei o número de Castle, esperando impaciente enquanto ele não atendia. Desliguei e liguei novamente, obtendo o mesmo resultado. Certo, talvez ele estivesse dormindo.... Eu bem sabia como gostaria de estar fazendo o mesmo. Mandei uma mensagem com o endereço, avisando que tínhamos um caso.
Eu tinha certeza que ele apareceria mais tarde, de qualquer maneira.
Peguei tudo o que precisava e saí de casa, minha cabeça dando voltas imaginando o motivo do tom de Lanie. Eu definitivamente não pararia para café hoje.
.
.
.
Desci do carro com o mesmo nó no estomago que sentia há minutos, e a medida que cada passo me levava para mais perto do prédio, ele parecia apertar mais. Eu estava tremendo levemente, minha intuição gritando para que eu saísse dali o mais rápido possível, que voltasse para minha casa, onde era seguro.
Continuei caminhando, seguindo o fluxo de pessoas natural de uma cena de crime. As pessoas em seus uniformes passavam por mim em um borrão, meu nervosismo deixando minha mente turva. Quando finalmente encontrei Lanie, ela estava encostada na parede, Ryan e Esposito ao seu lado, parecendo tensos. Me aproximei, e então realmente olhei para minha melhor amiga.
Seus olhos estavam vermelhos e assustados, como se tivesse acabado de ver um fantasma, os braços cruzados firmes em seu peito. Minha respiração ficou presa por um segundo. O que diabos havia acontecido ali?
— Lanie. – Chamei, e então todos os olhos se voltaram para mim ao mesmo tempo, pesarosos. Minha voz tremia, eu não podia me controlar, mas tentei soar forte e determinada.
Ela pareceu ficar ainda mais assombrada quando me viu, e seus passos até mim foram vacilantes.
— O que aconteceu?
— Eu te liguei, mas acho que não deveria ver isso. – Disse e embora suas palavras fossem uma espécie de ordem, sua voz tremia demais para ser levada realmente a sério.
— O que aconteceu? – Repeti minha pergunta, olhando por cima de seu ombro para os outros dois detetives, e então finalmente para o restante da sala.
Era horrível. Completamente. Era um escritório magnifico, com livros cobrindo cada centímetro das paredes, decorado com bom gosto e uma linda vista pela grande janela. Ao menos, seria magnifico, em qualquer outro dia. Hoje, era uma completa bagunça. Moveis estavam jogados, vidro estilhaçado se espalhava pelo chão e era difícil encontrar uma superfície que não estivesse coberta de sangue. Sangue vermelho e horrível, com seu cheiro característico de sal e ferrugem que fazia minha cabeça doer.
Eu já havia visitado centenas de cenas de crime, mas nada como aquilo.
— Lanie! – Tentei novamente.
Ela desviou os olhos para a poltrona que estava virada para o outro lado, apontando para o lado errado da mesa. Era claro que ali estava o corpo.
Dei um passo em direção ao local, e imediatamente três pessoas se moveram ao mesmo tempo em minha direção, impedindo meu caminho. Encarei com descrença os detetives e a médica legista em minha frente.
— Mas o que... — eu estava pronta para argumentar ainda mais, mas suas expressões mandavam arrepios de medo diretamente para minha espinha, e eu parei.
— Beckett.
— Talvez você não devesse ver isso. – Ryan e Espo falaram ao mesmo tempo.
— Não vai ajudar em nada.
Nesse momento meu sangue corria gelado em minhas veias, o medo me paralisando no lugar por alguns segundos, antes da raiva tomar conta. Aquela era a minha cena do crime, meu caso, e meus olhos! Com que direito eles se colocavam no meu caminho daquela maneira?
— Não vai ajudar... ajudar com o que? Eu preciso.... É meu trabalho, eu já...
Continuei murmurando e notei quando eles trocaram um olhar, mas não se moveram.
— Nós estamos esperando a identificação e...
— Ah, pelo amor de Deus! – Disse exasperada e passei pelos três, ignorando seus protestos.
No segundo em que me aproximei, desejei não ser uma idiota. Desejei não os ter ignorado. Desejei não estar ali, desejei ter ignorado a ligação de Lanie e voltado a dormir. Desejei ter aceito o convite de Castle e ido com ele para o loft, onde ainda estaria, quente e segura em seus braços. Desejei não ter me tornado detetive, desejei sequer ter nascido, se isso me livrasse daquela imagem.
Na poltrona elegante, coberto de sangue com um ferimento horrível no pescoço, Richard Castle me encarava, a expressão em agonia. Suas mãos estavam cada uma repousada em um braço da poltrona, a cabeça meio inclinada para o lado, mas eu podia ver perfeitamente.
— Não. – Ofeguei, dando um passo atrás. Meu corpo todo tremia violentamente agora, as lágrimas que ameaçavam cair quase me impedindo de ver, e aquilo me fazia sentir um pouco de gratidão. – Isso não é... Não.
Dei outro passo para trás, colidindo com alguém. Me virei abruptamente, dando de cara com o rosto preocupado de Lanie.
— Lanie. – Sussurrei e voltei a olhar para o corpo. Um soluço involuntário sacudiu meu corpo, e então senti a mão de Lanie no meu ombro. Vire-me novamente para ela, sacudindo a cabeça feito louca. – Não! Não, não é... Não pode.... Não! Ok? Isso não...
Eu sabia que não estava fazendo o menor sentido, mas como poderia ser diferente? Meus pensamentos estavam embaralhados, eu não conseguia formar uma sentença coerente sequer. Lanie tocou meu braço, tentando me forçar para o lado, para longe do caminho. Dessa vez eu empurrei sua mão, lutando contra ela.
— Não! – Praticamente gritei, a fazendo pular. Continuei com a única palavra que conseguia colocar para fora, a única que fazia sentido. – Não, não... Lanie, Castle...
E então eu não conseguia respirar. Eu já vivenciara ataques de pânico o suficiente para saber o que estava acontecendo, mas todo meu conhecimento nos defeitos idiotas do meu cérebro não estava me ajudando.
Quando novamente senti mãos me puxarem para longe, não resisti. Não podia, mesmo se quisesse. Eu tinha uma vaga noção de estar caminhando e sendo levada para longe, mas não me incomodei com o para onde. E Lanie falava comigo, insistentemente. Algo sobre digitais, mas eu não conseguia me focar no significado de suas palavras. Tudo o que eu conseguia pensar em meio ao pânico, era o que eu faria agora, como seria possível seguir em um mundo onde Richard Castle não existia. A resposta, na verdade, era simples: Não seria, eu não conseguiria.
Nós éramos como fios conectados. Corte um, e outro seguiria sem demora. Era simples como a luz do dia.
Me encostei contra a parede gelada, curvando-me em mim mesma, tentando fazer com que meus pulmões e meu cérebro funcionassem novamente.
— Respire, Kate. – Ouvi Esposito instruir, respirando fundo algumas vezes para que eu imitasse. Eu tentei, mas não foi o suficiente. Era como se eu jamais fosse respirar direito novamente.
Continuamos com o exercício inútil por tempo demais, e eu começava a me sentir tonta. Realmente tonta. Me agarrei a parede com uma mão, a outra ainda ao redor do meu corpo, como se pudesse forçar o ar a fazer seu maldito trabalho. Ouvi alguém falar algo sobre uma ambulância e outras palavras, mas não faziam sentido.
E então, depois do que pareceram horas, meu nome foi chamado ao longe por uma voz preocupada demais e familiar demais e real demais para que fosse saudável para minha sanidade. Eu chorei ainda mais, incapaz de conter o som baixo e doloroso que escapou dos meus lábios.
— Kate! – Ouvi novamente, dessa vez mais perto.
— Não, não. – Sacudi a cabeça, os olhos fechados fortemente, esperando não desmaiar e que aquilo acabasse.
— Meu Deus, o que diabos aconteceu com ela? – A voz perguntou e eu queria que ela se calasse.
Não ouvi uma resposta, e de repente ele falava bem perto de mim. Embora soubesse que era loucura, tentei obedecer suas instruções para respirar, para imitar exatamente o que ele estava fazendo. Minutos depois, o mundo finalmente pareceu parar de tentar me derrubar, e minha respiração estava mais controlada. O que me dava mais clareza para pensar.
— Não. – Sussurrei pela milésima vez, abrindo meus olhos. Castle me encarava. O azul em seus olhos estava escuro de preocupação, arregalados. A mistura de medo, confusão, preocupação e amor eram profundas demais, o suficiente para eu saber que ele estava realmente ali. Que minha mente não estava me pregando peças. Ela não era tão criativa assim.
— Castle. – Ofeguei. – Castle...
— Ei, você. – Ele sorriu.
— O que? – Confusa, olhei ao redor, constatando que não havia ninguém mais por perto. Eu não havia percebido que os outros tinham saído. Voltei minha atenção para o homem chocado em minha frente. – Castle!
Eu chorei novamente, incontrolável, e me joguei em seus braços com força demais. Surpreso, ele me pegou antes que pudesse cair e me apertou contra seu corpo, uma mão firmemente em minha cintura, a outra atrás da minha cabeça. Segurei com força em sua camisa, o trazendo o mais perto possível de mim, chorando audivelmente em seu pescoço.
— Shh, está tudo bem. – Ele continuou murmurando, me assegurando de que estava tudo bem por um longo tempo. Eu, por outro lado, apenas chorei, sussurrei seu nome e o apertei contra mim, meu rosto em seu pescoço, sentindo seu cheiro. Era como ir para o céu logo depois de fazer uma visita ao inferno.
— Rick.
— Eu sei, você está bem agora. Tudo bem.
— Você estava morto! Eu vi.... No escritório? O corpo. Não era você. – Constatei o obvio. – Não era.
— Não! – Ele parecia não saber exatamente do que falava, mas concordou. – Eu não te deixaria assim, nunca. Eu prometo.
Eu sabia em primeira mão que aquela não era uma promessa que dependia dele, mas deixei que se registrasse em meu cérebro e finalmente me acalmei um pouco, relutantemente me afastando e olhando seu rosto. Seu lindo rosto, amável e doce como sempre.
E então, quando achei que era impossível, veio a raiva.
— Você deveria atender seu telefone! – Quase gritei, seus olhos se arregalando em surpresa. – Você sabe, é para isso que eles servem? Para que as pessoas possam falar com você quando pensarem que está... – parei, meu punho fechado atingido seu peito.
A surpresa com minha explosão de raiva foi substituída pela culpa, e eu me arrependi imediatamente. Não era culpa dele, é claro que não.
— Me desculpe. – Ele disse. – Eu sinto muito, eu não ouvi tocar, eu estava dormindo, eu sinto tanto.
— Me desculpe, não é sua culpa. – Aproximei-me novamente e passei meus braços ao redor do seu pescoço, o trazendo para um beijo desesperado e necessário. Tão necessário que doía. – Quando eu colocar minhas mãos em quem fez isso...
— Eu ajudo. – Concordou com minha fala inacabada.
Escondi meu rosto em seu pescoço novamente, incapaz de me afastar, apenas ficando ali por um tempo, me certificando.
— Eu estava com tanto medo! O mundo todo estava errado... — murmurei depois de alguns minutos.
— Eu sinto tanto! Eu vou atender o telefone sempre agora, no primeiro toque, não vou deixar fora de vista, eu prometo. – Ele disse e eu sorri.
— Eu vou colá-lo na sua testa, se necessário. – Prometi. Ele me apertou com mais força contra seu peito.
— Como eu atenderia, então? Você sabe, com ele...
Eu ri. – Shh, cala a boca, Castle.
Ele não calou. – Seria esse um momento "cala a boca e me beija, Castle"? – Ele fez uma péssima imitação da minha voz.
— Definitivamente. – Respondi e então, mais uma vez, seus lábios estavam colados nos meus.
Fale com o autor