Notas iniciais
Essa é a minha primeira história postada no site, então não sei muito bem o que esperar. Breath of Life estava na minha cabeça desde o começo do ano e só há pouco tempo pude colocá-la em prática.
Para que não fiquem perdidos, essa história se passa depois do oitavo episódio da quinta temporada.

Os pés de Rick Grimes não tocavam o chão, tampouco eram responsáveis por tirá-lo do lugar. À sua frente, abria-se um corredor longo, estreito e escuro ─ ou iluminado demais para olhos que passaram tanto tempo na escuridão. Tudo era tão estranho que poderia até ser um sonho, se a dor não fosse real. O xerife sentia a sua cabeça latejando violentamente, como se ele tivesse levado uma pancada muito forte na parte de trás do crânio. Ao seu lado seguiam dois homens estranhos e, depois de algum tempo, Rick percebeu que eram eles que o arrastavam pelo corredor. Tentou se livrar deles, porém o xerife ainda estava fraco demais para ter alguma chance.

Grimes se esforçou para recordar como havia chegado àquela situação. Lembrava-se de estar com seu grupo na estrada. Era quase engraçado pensar que, em algum momento, eles sempre voltavam para a estrada. Não importava como o novo lar era protegido, algo sempre era capaz de expulsá-los. Nenhum lugar é seguro.

Dessa vez eles tinham Gabriel, Noah, Abraham, Rosita, Eugene e Tara. E estavam sem Beth. A morte dela ainda era muito dolorosa para o grupo, seria difícil superar esta perda. O evento era o grande culpado pelo pessimismo do grupo; Richmond parecia muito distante e, a cada dia que se passava, eles tinham a sensação de que o caminho se tornava mais longo que antes. Se não havia nenhum lugar seguro no apocalipse, Rick teria que construir um para Carl e Judith, um lugar onde eles pudessem crescer em paz e segurança.

A lembrança dos filhos fez com que o homem se alarmasse. Caso eles ainda estivessem com o grupo, não havia problema. Daryl, Michonne e os outros certamente cuidariam deles enquanto Grimes não retornava de onde quer que estivesse. Mas se o grupo todo estivesse onde Rick estava... O que o levava ao problema primordial: onde ele estava? Pelo bem de todos, o líder esperava que estivesse sozinho nessa.

Pararam diante de uma das várias portas dispostas pelo corredor, um dos homens a abriu com uma chave e juntos os três entraram na sala. Era um local grande, com outra porta ao lado, janelas dispostas apenas na parede oposta à da porta e nenhum móvel à vista. As janelas superiores eram pequenas e quase tocavam o teto, enquanto as inferiores eram grandes e estavam obstruídas por panos. O xerife foi levado até um canto qualquer, onde teve seu pulso direito amarrado com uma corda grossa que estava presa à parede.

Cordas eram algemas muito pobres e poderiam ser facilmente rompidas, na teoria. Na prática, não era tão simples. Assim que os homens deixaram a sala, trancando a porta, Rick iniciou suas investidas contra a corda. Ela estava presa bem no alto, de forma que ele era forçado a ficar com o braço para cima. Em pouco tempo o sangue começaria a descer e as suas chances diminuiriam. Grimes acabou percebendo que a corda estava muito apertada, pois a cada movimento o homem sentia seu pulso sendo rasgado. Inicialmente tentou desamarrar o nó – muito bem feito, por sinal ─ usando a mão livre, até perceber que era inútil. Depois o xerife mudou de estratégia e passou a forçar a corda usando o peso de seu corpo, na esperança de arrebentá-la.

─ Não perca seu tempo. ─ Uma voz o interrompeu depois de muito tempo.

Sobressaltado, Rick olhou para o lado. Na parede da porta, um homem se encontrava desmaiado e preso por uma corda da mesma maneira que Rick. Havia um pouco de sangue na parte de trás da blusa dele; se Grimes seguisse a trilha do líquido rubro, encontraria uma ferida aberta na cabeça que indicava que a luta para desacordá-lo fora intensa.

Na parede oposta à do xerife havia uma mulher. Seu rosto poderia até ser bonito, se não estivesse tão inchado e colorido devido a múltiplas pancadas; a visão era tão desconfortável que fez com que ele desviasse o olhar na mesma hora. Contudo, não era a parte mais ferida do corpo dela. Os hematomas do rosto variavam de cor entre roxo, vermelho, verde e amarelo, porém os pulsos possuíam uma palheta de tons diferente. Era quase impossível dizer o que era corda e o que era carne ali, já que a pele havia sumido completamente naquela região. Aparentemente ela tentara se livrar das cordas com mais vigor, porém só conseguira ferir violentamente seus pulsos e deixá-los em carne viva. Aliás, diferente dos dois homens da sala, a mulher tinha as duas mãos atadas a cordas.

A pele, onde não estava machucada, era pálida como se tivesse passado dias sem ver a luz do sol. Os cabelos eram escuros, tão escuros quanto carvão. A maioria dos fios descia até antes do queixo, entretanto o cabelo como um todo não era regular, o corte era totalmente desalinhado e mal feito. As roupas também não se encontravam em bom estado, estavam sujas e rasgadas. Contudo, o que mais chamava a atenção eram seus olhos, verdes e insanos.

Aqueles orbes claros o avaliaram de cima a baixo com descaso. Grimes não conseguia tirar os olhos daquele verde que transbordava loucura. O que estava acontecendo naquele local? O estado dela estaria relacionado a esse lugar misterioso? A mulher soltou uma gargalhada.

─ Vai ser preciso muito mais do que força para se libertar. ─ Sua voz rouca transmitia amargura e uma pitada de ironia quase que imperceptível aos ouvidos. Rick podia jurar que ela estava se divertindo com suas tentativas falhas de se soltar da corda.

Antes mesmo que ele pudesse dizer alguma coisa, uma porta do outro lado da sala se abriu. A luz que saiu de lá instantaneamente cegou seus olhos, a claridade era forte demais para ele. O homem sentiu todas as dores voltarem, o ferimento em sua cabeça voltando a latejar e o suor descendo lentamente por seu pescoço. Rick fechou os olhos com força, desejando permanecer assim e dormir, apenas por alguns minutos, talvez algumas horas...

─ Parece que tivemos sorte hoje. Três pessoas... Já conseguimos três em algum dia, Jack? ─ A voz o despertou, mas ele ainda não conseguiu abrir os olhos.

─ Essa é a segunda vez, senhor. ─ Uma segunda voz falou, não tão grave quanto a primeira.

─ Certo, certo... Vamos deixar nossa amiguinha por último.

─ Você vai me deixar por último? Típico de vocês... ─ A mulher cuspiu as palavras.

─ Minha querida, eu prometi a você que te daria bastante tempo para pensar. Entrevistarei nossos novatos e depois, Georgie, teremos uma conversinha sobre o que você fez. ─ Naquele momento, Grimes já estava de olhos abertos e acompanhou atentamente a mudança na feição da mulher. Inicialmente ela pareceu pronta para revidar, contudo algo a abalara de uma forma profunda, e toda a ferocidade do rosto machucado se esvaiu em poucos segundos. O comportamento se assemelhava ao de uma criança contrariada, e por alguns instantes Grimes lembrou-se de Carl. Porém havia algo a mais ali, seus olhos demonstravam que aquelas palavras de alguma maneira haviam abalado as estruturas da mulher. ­– Aquele dali está dormindo... Vamos deixar que se recupere. Pegue este daqui.

O homem veio em sua direção e soltou a corda com facilidade. Logo em seguida o xerife investiu sobre ele. Foi uma tentativa patética de desferir um soco no desconhecido. Rick pulou em direção à sua face sombria, mas seus joelhos não possuíam força suficiente, e ele subiu apenas alguns centímetros antes que a gravidade o puxasse de volta. Permaneceu com a face sob o chão frio por alguns instantes, com as risadas descontroladas da mulher aumentando ainda mais sua raiva e frustração.

— Vamos, Jack, eu não tenho tempo para brincadeiras. Leve-o para a sala.

Somente quando o xerife estava confortavelmente sentado em uma cadeira o senhor de idade começou a falar. Era um homem perfeitamente alinhado para os padrões apocalípticos, o que era surpreendente devido à sua idade avançada que parecia beirar a casa dos 70. Apesar da calvície, os cabelos que lhe restavam tinham um penteado perfeitamente alinhado. A barba também estava em bom estado e possuía quase todos os fios acinzentados. O idoso avaliou Grimes por longos instantes e prendeu o olhar na aliança que ele usava na mão esquerda.

— Vamos começar. Sei que está curioso para saber quem sou eu, assim como eu estou curioso para saber quem é você. Por isso vamos fazer um jogo: você responde uma pergunta e tem o direito de fazer outra. – Permaneceu calado observando Grimes intensamente. ­– Espero que seja sincero; a chave de um bom relacionamento é a sinceridade. Vamos precisar de um relacionamento agradável durante a sua estadia. Qual o seu nome?

— Rick Grimes. – Respondeu com a sinceridade que o senhor desejava. Poderia ter criado um nome falso, porém de que adiantaria? O que significavam nomes e sobrenomes nos dias atuais? – Devolvo a pergunta.

— Meu nome Arnold Schmid. É casado?

— Viúvo. – Rick lembrou-se de Lori, mas logo afastou o pensamento. – Onde estamos?

— Em um centro de repouso, mais precisamente em uma das salas usadas para guardar produtos químicos. Sentiu o cheiro agradável de água sanitária?

— Sim. – Acabou achando uma brecha, a pergunta dele tinha acabado de ser desperdiçada. O homem parecia inteligente, mas falava demais. – Como vim parar aqui?

— Você levou uma pancada na cabeça e meus homens o trouxeram para cá.

— Está omitindo algum fato?

— Sim, e acredito que você possa deduzir qual é. – Rick sabia a resposta. Os homens de Arnold não só o trouxeram como também eram responsáveis pela tal pancada na cabeça. Por quê? A resposta para essa pergunta não deveria ser agradável... – Tem família ou alguém lá fora, senhor Grimes?

— Tinha. Minha esposa. – Não respondeu com sinceridade dessa vez, mas conseguiu ser convincente. Até onde sabia apenas ele tinha sido pego, e Rick Grimes jamais colocaria a segurança de seus filhos em risco. – Por que me pegaram?

— Não vou mentir pra você, não foi por generosidade. Como eu já tinha dito, estamos em uma casa de repouso. Quando isso tudo começou, tínhamos pouco mais de 30 idosos. O governo estava evacuando a região, levando primeiro as crianças e os mais velhos. Muitas famílias vieram buscar seus parentes, mas a maioria os deixou aqui. Mas até aí tudo bem, porque a evacuação era apenas um boato e suponho que aqueles que tentaram deixar a cidade tenham morrido. Tudo que restou foram alguns de nós e os funcionários que permaneceram. As coisas ficaram muito difíceis aqui, até que eu decidi que não queria morrer. Mas nós éramos poucos e fracos. Tínhamos um lugar decente e comida suficiente para algum tempo, mas não tínhamos o principal: pessoas. Pessoas para manter esse lugar de pé, fazê-lo funcionar. O problema é que, nos dias de hoje, não dá mais pra confiar nas pessoas. O apocalipse as tornou mais egoístas e tirou toda a compaixão. Ninguém ajudaria um bando de velhos por livre e espontânea vontade, e se soubessem que esse local existe já teriam pilhado nossos recursos ou nos expulsado daqui, na melhor das hipóteses... Mas ainda precisávamos de pessoas, para nos manter seguros e para garantir nosso alimento. Então todo o santo dia Jack e seus amigos saem com nossas melhores armas, encontram sobreviventes solitários e os trazem para cá. Sei que não é gentil e voluntário, mas é a nossa melhor saída e tem dado certo. É por isso que se encontra sentado aqui, senhor Grimes: para garantir a sobrevivência de todos nesse centro de repouso. Vocês e outros muitos vão trabalhar em nossas cercas e plantações.

— E o que eu ganho com isso?

— Você ganha um teto sobre a sua cabeça e alimento, é muito mais do que você poderia conseguir lá fora. Não vou mentir falando que vai ter liberdade, você não vai. Temos um horário de funcionamento rígido e metas a serem cumpridas no final do dia. Você trabalha para mim agora. – Arnold sorriu presunçosamente, e Rick Grimes não se abalou nem por um segundo. Fixou o olhar no idoso e recebeu o mesmo olhar de volta. A situação era bem clara, e Schmid deixara explícito em suas palavras quem estava no comando. O xerife estava ciente disso, porém faria de tudo para que a situação não durasse muito tempo. Ele não aceitaria aquilo tão facilmente. – O que é a liberdade perto da segurança e de um prato de comida nos dias de hoje? Nada. É isso, meu caro Grimes. Uma sociedade em que eu entro com os recursos e você com o trabalho, nada mais justo. Se você cooperar, os dois lados só têm a ganhar. É muito melhor do que a vida que você teria.

Ele é esperto, mas acontece que eu não estava sozinho do lado de fora.

Notas finais
Personagens desse capítulo:
Georgina Cranston - http://i.imgur.com/34XqY47.jpg
Arnold Schmid: http - http://i.imgur.com/rzWwIGZ.jpg
Sou uma pessoa muito ocupada e tento me dedicar o máximo que posso à escrita (e, consequentemente, à fic, já que é a única coisa que escrevo nesse site). Por isso, gostaria que deixassem reviews para saber se vale a pena prosseguir com esse projeto. Se ela receber feedback, o capítulo 2 pode vir mais rápido.