Breaking Your Family
1 Capítulo Único
Waldorf, Maryland, Vinte e Quatro de Dezembro de 1994.
O Frio ameaçava cortar fortemente seu rosto, mas ele não parecia ligar. Sentia que alguma coisa importante aconteceria aquela noite. A neve caía como algodão sobre seu corpo. Estava estirado no chão, de olhos fechados, pensando. O que ocorreria de tão importante assim?
- Benji! — seu irmão gritava, com a cabeça para fora da porta -. Benjamin!
\\\'Oh, Céus\\\' Joel sussurrou para si mesmo.
- Benjamin Levi Madden! — Joel tentou novamente, Benji pareceu nem ao menos se mexer.
Joel saiu de casa e caminhou pisando forte sobre a neve, tropeçando e quase caindo no chão. Se espanou um pouco e continuou a andar.
- Benjamin! — ele gritou, chutando o pé esquerdo de Benji.
- Han? — Benji tossiu, tentando se levantar -. Falou comigo?
- Não, falei com Sarah — Joel rolou os olhos -, vamos, levante-se.
Benji levantou e seguiu o irmão para dentro de casa. O lugar era aconchegante, a lareira estava acesa e o fogo iluminava o aposento escuro.
- Cadê mamãe? — Benji disse, olhando pra Joel, atirado no sofá.
- Foi ao Supermercado — Joel respondeu, distraído, clicando ansiosamente o botão do controle remoto, trocando de canal de cinco em cinco segundos -, Sarah foi com ela.
- E Josh? — perguntou, subindo as escadas.
- Está trabalhando — desligou a televisão, levantou do sofá e seguiu o irmão até o quarto.
Benji atirou-se na cama, se encolhendo.
- Que porra você tem? — Joel perguntou, sentando na cama e observando o teto.
- Nada — respondeu, desinteressado -, nada mesmo.
- Ora, vamos. Conheço-lhe, Benji.
- Estou... — ele começou.
- Está? — Joel indagou, impaciente.
- Com um péssimo pré-sentimento.
- Hum — disse Joel, parecendo não ligar -, só isso?
Benji balançou a cabeça em forma de desaprovação, e levantou-se. Caminhou até o banheiro e olhou-se no grande espelho que havia ali. Estava com o rosto pálido, as bochechas levemente coradas era a única existência de cor em sua face, além de seus olhos escuros, que pareciam duas bolitas brilhantes. Havia olheiras sobre suas pálpebras, estava cansado, não dormira bem. Seus sentimentos estavam confusos, ele estava com medo. Que Diabos era aquilo?
- Joely — alguém gritava no andar de baixo -, trouxe cervejas pra você — Josh.
Benji rapidamente saiu do banheiro e desceu as escadas correndo. Deparou-se com Josh, carregado de caixas de cerveja, dois litros de refrigerante e um champgne.
- Que porra é essa, Josh? — ele perguntou, apontando as cervejas.
- Cerveja — ele falou, limpando a garganta logo em seguida.
- Eu sei que é cerveja! — Benji disse, rolando os olhos — Mas para que tanta cerveja?
- Benjamin — Josh envolveu seu braço nos ombros de Benji -, para beber. Hoje é Natal, esqueceu? — e piscou para ele.
- Quem seria o idiota capaz de tomar tanta cerveja assim?
- Ei, ei, ei — Joel disse, descendo as escadas enrolado a uma toalha -. Eu, Josh e Papai.
- Papai não deixaria você beber quatro caixas de cerveja!
Josh calou-se. Joel subiu novamente as escadas. Atirando-se no sofá, Josh ligou a televisão e colocou em um canal de filmes. Benji sentou ao seu lado, e o fitou por uns instantes.
- Como foi o trabalho?
- Uma merda — ele falou, bebendo um gole da latinha.
- Por quê?
- Porque trabalho é uma merda.
As chaves giraram na porta da casa, e Sarah e Dona Robin entraram carregadas de sacolas.
- Querem me ajudar, crianças? — ela perguntou, olhando para Josh e Benji, sorrindo.
- Hum, não — respondeu Josh.
Benji levantou-se e ajudou a mãe e a irmã com as sacolas. Pelo jeito, a ceia daquele ano seria mais farta do que em qualquer outro, talvez seu pré-sentimento fosse algo bobo, não havia nada de errado em tudo aquilo. Josh desligou a TV e ligou o aparelho de som, colocando a fita do Social Distortion e começando a cantarolar algo.
- Josh, desligue isso — a mãe olhou com um olhar de desaprovação para o filho -. É Natal! Não acha que algo como Jingle Bells seria mais apropriado?
- Mamãe, papai e todos nós gostamos de Social D! — Sarah disse, fazendo cara de pidona.
- Por falar nisso, cadê papai? — Perguntou Benji, desembrulhando o Panetone das sacolas que envolviam-no.
A mãe pareceu congelar, Josh olhou para ela, sem expressão alguma no rosto. Benji fitou a situação, e voltou a fazer o que estava fazendo.
- Não sei, filho — disse a mãe, pegando uma travessa no armário em cima da pia, e colocando o Peru sobre a mesma, para descongelar -. Deve estar no trabalho, provavelmente chegará tarde, sabe como é, lojas costumam ficar abertas até mais tarde nessas datas comemorativas... — ela falou sem muita convicção. Benji percebeu.
Joel descia as escadas novamente, dessa vez semivestido. Usava uma calça de moletom desbotada, e estava sem camisa. Olhou para a mãe e sussurrou um "oi".
- Hey — ele disse olhando a casa -, não parece Natal. Vamos animar isso aqui!
Ele caminhou até o som e aumentou o volume da música, Sarah largou as compras que ajudava a desembrulhar e correu até o irmão, atirando-se sobre ele.
- Idiota! — Joel gritou -. Se você quebrar o crânio daqui alguns dias, a culpa não será minha.
Sarah deu um tapa na cabeça dele e saiu correndo. Joel atirou uma almofada nela e errou o alvo, acertando a árvore de Natal, que começou a balançar, mas não caiu no chão.
Josh pegou outra almofada e tacou na cara de Benji, que rapidamente sorriu maldoso e começou a caminhar em direção ao irmão. Dez minutos depois, a sala estava uma bagunça e Dona Robin já havia começado a preparar o Peru. Havia almofadas para todos os lados, Sarah e Joel ainda corriam.
Josh e Benji estavam sentados no chão, em perna de índio, bebendo e cantando as músicas da antiga fita que tocava no aparelho de som.
- Você me paga! — Joel disse, atirando uma almofada atrás da outra em Sarah; que havia acertado seu nariz em cheio a dois minutos atrás -. Você me paga, pirralha!
- Vamos parar com isso, Joel — a mãe disse, olhando-o séria -. Você já tem 15 anos, por favor.
Joel encarou a irmã e sorriu vingativo para ela, que retribuiu dando uma risada maligna. Estava ofegante, não parara de correr nem sequer um minuto até agora. Joel sentou ao lado de Benji e encarou o fogo na lareira. Os três se entreolhavam repentinamente, e cada um sentia que estavam pensando na mesma coisa.
O relógio marcava vinte e três horas e doze minutos e o pai ainda não havia chegado. Josh sabia que ele não chegaria, que acabara, que não haveria mais "pai" naquela casa.
- "You work hard now, to put the food on the table, you\\\'re working for the man who don\\\'t even know your name. That\\\'s the way that it goes when you\\\'re down here with the rest of us. You might lose now, your beautiful children, your happy home yea, and your beautiful wife... that\\\'s the way that it goes when you\\\'re down here with the rest of us..." (Você trabalha duro agora, pra colocar comida na mesa, você trabalha para o homem que nunca soube o seu nome. Esse é o jeito que as coisas são quando você está caído aqui com o resto de nós. Você pode perder agora, sua linda criança, você está feliz em casa, e sua linda esposa. Esse é o jeito que as coisas são quando você está caído aqui com o resto de nós. Você irá sofrer muito agora, conforme você enterra os seus amados. Você irá sofrer muito agora, quando você perde o seu melhor amigo. Esse é o jeito que as coisas são quando você está caído aqui com o resto de nós) — Josh começara a cantar, junto com a música.
- Essa era a música preferida do Papai — disse ele, levantando uma sobrancelha.
A mãe o olhou feio, com os olhos formigando, qualquer lágrima poderia cair dali, à qualquer momento. Joel observava a cena sem entender e prestava atenção na letra.
"That\\\'s the way that it goes and I know how you feel. No ones immune now, from a world of problems. No ones exempt now, from a world of pain. That\\\'s the way that it goes when you\\\'re down here with the rest of us, I try hard now, to do the right thing, yet I wonder, why I still do what\\\'s wrong. That\\\'s the way that it goes when you\\\'re down here with the rest of us. That\\\'s the way that it goes and I know how you feel." — O aparelho cantava, o ambiente ficava mais pesado e tudo parecia passar como um flash na mente de Benji.
[Flashback]
"Estava na sala, assistindo um filme que passava às quatro da manhã na televisão. Ouve um estrondo na porta, e seu pai entra cambaleando. Benji abre a boca para falar algo, mas a fecha novamente. O Pai sobe as escadas sem sequer olhar para o filho, e o deixa ali, pensando sozinho. Benji pega o controle da televisão, e aperta o botão do volume, diminuindo-o. Uma voz muita fraca, sonolenta, misturada com soluços, falava: "...Oh, não, querido! Novamente não."
[/Flashback]
O coração de Benji acelerou, que porra estava acontecendo, afinal?
[Flashback]
"Benji descia as escadas lentamente, para tomar café da manhã.
- Hoje tem a ceia, querido... Você não pode se atrasar... — sua mãe dizia, com uma voz doce, sorrindo fraco para o pai.
- CHEGA! — ele gritou e se retirou da sala, com a pasta de trabalho mais cheia que o normal, batendo a porta com força."
[/Flashback]
Benji levantou, caminhou em volta do sofá, pegou um vaso que havia em cima a uma mesinha, e jogou-o na parede. A mãe e os irmãos o olharam assustados.
- JÁ CHEGA — ele gritou -, JÁ CHEGA! ELE FOI EMBORA, NÃO FOI? AQUELE COVARDE FOI EMBORA E NOS DEIXOU AQUI, NÃO FOI? ELE FOI VIVER COM A PUTA GOSTOSA DELE, NÃO FOI? ELE PREFERE UMA VIDA SEM FILHOS, UMA VIDA SEM UMA MULHER PARA SUSTENTAR. ELE PREFERE UMA VIDA VAGABUNDA, CADA DIA COM UMA MULHER, NÃO É? ELE PREFERE IR PARA AQUELE BAR DA ESQUINA BEBER UMAS ÀS QUATRO DA MANHÃ, NÃO É?
Sarah começou a chorar, sem entender. Joel estava perplexo, olhava de Benji para a irmã, que chorava desesperadamente, e da irmã para a Mãe, que tinha o rosto sobre as mãos, fungava baixinho e balançava a cabeça.
- ME DIZ, MÃE — Benji continuou a gritar -, ELE NOS ABANDONOU, NÃO FOI? ELE NOS DEIXOU, NOS DEIXOU — olhou para Joel, agora ele chorava, de tristeza, de raiva, seus sentimentos misturavam-se, ele estava nervoso, queria quebrar tudo à sua frente, queria fugir com a família para qualquer lugar, queria matar seu pai -. ELE NOS DEIXOU! ELE NOS ABANDONOU. ELE CONSIGUIU! — ele começou a bater palmas, debochado — AQUELE VAGABUNDO CONSEGUIU, CONSEGUIU DESTUIR A NOSSA FAMÍLIA, A FELICIDADE DE TODOS NÓS.
- Mamãe — Sarah dizia, baixinho -, do que ele está falando?
Josh agora chutará a mesa de centro da sala.
- Pois é — Josh respondeu, estava vermelho, nervoso, com raiva — ELE NOS DEIXOU, AQUELE FILHO DA PUTA.
- CALEM A BOCA — Robin gritou, indo abraçar a filha -. Dói-me muito dizer isso, querida. Mas seu pai...
- FOI EMBORA? — Agora foi à vez de Joel explodir, ele estava fervendo, chorava e gritava ao mesmo tempo, suas palavras saiam abafadas da boca.
- Não — sussurrou Sarah baixinho.
- Sim, querida — Robin chorava e sorria para a filha, um sorriso confortante, um sorriso verdadeiro.
Joel caminhou até a mãe a abraçou-a, forte, chorando em seu ombro. Benji ainda tentava respirar, recuperar o fôlego. Ele nunca odiara tanto alguém, NUNCA. Caminhou até Sarah e abraçou-a, junto com a mãe. Josh atirou a lata de cerveja na parede e fez o mesmo.
- Eu estarei aqui — Robin sorriu -, eu estarei sempre aqui.
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