Breaking The Cycle

2 You have to believe me


Ao avistar o grupo de soldados conversando no fim da floresta, próximos às montanhas, a menina puxou as rédeas, fazendo com que Fogo Solar desacelerasse até parar próximo a eles.

— Senhorita Stemmaguarda — falou Áaron assim que a viu, cortando o assunto e dando alguns passos para abordá-la. — Não deveria estar aqui.

— Mas estou — respondeu, descendo do cavalo. — Me diga o que houve.

Áaron desviou o olhar para um ponto distante, visivelmente receoso, mas a jovem apenas aguardou, paciente. Então ele voltou a encará-la e diminuiu seu tom de voz.

— Durante a chuva de ontem, um dos sentinelas avistou um dirigível pousando próximo a essa área. Porém o desgraçado não viu motivo pra fazer alarde e só soubemos agora de manhã.

— Um dirigível?

— Sim, acreditamos que tenha vindo de Piltover, senhorita.

— Me chame só de Lux, Áaron — respondeu a menina, ainda que soubesse que seu pedido não seria atendido. — Checou se houve algum comunicado prévio? Não somos aliados diretos, mas ainda mantemos uma política pacífica. Imagino que eles teriam avisado algo.

— Nada — disse o homem, franzindo a testa. — Mas temos informações da presença de noxianos por lá. Alguns homens temem que eles estejam planejando algo, e o dirigível seja só o primeiro passo.

— Mas é um único veículo. Não vamos ser precipitados, vamos checar antes de atacar.

— É pra isso que estamos aqui, senhorita.

— Armados até os dentes? — questionou Lux, indicando o grupo de homens atrás dele. Havia um total de dez soldados, todos com ao menos uma arma em mãos e mais alguma embainhada.

— Precaução.

— Então vou com vocês. Me dê um minuto para amarrar a sela de Fogo Solar.

— Senhorita, é perigoso demais.

— Pra quem? — questionou, se virando para o cavalo enquanto mantinha a conversa. — Se o dirigível chegou durante a chuva, talvez ele nem pretendesse pousar por aqui. E mesmo se for o caso, dificilmente vai ter algo mais perigoso do que dez soldados demacianos treinados. Não se subestimem.

Sem parar para ver a reação de Áaron, Lux terminou de amarrar a sela em uma árvore e então se virou para se juntar ao grupo maior, aguardando junto deles para o momento de partida.

***

Mesmo com o veículo danificado, a jovem zaunita permaneceu no dirigível para se abrigar da chuva, mas arrumou suas coisas e saiu assim que os pingos deram uma trégua no início da manhã. Não que houvesse tantas coisas para arrumar: um caderno, uma caneta, roupas do corpo e uma pistola era tudo que carregava.

Apenas alguns passos a levaram para uma floresta pouco densa, onde adentrou sem hesitar.

Precisava confirmar exatamente onde estava, e se poderia se instalar em algum lugar ou precisaria consertar o balão pontudo e dar meia volta para longe dali. O maior problema do segundo plano é que parte do tecido do dirigível havia se rasgado durante o pouso forçado pela chuva, e ela não tinha as ferramentas adequadas para manutenção.

Andou por alguns minutos até escutar passos, e se escondeu atrás de um tronco, a pistola já em mãos.

Se inclinou um pouco para espiar rapidamente e avistou um grupo de soldados com espadas e lanças em punho, andando de forma organizada enquanto averiguavam os arredores. Porém, o que mais chamava a atenção era a moça que liderava a fileira: pequena, esbelta e brilhante, parecendo estranhamente feliz, ainda que não sorrisse. Não fazia o perfil militar e parecia ter uma pele saudável demais.

Então, reparou nos uniformes. Tirando a menina, todos usavam armaduras prateadas com detalhes dourados e azuis.

Voltou a se esconder totalmente atrás do tronco e apoiou a arma no chão. Se sentou e pegou o caderno e a caneta presos no cinto.

Noxus tinha vermelho em suas cores, e só havia um único outro lugar que ela sabia de guerreiros com aquele tipo de armaduras e espadas.

Abriu o caderno e foi para a última página onde tinha escrito, adicionando um parágrafo:

“Atualização

Parece que na verdade é Demacia.”

Ouviu o som de um farfalhar à sua esquerda, e, sem hesitar, pegou a pistola novamente a apontou.

Bem diante do rosto da garota loira de antes.

***

— Olá — disse Lux, piscando, sem tirar os olhos da jovem de cabelo azul. Apesar da arma que apontava e do caderno suspeito, as roupas rasgadas e as manchas de tinta e sangue seco na pele diziam que ela não estava em suas melhores condições. No mínimo, parecia pouco provável que fosse uma enviada de Piltover para tramar contra seu país.

Mas não podia baixar a guarda.

— Quem é você? — questionou a intrusa, aproximando o cano da pistola ainda mais de seu rosto. A jovem Stemmaguarda já havia lido sobre armas de fogo portáteis. Perigosas o suficiente para que um disparo nessa distância fosse fatal, algo tão perigoso como a própria magia.

Não era à toa que sua Demacia evitava qualquer envolvimento com elas.

— Pode me chamar de Lux — respondeu, sem grandes cerimônias. — Mas essa pergunta eu quem deveria fazer. Quem é você? Qual o seu nome?

— Não tenho nome — disse após alguns segundos, um primeiro sinal de hesitação, ainda que não baixasse a arma. — E os soldados que tavam com você?

— Me separei deles por um instante, mas logo logo vão me achar — falou, abrindo um sorriso gentil. — Vai ser ruim se te virem apontando essa arma. Eles já acham que você é uma espiã de Piltover.

A menina fez uma carranca, mas não parecia a expressão de alguém que havia sido descoberto, e sim de alguém que ouviu a pior ofensa possível.

— Tecnicamente eu sou uma invasora, não sou confiável e talvez até pudesse ser uma espiã — respondeu, seu tom de voz oscilando entre humor e amargura. — Mas de Piltover?

Algo no jeito que falava soou engraçado, e apesar de não entender a repulsa pela cidade do progresso, a demaciana não pôde deixar de rir, o que provocou um olhar ainda mais confuso da outra.

Porém, antes que pudessem conversar mais, um dos soldados a avistou.

— Senhorita Stemmaguarda! — gritou, fazendo um gesto para chamar os outros e começando a correr na direção delas.

Encarou a pistoleira mais uma vez.

— Confia em mim — disse e, logo em seguida, segurou a arma e a puxou para trás de si, escondendo-a entre seu corpo e o tronco. Apesar da surpresa nos olhos da outra, não houve qualquer gesto de resistência, fazendo com que quando os soldados chegassem, nenhum deles avistasse o dispositivo.

O que não os impediu de erguer as lanças e espadas.

— Senhorita Stemmaguarda, afaste-se dela. Nós assumimos daqui — ordenou Áaron, se juntando ao coro de lâminas.

— Esperem — respondeu Lux, o tom de voz firme. — Ela não é invasora, é uma sobrevivente. Escapou por um triz de noxianos e está há dias no ar, até que a chuva a derrubou e ela veio parar aqui. Precisa de comida e cuidados.

— Não se deixe enganar, senhorita — começou outro soldado, visivelmente menos paciente. — O único lugar de onde saem dirigíveis é Piltover.

— Teve uma invasão noxiana à Piltover, sabe — falou a jovem, chamando a atenção de todos. Apesar das circunstâncias, a tranquilidade era sua voz era palpável, quase exagerada. — Mas acho que a informação ainda não chegou pra vocês, soldadinhos.

Lux viu os militares mais jovens perderem parte da compostura, parecendo prestes a avançar sobre a menina. Até mesmo Áaron apertou a arma com mais força, mas tinha um vinco entre as sobrancelhas, como se refletisse sobre aquela afirmação. A intrusa, enquanto isso, apenas sorria, de uma forma tanto debochada quanto confiante.

A demaciana sentiu um misto de preocupação e admiração.

Porém, antes de qualquer movimento brusco, um outro soldado se aproximou do líder, e sussurrou algo em seu ouvido.

Hesitação, surpresa e, por fim, resignação transpassaram o rosto de Áaron enquanto escutava atentamente. Por fim, o soldado retomou a posição.

— Vamos recebê-la — disse Áaron, após alguns segundos de silêncio, baixando sua espada. Todos os soldados pareciam surpresos. Até Lux estava, na verdade. — Mas será vigiada vinte e quatro horas por dia até que mais informações sejam averiguadas. Sobre o local onde vai ficar...

— A Casa Stemmaguarda vai servir — cortou a demaciana, se erguendo rapidamente, com ambas as mãos nas costas. — É um dos lugares mais seguros de Alta Pratânia, e é fácil de posicionar a guarda lá.

— Certo — disse Áaron, visivelmente contrariado, mas sabendo que não conseguiria argumentar com ela naquele momento. — Ao resto de vocês, soldados, se dividam e chequem a área mais algumas vezes para ter certeza de que não há mais ninguém. Relatem imediatamente quaisquer outras informações que descobrirem. Eu irei acompanhá-las até a cidade.

O resto dos homens começou a dispersar, alguns resmungando mais do que outros, e a jovem de pele pálida também se ergueu do chão.

— Senhorita Stemmaguarda, mais uma coisa — falou Áaron, incisivo, quando os outros já não podiam mais ouvir.

— Sim?

— Pode mostrar o que tem nas mãos?

— Ora — respondeu Lux, sorrindo, enquanto erguia as mãos vazias para ele. — Não tenho nada nas mãos, soldado.