Breaking The Cycle
4 Finally got the name right
A zaunita acordou quando ouviu o som de passos se aproximando.
Ela estava sentada no chão, apoiada na parede, e não tinha percebido que havia cochilado até aquele momento. Observou o lugar mais uma vez, e precisava admitir: para uma cela, era bastante razoável. Tinha até mesmo cama e um vaso que parecia minimamente limpo.
Quando ergueu o olhar, avistou Lux por trás das grades, se aproximando com uma bandeja nas mãos.
— Você deve estar faminta — disse, com uma animação que não combinava em nada com o ambiente escuro e a seriedade dos guardas do corredor.
Ela se sentou no chão e passou a bandeja por uma abertura que havia ao pé do gradeado, e a jovem de pele pálida permaneceu parada por alguns segundos, ponderando, até que reuniu forças e se aproximou. De fato estava há dias sem ingerir nada, e mesmo que tivesse sido ótimo poder se lavar e vestir roupas limpas, ninguém havia lhe fornecido nenhum alimento.
— O que faz aqui? — questionou, pegando a colher e encarando o caldo que soltava vapor da cerâmica. Parecia uma janta muito refinada para uma invasora.
— Fiquei responsável de trazer suas refeições — respondeu e, mesmo sem encará-la, a zaunita sabia que estava com aquele sorriso irritante no rosto.
— Hm. — Fingiu acreditar, dando a primeira colherada, e uma explosão de sabor se espalhou pela boca. No caldo, havia vegetais, carne e temperos, todos harmonizando perfeitamente. A jovem sequer lembrava se já havia comido algo como aquilo antes. — De onde veio isso?
— Da nossa cozinha. Lima é especialista em diversos tipos de culinária. Pedi que ele preparasse algo que revigorasse o espírito.
— Uau, eu devo parecer bem acabada pra você.
— N-não foi isso que eu quis dizer! — Lux se apressou em explicar, e a azulada a encarou, contendo um pequeno riso. Não esperava que ela levasse logo aquele comentário a sério. — E-eu só imaginei que você estivesse há dias sem comer. E você parece ter passado por tanta coisa...
— Ah, é só pena, então. Agora me sinto melhor — respondeu, dando mais colheradas no caldo, e a loira pareceu desajeitada, sem saber o que dizer. Era estranho. Mais cedo ela parecia mais confiante.
— Também trouxe outra coisa — disse a demaciana, por fim, puxando um caderno e passando pela mesma abertura por onde tinha entrado a comida.
Era o diário que havia pegado no dirigível, e haviam confiscado quando chegaram na cidade.
— Não preciso mais disso. — A jovem pôs a mão no caderno e o arrastou de volta, para fora da cela.
— Não precisa? Você estava escrevendo nele mais cedo, não?
— Sim, e agora não vou escrever mais — respondeu de boca cheia, já próxima de terminar o caldo.
Lux pegou o caderno de novo e o encarou, como se tivesse algum valor oculto no objeto.
— Eu... posso ficar com ele? — indagou, extremamente cautelosa. A zaunita não pôde deixar de achar graça de novo.
— Eu sou sua prisioneira, faz o que quiser.
— Você não é minha prisioneira.
— Estranho, achei que a gente tivesse na sua casa.
— Não precisa tentar me afastar desse jeito.
— E você não precisa tentar se aproximar desse jeito.
A azulada viu uma centelha de irritação no rosto da loira, e não conteve um sorriso. Então aquela vestimenta de boazinha tinha limites.
Se encararam por alguns segundos, em silêncio, e pela primeira vez se comparou com a demaciana. As tatuagens, a pele acinzentada, as marcas de cintila perto dos olhos. O aspecto saudável, as írises cintilantes e o cabelo perfumado. As diferenças não a incomodavam, mas o contraste era tão grande que a fez pensar como a outra a via.
Por fim, Lux suspirou, se levantando.
— Vou ficar com ele, então. Amanhã eu venho de novo.
E, sem esperar por uma resposta (que realmente não viria), se virou e saiu a passos largos pelo corredor.
A zaunita jogou as pernas para o ar, se deitando no chão e encarando o teto, com a cabeça apoiada nas mãos.
Ao menos se sentia menos entediada.
***
Quando Lux tentou levar o desjejum na manhã seguinte, a menina de franja azul não estava mais na cela. Questionados, os soldados informaram que Áaron a havia levado para interrogatório, sem previsão de retorno, e não pôde deixar de se sentir frustrada. Sem escolha, distribuiu os pães amanteigados com geleia e as frutas entre os guardas, e retornou para seus aposentos.
O caderno que havia pegado na noite anterior estava em cima de sua escrivaninha, as páginas ainda intocadas desde que o levara de volta para o quarto. A demaciana ainda estava dividida entre a curiosidade de saber mais sobre a “intrusa” e o sentimento de que estaria sendo invasiva se o lesse naquele momento, então iria tentar esperar o quanto fosse possível.
Nessas horas, sentia vontade de conversar com Garen. Apesar da extrema fidelidade e respeito à hierarquia e os costumes, o irmão sempre tentava fazer o que achava justo, sempre pesava todas as partes e não agia de maneira precipitada, nem usava violência a não ser que julgasse que a situação demandava aquilo. Era uma coincidência infeliz que estivesse em uma viagem militar justo naquele momento.
***
Pouco depois do almoço, ouviu batidas em sua porta.
Ao abrir, encontrou um Áaron apreensivo, com um vinco tão tensionado entre as sobrancelhas que a menina teve certeza de que estouraria uma veia.
— Podemos conversar? A sós. — Aquilo era incomum, e Lux apenas assentiu, dando um passo para trás e cedendo espaço para que o homem entrasse em seus aposentos.
Assim que fechou a porta, ele começou a falar.
— Vim aqui te dizer isso porque sei que você vai ajudar aquela lá de qualquer maneira, mesmo que não devesse — disse, um tom de reprovação que a jovem já começava a se acostumar. — Mas sei que apesar de inocente, você não é ingênua, senhorita, então que ao menos saiba onde está se metendo.
— O que descobrimos? — indagou, já entendendo o rumo que a conversa estava tomando.
— Ela não mentiu antes: realmente houve uma invasão noxiana contra Piltover. Ontem um dos soldados me disse que era uma possibilidade, e hoje recebemos a confirmação. Ela também explicou como veio parar aqui e a história é plausível, as datas batem, inclusive com os escritos daquele diário que você roubou. — A repreensão na voz aparecia novamente, mas a menina apenas ignorou. Sabia que já haviam inspecionado e copiado as informações dele quando o pegou de volta à noite, na intensão de devolver à azulada.
— Então está tudo certo, não é?
— Não, outro problema apareceu — respondeu o soldado, a testa impossivelmente mais franzida do que antes. — Ela disse que se chama “Jinx”.
— Jinx? Tipo... azar? — Lux ergueu as sobrancelhas, surpresa; quem colocaria o nome da própria filha de Jinx? — Ela tinha me dito que não tinha um nome. Talvez ela não goste?
— Não sei o motivo, mas foi o que ela nos disse no início também. Mas nós lemos o diário, sabemos que ela conhecia pessoas, ela tinha pessoas na vida dela. Então deviam chamar ela de alguma coisa, né? Foi aí que ela admitiu que a chamavam de Jinx. E as coisas ficaram confusas.
— Como assim confusas?
— Pelo pouco que temos de informação, “Jinx” é supostamente o nome da maior criminosa da história de Piltover. — Áaron pausou, esperando alguma reação, mas ela apenas o encarou de volta, impelindo-o que continuasse. O homem suspirou. — Mas até onde sabemos, ela deveria estar presa em Aguamansa, uma prisão com um nível de segurança que só temos na nossa capital. Só que tem outra coisa. Jinx se tornou um símbolo para as pessoas da subferia da cidade que eram contra as ações do governo, então várias pessoas adotaram seu nome e estilo nos últimos meses. O que quer dizer...
— Que ou nossa pequena intrusa é uma criminosa que se aproveitou da invasão noxiana para fugir de uma prisão de segurança máxima ou ela só uma seguidora que se desiludiu e provavelmente decidiu tentar recomeçar em outro lugar — deduziu, completando o raciocínio de Áaron, que apenas assentiu, ainda tenso. — Se você parar pra pensar, a segunda opção faz muito sentido.
— Mas seria tolice descartar a primeira — respondeu o homem, um sorriso que não tinha nada de feliz. — O resto do interrogatório também não foi muito produtivo. A maioria de suas respostas eram vagas ou difíceis de interpretar, não importasse a abordagem. Não vamos tirar mais informações dela.
A demaciana teve um calafrio, tentando não pensar demais nos possíveis métodos que os soldados haviam usado enquanto questionavam a menina.
— O que você quer fazer? — perguntou, por fim.
— Enviarei uma mensagem escrita à polícia de Piltover explicando o ocorrido e pedindo mais informações, inclusive sobre os acontecimentos e nomes que aparecem no diário. Acredito que eles não vão ter motivo para não colaborarem. Sobre nossa “Jinx”... — O soldado fez uma pequena pausa, incerto. — Se ela for uma criminosa desse calibre, a cela da Casa Stemmaguarda é mais que insuficiente. Precisaríamos transferi-la para a capital, ou despachá-la de volta para que a coloquem em Aguamansa de novo. Mas também corremos o risco de gastar muitos recursos em uma menina que só se iludiu com os ideais errados.
— Então concordamos em deixá-la em liberdade condicional?
— Senhorita, com todo respeito...
— Se ela for só uma menina perdida então teremos tomado a decisão certa. Se ela for uma criminosa, quanto mais ganharmos sua confiança, mais chance temos de descobrir alguma coisa. Além disso, como você mesmo disse, uma cela na prisão de Alta Pratânia seria insuficiente, então por que perder tempo? Em liberdade condicional, ela poderá ser monitorada e vigiada de perto.
— E suponho que você seria a pessoa a ganhar essa “confiança” dela?
— Já estou até conseguindo, Áaron — respondeu, erguendo o indicador. — Ontem eu até mesmo a fiz sorrir.
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