Breaking Kurosaki
1 Prólogo - O humano sem poderes
Notas iniciais

Um par de olhos cerúleos se abriu na escuridão.
Seu dono tentou se sentar na superfície dura na qual seu corpo descansava, mas se sentiu incapaz de qualquer movimento. Suas costas doíam e suas pernas fortes não lhe impulsionavam como queria.
Um baixo grunhido deixou seus lábios quando a dor subiu por sua espinha, impedindo-o de se levantar.
Exausto e tonto, desistiu e se deitou novamente. Xingou baixo, completamente irritado com o fato de seu corpo não obedecer à sua vontade. Olhando para baixo, encontrou seu peito amplo coberto com faixas. Várias delas. Se não estava enganado, os humanos chamavam isso de mumificação.
Inferno. Ele estava mesmo se parecendo com uma múmia.
Desviou a atenção para o teto. Estava bem danificado. Para não dizer totalmente ferrado. Partes quebradas. Explodidas. Pelos buracos nas paredes e em todos os lugares, a luz da lua banhava seu corpo musculoso levemente e clareava o ambiente para seus olhos felinos.
Ele não tinha ideia de onde estava. Pela devastação do lugar, poderia dizer que ainda estava em Las Noches. E vivo. Bem fodido, mas ainda vivo.
Maldito Nnoitra. O sorridente infeliz era tão imprestável que nem para matá-lo direito serviu.
E lá estava ele, deitado no chão duro ― preso entre a vida e a morte ―, amaldiçoando seu destino, o de estar vivo.
Quem o havia curado? Por quê? Ao que parecia, Las Noches não era mais a mesma. Estava certo de que nada estaria assim se eles tivessem ganhado a guerra, o que só poderia significar que a maior parte dos Espadas estavam, provavelmente, mortos.
Felizmente, Grimmjow não era um deles.
Estava bem vivo e pronto para se vingar. Não iria deixar seu inimigo favorito pisar nele daquela forma e ir embora como se nada tivesse acontecido.
Até onde se lembrava, era um Espada. A Sexta Espada— Grimmjow Jeagerjaquez. O Rei. E nenhum humano de merda ia colocar sua reputação em cheque.
Se Kurosaki Ichigo não podia matá-lo devidamente de uma vez, ele iria ter sua vingança. O moleque certamente iria pagar pela humilhação que passara.
Ouviu passos no chão. Não estavam longe da luz. Também podia escutar algumas vozes estranhas, muito embora não pudesse ver quem se aproximava. Logo seus corpos apareceram em um feixe de luz. Um hollow alto, um gordo e um bebê.
Grimmjow rapidamente os reconheceu. Nelliel Tu Odelschwanck ― a antiga Tercera Espada ― e seus companheiros. Ele não dava a mínima para o nome daqueles hollows estúpidos.
A garota com cabelos turquesa e máscara quebrada se aproximou, sua face infantil pairando acima da dele.
— Você está bem, Grimmjow-sama?
Não respondeu.
Aquela pequena vadia.
Se ele apenas pudesse esticar seu braço um pouco, iria com certeza esmagar aquela pequena face delicada e preocupada. Ainda se lembrava dela gritando “Itsygo! Itsygo!” naquele tom irritante.
Seus olhos se arregalaram ao perceber como seus rostos estavam próximos. Quase grudados. O que ela estava fazendo? A garota subitamente abriu a boca e uma grande quantidade de saliva deixou seus pequenos lábios, trilhando um caminho para seu peitoral largo.
Aquilo era nojento!
— Que porra é essa? — ele finalmente conseguiu falar. Uma expressão de nojo estampava sua face.
— Curando Grimmjow-sama! — respondeu alegremente. — Nell quer ajudar!
O homem de cabelos azulados olhou para aquela baba quase alcançando seu peito numa velocidade lenta. Era viscoso e estava pendurado em seus lábios. A boca de Nell era completamente visível. Sua gengiva vermelha e seus dentinhos ainda nascendo. Era a coisa mais nojenta e feia que ele tinha visto!
Quando isso alcançou seu peito, Grimmjow fechou os olhos.
Merda.
Realmente desejava estar morto. Logo a sonolência começou a dominá-lo, como se a saliva tivesse um efeito entorpecente. No entanto, antes de cair nas profundezas de sua inconsciência, ele conseguiu murmurar para si mesmo.
— Foda-se, Kurosaki.
#
Era quase noite quando uma figura alta aterrissou num telhado próximo.
Grimmjow se agachou e cheirou o ar fresco que o rodeava. Olhos fechados, concentrou-se na pulsante reiatsu ao redor.
Não encontrou nada.
Não havia traços da reiatsu de Kurosaki.
Piscou. Como era possível? O moleque nunca havia sido capaz de controlar e esconder aquela energia espiritual massiva, Grimmjow estava certo de que ele não ia aprender tão rapidamente.
Impossível!
Riu para si mesmo. O garoto era como um vulcão em erupção, sua reiatsu era como uma sombra, sempre o seguindo, esvoaçante, aonde quer que ele fosse.
Pulou do telhado e aterrissou no solo firme graciosamente, como um felino faria, seus olhos azuis escanearam o pátio com atenção. Vários adolescentes estavam saindo naquele horário. Sozinhos, em grupos, em duplas. Rindo, digitando em seus celulares, conversando. Garotas falavam em um tom muito irritante sobre coisas de menininhas e garotos mencionavam lutas, mulheres gostosas e sexo.
A maior parte deles já havia saído e Ichigo ainda não havia aparecido. Seus amigos, o grandão, o quatro-olhos e a curandeira peituda já haviam ido embora. Ele não se deixara ser visto. Não queria ninguém dizendo coisas pobres e pacifistas.
E nada do Ichigo.
Ele não estava em nenhum lugar.
Grimmjow estava quase indo embora quando o viu. Cabelo ridiculamente laranja, ombros curvados e... Franziu as sobrancelhas, expressão triste?
Sorriu. Então o Kurosaki estava tristinho? Oh, que peninha, porque Grimmjow estava bem feliz. Digamos... infinitamente feliz.
Enfiou as mãos nos bolsos e deixou a construção próxima onde estava encostado preguiçosamente esperando seu inimigo aparecer.
― Hey, Kurosaki! ― chamou, sorrindo abertamente.
Nenhuma resposta.
Ele estava mesmo o ignorando? Como ousava?
― Hey, seu merdinha!
Novamente nenhuma resposta.
Ichigo continuou a caminhar num passo restrito, lento, ainda olhando para baixo. Não parecia ter notado seu inimigo em pé, bem diante dele.
Grimmjow estreitou os olhos. O que diabos estava acontecendo? Por que Kurosaki não estava olhando para ele?
Então ele notou. A reiatsu. Não estava lá. Não havia nenhum traço daquela energia poderosa e flutuante.
Não havia nada.
Então era verdade. Kurosaki Ichigo tinha realmente perdido os poderes na luta contra Aizen.
O maldito garoto tinha mesmo perdido os poderes!
Grimmjow socou o ar duas vezes, completamente irado com o fato de que seu inimigo era agora um humano comum e inútil!
Com quem lutaria agora? Com quem iria ter ao menos um pouco de diversão?
Enfiando suas mãos nos bolsos de novo, seguiu o garoto a dois passos de distância, analisando sua figura curvada. Ele parecida bem fodido. Não fisicamente, mas sua face estava estoica e ele parecia completamente fora de órbita.
Assoviou uma canção que havia aprendido com Nell durante todos esses dias enquanto o observava voltar para casa com a mesma expressão triste.
Seus dias seriam bem entediantes de agora em diante. Mais do que já eram. Hueco Mundo estava vazio. Tinha apenas algumas coisas para fazer lá: comer alguns hollows, lutar com alguns deles — massacrar, melhor dizendo —, e assistir aos parceiros de Nell discutindo como um casal de velhos o dia todo. Eles não eram bons oponentes. Bem... Não havia nenhuma mulher para foder e ele já estava ficando consideravelmente irritado com isso. Honestamente, havia poucos hollows e apenas ele e Harribel dos Arrancars ainda estavam vivos. Ele estava certo, tanto quanto areia no Hueco Mundo nunca iria acabar, que ela nunca iria aceitar acasalar com ele. Não que ele estivesse muito interessado de qualquer forma.
Talvez... Sorriu um pouco, parando de assoviar. Poderia dar a Kurosaki o que ele queria: seu fim.
Ele sabia que o garoto ficaria feliz se a morte viesse lhe cumprimentar. Nenhum guerreiro poderia viver feliz sem lutar. Não após tantas lutas. O sentimento de ser inútil era mais humilhante do que a mais vergonhosa derrota.
Esse tipo de vida não merecia ser vivida.
Não para o homem que matara tantos Espadas. Que havia derrotado a ele, La Sexta e que havia matado La Cuarta. Não para o homem que havia invadido o Hueco Mundo para lutar.
Mas não... Isso seria muito misericordioso de sua parte. Matá-lo naquela situação não traria a satisfação que desejava.
Olhou para o garoto desaparecendo na esquina e parou. Seu inimigo favorito, Kurosaki Ichigo, havia perdido poderes. Era um oponente inútil que sequer valia uma luta. Ele não mais valia seu precioso tempo como um adversário.
Ainda assim, Grimmjow o detestava. Odiava-o mais do que qualquer um e queria vingança. Queria fazê-lo pagar por toda a humilhação que sofrera naquela luta.
Mas como iria fazer isso? Como poderia ter sua vingança sem matá-lo e, na verdade, fazê-lo sofrer mais?
Um par de olhos violetas e cabelos pretos cruzaram sua mente. Grimmjow sorriu, mostrando seus caninos levemente. A pequena shinigami que ele deixara viver há muito, muito tempo. Não apenas uma, mas duas vezes. Poderia tê-la esmagado com suas próprias mãos, porém a deixara viver. Um pouco ferida, mas nada tão sério. Ele certamente não conseguia se lembrar do por que.
Não importa.
Estava certo de que não deixaria isso acontecer. Não de novo.
Como iria usá-la para fazê-lo sofrer ou se a usaria, não tinha ideia, mas ele era Grimmjow Jeagerjaquez e iria encontrar uma forma de punir seu inimigo favorito.
Se Kurosaki não podia lhe dar uma revanche, arrumaria outra forma de quebrá-lo.
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