Break the cycle
6 Capítulo 6-Letterbomb
Notas iniciais
Sentia a cabeça latejar antes mesmo de abrir os olhos. O mundo ao redor foi tomando cores e formas lentamente, mas era como se custasse olhar qualquer coisa que fosse.
Num impulso sentou-se na cama e cenas do dia anterior repassavam em sua mente. Dissera tudo o que estava entalado em sua garganta em um momento de fúria, teria sido esse o melhor caminho? Não conseguia se arrepender.
Sentiu a garganta seca, provavelmente de tanto chorar. Levantou-se com os dedos sobre as têmporas tentando evitar a dor. Atravessou o corredor e notou que Boruto não estava no quarto. Olhou para trás e viu o relógio de pêndulo apontando a hora em que o loiro saía para a academia. Se dirigiu até a escada e desceu-a correndo, apoiando a mão no corrimão.
A cena que vira não era das melhores. Descansava um seminu Naruto sobre o sofá, podia sentir o cheiro de álcool exalando. Não se surpreendera, não fora a primeira vez em que uma discussão o marido saíra para beber. Respirou fundo e foi até a cozinha, onde viu Himawari sentada na cadeira em frente à mesa e Boruto em frente a pia.
—Bom dia, mamãe! Boruto fez o café da manhã! –A pequena dizia animadamente com seu doce sorriso.
—Ah, eu não fiz nada demais, só fritei uns ovos e bacon. Preparei suco também... –O mais velho parecia dizer sem jeito.
Hinata se sentou à mesa. Quando foi que Boruto se tornara tão independente e tão maduro? Sua rebeldia não parecia ser nada coerente com sua personalidade, mas no fundo sabia que era apenas uma forma de tentar chamar atenção.
—O cheiro está ótimo. –Sorriu para o filho que continuava sem graça.
—Papai está com um cheiro engraçado! –Himawari disse entre as mastigadas do pão.
—Querida, não fale com a boca cheia.
—Ah, Nara-san o trouxe ontem à noite. Ele tava apagado. –Boruto se sentava na cadeira da ponta.
A morena sentiu o rubor correr pela face. Estava envergonhada, Naruto bebera tanto que perdera o sentido e tivera de ser carregado até em casa.
—Ele aproveitou e arrumou a porta também. –Emendou enquanto se servia.
—Oh, a porta...
Terminaram de comer e Boruto se levantava.
—Bom, preciso ir, já to atrasado.
—Você vai sozinho?
—Sim. Aquele lá tá acabado, e a senhora também parece precisar descansar mãe. A senhora tá com uma cara péssima!
—Não fale assim da mamãe! –Himawari mostrava a língua para Boruto, que correspondeu a brincadeira.
—Não se mete, pirralha!
Himawari franzia a sobrancelha, podia ver a pequena formar o byakugan nos olhos.
—Já chega, os dois. –Hinata disse séria.
—M-mas, mãe... –A pequena parecia ameaçar a entrar em lágrimas.
—Foi só brincadeira, ô pirralha! –Boruto passou a mão na cabeça da irmã, descabelando-a.
—Boruto bobo! –Protestava.
—Bom, to indo nessa. Vou ficar fora em uma missão alguns dias, não se preocupe. É missão rank D como sempre. –Disse dando as costas.
Sempre ficava apreensiva quando Boruto saía em missões para fora, mas tinha de se acostumar.
—Certo, tome cuidado e volte bem.
—Pó deixar. -Disse enquanto saía do cômodo.
Ele estava crescendo, isso era fato. Cada vez mais sairia em missões ao redor do mundo, e em missões cada vez mais perigosas.
A cena do primo morrendo subitamente veio em sua mente. Podia sentir lágrimas se formando, não conseguia deixar de pôr Boruto no lugar do primo.
—Mamãe, não acredite naquele idiota! Sua cara não tá horrível, você tá linda! –Sentiu-se abraçada e todas as preocupações morreram. Abraçara a pequena com toda a ternura com que ela a envolvia.
—Ele só estava brincando, minha linda. –Beijou-lhe a testa.
—Tô com sono! Boruto me acordou e berrou pra eu vir comer!
Acabara de perceber que a pequena seguia horários fixos na rotina, àquela hora ela estaria acabando de acordar. Como levantara aproximadamente duas horas mais cedo que o costume estava titubeando de sono.
—Vem, vou te levar pro quarto. –Pegou-a no colo e a levou até o quarto.
Assim que a botou na cama era como se Himawari já tivesse dormido. Cobriu-a e saiu do quarto. Sentiu o estomago reclamar, provavelmente ficara muito tempo sem se alimentar. Voltou a cozinha, e ao passar pela sala viu Naruto se remexendo no sofá. Acordaria em breve.
Comeu rapidamente, não conseguia comer muito. Sentia a comida presa na garganta, como se ela quisesse sair, embora o estomago queimasse a sensação de fome fora logo sanada. Por um momento ficara feliz do filho ter sido pró ativo com as tarefas domésticas, mas quando limpava a louça se arrependeu um pouco. Como ele conseguira fazer tanta bagunça com um mínimo de gordura?
Continuou esfregando a panela quando ouviu passos descoordenados em direção a cozinha.
—Hina? –A voz do loiro ecoou na cozinha.
—Bom dia. –Respondeu seca.
—Bom dia... –Sentou-se na mesa.
A voz dele parecia não sair, se perguntava se ele realmente lembrava da briga que tiveram.
—Está com fome?
—Bom, to enjoado...
Não era pra menos, o estado em que se encontrava não era de se esperar que estivesse bem.
—Bom, coma, se não vai passar mal. –Requentou o que sobrara do café da manhã e colocou em um prato. Jogou-o na mesa sem nenhuma delicadeza. Não conseguia conter sua raiva.
—Cadê as crianças?
—Boruto foi pra academia, tem uma missão. Hima-chan está dormindo.
—Ele já foi pra academia? Droga...
—O que foi, você ia leva-lo?
Naruto assentiu com a cabeça.
—E tenho uma reunião super importante hoje, droga... –Comeu o mais rápido possível e depois saiu para se arrumar.
Nenhum remorso em quebrar promessas. Afinal, era esse homem com quem se casara. As vezes gostaria de chorar, mas aquela não era a hora. Teriam uma conversa séria no final da noite, quando ele não estivesse com a famigerada ressaca e ela não tivesse aquela dor de cabeça infernal.
Quando finalmente terminou de ajeitar a cozinha, o marido já tinha se arrumado. Não cheirava mais a álcool e sequer parecia ter extravasado na bebedeira.
—Estou indo, até mais. –Deu um selinho em seus lábios e partiu em uma nuvem de fumaça.
Ironicamente aquele era o máximo de contato que tiveram aquele mês. Se sentiu uma idiota por se pegar com saudade das carícias do início do casamento. Mas era como todas as amigas diziam, não há nada mais frio do que um casamento com mais de 10 anos de duração. Exceto talvez o de Sakura, porém ela mal via Sasuke. Ela sempre dizia que quando tinham a oportunidade de se verem era como se tivessem a paixão de um casal de recém namorados. As vezes a invejava, mas não conseguia imaginar uma vida onde vivesse tanto tempo de Naruto, embora agora ele mais parecesse ausente do que presente.
O conforto de tê-lo todas as noites já se perdera há quanto tempo mesmo? Ele passava tanto tempo enrolado no trabalho que até cogitava a possibilidade de na verdade ele ter arranjado uma amante.
—Droga, por que estou pensando tantas bobagens? –Balançou a cabeça como se fosse possível expulsar todos os pensamentos negativos que a assombravam.
Decidiu fazer uma faxina na casa, começando pela sala que agora estava uma bagunça devido a porta que fora trocada.
—Devo agradecer Shikamaru-san... –Agradecer até bastante, pensou. Ele ainda trouxera Naruto para casa.
Passou vassoura na casa inteira, exceto nos quartos. Deixaria para mais tarde. Boruto sempre reclamava quando entravam em seu quarto, então deixava trancada, deveria se lembrar onde deixou a chave reserva. Himawari dormia e não gostaria de a acordar. Seu próprio quarto lhe passava pensamentos desconfortáveis. Optou por limpar tudo depois.
Quando passava o pano com a mistura de água e produtos com odores que lhe agradava no chão da sala Himawari descia descalça com um ursinhos nas mãos e coçando os olhos.
—Himawari, não pisa aí! Tá molhado.
A pequena sentou no último degrau da escada abraçando o urso e olhando-a indo de um lado para o outro.
—O que foi, querida? Por que está aqui?
—Tive um pesadelo com o senhor dentuço, não quero ficar no quarto!
—Está tudo bem, já te levo para ir ao parque mais tarde, tudo bem?
O sorriso dela se iluminou.
—Vou poder ver os colegas de Boruto treinar?
—Sim. –Sorriu.
Himawari era uma criança curiosa. Adorava ver as outras crianças treinarem, assistia com os olhos atentos, como se não quisesse perder um segundo. As outras crianças não se incomodavam, pelo contrário, adoravam se exibir para a filha do Hokage. Seria ela uma kunoichi promissora? Por enquanto não haveria de saber, Naruto e Hinata concordaram que os filhos não teriam treinamentos até a idade de admissão da academia. Boruto as vezes se queixava de “ser atrasado”. Mas acharam importante os filhos não trocarem a infância por armas.
A campainha tocou. Teve um mal pressentimento.
Hinata abrira a porta e se confrontara com Atsumo, o líder do Clã Hyuuga, e mais cinco Hyuugas que deveriam ser da antiga família secundaria.
—Pois não? –A porta manteve-se entreaberta, não os queria como convidado em sua casa.
—Viemos buscar a garota. –Um dos supostos capangas de Atsumo disse-lhe sem rodeios.
Fechou a porta com o coração na boca. Como se atreviam a tal audácia?
—Abra a porta, Uzumaki-san! –Atsumo protestou. –Temos uma carta carimbada pelo Hokage!
Abriu novamente uma fresta da porta, onde podiam ver somente um de seus olhos.
—Me mostre.
O líder desenrolou a fita do pergaminho e a desenrolou a sua frente. Em uma ponta o carimbo oficial do Hokage. Ficara atônita.
—Como pode ver, está muito mais do que claro que ambas as partes concordam. Um acordo que treinaremos a filha do Hokage que nasceu com o dom do byakugan baseado no antigo trato onde Konoha jamais permitirá que outras vilas possuam o byakugan.
Lembrou-se de Ao, o ANBU da vila oculta da chuva que possuía o byakugan. Após a guerra ele aceitou devolver os olhos como um ato simbólico da nova aliança de paz entre as aldeias. Portanto não existiam mais byakugans fora do alcance do clã Hyuuga.
—Ótimo, então eu irei supervisionar tudo. –Se não tinha escolha, não deixariam por nenhum momento a tirarem de perto de si.
—Ora Uzumaki-san –Atsumo sentia o gosto em soltar seu sobrenome herdado pelo casamento. –Você sabe que só Hyuugas são permitidos na área de treinamento, uma vez que nossos ensinamentos são secretos.
Abrira a porta.
—Do que você está falando?! EU SOU UMA HYUUGA!
—Você é só uma Uzumaki, garotinha. –Sakuma chegava até o grupo de Hyuugas.
—Eu sabia que isso tinha que ter um dedo seu... Seu imundo! Eu não vou deixar vocês pegarem Himawari!
Sabia que a pequena ainda estava na escada observando tudo. Provavelmente estava paralisada de medo.
—Então teremos que toma-la a força, sinto muito, Hyuuga-hime... –Atsumo disse em tom de escárnio.
Botou-se em posição de ataque, mas quatro Hyuugas a cercaram e pressionaram seus pontos vitais.
Caíra no chão sem força, enquanto via o quinto se aproximar da filha.
—Hima... FUJA! –Gritou.
—Insolente, como é que você ainda tá acordada? Bom, isso não importa. Gon, traga-a logo!
Conseguiu olhar de relance para trás, com muita dificuldade pois o corpo não a obedecia. Tudo que vira fora muito rápido. Viu Himawari com os olhos brancos ao invés dos azuis e o homem caindo para trás.
—Idiota! E vocês quatro, o que estão fazendo parados aí?
Ouviu gritos, via apenas o mais alto carregando-a nos braços enquanto ela esperneava-se.
—MAMÃE, NÃO!
O desespero na voz de Himawari deixara o corpo em transe. Tudo que podia ver eram lágrimas rolando pelas bochechas vermelhas.
—Himawari... –Tudo que o corpo podia fazer era estender os braços, tentando alcança-la.
—MAMÃÃÃÃÃÃE! –A pequena tentou estender também os braços, mas os ninjas se afastavam cada vez mais, sumindo lentamente de seu campo de visão que ficava embargado pelas lágrimas.
—HIMAWARIIIII!-Gritou com todas suas forças.
A visão ficara turva. Só conseguia ouvir a voz chorosa da filha ressoando em sua cabeça.
E tudo então se tornou escuridão.
Fale com o autor