Break Her Heart
25 It’s just not me
- Você está bem? – desta vez foi Benji que dirigiu a palavra à mim, após desencostar o copo de champagne da boca.
- Eu estou bem – repeti, em palavras simples, sem emoção.
Ele virou-se de costas para a sacada, apoiou-se na mesma e fitou-me novamente.
- Você tem certeza?
- Eu acho que você me conhece mais do que ninguém – sorri -, até mais do que eu mesmo. Mas sabe que estou bem.
Ele riu fraco, bebeu mais um gole do champagne e fitou os dedos. Ali estavam as tatuagens, o “Made Man”... ali estava a sua história. Os desenhos já estavam levemente desbotados, mas os traços continuavam profundos e o sentimento ainda pairava ali.
Então eu lembrei de tudo que passei. Do meu passado... nunca mais houvera me preocupado com ele, nunca mais havia revirado-me durante o sono relembrando a dor pela que passamos. E ele continuava ali, ao meu lado, quando eu precisasse... e meus irmãos continuavam lá, aprontando como sempre... mas havia um sorriso aberto em seus rostos.
E minha mãe se fora, mas se fora de forma digna. Seu corpo se fora, mas tudo que ela nos ensinou ainda estava em nós, e o sorriso ainda nos acobertava, nos protegia.
O sorriso. Os sorrisos. Eles ainda estavam ali, mesmo nos momentos de dor. Eu tinha alguém com quem contar, eu tinha os caras – minha família – e ainda tinha minha real família. E agora eu tinha meu sobrinho, tinha o sobrinho que sempre sonhei ter, a criança que sempre pensei em sair para passear.
— Eu estou ótimo – disse, por fim, e sorri.
Benji apenas me olhou e saiu dali. Debrucei-me sobre a sacada e observei a movimentação lá em baixo.
As babás passeavam pela orla da praia com carrinhos enfeitados, com bebês alegres dentro, e esbanjavam um sorriso no rosto. Faziam o que gostavam.
Os casais caminhavam colados, ou ao menos de mãos dadas... e conversavam. Não era só atração, não era paixão... Era amor.
E os vovôs, vovós... caminhavam arrastando-se, outrora sentavam nos bancos embaixo das árvores frescas, e se abraçavam, se abraçavam com os olhos fechados, vivendo cada milésimo, respirando cada lufada de perfume, absorvendo cada característica da pele que estava ao seu lado, fitando o sorriso doce como a primeira maravilha do mundo, como se fosse o último momento... Eles venceram tudo.
Mas lá em baixo ainda tinha alguém. Ainda tinha alguém que corria em busca de fuga, ainda tinha alguém desiludido, ainda tinha alguém iludido. Ainda tinha alguém com um sorriso nos lábios, mas os olhos frios... E tinha alguém chorando, mas também tinha alguém segurando as lágrimas. E tinha alguém cheio de dor por dentro, mas que sorria verdadeiramente, e esperava por algo melhor. E tinha corações rancorosos, e tinha almas vazias... e então, sempre tinha... as almas que só existiam. Tinha alguém que estava quebrado, alguém que estava feliz... mas também tinha alguém que não sabia que caminho seguir. E tinha alguém. Sempre houve um alguém. E sempre haverá esse alguém.
E quando meus olhos viraram-se em direção ao trânsito, pude sentir o coração pulsar. Os carros passavam apressados, e não havia sorriso, não havia lágrimas, não havia sequer uma expressão...
Os olhos estavam vazios, a boca crispada, o rosto intacto e as mãos batucavam impacientes a vidraça dos automóveis.
E tinha mais alguém lá. Um garoto. Uma criança. Que se apressa em deslizar sobre as ruas, abordando os carros, com um cesta na mão e uma foto no peito. Uma foto com duas pessoas no peito.
Seu cabelo era escuro, preto como a escuridão, e era bagunçado. E seus lábios eram rosados, e as bochechas do mesmo tom. A pele era bronzeada, mas estava pálida e sem iluminação. Os dentes brancos estavam escondidos por trás dos lábios e só era possível vê-los quando o garoto abria a boca e tentava inutilmente chamar a atenção de qualquer pessoa fria ali.
O mundo era tão duro, tão duro e os alguéns não percebiam que havia alguém mais triste que eles mesmos. Eles não estavam tristes. Eram frios. E pessoas frias não sentem. Acham que sentem.
Porque falo? Falo porque é a pura verdade, falo porque só agora me dei conta de quem fui, e de quem agora eu sou. E construo esperanças de que continue sendo algo melhor.
A criança sumiu aos meus olhos quando voltei a realidade dura e barulhenta. Então eu vi o sinal abrir, meu coração voltar a bater – mais forte do que antes – e as pessoas se apressarem pela faixa de pedestres, salvando-se por um milésimo de uma tragédia.
E a freada foi mais barulhenta do que qualquer barulho que já tivesse estabelecido ali antes, e as expressões de horror foram mais dolorosos do que os sorrisos frios, e os gritos e choros mais ensurdecedores do que fogo queimando aos ouvidos.
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