Brazil: Bangkok History
3 Capítulo 3 - Pioneers Academy
O despertador tocou às seis: um bip metálico que não pertencia ao seu mundo. Em Salvador, Leo acordava com a luz da janela ou o carro do gás ao longe. Em Bangkok, reinava a tirania do relógio digital.
O uniforme o esperava na cadeira: polo azul-marinho engomada, cáqui sem uma ruga. Uma fantasia. No espelho, o garoto que o encarava não era ele. Faltavam a camiseta do time, a bermuda surrada, a leveza.
— Nossa, que moço bonito! — disse Ana, orgulho nos olhos. — Tá parecendo diplomata.
Ricardo deu um tapinha no ombro:
— Mostra a eles do que um baiano é capaz.
Peso extra sobre os ombros.
Seguindo a dica de Aline, Leo chegou quinze minutos antes à Álgebra. A sala vazia, ele escolheu o fundo, perto da janela — esconderijo ideal. Aline entrou, sorriu, sentou duas fileiras à frente. Pequeno alívio.
O sinal. A Sra. Devi, indiana de sorriso gentil, pousou livros na mesa, varreu a turma com o olhar e parou em Leo.
— Ah, we have a new face today! Welcome! — disse calorosa. — Come to the front and introduce yourself.
O sangue de Leo gelou. Aline falara de corredores e refeitório; não preparara para isso. Vinte pares de olhos viraram quinhentos. Ele se levantou como réu indo ao julgamento.
— Seu nome, de onde é e algo que gosta de fazer — sugeriu a professora.
Boca seca. O inglês ensaiado evaporou.
— My... my name is Leo. I... from... Brazil.
Silêncio. Queria falar de Salvador, capoeira, mar, mas nada saía. Um loiro grande na primeira fila abafou uma risadinha. O rosto de Leo queimou.
— I... I like sports — conseguiu, genérico e sem vida.
Buscou um porto e encontrou Aline. Não ria. Ela fez um miniaceno: tá tudo bem.
— Thank you, Leo. Welcome. You may sit down — disse a Sra. Devi.
Ele praticamente correu ao lugar, coração martelando. A aula ficou mais difícil: a voz rápida da professora parecia zombar do seu atraso, cada termo de matemática lembrando sua limitação.
No almoço, ele obedeceu à regra de ouro: "a comida boa acaba em dez minutos". Correu e conquistou um Pad Thai decente. Faltava onde sentar. Viu Aline acenar da mesa de sempre, com Cas e Tee.
— Sobreviveu à apresentação forçada? — abriu Aline.
— Foi horrível — ele resumiu.
— Todo mundo passa — disse Cas, surpreendentemente sem veneno. — Na minha vez, falei que meu hobby era fight people. A diretora quase desmaiou.
— Pelo menos agora sabem que você é do Brasil — riu Tee. — Ajuda na imagem: exótico. Próxima aula?
— Educação Física.
"Futebol" mudou tudo. No ginásio, escolhido para um time, Leo voltou a ser ele. Quando a bola veio, o corpo falou a língua que o inglês não alcançava. A ginga da capoeira guiou os dribles; o gol saiu natural, deixando a turma boquiaberta.
Da arquibancada, Cas sorriu de canto: um aceno de aprovação.
O resto do dia correu mais leve. Ele já não era só o novato que mal falava. Era o cara que joga bola.
Na saída, Aline o abordou no portão:
— Eu vi seu gol. Nada mal pra quem "gosta de esportes — disse, imitando a voz robótica dele.
Leo riu; o constrangimento enfim dissolveu.
— Se quiser, a gente estuda na biblioteca qualquer dia — ofereceu. — Assim você não precisa falar só de esportes da próxima vez.
— Eu ia gostar — agarrou o bote.
De volta ao Corcovado, o cheiro de comida brasileira era um abraço. No mesmo dia, fora humilhado e triunfara. Sobreviveu. O amanhã já não assustava tanto.
Semanas passaram. A rotina — antes alienígena — se assentou. Manhãs correndo ao prédio C; aulas, uma luta com o dicionário mental; almoços na mesa do canto. Estudar com Aline afinou o inglês.
Sexta era sagrada: sobremesa especial. A cozinha, por uma vez, largava o "comida de hospital". Naquele dia, o prêmio: mango sticky rice, favorito geral. Depois de um teste de Química, Leo entrou entre os primeiros no refeitório. Avançou ao balcão. Lá estava: a última porção, cremosa, dourada. Pegou como quem encontra um oásis.
Virou-se... e bateu numa parede humana. Mark. O loiro da risadinha. Capitão do basquete, popular, arrogante — e ressabiado com o "novato brasileiro" bom de bola.
— Olha só — o escárnio no sorriso. — O garoto da selva achou a última manga.
As sombras riram atrás dele.
Leo tentou desviar; Mark bloqueou.
— Engano seu. Essa sobremesa é minha.
O Leo do primeiro dia teria entregue. Mas semanas de cutucões minaram a paciência — e agora ele tinha lugar naquela escola.
— Não — disse, firme. — Eu cheguei primeiro.
— O quê?
— Eu. Cheguei. Primeiro.
O refeitório perdeu volume. Plateia formada, Mark não podia recuar.
— Me dá isso, seu... — a frase morreu. Ele avançou a mão no prato.
O corpo de Leo reagiu: puxou de volta. O gesto catapultou o arroz doce. Um rastro cremoso voou: parte na polo de Leo, o resto nos sapatos caros de Mark.
Silêncio absoluto por um segundo. Mark olhou os sapatos cobertos de leite de coco; a cara ficou rubra.
— Você me paga, desgraçado!
Empurrou Leo com força. Ele tropeçou na cadeira. O campinho, a capoeira, os treinos — tudo acendeu. Em vez de cair de costas, girou quadris, flexionou, pousou agachado, uma mão no chão. Levantou fluido, na base da ginga. Não atacou. Só se posicionou. Para os outros, a agilidade parecia sobre-humana. O agressor, agora, era o vulnerável.
— O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI? — a voz cortante do Sr. Smith, inspetor.
Viu: Mark furioso, Leo em guarda, comida no chão. Diagnóstico instantâneo:
— Os dois. Diretoria. Agora.
Corredor da vergonha. Olhares, cochichos. Sentados frente a frente do lado de fora, silêncio de ódio.
Chamaram Leo primeiro. Ms. Thompson, fria:
— Estou muito desapontada. Violência não é tolerada.
— He pushed me. Ele queria minha comida.
— Mark disse que você atacou primeiro e jogou a sobremesa nele. A reputação dele é impecável.
Leo tentou explicar a esquiva, a ginga — como traduzir aquilo? Soou como desculpa. Mark era popular, filho de alguém importante. O veredito veio rápido: uma semana de detenção para ambos, anotação por "comportamento agressivo".
Saiu derrotado, injustiçado. No corredor, encontrou Aline, Cas e Tee.
— Que foi? Cê tá bem? — Aline, preocupação na testa.
— Ouvi dizer que você estragou o sapatinho de princesa do Mark — disse Tee, admirado. — As ações dele vão despencar. Bom pra meus negócios.
Cas não riu. Olhou de outro jeito: respeito.
— Finalmente — disse, soco leve no ombro dele. — Alguém pôs o playboy no lugar. Você não só se defendeu; você gingou. Bem-vindo ao clube, capoeirista.
Naquele instante, mesmo com detenção, um inimigo declarado e uma mancha no histórico, Leo entendeu: não era mais o novato, o coitado, o estrangeiro. Era um dos deles. E, estranho ou não, isso tinha gosto de vitória.
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