Brave Heart
4 Passado

Quatro dias se passaram. O tempo que Law passou junto ao irmão mais novo de Doflamingo o fez esquecer toda raiva que sentia dele por um curto período de tempo. É claro, a despedida não seria fácil, mas ambos sabiam que era inevitável.
– Você precisa mesmo ir embora, Cora-san?
A família estava reunida pronta para ver Rosinante, que ainda estava maquiado, ir embora. Law e Dellinger pareciam tristes com a saída do tio, porém Doflamingo pouco se importara. Na verdade a presença de seu irmão já estava o irritando.
– Eu vou, mas eu volto no Ano Novo.
Corazón estava agachado para ficar na altura do garoto enquanto Dellinger estava com o pai. Ele não entendia muito bem o motivo do tio ficar com aquelas roupas e maquiagem de palhaço o tempo todo, achava meio imaturo, mas ignorava.
– Eu não quero ficar aqui sem você! Por que eu não posso morar com o Cora-san?
– Law, eu não tenho nem condições de cuidar de mim mesmo, quem dirá de uma criança. – Ele começa a sussurrar. – Mas se o titio Doffy fizer alguma coisa eu venho aqui te sequestrar, tá?
– Eu ouvi isso, Rosinante! – Doflamingo exclamou.
– Cuide-se bem, Law. Qualquer coisa me liga, tá bom?
– Tá.
O jovem Trafalgar deu um abraço no tio que logo retribuiu. Ele já tinha se despedido dos outros dois, mas a despedida de Law parecia ser mais especial para ele, como se estivesse com medo do que o garoto iria passar sozinho.
Para finalizar, Rosinante se afastou do abraço e deu um beijo na testa de Law.
– Aconteça o que acontecer, eu sempre estarei aqui.
– Tá...
Em seguida, ele deu outro beijo na bochecha esquerda do garoto e continuou falando.
– Não tenta revidar, ouviu? Isso só vai te fazer sofrer mais.
– Eu vou tentar.
E mais uma vez, Rosinante deu-lhe outro beijo, dessa vez na bochecha direita.
– Não vou deixar você ficar sozinho de novo, eu sempre estarei com você.
– É uma promessa?
Para finalizar, o último beijo foi no pequeno nariz do garoto, junto com um sorriso enorme como sempre.
– Sim, é uma promessa. Fique bem, Law, e nunca se esqueça de como sorrir.
Depois de trocarem tais palavras, Rosinante e Law fizeram uma promessa de mindinho que iriam se encontrar de novo. Doflamingo interrompeu a risada dos dois e levantou seu irmão, dando um pequeno sermão.
– Rosinante, você vai mimar demais esse garoto.
– Doffy, não tem nada demais em dar amor pra uma criança! Aliás, para todo ser humano.
– Esse seu papo tá muito meloso, irmão, eu vou ficar de olho em você.
– Então vai se despedir de mim assim, é? Brigando comigo?
– Perdão, é que não dá pra te levar a sério com essa maquiagem toda! – Ele dá um pequeno riso e, em seguida, abraçou o irmão.
– Vê se fica bem, Doffy, e não se mete em confusão.
– Relaxa, eu não vou enquanto você estiver do meu lado.
– Espero que a sua opinião nunca mude.
– Eu não tenho motivo pra isso, não é?
Eles se separam do abraço e Doflamingo dá um beijo de despedida no irmão, desejando que ele se cuide melhor. Logo após, Rosinante foi para seu carro e voltou para sua casa.
– Eu vou pro meu trabalho e Dellinger vai se arrumar pra ir pra escola! Se você correr ainda dá tempo de chegar lá.
– Aaaaaah, não, pai! – O garoto bate com o pé no chão. – Eu não quero irr!
– Não é você quem decide isso, agora vá logo se arrumar. Law, a partir de hoje eu quero que você faça as tarefas de casa junto com a Baby Five! Entendeu?
– Por quê?
– Porque eu quero! Você ficou tempo demais com o meu irmão e transformou ele num palhaço, sua vida não vai ser fácil daqui em diante. Sem livros até o fim do mês!
(...)
Depois de algumas horas, Doflamingo ainda estava em seu trabalho e Dellinger na escola. Law estava com Baby Five e voltou a ter seu rosto triste graças à saudade que sentia de seu tio Rosinante.
– O que houve, Law?
A moça de cabelos grandes e negros interrompeu seu trabalho para falar com a criança, que estava sentada num canto da parede, quase chorando.
– Nada...
– Pode me falar. Você está com saudades do Rosinante, não é?
Ele concede com a cabeça. – O Doflamingo ficou mais chateado comigo ainda e falou mal do Cora-san.
– O Jovem Mestre fala essas coisas, mas na verdade ele gosta muito do irmão. E ele também não é tão malvado quanto parece, Law.
– Você sabe por que ele odeia o meu pai, Baby Five?
– Não sei... parece que eles se conhecem desde os tempos antigos. O único que sabe mesmo é o Rosinante, ele não te contou?
– Ele disse que eu só vou entender quando ficar mais velho, mas o meu pai sempre falava bem do Doflamingo, então eu pensei que ele era uma boa pessoa.
~ X ~
2 anos atrás...
– Mas pai, por favor! Eu amo essa banda!
– Eu até queria te levar, mas eu não tenho dinheiro, minha filha. Me perdoa!
– Mentiroso! Eu vi na sua carteira que você tem sim!
Trafalgar morava com sua esposa e seus dois filhos em uma casa bem afastada do Centro, vivendo nas poucas condições financeiras que a família tinha. Apesar disso, todos eram muito felizes.
Sua filha mais velha estava entusiasmada para ir ao show da banda que sempre admirou e acompanhou, porém o pai negou dizendo o pouco dinheiro que tinha era responsável por manter a família de pé e que não poderia ser gasto todo de uma vez só.
– Faz o seguinte, quando você morar sozinha pode ir à todos os shows que quiser, mas por enquanto é não!
– Aah, por favor! Você sabe que sempre foi meu sonho ver essa banda ao vivo, mas eles nunca vieram pra cá! Por favor, por favor, por favor........!
Vendo que sua preciosa filha o olhava como um cachorrinho esfomeado pedindo comida, o pai acabou não resistindo e a pegou no colo, brincando com ela pelo ar.
– Ah, tudo bem. Mas só por que você é a minha linda princesa!
– Isso! Valeu, pai!
– Mas esse vai ser o seu presente de aniversário, tá bom? Daqui há pouco você faz quinze anos e já está uma mocinha. Precisa se divertir mesmo!
Assim que o pai e a filha pararam de rir, ela foi para seu quarto conversar com seus amigos sobre o Show e Trafalgar foi falar com sua esposa. No quarto de casal, ele encontrou seu filho de quatro anos junto com a mãe.
– Ah, querido! Eu estou dando comida pro Law, ele é muito esfomeado.
– É normal, crianças podem ser pequenas mas tem um estômago enorme.
– Você acha? A nossa filha nunca foi de comer muito, mas esse garoto come toda hora, até quando dorme! Não é bom irmos ao médico?
– Hahaha, você é mesmo uma mãe coruja, relaxa!
Ele sentou-se ao lado da esposa e começou a brincar com o filho. Law era um garoto muito sorridente e vivia correndo por todos os cantos da casa, não dando sossego nenhum para seus pais.
– Papai!
– Laaw, cada vez você fica maior! Daqui há pouco já é um garotão que nem o papai.
– E ele também é muito inteligente. – A mãe fala. – Tão novo assim e já aprendeu a ler e tudo mais!
– Com certeza ele vai ser um grande adulto. Aliás, a nossa filha te falou sobre o show?
– Ela falou, mas eu disse que não. É muito caro o ingresso, nós não temos condições para bancar isso.
– Bom, eu também disse isso, mas ela fez uma carinha tão irresistível que eu não consegui recusar!
– Ai meu Deus, você sempre se mete em problemas. Como vai fazer pra arrumar dinheiro?
– Relaxa, esqueceu que eu sempre dou um jeito?
– Por favor, não faça nada perigoso! Esse seu trabalho te traz muitos riscos e você sabe disso!
– Eu não vou fazer nada demais, isso deu algum problema alguma vez?
– Bom, não, mas...
– Então esquece isso, tudo bem? – Ele finaliza dando um beijo na testa da esposa.
Para ganhar a vida, Trafalgar há muito tempo atrás, em sua época de adolescente, juntou-se com uma das famílias mais ricas da Inglaterra e aceitou uma proposta de emprego realmente única: acobertar os casos de corrupção.
Ele tornou-se um perfeito informante policial e sempre dava, em forma de anonimato, centenas de informações confidenciais sobre criminosos de diversos tipos. Porém, ele largou a profissão quando casou-se com sua atual esposa, por ser um trabalho perigoso.
Mesmo assim, de tempos em tempos ele conseguia um bico no trabalho e vendia algumas informações. Um desses bicos foi para garantir o ingresso de sua filha no show.
– Doflamingo, sou eu! Como vai?
Ele telefonou para o atual dono da família que trabalhava no passado para tentar conseguir o dinheiro.
“Ah, Trafalgar. Eu já não te disse pra não me chamar pelo nome?”
– Haha, foi mal, Joker! É que a minha princesinha tá querendo ir a um show, mas o pai dela tá duro. Tem como você me emprestar uma grana pelos velhos tempos?
“Eu achei que tinha sido bem claro em dizer que não quero mais te ver depois daquilo.”
– Tá, eu sei que você ainda tá bolado comigo, mas faça isso pela minha filha, poxa. Daqui há pouco ela entra na fase rebelde e esquece do pai!
“Isso não é problema meu. Mais alguma coisa?”
– Sim, como vai a fábrica? Seu plano de drogar as crianças ainda tá de pé?
“Maldito, como você sabe disso?!”
– Um bom informante nunca revela seus segredos. E aí, é por bem ou por mal?
“Argh, que seja. Quanto é o show?”
Um tempo depois...
– Aaaaaah, pai! Essa é a entrada VIP com direito aos Bastidores?! Você é o melhooooooor pai do mundooooooooooo!
– É o mínimo que eu podia fazer pra minha amada filha, não é? Mas agora está na hora de termos uma conversa séria.
– Conversa séria?
– É, com quem você vai ao show? É com um garoto? Você é muito nova pra namorar.
– Pai, eu vou com quatro amigos e eu não namoro ninguém. Garotos são nojentos!
– São sim, continue com esse pensamento até os trinta anos, tá bom?
– Desde que eu vá no show, eu faço tudo!
– Ótimo, mas eu, sua mãe e seu irmão iremos te buscar, entendeu?
– Tá!
O tempo foi passando até chegar o dia que a jovem adolescente tanto aguardava: o show. Como combinado, ela foi com seus amigos e ficou até o final, onde pôde conhecer os integrantes da banda nos bastidores.
Ao fim, sua família foi buscá-la conforme o combinado. Ela e os quatro amigos aguardavam os familiares na porta dos fundos, onde não tinha tumulto, mas também não tinha muita segurança, apenas um poste de luz para iluminar a noite gélida.
– Filha, chegamos!
A mãe surgiu para abraçar a filha enquanto Trafalgar tinha parado para comprar um sorvete para Law e não estava ali.
– Mãe! Cadê o papai e o Law?
– Ah, eles pararam pra comprar um sorvete, mas logo logo eles vêm.
Depois de muita espera, já que a fila estava grande, Law e seu pai finalmente chegaram no local combinado para encontrar a mãe e a irmã. Porém, eles ouviram um tumulto e decidiram se esconder atrás de uma parede, espiando.
O adulto viu uma cena que fez seus olhos congelarem e seu corpo ficar arrepiado: sua filha, sua esposa e os quatro jovens estavam com as mãos encostadas na parede com aproximadamente quatro homens armados gritando com eles.
– FIQUEM AÍ E NÃO SE MOVAM!
Enquanto os homens gritavam com sua mãe e os outros, Law ficou com medo e decidiu perguntar para seu pai o que estava acontecendo.
– Filho, nós precisamos dar o fora daqui. Eles não nos viram ainda.
– M-Mas e a mamãe?
Antes que o adulto pudesse responder, eles ouviram sons de tiro junto com vários gritos. Trafalgar pegou seu filho no colo e correu com ele pra algum lugar bem longe dali enquanto chorava desesperado.
– Droga...!
– P-Pai? O que houve? O que foi isso? Cadê a mamãe e a minha irmã?
– Law, presta atenção! De agora em diante nós dois vamos viver por nossa própria conta, entendeu?!
– M-Mas eu não quero viver sem a mam—
– Eu também não quero, Law, mas nós precisamos! – Ele tentava acalmar o filho, mas sua voz foi tomada pelas lágrimas.
~ X ~
– Até hoje eu não entendi muito bem o que aconteceu naquele dia, Baby Five, mas tudo que eu me lembro eram de quatro homens com um símbolo estranho na roupa. Eles mataram a minha família.
– L-Law... não precisava falar sobre isso...
– Depois disso, meu pai acabou entrando em depressão e todo dia ele chegava bêbado em casa e ficava chorando.
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