Brave Heart
9 Fragmentos de um passado mal contado

– Law, Baby Five! Eu saí mais cedo do trabalho assim que recebi uma notícia do Rosinante, então decidi vir avisá-los pessoalmente.
– DOFL—
Depois de ter reavisto o tão temido símbolo que aparecia constantemente em seus pesadelos, junto com a figura de Doflamingo a sua frente, Law não conseguia raciocinar direito. Tudo o que ele sentia era uma raiva incontrolável e uma fúria de quem estava prestes a descobrir toda a verdade.
O grande homem loiro havia chegado na biblioteca como uma pessoa comum, sem saber o que estava acontecendo. Tudo o que ele viu foi a imagem de Law incrivelmente enfurecido sem um motivo aparente.
Porém, antes que o garoto pudesse gritar o nome de Doflamingo e partir para cima dele sem ter nenhum tipo de explicação antecipada, ele foi impedido por Baby Five, que segurou sua boca e o pois escondido atrás dela.
– Jovem Mestre! Que raridade lhe ver por aqui, o que houve com Rosinante? – Ela tentou disfarçar com um sorriso simples.
– Baby Five, o que houve com o Law? Foi alguma coisa que eu fiz?
– Não, que nada! V-Você sabe como as crianças são, certo? Tão energéticas...
– Sério? Ele parece que vai me matar se você soltá-lo. Já que aqui é perto de onde eu trabalho, eu pensei em dar uma notícia do meu irmão pessoalmente.
Sim, após ver o símbolo responsável pela destruição de sua família, Law desconfiou que Doflamingo estava por trás de tudo. Isso explicaria também sua raiva por seu pai, que até hoje era de um motivo desconhecido.
Ao perceber que Baby Five não o deixaria atacar Doflamingo, apesar dela saber seus motivos, Law tentou se acalmar. Afinal, ele gostaria de saber o que acontecera com Corazón. Aos poucos, ele foi se soltando das mãos da morena.
– O-O que houve com o Cora-san? – Ele disse o mais calmo possível, apesar de não conseguir olhar para os olhos de Doflamingo.
– Ele recebeu alta do hospital. – Ao contrário do costume, o loiro não carregava mais seu sorriso irônico. Ele apenas começou a desconfiar do porquê do garoto estar agindo de tal forma.
– S-Sério? Então ele está bem? – A raiva que Law sentia desapareceu por alguns milagrosos segundos.
– Sim, está. E você?
– Eu?
– A sua raivinha infantil passou?
– Passou. – Law voltou a olhar para o mais velho, deixando transparecer seus olhos cinzentos e olheiras negras.
– Ótimo, eu vou pra casa. Não cause tumultos na biblioteca.
Assim que Doflamingo se retirou, Law e Baby Five voltaram a sentar na mesa como estavam antes. A morena resolveu abrir o jogo com o garoto depois de ter percebido tudo. Ela parecia calma devido o ambiente da biblioteca, porém, por dentro estava apreensiva.
– Tem certeza que é o mesmo símbolo?
– É claro que tenho.
– Como pode afirmar assim? Você tinha uns quatro anos na época, fora que eu duvido que o Jovem Mestre seria cap—
– Baby Five, é o mesmo símbolo. – Ele interrompeu mostrando confiança em suas palavras, o que fez a mulher hesitar.
– Mas isso não faz o menor sentido! Por que operários de uma empresa infantil fariam isso?!
– Por ordens do Doflamingo, é óbvio. Ele odiava meu pai.
– Law, você pode não gostar do Jovem Mestre, mas ele não é um assassino. Eu não posso acreditar no que você tá falando!
– E por que eu mentiria? – Ele fica com raiva. – Por que eu inventaria uma coisa dessas depois de tanto tempo? Por quê? Eu tô te falando, tudo me leva a crer que o Doflamingo é o responsável por isso!
– Eu sei que você tem seus motivos, mas você não pode afirmar uma coisa dessas baseada na sua memória de criança!
– Você não acredita em mim?
– Eu só acho que você precisa investigar antes de sair por aí afirmando coisas.
– Então eu vou fazer isso. Agora mesmo eu vou ligar pro Cora-san e ele vai acreditar em mim!
– Você ficou louco? Vai ligar pro Rosinante pra quê?
– Como assim? Ele é meu amigo.
– Ele é irmão do Doflamingo! Os dois vivem colados um no outro, você acha que ele vai fazer o quê? Acreditar numa criança ou no irmão?
– Mas...
– Tirando o fato de que ele acabou de sair do hospital. Se você contar uma coisa dessas a saúde mental dele vai piorar.
– Então o que eu faço?
– Olha, vamos manter isso em segredo, tá? Eu vou pesquisar mais sobre o que aconteceu naquele dia. O seu pai chegou a fazer um B.O?
– Não sei.
– Deixa essa parte comigo e tenta esquecer esse assunto. Não conta pra ninguém, entendeu?
– Você quer que eu more na casa do assassino da minha família e aja normalmente?!
– Eu quero que você me mostre que é um adolescente maduro! Se você jogar a sua raiva no Doflamingo agora as coisas só vão piorar pro seu lado. Ninguém vai acreditar em você.
(...)
Dois dias se passaram. Baby Five ficou responsável por pesquisar nos documentos de Doflamingo se havia algo realmente suspeito envolvendo a fábrica, mas não achou nada demais. O pai de Law não tinha aberto qualquer denúncia também.
Enquanto isso, o garoto tentou agir o mais normal possível, apesar de não aguentar ficar perto do adulto. Sempre que ele e Doflamingo ficavam no mesmo cômodo, Law dava um jeito de sair dali ou ignorar totalmente a presença do outro.
Doflamingo percebeu que Law o estava evitando, mas não fez nada para reverter a situação, já que ele sabia muito bem que o garoto o odiava, apesar de estar agindo diferente nos últimos dias.
Trafalgar não contou para ninguém, nem mesmo para Corazón, conforme havia prometido à Baby Five. Tudo o que ele conversava com Rosinante era sobre sua saúde, a saída do hospital e sobre o seu aniversário, que seria dois dias depois.
Dellinger não percebeu que os três membros da família estavam agindo diferente. Ele estava mais preocupado com os ingressos do show e com as fofocas da sua escola, envolvendo algum namoro entre suas amigas.
– Menina, você tem mesmo certeza de que o Jean terminou com aquela biscate?!
“Eu JU-RO que sim, Dellin! Dá pra acreditar? Parece que ele pegou ela no flagra com outro homem!”
– Não brinca, eu tô passado! Como ela pode fazer isso com alguém tão perfeito como ele?
“Ainda bem que ele se tocou, né? Aquela lá não vale nada. Mas agora é a sua chance de tentar dar uns pegas nele!”
– P-Para de falar essas coisas, é claro que isso não vai acontecer...
“Olha, eu soube que ele tá doido pra ir no show da Britney mas os ingressos já esgotaram. Convida ele, é a sua chance!”
– Ah, mas o meu pai só me deu dois ingressos, pra você e pra Emilly.
“Aquela vaca é mais importante pra você do que o Jean?”
– Você tá certa! Amanhã mesmo eu vou chamá-lo.
“Eu sempre estou. Agora eu preciso ir, meu pai tá reclamando que tá tarde. Até amanhã, minha vadia!”
– Bye bye, piranha!
Após o telefone ser desligado, Dellinger percebeu que Law estava abraçado com Bepo e com um olhar totalmente depressivo. Nisso, ele decidiu sair de sua cama e ir no chão, sentar-se com ele.
– Você tá cada dia mais emo, sabia? Se continuar assim nunca vai arrumar ninguém pra namorar.
– Hm. – Ele só suspirou, já que sua cabeça ainda pensava em Doflamingo.
– Eu tô tentando te ajudar e você me dá um fora mentalmente? Affê!
– Desde quando você se importa?
– Eu não me importo de verdade, é que eu gosto de ficar discutindo com você e desse jeito não tá dando. O que houve? Levou um fora?
– Por que pra você tudo se resume a namoro? Eu não ligo pra essas coisas.
– Você só liga pro Rosinante, né? Isso eu já sei. Você deveria estar feliz por ele ter saído do hospital.
– Não é esse o problema...
– Então o que é?
– ... É complicado explicar.
Antes que Dellinger pudesse falar outra coisa, eles ouvem batidas na porta e Doflamingo entra no quatro para dar-lhes boa noite. Law vira o rosto e ignora completamente a presença do mais velho, o que o faz ficar irritado.
– Vai ficar me evitando por mais quanto tempo?
– ... – Sem respostas.
– Tsc, é isso que eu ganho por fazer tudo por você, Law?
Depois de ouvir tais palavras ditas pela pessoa suspeita de assassinar sua família, Law não resistiu e virou-se para Doflamingo, quase gritando com ele.
– Tudo por mim? Você? O que você fez por mim?!
– Hã? Olha como você fala! Eu até deixei você trazer seus amigos pra cá no seu aniversário.
– EU NÃO LIGO PRA ISSO! Tudo o que eu quero é nunca mais olhar pra sua cara, Doflamingo!
– Como é que é?
– ... Law?
Tanto Dellinger como Doflamingo não entenderam o motivo do garoto estar gritando daquele jeito ou falando aquele tipo de frase. Apesar disso, o mais velho ficou com muita raiva de ser tratado desse jeito em sua própria casa.
Ele imediatamente pegou Law pelo braço e o arrastou para fora do quarto, deixando Dellinger muito confuso com tudo aquilo, enquanto o garoto arrastado gritava para que o adulto o largasse, mas sem sucesso.
Doflamingo foi até seu quarto, jogou o garoto em um canto qualquer e se pôs a brigar com ele, falando em um tom firme e grosso.
– Que merda foi essa, hein? O que deu em você?!
– Cala boca e me deixa em paz! — Law tentou sair do quarto, mas o homem era mais forte e não o deixava.
– Você não vai sair sem me dar uma explicação, pode ir falando.
– E você vai fazer o quê, Doflamingo? Me trancar no porão de novo se eu não falar nada?!
– Isso eu decido mais tarde, por enquanto só me fala o que aconteceu! Acha mesmo que é justo me tratar assim sem me explicar o motivo antes?
– O motivo é que eu ODEIO VOCÊ!
– Você me odeia desde que pois os pés nesta casa, mas eu nunca te vi agir dessa forma! Para de inventar desculpas ridículas e me fala logo a verdade!
Ao ser encurralado deste jeito, Law viu que não tinha como evitar falar, por mais que ele tenha prometido à Baby Five. Sua raiva naquele momento falava mais alto que a razão e ele simplesmente perguntou o que tinha vontade de saber há anos.
– Foi você quem matou a minha família, não foi?
Doflamingo se acalmou. Depois de anos morando com aquele garoto, ele não esperava ouvir uma frase tão repentina quanto esta. Seu rosto, que antes estava com ódio, agora voltou a mostrar seu sorriso maquiavélico e sua risada sarcástica.
De certo, ele poderia negar ou inventar qualquer tipo de desculpa. Jogar a culpa por Law ser apenas uma criança e não ter noção alguma da realidade, mas ao invés disso ele simplesmente decidiu falar bem claramente.
– Sim, fui eu.
Como se já era de se esperar, Trafalgar sentiu seu corpo todo arrepiando ao ouvir aquela confissão dita de uma forma tão fria e cínica. Tudo o que ele fez foi se afastar de Doflamingo e sentir sua consciência se perdendo em forma de lágrimas.
– MALDITO! Como você pôde fazer uma coisa dessas e depois falar como se não fosse nada? SEU ASSASSI—
Porém, antes que pudesse finalizar sua frase, Doflamingo o segurou pelo pescoço e o empurrou até a parede mais próxima, fazendo bastante força para que ele não conseguisse respirar.
A seguir, ele se ajoelhou, ainda com as mãos o enforcando e olhou bem diretamente nos olhos de Law, sorrindo sádica e maliciosamente como sempre.
– Ia me chamar de assassino? Na minha própria casa? Fu fu fu...
– S-Seu...! – Ele tentava falar, mas nem respirar conseguia.
– Vai fazer o quê? Chorar pro papai?
– P-Para...!
– Quem mais sabe disso?
– ...
– Não vai falar, é? Bom, suponho que o Rosinante não saiba de nada. Se ele soubesse já teria te tirado daqui.
– Me s-solta...!
– Mas você começou a ficar estranho depois da biblioteca. A Baby Five sabe de alguma coisa?
– Argh...!
– Depois eu resolvo com ela. Por enquanto, eu preciso me concentrar em você.
Doflamingo largou o garoto e o deixou tossir e voltar a respirar. Entretanto, assim que deixou Law em paz, o homem loiro se dirigiu até a porta de seu quarto e a trancou para que ninguém conseguisse sair dali.
Ele foi novamente em direção a Trafalgar, que estava chorando e sem saber o que fazer, e se ajoelhou para ficar na altura do garoto. Em seguida, Doflamingo pôs suas grandes e pesadas mãos nos cabelos finos de Law, fazendo-lhe um cafuné.
– Pois bem, o que eu faço com você agora? Devo te trancar no porão?
– Eu não sou mais criança! Eu não tenho medo de você!
– Oh, não é mais criança? Fufufu.
– Não sou, não!
– Bom saber.
Com a porta trancada e os dois no quarto, Doflamingo pegou Law em seu colo e sentiu o garoto dando chutes e socos para tentar fugir, mas sem sucesso. Antes que ele percebesse, Trafalgar já havia sido jogado na cama e ficou vendo o mais velho desabotoando sua própria camiseta.
– O que você vai fazer...?
– Te tratar como adulto.
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