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4 Chapter Three - Psychopathic Side


Notas iniciais
Oi novamente pudinzinhos!!! Espero que estejam gostando da fanfic, porque eu estou adorando escrever ela! Bom, tenho que vos fazer uma perguntinha. A fanfic irá se passar de Divergente até o final de Convergente. Agora aquilo que eu preciso saber... Vocês preferem que eu faça isso tudo junto, ou que divida a fanfic em partes? Sinceramente, eu pensei em fazer tudo junto, mas eu queria muito vossa opinião sim? Por isso deixem com vosso comentário: #together (para a fic sem divisão) #parts (para dividir a fic em partes) Acho que por agora é tudo... Não! Falta uma coisa... Vou criar no tumblr um blog para a fic, mas apenas o irei divulgar junto com o próximo capítulo. Podem também me dar sugestões ou pedir para eu fazer algo especial tipo... cenas extra da fic ou sei lá... me dêem vossa opinião. Vamos logo ao capítulo.... Boa leitura!

“A liberdade é como a infância. Dura apenas a época entre o nascimento e a formação. Depois disso, você é tão escravo da vontade de uma só pessoa como os restantes seres humanos.” – Damien Walker (irmão de Kay)

Não sei se fiz a escolha mais acertada. Não sei se foi esse o destino para o qual eu estava traçada. Não sei se me vou arrepender de ter escolhido a Audácia.

Mas, eu sei que independentemente da fação que eu escolhesse, mais cedo ou mais tarde vão descobrir todo o plano de minha mãe. Eu sei que mais cedo ou mais tarde, eu vou morrer. Seja por que motivo for…

A cerimónia chegara ao fim, e como de costume, a Audácia foi a fação que recebeu mais transferências, vindas, sobretudo, da Franqueza e da Erudição. Não veio nenhuma da Amizade, e apenas uma da Abnegação.

No meio da confusão avistei meu pai e meu irmão mais velho Damien. Meu pai é o braço direito do líder da Franqueza, Jack Kang. Por outro lado, Damien se transferiu da Franqueza para a Erudição, à cerca de seis anos atrás (ele tem atualmente 22 anos). Acenei discretamente para ele e obtive uma retribuição de sorrisos quase impercetível. Não podíamos nos arriscar a deitar tudo a perder. Não agora, mesmo que as saudades sejam imensas.

Se tive vontade de lhes falar? Minha vontade foi esquecer tudo e os abraçar e nunca mais os largar. Mas, tecnicamente, eu não os conheço de lado nenhum… Eu não passo da filha da falecida líder da Audácia, Johanna Cohen, e eles são Douglas Walker, o melhor advogado da cidade, e Damien Walker, o aluno prodígio de Jeanine Mathews.

Desviei minha atenção deles, para não causar suspeitas, e corri com o resto dos iniciados pelas ruas de Chicago, à medida que os membros das outras fações se desviavam para nós passarmos. Eu e Uriah liderávamos a “manada” correndo até à ponte da linha do comboio. Trepamos a estrutura que mantinha a linha mais acima do chão e fomos seguidos pelos restantes.

— Está chegando! – Uriah colocou a língua de fora, parecendo um cachorro, enquanto esfregava as mãos uma na outra.

O trem passou por nós, com tanta velocidade que fechei os olhos com a rajada de vento que levantou minha camisa branca. Comecei a correr para alcançar o vagão mais próximo. Pulei e me segurei no puxador. Inclinei meu corpo para o lado e a porta deslizou até ficar completamente aberta, e pela qual começaram a entrar iniciados. Uriah me puxou para dentro e soltou um grito de entusiasmo, beijando depois Marlene que sorriu envergonhada.

A última pessoa a entrar foi a careta que demonstrou algumas dificuldades. Mas nem a censuro, da primeira vez que tentei entrar num trem em movimento, quase me matei. Me aproximei dela e da garota com quem ela estava conversando.

— Vocês estão bem? – perguntei com um sorriso e elas se levantaram.

A careta se desequilibrou quando o vagão oscilou, e seu corpo se inclinou pra trás, para fora do trem. Ela não gritou, mas seu semblante refletiu o pânico que percorria seu corpo. Segurei seus antebraços e a puxei para dentro com força. Ela bateu contra mim e eu pude sentir sua respiração ofegante e suas mãos trémulas.

— Obrigada… — murmurou ainda em choque.

— Não precisa agradecer. – sorri e notei que ela descontraiu um pouco. – Sou a Kay!

— Prazer Kay sou a… — ela desfez por momentos o sorriso e se silenciou. – Sou a Tris!

— Legal seu nome! – ergui o polegar, apesar de ter compreendido que não era o verdadeiro. Eu também não me chamo Kay, meu nome é Mikayla, mas não me soa muito bem como nome de pessoa da Audácia. Ela pode pensar como eu. Olhei a garota do lado de Tris. – E você?

— Christina! – ela estendeu a mão e eu a apertei a sacudindo duas vezes.

Um dos iniciados da Audácia chamou por mim e me perguntou se já havíamos chegado. Espreitei para fora do vagão e avistei a quartel-general da Audácia, e umas figuras no patamar exterior. Afirmei com um aceno e, lançando gritos de entusiasmo, os iniciados da Audácia começaram a pular para fora dos vagões.

— Eles… — Tris olhou atónita para fora. – Estão pulando!

— O quê?! – Christina espreitou também.

Elas se voltaram para mim em busca de respostas. Mordisquei uma unha.

— É um ritual de passagem. — expliquei. – Ou de admissão, se preferirem.

Senti uma presença a poucos metros de mim mas não olhei.

— E o que acontece se não pularmos? – um cara bastante alto e bem estruturado da Franqueza perguntou meio assustado.

— Oras, você se torna um sem fação. – outro cara da Franqueza falou por mim. Deu uma palmada no ombro dele. – Boa sorte Al!

E pulou para fora do vagão. Al suspirou e também saltou com um semblante de pânico. Abanei a cabeça e voltei minha atenção para Tris e Christina.

— Se agarrem a mim. Saltamos juntas! – cada uma delas segurou uma de minhas mãos.

Nos afastamos para ganhar balanço.

— Prontas? Um… Dois… Três. Pulem! – corremos até o fim do vagão e voamos para cima do prédio.

Tris e Christina caíram redondas no chão coberto de pedras, e me fizeram cair também. Começamos a rir todas juntas. Sacudi minhas roupas e reparei que Tris espreitava o cotovelo, puxando a manga de seu vestido.

— Ooh! – Nathan comentou com deboche. – Uma careta mostrando o corpo…

Vi as maçãs do rosto de Tris ficarem vermelhas, mas sua expressão se manteve séria.

— vai ter com sua namorada Nathan! – mostrei o dedo do meio, que estava adornado com um anel de prata, para ele e me voltei para Tris. – Não liga pra ele. É um idiota… Você está bem?

— Sim. – ela puxou a manga para baixo. – Vou sobreviver…

Nos rimos. Quem diria que os caretas têm tanto sentido de humor.

— Escutem! – uma voz masculina, extremamente potente gritou. Era Eric que estava empoleirado na mureta, esfregando as mãos uma na outra. – Meu nome é Eric e sou um dos cinco dirigentes de sua nova fação.

Ele se silenciou por um tempo, analisando todos os iniciados. Seu olhar parou durante alguns segundos em mim e, depois de dar um sorriso de lado, seguiu o olhar para os restantes iniciados. Estarei assim tão feia hoje?

— A primeira parte de vossa admissão já foi concluída. Então, passemos à seguinte. – apontou com um dedo para baixo. – Ali em baixo fica o Fosso, um lugar que vocês irão aprender a amar. E aquele buraco que vocês veem, é a única entrada que poderão usar para serem admitidos.

— Espere! – Al esbugalhou os olhos. – Você quer que a gente salte? Lá pra baixo?

— Se não tiverem coragem de o fazer, nós o compreendemos. – se eu não conhecesse Eric, julgaria que seu sorriso é genuíno. Mas eu o conheço muito bem. – Mas, se decidirem não o fazer, estão fora!

Ele se riu cruelmente das expressões dos iniciados transferidos.

— E o que tem lá em baixo? – pergunta um garoto da Erudição. – Água… ou assim?

— Você logo verá. – Eric deveria estar adorando aquilo.

Sinceramente não entendo o porquê. Ainda me lembro que quando foi com ele, tinha o medo estampado em seus olhos quando chegou lá a baixo são e salvo. Mas o que fazer? O treinaram para ser cruel… e é isso que ele é. Cruel. Coitada da minha mãe… viu nele um grande potencial e aposto que agora estaria abanando a cabeça desiludida.

— Bem, alguém (das transferências) tem que ser o primeiro. – Eric se colocou novamente sério. – Quem se voluntaria?

Todos ficaram em silêncio absoluto. Olhei Uriah que estava afastado de mim por uns metros e ele me jogou a língua de fora. Retribuí o gesto e nos rimos.

— Vamos! – Eric falou impaciente. – Não tenho o dia todo…

— Eu vou! – Tris falou confiante.

Olhou para mim e eu ergui o polegar e sorri, em aprovação. Os iniciados se afastaram para ela se dirigir até à mureta, do qual Eric desceu. Tris espreitou lá pra baixo e despiu a jaqueta de malha a jogando no chão de seguida. Subiu na mureta se desequilibrando algumas vezes. Ficou parada olhando pra baixo, possivelmente tentando ganhar coragem para saltar.

— Ainda hoje iniciada… — Eric fechou os olhos e suspirou cansado.

Tris olhou de relance para mim e Christina e pulou lá pra baixo deixando escapar apenas um suspiro de susto. Todos correram para a mureta quando se pode escutar o barulho da rede lhe amparando a queda.

— Você está se divertindo com isso, não? – senti o vento bater em meu rosto, ao falar com Eric.

— Nem imagina o quanto. – ele sorriu com as mãos entrelaçadas na frente do corpo. Depois pigarreou e se colocou novamente sério. – Como vocês podem ver, a careta está viva. Transferências, comecem a pular lá pra baixo.

Os iniciados transferidos começaram a pular, uns em silêncio, e outros berrando a plenos pulmões. Depois foi a nossa vez, iniciados naturais da Audácia, de pularmos. O primeiro de nós a saltar foi Nathan, logo seguido por Jason que gritou com entusiasmo, e Carmen que bateu os braços como se fosse voar e gritando. Eu sempre desconfiei que ela não era muito esperta. Uriah e eu nos deixamos ficar pro fim. Todos sabiam o quão corajosos éramos e não precisávamos provar nada a ninguém. Uriah oljou em redor e confirmou que já não restava mais ninguém e pulou gritando entusiasmado. Eu demorei um pouco para ir para a mureta. Fiquei encarando Eric de braços cruzados. Ele desviou a atenção da mureta para mim.

— Você está com medo de pular, Gótica?

Esse apelido de novo não! Quando ele chegou na Audácia não fui só eu a apelidar ele de Irado coma vida. Ele se vingou me apelidando de Gótica, coisa que me deixa puta da vida.

— Que piada, senhor líder Irado com a vida… — forcei uma risada fingida e soquei o braço musculoso dele.

— Veja como você fala comigo iniciada! – ele falou bruscamente.

Agitei a mão como quem enxota mosca, me dirigi para a mureta e subi.

— Ei Eric! – me virei pra trás.

— O que foi?

Mostrei meu dedo do meio para ele e me deixei cair durante vários metros. Foi sugada pela rede que me amparou a queda e, depois de ter sido catapultada um ou dois metros pra cima, finalmente parei. Tobias puxou a rede e me ajudou a sair. Depois de todos saltarem, Tobias começou a falar.

— Para os novatos aqui, meu nome é Quatro…

— Como o número? – inquiriu Christina. – Que estranho.

— Novata, qual seu nome? – Tobias se aproximou dela.

— C-Christina!

— Muito bem, Christina… A primeira coisa que você vai aprender comigo, seu novo instrutor, é que se você quer sobreviver, tem que ficar com o bico calado, entendeu? Se eu quisesse aturar os espertalhões dos da Franqueza, teria ido para lá.

Christina baixou a cabeça e Tobias se afastou dela.

— Como eu estava dizendo, meu nome é Quatro e ela é a Lauren. Nós seremos os vossos instrutores durante o vosso processo de iniciação. Ele, — apontou para Eric. – como vocês já sabem, é o Eric, um dos cinco líderes da Audácia.

Os olhos dos iniciados saltavam de Tobias para Quatro, como se isto se tratasse de um jogo de tênis. Eric pigarreou e começou a circular calmamente de um lado para o outro, com os braços atrás das costas.

— E, como aqui na Audácia levamos muito a sério o processo de iniciação, eu me voluntareei para orientar a maior parte de vossa formação.

Senti que meu estômago era uma máquina de lavar. Três instrutores duros de roer. Tobias que não tem problemas de te insultar se assim o entender, Lauren que é como ter uma baby-sitter que tem como passatempo afiar facas e Eric que é um maníaco do pior.

A meu lado, Uriah começou a tossir compulsivamente, por causa de uma mosca que entrara em sua boca. Apoiou sua mão no meu ombro e baixou as costas, continuando a tossir. Quando olhei, vi o inseto ser projetado para o chão e passei uma mão pelas costas dele. Se uriah não tivesse um tom de pele escura, estaria vermelho que nem um tomate, mas respirou fundo e verteu umas lágrimas com os olhos inchados.

— Você está bem Uriah? – Lauren perguntou.

Uriah ergueu o polegar, demasiado arrasado para falar. Lauren olhou para mim esperando que eu falasse por ele.

— Ele engoliu uma mosca… — todos os iniciados murmuraram e abafaram risadas. Mas, sem dúvida que as que mais se escutavam eram as de Nathan e seu grupo de idiotas.

Lauren bateu palmas para pedir silêncio. Aos poucos, todos os iniciados começaram a se silenciar.

Eu não vejo onde está a piada de alguém se engasgar e ficar dificultado de respirar. Tenho a certeza de que se fosse com eles, não iriam se rir, nem lá perto. Senti a mão de Uriah apertar meu ombro e o olhei. Ele me sorria como que me acalmando e impedindo de arranjar uma rixa ali mesmo.

— Imagino que vocês, nascidos na Audácia, não precisem de uma visita guiada. Não é mesmo? – Lauren sorriu de lado e depois fez sinal para nós. – Me sigam!

— Transferências, venham comigo! – Tobias também acenou.

Os dois seguiram para corredores diferentes, e os iniciados todos à mistura, seguiram aquele que seria seu instrutor. Deixei os idiotas partirem na frente e avancei atrás do grupo, perto de Uriah, Lynn e Marlene. Senti uma mão segurar meu antebraço e olhei.

— Não se esquenta, okay? – Eric sussurrou e beijou minha testa, aproveitando a confusão.

— Não te prometo nada… — respondi recebendo um sorriso genuíno por parte dele.

Corri para perto de meu grupo e senti a mão de Marlene agarrar a minha. Ela sorriu para mim, e sem dar por isso eu também me ri. É impossível não rir com Marlene.

Lauren nos conduziu pelos corredores da Audácia. Era húmidos e escuros, devido à fraca iluminação. Tinhamos que andar com cuidado para não tropeçarmos nas falhas do chão. Seguimos todos conversando, e Lauren só se fazia ouvir quando um ou outro exagerava no volume os nas brincadeiras. Por fim, ela parou, em frente a uma velha porta de madeira, no fundo de um dos corredores, se voltou para nós com as mãos atrás das costas e ficou em silêncio enquanto nos colocávamos em redor dela.

— Atrás dessa porta fica o vosso dormitório. – explica com um semblante tranquilo. – É aqui que vocês ficarão durante as próximas semanas, até o fim da vossa formação. – um sorriso se gerou em seus lábios. – Espero que gostem de camas a ranger e lençóis molhados, porque se não gostam… vão aprender a adorar!

Todos ficamos em completo silêncio. Acho que ninguém gostou muito das descrições do alojamento. Lauren abriu a porta atrás de si e se afastou para nos deixar passar.

Se eu fiquei apreensiva com as descrições dela, então agora morri! O quarto já por si próprio era pequeno para que 18 pessoas o usassem em conjunto. As cores eram horríveis e muito tristes. Nas paredes se notava a humidade, haviam em alguns cantos do dormitório bolor se gerando e o chão estava pingado. Senti uma pinga em meu nariz e olhei para cima enquanto a limpava. Boa, infiltrações no teto… As camas eram baixas, com estruturas metálicas, daquelas de uma péssima qualidade e que rangem e estalam ao mínimo dos movimentos. Passei a mão pelo lençol da cama que estava ao meu lado. Estava húmido…

Senti meu estômago borbulhar e uma vontade de chorar estúpida. Eu não quero ficar aqui. Isso é horrível. Uma autêntica merda!

Abanei a cabeça para afastar esses pensamentos, e perdi a vontade de chorar.

Deixa de mariquices, Kay Cohen”, gritei mentalmente comigo mesmo. “São só umas semanas. Há coisas bem piores. Como levar um tiro ou uma facada…

Minha atenção foi atraída para um buraco largo e retangular na parede no fundo do corredor de camas. Pude ver uma espécie de lavatório gigante no centro, uma data de sanitários masculinos e femininos sem bloco, e chuveiros sem separação nem porta.

— Aquilo é o banheiro? – questionei arqueando as sobrancelhas e apontando para o buraco na parede.

Quando Lauren abriu a boca para responder, saiu uma voz masculina, e ela franziu o cenho.

— É sim… — Eric entrou no quarto. Vinha sozinho. – Encantador não?

— Ai Deus! – escutei Marlene se lamentar, num murmúrio, do meu lado.

Todos ficaram em silêncio quando Eric nos analisou com o olhar.

— Algum problema Eric? – perguntou Lauren, aparentemente surpresa por ele estar ali.

— Vim apenas saber o que nossos iniciados achavam de seu alojamento. – ele sorriu cruelmente.

— Mas você não devia estar acompanhando o Quatro com as transferências? – Lauren bocejou.

— Ele dá conta do recado sozinho. – Eric deu de ombros nada importado. Depois se colocou novamente sério. – Iniciados, escutem bem o que eu vou dizer, porque não volto a repetir. Como vocês sabem, e se não sabem deveria saber, há algumas regras básicas para o processo de iniciação. Devem se apresentar todos os dias na sala de treino, às oito horas, logo, se quiserem comer antes, terão que acordar cedo. O treino vai das oito da manhã às seis da tarde, com um intervalo para o almoço. A partir das seis, vocês fazem aquilo que vos bem entender. – ele olhou de relance para mim e eu senti minhas bochechas arderem. Ele obviamente tinha pensado no que eu estou imaginando. – E. também terão cerca do dois dias de descanso entre cada uma das três fases da vossa iniciação.

Eric fez uma pausa, possivelmente por estar cansado de falar, e se geraram alguns murmúrios. A meu lado, Uriah e Marlene se questionavam se ele iria falar algo a respeito da tradição da Audácia- Do meu lado oposto, Lynn reclamava o facto de ter que acordar às seis da manhã para não andar às pressas. Mais afastados de nós, Nathan e Jason se riam presunçosamente. Possivelmente de algo estúpido, para variar.

— Só mais uma coisa. – acrescenta Eric. – Só podem sair do quartel-general se estiverem acompanhados por um membro da Audácia.

Senti que Uriah, Marlene e Lynn se entreolhavam. Todos os iniciados se entreolharam. Todos, exceto eu, que aparentemente gosto de ser do contra. Meu olhar estava fixo na parede enquanto eu pensava naquilo que Eric dissera. Como assim? Nós somos mais membros da Audácia do que ele alguma vez será!

— O que… — pigarreei para o punho por minha voz ter saído um pouco rouca. – O que você quer dizer com “membros da Audácia” – fiz aspas com os dedos – Todos nós somos membros autênticos da Audácia. Ou você esqueceu isso?

Eric ficou subitamente com uma cara incomodada. Mais do que a habitual. Me senti uma idiota por falar de um modo tão ousado com Eric, mas eu realmente me esqueço que ele pode ser um namorado com muito carinho e amor para me dar, como também um líder sádico e maníaco que é capaz de me atirar do abismo e dançar em roda da minha campa em meu funeral. Mas já tinha falado. Não havia mais nada a fazer… Seus olhos percorreram meu corpo de baixo para cima e pararam em meus olhos. Nossos olhares, o seu numa mistura de azul e acinzentado e o meu de um azul vivo, se cruzaram. Alguns segundos depois ele piscou os olhos e pareceu acordar de seus pensamentos. Coçou sua sobrancelha.

— Eu não esqueci, não… — ele falou dando de ombros. – Mas, neste momento, vocês são tão membros da Audácia como os transferidos, porque de entre todos vocês, só os dez melhores irão ficar aqui e o resto se tornam sem fação. Vocês são todos farinha do mesmo saco. Temos que aplicar as mesmas regras a todos. Respondi à sua pergunta, Gótica?

Acenei afirmamente com a cabeça e mordisquei uma unha. Escutei uns risinhos maldosos por parte de Carmen, mas a ignorei. Não tô com paciência para ela…

Eric se desencostou da parede e juntou as mãos na frente do corpo.

— Daqui a meia hora quero todos no refeitório. – ele olhou fixamente para cada um de nós, pronunciando calmamente suas palavras. – Espero não ter que me enervar com ninguém por causa de atrasos…

Eu por mim compreendi. Pude ver a ameaça contida na última frase de Eric: Ou vocês estão no refeitório a horas, ou vamos ter problemas.

Eric saiu do dormitório. Estava tanto silêncio que pudemos escutar seus passos ecoando pelo corredor. Lauren deu um suspiro e um sorriso amigável.

— Aí têm vossas ordens. – falou se dirigindo para a saída. – Nos vemos mais tarde, iniciados.

Lauren saiu do dormitório, e fechou a porta atrás de si. Notei que havia um papel na parede que esteve escondido enquanto a porta estava encostada na parede, mas não tomei muita atenção. Todos ficaram olhando, em silêncio, o quarto.

— Como vamos nos colocar nas camas? – perguntou Alex, que se encontrava atrás de mim.

Ele faz parte do “Grupinho de Idiotas do Nathan”. Alex é um diminutivo de seu nome que é, Alexander Garcia. Ele possui os cabelos loiros meio dourados, os usa arrepiados como Jason (só que mais arrumados) e o cabelo em redor da “crista” se encontra rapado. Seus olhos são de um marrom invulgar, uma cor de chocolate claro e brilhante. Seus lábios são grossos e rosados e tem um maxilar definido. Seus músculos não são muito desenvolvidos, mas não deixam de se notar, principalmente no abdominal. Tem o braço esquerdo completamente tatuado, enquanto que no direito, é apenas o antebraço que se encontra tatuado.

Alex é o menos idiota do grupo, mas tem um aspeto muito negativo. Ele passa os dias me envergonhando, por desde à dois anos para cá ter admitido que está apaixonado por mim. Passa a vida fazendo declarações de amor em público. Uma vez escreveu com tinta vermelha “Eu te amo Mikayla Cohen. Você casa comigo?”, no portão principal do quartel-general. Demorou cerca de um mês para que se desistisse de tentar apagar aquilo. Tiveram que chamar os Abnegados para pintarem o portão com uma nova cor.

A verdade é que Eric nunca se expressou, nem no primeiro momento que esteve a sós comigo depois do incidente, mas pelos olhares que ele ainda hoje manda para Alex, não me admira nada que Eric tenha pensado em vários planos sádicos para acabar com ele.

— Deve haver uma lista, ou assim, algures por aí… — Ally olhou em redor.

Ela é a irmã gêmea de Alex, e tal como ele, faz parte do Grupinho. Já para não falar que é a inseparável melhor amiga de Carmen. Não sei qual das duas me dá mais vómitos. Ally é um diminutivo de seu nome Alison Garcia. Assim como Alex, Ally possui os cabelos meio dourados, curtos e metade rapados. Seus olhos são azuis-claros, mas menos vivos que os meus. Seus lábios são finos e sempre portam um sorriso trocista. Na careca ela tem uma tatuagem representando algo relacionado com flores e folhas, que se perlonga até o fim de seu braço esquerdo.

Descobri à coisa de 3 meses, que a Ally tem um fraquinho pelo Eric. Pena que ele esteja comigo. Pena pra ela, quero dizer…

— O que você acha, Kay? – Lynn me acordou de meus pensamentos.

— Er… Aaahmm… — balbuciei piscando várias vezes os olhos. – Eu acho que vi uma folha ali no canto.

Eu e Lynn subimos a pequena escadaria perto da porta e analisamos a folha que estava colada na parede com adesivo acastanhado.

— Bom olho, Chefa! – Lynn socou levemente meu ombro, me fazendo sorrir minimamente.

Meus olhos, tal como os dos restantes iniciados, percorreram a lista para perceber a disposição das camas e onde ficariam.

Disposição das camas:

1.Nathan

2.Jason

3.Luke

4.Carmen

5.Alfie

6.Coralie

7.Dahlia

8.Ally

9.Keeran

10.Martin

11.Jessica

12.Richard

13.Ava

14.Lynn

15.Marlene

16.Alex

17.Kay

18.Uriah

Prendi um suspiro enervado na garganta. Tudo que que eu estou do lado do Uriah, mas estou numa péssima posição estratégica: em frente da Ally e ao lado do Alex. Encurralados, é o que eu e o Uriah estamos. Olhei de relance para Alex e vi que o idiota estava se rindo de lado e olhando descaradamente para mim.

— Com licença… — me virei de costas e afastei Keeran e Coralie que se encontravam atrás de mim.

Abri caminho entre os iniciados e desci a escadaria. Andei pelo corredor de camas até chegar na que possuía o número 17. A minha cama. Entre a de Uriah (quase encostada na parede do banheiro), e a de Alex. Me sentei nela e senti uma impressão nos ouvidos quando ela estalou e rangeu. Suspirei e olhei para o chão.

— O que é isso? – me debrucei para o chão, surpresa.

Haviam 3 malas pretas e pequenas encostadas na parede, ao lado de minha cama. Espreitei para a cama de Uriah e vi que também havia. Olhei para a de Alex e depois atentamente para todas as camas. Todas elas estavam acompanhadas de três malas iguais às minhas. Coloquei a primeira mala sobre a cama e a abri, para analisar seu conteúdo.

— As minhas roupas… — murmurei sorrindo abertamente.

As malas estavam carregadas de meus pertences. Incluindo minha maquiagem, meus produtos de banho, dois perfumes e até absorventes para colocar na cueca, para quando me menstruo. Estava vasculhando a terceira mala, quando me deparo com um envelope branco escrito a tinta preta envernizada:

“Abre quando estiver sozinha”

Olhei atentamente a caligrafia. Era do Eric… Ele nunca coloca as pintas nos I´s. Não pude evitar um sorriso rasgado. Quem que não gosta de uma cartinha misteriosa de seu naorado? Eu, pelo menos, adoro! Ia abrir o envelope só para espreitar quando…

— Então Kay… — escondi apressadamente o envelope no meio das roupas e me voltei.

— Oi Alex! – fiz um sorriso bobo e passei as mãos pelas calças.

— Parece que somos “vizinhos”. — ele falou tranquilo.

— É… que legal! – não sei porque razão eu estava agindo assim. Talvez pelo facto de quase ter sido pega com uma carta do Eric.

— Olha, você nunca me disse o que achou da obra de arte no portão… — senti meu estômago borbulhar. – Você gostou?

— Em relação a isso, Alex… — me balancei procurando as palavras. – Você tem que parar, sabe? Eu… não sinto isso por você…

Fiquei esperando uma reação catastrófica dele. Mas, ao contrário do que eu imaginei, não aconteceu nada disso. Olhei para ele e vi um sorriso sedutor em seus lábios.

— Eu imaginei… — ele passou as mãos pelos cabelos. – Mas sabe…

Senti sua mão em minha cintura, e no segundo seguinte nosso rosto estavam a poucos centímetros de se tocarem.

— A gente pode mudar isso…

Minhas mãos estavam trémulas e suavam frio. Meu coração estava tão acelerado que me doía o peito e tive medo que Alex conseguisse o escutar. Não, eu não estava nervosa. Eu estava aterrorizada… Se o Eric entrasse no quarto e visse isso, nunca mais me olhava. Tentei me soltar de Alex, mas ele não o permitiu.

Vi uma mão escura sobre o ombro de Nathan. Era Uriah que viera me salvar! Seu olhar estava frio e seus dedos se cravaram no ombro de Alex.

— Solta ela! – ordenou firmemente. Alex não se moveu. – Solta ela ou eu acabo com sua raça!

Alex me soltou e ergueu os braços e se afastou, saindo do dormitório seguido por Jason que estava esperando por ele. Olhei Uriah e ele me sorriu. Me abracei a ele e suspirei aliviada.

— Obrigada, cara de pudim! – falei. – Eu estava em pânico…

— Eu sei… — Uriah sorriu trocista. – Também estaria se meu namorado fosse o Demônio… ups… quer dizer, o Eric.

— Parvo! – soquei o peito dele.

(…)

Mais do que o habitual, o refeitório estava um completo alvoroço. Entre gargalhadas, gritaria, lutinhas infantis e pãezinhos voadores, era difícil prestar atenção a tudo o que se passava lá dentro. Poderia derrorrer um homicídio, que ninguém saberia quando ocorrer e quem o fizera.

Uriah estava extremamente bem-disposto. Arrancava pedaços de miolo do pão e formava bolinhas que jogava no ar e apanhava com a boca.

— Aposto que você não consegue apanhar duas ao mesmo tempo. – o desafiei. – Uma atirada por você e outra por mim.

Uriah me olhou fixamente com seus olhos pretos, cor de azeitona, e bateu com a palma da mão direita na mesa.

— Apostado! Se eu conseguir, você vai ter… — ele olhou em redor do refeitório. – Você vai ter que sensualizar com o Alex!

Do meu lado esquerdo, Marlene se engasgou com o suco de maçã, por ter se rido, e o mesmo saiu por suas narinas para cima do prato. A mesa rebentou em gargalhadas. Marlene verteu umas lágrimas e se limpou.

— Essa porra arde! – se lamentou segurando o nariz.

Lynn conduziu Marlene até o banheiro e Dahlia limpou os lugares sujos.

— E, se eu ganhar... – falei quando elas regressaram e todos se acalmaram. – Você vai ter que andar pelo refeitório vestido de mulher, seduzindo todos os caras.

Uriah e eu apertamos as mãos e as sacudimos duas vezes. A mesa ficou em completo silêncio. Uriah arrancou um pedaço do miolo de seu pão quase desfeito e formou uma bolinha. Abri um pãozinho e fiz o mesmo. Fizemos uma contagem decrescente e Uriah e eu atiramos as bolinhas de miolo de pão. A dele calhou dentro da boca e, a minha o obrigou a se inclinar pra trás enquanto mastigava. Abriu a boca e pareceu que ia entrar. Mas, a bolinha bateu em seu nariz e ele caiu estrondosamente do banco, ficando com os pés pra cima.

A mesa voltou a rebentar em gargalhadas. Tive que segurar meu estômago pelas dores que estava sentindo de tanto me rir. Marlene encostou a cabeça no meu ombro, vermelha de rir.

Uriah se levantou alguns segundos depois com um sorriso idiota e suspirou.

— Tenho mesmo? – fez beicinho.

— Claro! Vocês apostaram! – por isso que eu gosto do Keeran.

Coralie e Jessica se levantaram.

— A gente te ajuda… — Jessica o puxou sorrindo matreiramente.

Coralie e Marlene trocaram um sorriso e Coralie correu atrás deles. Depois de eles saírem, tudo ficou mais calmo. Continuamos comendo e conversando calmamente, até que eu senti alguém tocar meu ombro. Virei para trás e vi Tris e Christina.

— Podemos?

— Claro! – sorri.

Elas se sentaram. Christina atacou um hamburger com uma fome louca. Por sua vez, tris ficou olhando a comida de um modo curioso e receoso.

— O que é? – me sussurrou.

— Um hamburger… — expliquei. – Se come com as mãos. Assim… — exemplifiquei.

— Você nunca viu um hamburger na vida? – Christina pareceu chocada.

— Os caretas gostam de comidas simples. Veganas e sem molhos. – me assustei quando a voz de Tobias soou atrás de nós. Ele se sentou ao lado de Tris e pegou um hamburger.

— Sério? – Christina olhou Tris. – Porquê?

— Porque os exageros são considerados atos egoístas, logo, são desnecessários. – Tris explicou comendo o hamburger.

Limpei a boca com o guardanapo e lancei um sorriso de troça.

— Com comidas desse tipo também eu teria mudado de fação…

— A-hã… — Tris sorriu. – Foi mesmo por isso que eu vim para cá.

Christina se levantou e se dirigiu ao banheiro, e Tris ficou olhando em redor do refeitório. Seu olhar parou numa das mesas e direcionei meu olhar para o mesmo sítio. Estava olhando para a mesa dos líderes.

— O que foi? – perguntei a seu ouvido.

— Estava pensando… — ela cobriu a boca e arrotou. – Perdão. Que idade tem o Eric?

— !8… — respondi. Imaginei o que ela estivesse a pensar.

— E é um dos líderes? – acenei com a cabeça. – Mas ele é tão novo…

Ia responder, mas Tobias se adiantou.

— Aqui a idade não importa…

Tris ficou o olhando e depois olhou para mim esperando uma explicação.

— Eric é implacável. – expliquei e baixei meu tom de vós. – ele foi treinado para ser cruel, e é isso que vai fazer connosco. – Tris abriu a boca de espanto e cobri meus lábios com um dedo, e voltei a falar a um tom audível para outros. – Mas ele não nasceu na Audácia…

— Então onde nasceu?

— Na Erudição… — Tobias voltou a falar por mim.

Tris ficou encarando Tobias e depois um som saiu de sua boca.

— Você também é transferido, ou nasceu na Audácia? – perguntou.

Tobias parou de comer e a encarou.

— Você está gozando comigo?!

— N…Não. Claro que não!

— Que direito você pensa que tem para poder falar comigo?

Depois de ficar o olhando, Tris respondeu:

— Talvez por você ser tão acessível, sabe?

Tampei a boca para não deixar escapar uma gargalhada que estava encalhada em minha garganta. Tobias olhou tris de cima a baixo e bebeu sua água.

— Toma cuidado, Tris! – avisou.

As maçãs do rosto dela ficaram vermelhas e ela voltou a comer.

— Sabe, eu tenho uma teoria…

— Qual é? – questionou erguendo os sobrolhos.

Nesse momento Uriah entrou no refeitório fazendo o mesmo rebentar em gargalhadas. Tinha uma peruca loira com um penteado muito elegante. Usava um vestido preto de corpete justo e uma saia peluda, calçava uns saltos pretos e tinha um colar prateado. Estava exageradamente pintado.

Se escutaram risos, assobios e piropos, à medida que ele passava pelas mesas.

— Caçula, o que você está fazendo? – Zeke pigarreou pois a voz lhe saiu esganiçada.

— Foi uma aposta! – ele rosnou. – Não me enerva muito ou taco com o tacão na sua testa, querido! – Uriah colocou a mão na cintura e fez um gesto de diva fazendo todos se riem.

Uraih passou por Zeke que olhou para mim. Ele se dirigiu à nossa mesa e apoiou os braços na mesma.

— O que você fez, maluca? – ele se riu.

— Eu? – dei de ombros. – Nada… Ele é que não apanhou o miolo do pão.

Eu e Marlene começamos a rir. Tobias e Zeke abanaram a cabeça e alguns minutos mais tarde, Uriah correu até à mesa, quando viu Max e Eric se dirigirem a ele. Mas, tropeçou nos tacões e caiu no chão. Novamente o refeitório rebentou em gargalhadas.

— O que você está fazendo, Uriah Predad? – Max falou sério.

— Er… nada… — Uriah engoliu em seco.

Me levantei da mesa e me aproximei deles.

— A gente fez uma aposta… — expliquei. – E como ele perdeu teve que se vestir de mulher.

— Nós já conversamos acerca das vossas apostas, Kay… — max suspirou.

— Ai Max! É só uma brincadeira… — resmunguei. – Mas não se preocupa, o Uriah já estava indo se trocar. Vamos, cara de pudim maquiado.

Ele retirou os sapatos e eu o ajudei a levantar. Marlene saiu com ele do refeitório e eu voltei para a mesa. Tris me olhou.

— Você ainda não me disse…

— O quê?

— A sua teoria… — respondeu.

— Ah! – me ri e peguei uma maçã. – Você quer morrer…

Trocamos um sorriso.

(…)

Não consegui evitar um bocejo enquanto caminhávamos para o Fosso, guiados por Lauren, na primeira manhã de treinos. Uriah se arrastava a meu lado agarrando a mão de Marlene e bocejando. Ainda tinha vestígios de maquiagem em seu rosto. A claridade do Fosso me obrigou a fechar os olhos e a tapá-los com a mão. Demorei alguns segundos até me habituar.

Eric já se encontrava lá. Estava encostado a uma pilha de blocos de pedra, de braços cruzados e o típico semblante sério e que impõe respeito.

— Muito bem pessoal… – tapei meus ouvidos quando Lauren gritou perto dos mesmos. – Desculpa Kay. Fiquem aí sentados enquanto esperamos que Quatro chegue com os transferidos.

Me afastei de Lauren antes que ela gritasse novamente e rebentasse com meus tímpanos. Me deixei cair num monte de colchões velhos e me encostei às costas de Uriah, que ainda não parara de bocejar. Bocejei também e cruzei os braços.

— Que sono, não é? – Keeran se sentou perto de mim e se espreguiçou.

— Nem me diga nada… — me ri e esfreguei meus olhos. – Por mim tinha ficado mais uma ou duas horas na cama.

— Vocês são uns preguiçosos, isso sim! – Ava se juntou a nós se rindo.

— Isso não é verdade! – rebatou Keeran bagunçando os cabelos dela.

— Aiiiiiiii! – Ava cobriu a cabeça com os braços. – Para Keeran, seu idiota!

Ava pregou uma estalada no braço dele e eu comecei a me rir. Ou muito me engano, ou vai rolar algo entre esses dois.

Alguns minutos se passaram e eu continuei a conversar com Keeran e Ava. Finalmente, Tobias entrou no Fosso, seguido dos transferidos e se aproximaram de nós.

— E agora Lauren? – Alfie perguntou, com o braço em volta do pescoço de sua namorada Dahlia.

— Esperem mais um pouco. – Lauren não desviou a atenção de suas unhas ao lhe responder.

Keeran jogou a cabeça para trás e deixou escapar um suspiro de lamentação. Ava se deitou nos colchões e fechou os olhos. E eu fui apanhando bocados daquilo que estava se passando ali ao lado. Pelo que percebi, Quatro e eric estavam explicando tudo acerca das fases de treino, das classificações e para que as mesmas serviam.

— Vocês não irão treinar em conjunto com os iniciados nascidos na Audácia, mas irão ser avaliados em conjunto. – ele direcionou seu dedo para nós.

Os olhares o seguiram e Keeran e eu acenamos com um sorriso, ao qual alguns dos transferidos responderam com acenos também. Tobias sacudiu a mão com um abanar de cabeça e Eric se limitou a sorrir de lado.

— Porque… — Peter, um dos transferidos da franqueza tossiu para o punho. – Porque não treinamos todos juntos?

— Porque vossas forças não podem ser comparadas. Eles têm uma maior preparação física que a vossa. – Eric respondeu como se fosse óbvio.

— E também estão se preparando para isto à vários anos! – acrescentou Tobias.

— Mas isso não significa nada. – esse cara não sabe mesmo quando deve se calar. Olhou para cada um de nós e sorriu de troça quando me olhou. – Aposto que consigo vencer a Gótica em menos de nada.

— Vai sonhando meu filho! – gritei e escutei meus amigos soltarem altas gargalhadas.

Lauren também se riu.

— Não sonhe transferido… — avisou. – A Gótica é tranquila, mas você não sabe do que ela é capaz.

GóticaGótica… — resmunguei. – Meu nome é Kay, caramba! Me tratem por meu nome!

— Escuta ó transferido. – Keeran acrescentou. – Essa mocinha aqui… — apontou para mim. – É dura de roer. Sabe quem era a mãe dela? Nossa antiga líder, Johanna Cohen.

— Sim… — Ava sorriu de canto. – Ela pode te fazer num biscoito se você a incomodar.

— Ah chega gente, vou começar a corar com tantos elogios. – meu comentário provocou uma gargalhada geral.

Eric bateu palmas.

— Chega de alimentar o ego dela. Tínhamos combinado que esse assunto não seria tocado até o final do processo de iniciação. – falou sério.

— Bela observação. Sim senhor… — bati palmas ao troçar dele.

Eric olhou para mim e prosseguiu.

— Vamos começar o treinamento. Iniciados, me sigam!

Lauren rolou os olhos. Passou a língua pelos dentes e fixou o olhar em algo durante algum tempo. Depois piscou os olhos e bateu palmas.

— Muito bem pessoal… — colocou um chiclete de menta na boca. – Vocês o escutaram. A circular!

Keeran se levantou primeiro e me ajudou a levantar. Passei as mãos pelos braços e ajeitei as alças de meus sutiã preto, que haviam deslizado. Saímos do Fosso seguidos pelos transferidos, cada grupo liderado por seu instrutor. O que nos distingue? Nossas camisas. Paras todos, as calças são pretas, assim como o calçado. Mas, para nós nascidos na Audácia, as camisas são vermelho-escuras, e para os transferidos, cinzentas.

Eric, que dirigia o grupo, se dirigiu para as escadas que davam ao terraço exterior. Subimos as escadas todos em silêncio. Não fora dito para nos calarmos, mas acho que todos são suficientemente espertos para compreender que não devem enervar muito o Eric. Quando chegamos ao topo, ele se deteve em frente da porta vermelha.

— Escutem bem… — sua voz foi ampliada pelo eco do local. – A primeira coisa que irão aprender a fazer (os transferidos), e a aperfeiçoar (os nascidos aqui) é o uso de uma arma de fogo. Por isso, cada grupo segue seu instrutor para um dos cantos do terraço.

Eric abriu a porta e a segurou enquanto nós passávamos. Senti uma tremenda vontade de gozar com o facto de ele parecer um porteiro, mas me contive. Ainda me arriscava a levar com a porta no rosto.

Laurem parou junto da beira do edifício, do lado oposto ao dos transferidos e Quatro. Eric ficou no meio dos dois grupos. Ele deveriam ir circulando por entre eles…

— Como vocês devem imaginar, o vosso treinamento será mais exigente que o dos transferidos. – Lauren falou bem alto, para que todos pudéssemos escutar. — Por isso, preparamos algo especial para vocês… Lá no fundo, — apontou para o mato – ,no meio do mato estão alguns alvos que irão aparecer e desaparecer. O objetivo é vocês acertarem três tiros certeiros em oito alvos.

Ficamos em silêncio.

— E como vocês são muito bons moços… — ela se riu ao falar isso. – Os três primeiros a completar a tarefa podem escolher em conjunto quem vai transportar e arrumar o material no final do treino.

Achei uma recompensa justa e divertida. Não é sempre que eles nos dão “prêmios”, mas costumam ser sempre engraçados.

— Cada um para uma metralhadora. – falou.

Nos dirigimos para as metralhadoras e esperamos o sinal.

— Agora! – Lauren gritou e comecei a escutar tiros.

Através da luneta vi um dos alvos aparecer e apertei suavemente o gatilho, três vezes. Atingi o alvo sempre no mesmo sítio. Escutei Lauren me elogiar e sorri. A meu lado direito, uriah também tinha uma boa prestação, e de meu lado esquerdo Keeran disparava como um psicopata, se rindo quando despedaçou um dos alvos.

— Keeran… — escutei a voz abafada de Lauren. Devia estar se rindo. – São só três tiros. Não é para desfazer o boneco.

Alguns minutos mais tarde eu estava acertando no último dos alvos. Me levantei com os braços no ar.

— Terminei! – duas vozes masculinas se juntaram a mim e eu me espantei. Uriah e Keeran estavam do mesmo jeito que eu. Começamos a rir.

— Parece que temos um empate. – Eric comentou.

— Vamos, decidam então, quem vai arrumar tudo no final do treino.

Nos colocamos em circulo e começamos a discutir nossas ideias. Quase todos os do Grupinho dos idiotas foram mencionados, mas todos tínhamos a mesma pessoa em mente. Nos viramos para eles e Uriah falou.

— Nós decidimos que a pessoa que irá arrumar tudo será… — fez uma pausa e analisou todos. — …a Carmen!

Ela começou protestando, assim como o resto de seus amigos.

— Não Nathan, ninguém está conspirando contra sua namorada. – Keeran falou sério. – Tínhamos que escolher alguém e decidimos que seria ela. Tão simples quanto isso…

Nathan ia abrir a boca para protestar, mas Eric se adiantou.

— Chega de discussão. – gritou. – Eles escolheram, logo está decidido. Carmen você irá arrumar tudo no final do treino. Sem ajudas. Se eu vier a descobrir que você teve ajuda vão sofrer as consequências. Você e quem te ajudar…

Carmen bufou e Eric, depois de dizer algo a Lauren, foi para junto dos transferidos. Senti Nathan e Carmen me fuzilarem com o olhar e suspirei. Vai sobrar pra mim. Já sei como é…

Lauren nos deu indicações para continuarmos a disparar para os alvos, agora de vontade própria. Me coloquei de novo no meu lugar e fiz o exercício.

— Lauren! – escutei Eric a chamar. – Venha aqui!

Lauren disse para a gente continuar nosso treino e se distanciou. “Não Lauren, não vai embora.” Supliquei para comigo mesma.

— Então Kay, está satisfeita? – escutei a voz de Carmen atrás de mim.

— O que foi Carmen? – olhei para ela com uma expressão de tédio.

— Você conseguiu que eu ficasse com uma tarefa dura. Mas não perde pela demora… — sorriu cruelmente. – Você vai pagar bem caro!

E se distanciou. Cerrei os dentes e senti a mão de Uriah em meu ombro. Sorriu pra mim e voltamos ao exercício.

— Kay! – não olhei quando a voz de Nathan me chamou. – Acho que finalmente descobri o motivo que levou sua mãe a se suicidar.

— Ignora ele! – aconselhou Keeran quando deixei de mirar os alvos. – Eles estão te tentando enervar.

Segui o conselho dele.

— Não me admira nada que sua mãe se tenha suicidado… — continuou Nathan. – Com uma filha como você… Viciada em álcool, que fuma, está sempre mal-humorada. Eu também me mataria.

Senti um baque no coração e minhas mãos ficaram trémulas.

— Cala a boca Nathan! – Ava gritou enervada. – Você está indo longe demais?

— Não. – ele sorriu cruelmente. – Eu estou apenas a ser honesto e a tirar ela de falsas ilusões. Foi por sua causa, Kay. – as palavras dele prefuraram em minha mente como brocas. – Sua mãe se matou, porque você é uma vergonha!

Abri meus olhos e atirei com a metralhadora no chão.

— Kay, não! – escutei Marlene gritar.

Uriah

A Kay se atirou contra Nathan e socou seu rosto com o máximo de força que pôde arranjar. Ele cambaleou para trás e cuspiu sangue no chão. Tentou atacar ela, mas ela segurou seu braço e o torceu num angulo estranho até se escutar o braço estalar. Kay varreu as pernas Nathan com um chute enquanto ele uivava de dor e se colocou sobre ele, socando sua cara no meio de lágrimas de tristeza e de raiva.

Quando a Kay se irrita fica incontrolável. Raramente tem consciência de seus atos, e naquele momento, ela não estava consciente de que estava quase matando o Nathan.

Tirou uma faca de seu cinto e espetou em uma das mãos dele, o prendendo no chão. Nathan voltou a gritar com as forças que lhe restavam. As mãos dela se colocaram em torno de sua garganta e a apertaram. Nathan tentou se soltar com a mão livre, mas foi em vão. Ela estava completamente maluca.

— Lauren! Eric! quatro! – Ava correu até o outro lado, enquanto eu e Keeran tentávamos trazer a Kay à razão.

— O que foi? – Lauren perguntou erguendo as sobrancelhas.

— É a Kay…

Os três correram até o nosso lado.

Eric foi o primeiro a alcançar ela. Segurou sua cintura e a puxou. Kay gritou e esperneou quando a separaram de Nathan e Eric a levou para dentro. Lauren retirou a faca da mão de Nathan que estava consciente, mas pálido.

— O que você fez? – perguntou Quatro.

— Nada… – Nathan balbuciou.

— NATHAN O QUE VOCÊ FEZ?! – Lauren gritou. – Ela não te iria atacar sem razão.

Ele ficou em silêncio.

— Você mencionou algo a cerca da mãe dela? – Quatro perguntou. – Falou ou não?!

— Falei…

Lauren e Quatro suspiraram e fecharam os olhos.

Tive vontade de rir só de ver Nathan levando bronca. Mas não consegui… estava demasiado preocupado com a Kay.

Eric

Desci as escadas com Kay nos braços. Ela gritava e agitava as pernas, no meio das lágrimas que banhavam seu rosto e borravam sua maquiagem. Todos ficaram olhando quando andei pelo quartel-general com ela esperneando em meus braços.

Abri a porta de meu apartamento.

—Kay! Fica quieta! – ordenei, enquanto a conduzia para o quarto.

— ME SOLTA ERIC! – ela berrou tentando se soltar. – ME DEIXA!

Respirei fundo e joguei ela violentamente na cama.

— BASTA! – berrei bem perto do rosto dela. – ACABOU KAY!

Ela parou de gritar e arregalou um pouco os olhos. Alguns minutos depois, seu corpo se desmoronou em cima da cama. Por fim ela tinha desmaiado…

(…)

Entrei no quarto e pude comprovar que ela já tinha acordado. Estava olhando para a janela, sentada na cama. Me aproximei dela e me sentei na cama.

— Você está melhor? – perguntei.

— Sim, acho eu… — balbuciou. – O que aconteceu?

— Você teve um ataque de psicopatia. – acariciei o rosto dela.

— Eu me lembro de o Nathan ter me acusado do suicido da minha mãe, mas depois disso… — ela abriu muito os olhos. – Eu… eu o matei?

— Não… — a tranquilizei.

Seu corpo tremia quando a abracei. Acariciei seus cabelos e escutei seus soluços.

— Eu não quero voltar pra lá… — falou. – Não agora.

— Ninguém te obriga a isso. Você pode ficar aqui… — beijei sua testa e depois seus lábios.

Ela sorriu e limpou o rosto de uma lágrima.

— Eu achava que os ataques de psicopatia tinham terminado. – comentou.

— Eles apareceram depois da morte de sua mãe… — me deitei na cama e ela se encostou a mim. – É natural que eles ainda apareçam. Mas você tem que se controlar.

Ela não disse nada e fechou os olhos.

Não adiantava dizer mais nada. Ela já o tinha feito. Ela já tinha mostrado…

Seu lado psicopata.

Notas finais
Então... Parece que tivemos um pouquinho de violência no final. Mas não se preocupem que não voltará a acontecer tão brevemente... Espero que não tenham deixado de gostar da Kay :( Aqui estão as roupas dela: http://www.polyvore.com/dauntless/set?id=216614220 E aqui, o traje gato da Uriah XD: https://www.polyvore.com/dauntless/set?id=216617888 —---- Não se esqueçam de deiar comentários lindos com vossas opiniões, e respondam às questões que eu deixei nas notas inicias, pudinzinhos. Beijos!!!!