Bravado
1 Abraham Tyler Bates
Notas iniciais
Inglaterra
Um homem era arremessado por uma porta, que era imediatamente destruída pelo impacto. O humano voava para trás, até seu corpo atingir a parede e rachá-la de maneira leve. Seu cabelo negro estava molhado, com uma franja caída na sua testa e as gotas escorrendo em sua face branca. Ele se levantava com uma certa dificuldade, ajeitando seu sobretudo e seu terno, enquanto olhava de volta para o quarto. Nas escadas a sua esquerda, estavam algumas pessoas, elas o encaravam assustadas, não havia homens ali, apenas uma jovem e três idosas. As mulheres mantinham distância, apesar da face de preocupação. Uma das idosas carregava um terço entre seus dedos. O que mais chamava a atenção, era a pele esverdeada e escamosa da jovem, com seus olhos de réptil amarelados piscando algumas vezes, cada vez mais intensamente.
— Tá tudo bem… — O homem murmura, cambaleando para frente, engolindo em seco e se apoiando em uma das escrivaninhas. — Eu vou dar um jeito. — Assegurava ao grupo, novamente indo em direção a porta recém destruída. Ele colocava uma das mãos dentro de um dos bolsos de seu sobretudo, retirando um pedaço cortado de lenço, em seguida colocava a mão esquerda no mesmo lugar, puxando um isqueiro e o acendendo.
No lenço que pegava fogo lentamente, haviam inscrições que não eram de nenhuma língua em específico, pareciam apenas desenhos desconexos e sem sentido. As chamas no material, ao poucos, tornavam-se azuis e as letras sem sentido queimavam… Mesmo que o fogo ainda estivesse longe delas.
O humano disparou de uma só vez em direção a porta. Enrolou o lenço ao redor de sua mão e o apontou para a direita, onde havia um ser espectral humanóide. Apesar de ser translúcido, podia-se notar a pele escamosa, tal qual a garota de antes.
A criatura rosnava em direção ao homem. Ele continuava a se aproximar, não era muito difícil notar que ele estava apreensivo, mas ainda assim recitava palavras em Latim, sem errar. A medida em que o lenço em chamas se aproximava da criatura, as escrituras rúnicas voavam em direção ao seu corpo espectral. O ser começava a escalar a parede, se contorcendo e gritando de agonia. Ainda assim, o homem não parava, apenas continuava a recitar as mesmas palavras repetidas vezes, até que, de maneira lenta, aquele espectro começava a desintegrar como cinza. A criatura gritava uma última vez e se desfazia por completo, seu corpo tornava-se como poeira cósmica, brilhante, apesar de ao mesmo tempo ser cinza. Aquela poeira pouco comum começava a voar, seguindo até a janela e saindo em direção ao céu. O humano se colocou na beira da janela, observando no horizonte que o pó se dissolvia. Era um dia bonito, sem nuvens, bem atípico para Londres, ainda mais naquela época do ano. Era uma visão agradável, sem dúvidas. Suspirava, com o vento balançando sua gravata e soltava o lenço. O tecido começava a se desfazer junto com o pó do corpo desintegrado. A última coisa que sobrou naquele horizonte, foi o fogo azul que outrora queimava no pedaço cortado de lenço. O rapaz ficou mais um tempo ali, dessa vez, não via nada em especifico, apenas o forte sol que iluminava toda a Londres.
— O-Obrigado. — Ele ouviu, e então, se virou. Era uma das idosas de mais cedo. Enquanto a menina de pele escamosa estava triste, encarando o vazio. O homem notou e deu um sorriso gentil. Com um pulo, voltou para o quarto. Agora ele finalmente pareceu notar a bagunça que havia feito e o sorriso se fechava.
— Ai, me desculpa… Ela foi um pouco mais difícil que o natural. — Murmurou, e então, começou a ajeitar a cama de volta a sua posição original. O trio de idosas se entreolhava e ria bem baixo, o que chamou a atenção dele.
— Não tem problema, senhor Abraham. — Uma delas murmurou, tomando a frente. Seus olhos eram esbranquiçados, mas elas pareciam saber exatamente para onde caminhar. — Você deu um jeito, como disse que faria… A jovem Alice pode fazer a arrumação depois, não é? — Então, a garota escamosa, que parecia ser Alice, assentiu com a cabeça, se encolhendo logo depois. Abraham a encarava com olhos penosos, e dessa vez, com a expressão séria.
— Bem… — Bufava, ajeitando sua postura e caminhando em direção a saída. — Já tomei tempo demais aqui. Mais uma vez... Me desculpem a bagunça. — Sorria, e junto disso, as idosas riam novamente, dessa vez, se dispersando, cada uma para uma região do quarto. Abraham se ajoelhou na frente da garota, que desviava o olhar na mesma hora. Ele engoliu em seco e suspirou.
— O que você quer? — A língua dela era presa, então, entender o que a menina dizia podia ser um pouco complicado, mas Abraham sorriu. Colocou a mão novamente em seu sobretudo e retirando outro pedaço de lenço.
— Era de Marie, não? — Alice assentiu. — Sei que pode não acreditar, ou não importar para você, mas sua irmã está em um lugar melhor agora, está bem? Ficar aqui… Ficar aqui era sofrimento para ela. — Os olhos da garota se enchiam d’água, porém ela concordava com a cabeça, fungando com o nariz em seguida, quando ela fazia isso, suas orelhas tremiam. — Alice… — Entregava-lhe o pedaço de lenço. Relutantemente, a garota o pegava. — Guarde-o. Eu não preciso mais dele. Lembre-se do que sua irmã era, não do que ela se tornou, tudo bem? — A garota forçava um sorriso, abraçando o pedaço de lenço em seu tronco, e logo correu até a cama, começando a empurrá-la em direção a parede. Abraham sorriu e assentiu em direção as idosas, se virando e caminhando em direção a saída.
Desceu as escadas com certa rapidez, deixando as mãos nos bolsos de seu sobretudo e se dirigindo ao seu carro. Um carro negro e polido. Não era nada muito refinado para os padrões londrinos, mas o jeito que ele brilhava, demonstrava o carinho que Abraham sentia pelo automóvel. Ele abria a porta do veículo e logo dava de cara com uma mulher de pele cinza. Ela virava a cabeça, abrindo um sorriso branco, além da cor de sua pele, o que mais chamava atenção eram suas orelhas pontiagudas. Uma Elfa. Aquilo imediatamente fazia a sobrancelha de Abraham se erguer. Elfos não eram muito comuns naquela parte da cidade, especialmente em seu carro.
No colo da Elfa, estava uma prancheta com algumas anotações que o humano não conseguiu ler de imediato. Os olhos dela brilhavam em um intenso amarelar, que chamava a atenção, mesmo com o forte sol do lado de fora. Depois do leve susto inicial, Abraham bufou parecia não ser intimidado pela presença da Elfa em seu carro. Revirou os olhos e se sentou no banco do motorista.
— Quem é você? — Ela parecia ser pega de surpresa pela pergunta do homem.
— Essa não me parece ser a reação correta para uma Elfa que esteja sentada no banco do passageiro…
— Se estivesse vindo me atacar, teria sido mais silenciosa, não me esperado desse jeito. Até um idiota sabe que um Elfo é silencioso quando ele quer. — A expressão de surpresa da Elfa, ao poucos, se tornava um sorriso. Ela abria a boca para falar, mas Abraham a cortava: — Além disso, seus olhos estão brilhando em amarelo. Considerando sua pele cinza, você é uma mestiça, o que significa que seus olhos mudam de cor de acordo com seus sentimentos… Se estivesse vindo me matar, eles estariam vermelhos… A não ser que você tenha controle sobre eles. O que pode até ser, mas não estaria sorrindo como uma idiota se esse fosse o caso. — As palavras do homem pareciam sair em uma só respirada, e as sobrancelhas da Elfa se erguiam à medida que suas palavras eram concluídas. — Então, vou perguntar de novo… Quem é você?
— Isso tudo é muito impressionante, Senhor Bates. Mas acredito que tenha deduzido isso tudo graças ao e-mail que você recebeu há uns dias, não é? — A postura séria de Abraham se desfazia e ele abria um sorriso.
— Não subestime minhas habilidades, senhora… Mas, é. Grande parte foi por isso mesmo. — Dava uma risada fraca e assentiu, suspirando em seguida. — Lydia Wright, não é? — Ao perguntar isso, logo dava partida no carro. O veículo começava a andar.
— Isso! Sou sua supervisora por algumas semanas.
— Não sei porque isso é necessário, eu não fiz nada de errado… Fiz?
— Não, Bates, não fez. É procedimento padrão. Todos os detetives Londrinos tem que passar por uma avaliação dessas a cada cinco anos.
— Bom… Podia ter me esperado fora do carro. Me assustou de verdade te ver sentada ai. — Lydia sorria, anotando algumas coisas na prancheta e a escondendo do detetive. Bates vez ou outra olhava para o que ela escrevia com o canto dos olhos. Um tempo passava em um silêncio constrangedor, o detetive piscava algumas vezes, desviando o olhar, abria a boca, mas antes que pudesse falar, a Elfa era mais rápida.
— Como foi com Marie, Bates? — Suspirava, dando de ombros, Abraham não reagiu de imediato, mas por dentro, agradecia por ela ter quebrado o silêncio.
— Um pouco complicado, mas não tanto… Vai contar pro relatório? — O detetive se encolhia ao perguntar do relatório, estranhamente se sentia intimidado na presença dela. Não só por ela ser sua chefe ou por ser uma Elfa, mas por ela ser uma fêmea.
— Tudo que fizer a partir de agora vai contar pro relatório. — Abraham bufava, batendo as costas no banco do carro. A Elfa o olhava com o canto dos olhos. — Mas não se preocupe, não ficarei muito no seu pé.
— Nesse caso, não irei reclamar. — Ele sorria.
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