Branco Sujo

1 Branco Sujo - Oneshot


Notas iniciais
300 palavrinhas de puro drama.

Fizeram-lhe usar um vestido. Falaram-lhe a cor e fizeram que ela a decorasse. Para ela era branco sujo e nada além disso. Uma terrível cor para um vestido tão bonito cheio de fitas e laços.

O espelho refletia sua imagem, uma criança de rosto sujo e feições duras. Aquilo fazia ela lembrar de tanta coisa que chegava a ser irônico o fato de como sua própria imagem lhe trazia tudo aquilo a tona.

Lembrava-se de sua mãe e seu fogão de lenha quente, de seu pai e sua arma na parede e de seu irmão com seus cigarros sem tabaco.

A vida nunca foi fácil para ela, mas aguentava o fardo. “Deus dá somente o que podemos carregar” disse o padre uma vez em uma das missas da vila.

Lembrava-se de tudo.

Mas agora lá estava, sentada em um maldito banco sendo obrigada a usar aquele vestido que a fazia lembrar-se de tantas coisas e sentir falta de outras mais.

Sentia falta do campo, do vento e das pessoas. Ali só havia prédios, coisas artificias e escravos.

Não passavam de pobres almas em busca de rendição, escravos do dinheiro e da hipocrisia de rostos pálidos e brancos, eram robôs feitos para entender e viver na sociedade.

Elas esperavam você cair para, ao invés de falar “vamos cuidar de você “ ter o prazer de falar “ Você mereceu”.

Para ela, eles não eram humanos. Humanos não julgam, não apontam nem riem quando alguém passa. Eles estendem a mão, te ajuda a levantar e principalmente não lhe forçam a fazer coisas, respeitam sua vontade e sua privacidade.

Mas lá estava ela, uma criança de pele grossa, suja e feições rudes esperando seu destino. Uma indigente no meio de tanta gente com seu maldito e cínico vestido marfim ou seria ele pastel?


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