Boys Keep Swinging
1 6 - 7 anos
Notas iniciais
– Mas eu nao quero ir na casa da Fiona! — berrou com todas suas forcas, ela parecia nao ligar.
–Fiona eh filha de uma amiga minha, tudo que precisa fazer eh brincar com ela, eh tao dificil assim? — lavava a louça pacientemente.
– Sim!
– Qual eh o problema com a Fiona de qualquer jeito?
– Ela eh uma garota! — fez cara de nojo, a mae segurou a vontade de rir e tentou fazer cara de reprovaçao.
– Qual eh o problema com garotas?
– Elas sao... Nojentas!
– ...Eu sou uma garota, voce me acha nojenta?
– Nao, voce... Eh mae — ela revirou os olhos.
–Eh so uma fase querido, daqui a pouco passa e voce ira arrepender de
nao ter contato algum com elas — se lamentou mais por ela mesma do que
pelo filho, seu sonho era pegar Paul de mao dadas com alguma menininha
ou entregando-lhe uma flor, e ate, quem sabe, um selinho inocente
ficaria adoravel num desses porta-retratos modernos que lancaram
recentemente. E ela carregava a camera em toda oportunidade, mas a cada
dia que se passava ficava cada vez mais perto de uma utopia. Ele era um
menino tao bonito e tao bom, de onde saira esse comportamento? De casa
nao podia ser pois o pai concordava plenamente com a mae e o irmaozinho
era muito novo para se quer formar uma frase inteira, ele nem tinha
muitos amigos assim e George e John pareciam ser garotinhos tao amaveis
quanto ele. Ela anotou mentalmente que iria pesquisar isso mais a fundo.
– Ainda tenho que ir? — Paul perguntou um pouco nervoso, mas baixo, nao
querendo assustar a mae que olhava fixamente para um ponto divagando.
Ela levantou as sobrancelhas e voltou a atencao ao pequeno.
– Sim —
ele abriu a boca para contestar, mas ela levantou um dedo indicando que
estava saindo do serio — Agora va se arrumar ou eu chamarei seu pai — o
garotinho protestou batendo o pe e fazendo bico, mas acabou indo quando a
mae fez mencao de ir ate a sala onde o pai assistia tv.
Duas horas depois la estava ele sentado no meio do jardim da casa de Fiona, de
bracos cruzados e uma expressao emburrada enquanto o grupo de menininhas
brincava de pular corda nao muito distante dele. Mary estava usando todas suas forcas para nao levantar, arrastar ele pelo braco ate as garotas e obriga-lo a brincar com elas. E ela sabia que logo Mimi chegaria e aih mesmo que ele nem chegaria perto delas, chegou a bater tres vezes na mesinha de madeira a sua frente por ter desejado que John estivesse doente ou se machucasse no caminho.
– Tudo bem, Mary? — Meg, a mae de Fiona, perguntou sentindo a inquietacao da amiga, que nem tirou os olhos de seu filho suspirando.
– Eh o Paul. Ele nao suporta as outras garotas da sua idade — recebeu uma risadinha em resposta e virou para Meg franzindo as sobrancelhas.
– Mas isso eh normal, Fiona tambem faz careta sempre que eu comento sobre os amiguinhos dela.
– Eu sei, mas... — voltou a olhar para Paul, que agora brincava distraidamente com uma bola.
– Olha... Voce sabe que eu e Michael nos conhecemos desde criancas,
certo? — falou se referindo ao seu marido, Mary confirmou com a cabeca -
Sabe qual foi nossa primeira interacao? Ele pegou uma tesoura na aula
de artes e cortou metade da minha trancinha, quando eu virei ele tinha
enfiado dentro de um pote de tinta preta e pintou metade da minha cara
com o meu proprio cabelo — mesmo tentando se segurar, acabou rindo junto
com a amiga. A historia surtiu efeito e Mary se sentia um pouco melhor
com a ideia de ter um filho tao anti-social, afinal ele era tao novo,
isso logo passaria.
Meia hora depois de Mimi chegar com John e escutaram gritos do jardim, todas as maes sairam correndo em direcao da porta de vidro ja que as criancas nao estavam mais a vista e encontraram todas elas reunidas, os garotos e as garotas gritando nas caras uns dos outros e prestes a cairem nos tapas.
– JOHN WINSTON LENNON! — Mimi foi ate seu sobrinho marchando, todos se calaram para encara-la com medo e as maes sentiram certa inveja de sua firmeza — O que esta acontecendo aqui?
– Tia Mimi, elas estouraram a nossa bola — John respondeu, em tom de defesa mas nao se atrevendo a levantar a voz, apontando para o pedaco de borracha jogado num canto.
– Sua bola?? A bola eh minha! E ele tinha colocado o pe na frente da Suzy e fez ela tropecar e machucar o joelho — Fiona exclamou apontando para Paul, ela deveria ser da idade de John ou ate mais velha, os olhares foram para Mary esperando que ela tomasse uma providencia.
– Pauly — ela chamou-o tentando manter a mesma firmeza de Mimi, ele estava atras de John como se protegendo das meninas e olhou para a mae temeroso, ela nao queria perguntar o porque da agressao pois sabia que podia causar mais discordia — Peca desculpas para a Suzy, sim? — o pequeno olhou em volta, depois para John e por fim voltou a mae com rebeldia no olhar.
– Nao, elas estouraram a nossa bola — respondeu no mesmo tom do amigo e segurou sua mao.
– Se voce nao pedir desculpas nos vamos embora e voce nao vera seus
amigos pelo resto da semana, Paul — tentou ser um pouco mais dura, notou
que ele apertou de leve a mao do amigo, eles se entreolharam e num
piscar de olhos os dois se viraram e sairam correndo em direcao da
casinha de madeira que tinha no canto do outro lado do jardim. Mimi
tentou agarrar John, mas falhou miseravelmente e bufou colocando as maos
na cintura virando para Mary.
– Vou eu ou voce? — perguntou a tia indicando a casinha, as outras maes estavam se dispersando e voltando para a sala de estar.
– Nao, deixe eles ficarem quietinhos la na deles, em casa nos
conversamos, que tal? — sugestionou a mae, Mimi suspirou e concordou com
a cabeca, foram se juntar as amigas enquanto o grupo de garotinhas
voltava a brincar como se nada tivesse acontecido.
– Eu nao acredito que voce fez aquilo! — exclamou John rindo e se jogando no chao da casinha, Paul desmontou ao seu lado.
– Eu queria ser tao corajoso quanto voce — falou dando um sorriso orgulhoso.
– Voce conseguiu chegar perto — olhou em volta como se procurando algo e
seu olhar parou num graveto num canto, ele se levantou e correu ate ele,
depois voltou e parou de pe na frente de Paul — Eu declaro voce Paul
Corajoso McCartney — e imitou uma cena de uma historia em quadrinhos do
Pica-pau sobre o Rei Arthur, encostando o graveto varias vezes em cada
ombro do amigo fazendo seu rostinho se iluminar como se fosse a maior
honra de uma crianca.
– Wow. E voce eh John Corajoso Lennon?
– ...Sim, faz em mim — o mais velho entregou o graveto e sentou, o mais
novo se levantou e comecou a fazer a mesma coisa que o outro.
– Sabe o que nos precisamos? De espadas e cavalos!
– E capas! E pistolas! E chapeus grandes com penas!
– Eu vou pedir para a minha mae — Paul ia em direcao da portinha quando John agarrou suas vestes e o fez cair em cima dele.
– Nao! Voce agora eh Paul Corajoso McCartney, voce nao pode mais pedir coisas pra sua mae — recebeu um bico em resposta.
– Mas como eu vou conseguir as coisas que eu quero?
– Ha! Voce tem que fazer.
– Mas para fazer eu preciso pedir papelao e cola pra minha mae.
– Ou... Voce pode pegar sem pedir — os olhos do pequeno se arregalaram.
– Mas isso eh errado!
– Nao, voce so esta pegando o que eh seu — logo seu olhar demonstrava interesse.
– Mas... Eu nao sei onde tem.
– Vamos achar juntos — John ficou de pe e puxou o outro, os dois sairam e
atravessaram o jardim correndo de maos dadas olhando em volta para nao
serem pegos por mae e tia, dando risinhos pela jornada emocionante.
As meninas brincavam de cabra-cega por isso foi facil evita-las, em pouco
tempo davam a volta na casa e alcancavam a outra entrada pela varanda,
John conduzindo o tempo inteiro eh claro ja que assim que chegou ja deu
uma boa vasculhada no local. Dentro da casa caminhavam pelos corredores e
quartos procurando pelo material necessario para suas fantasias, se
escondendo debaixo de mesas e camas toda vez que escutavam o barulho
alto dos saltos das maes contra o piso de madeira polida, e depois de
muito procurarem chegaram a um escritorio de arte. E la fizeram a festa
com todo papel, caixa de papelao, tesoura, cola, lapis de cor que
encontravam encenando Os Dois Mosqueteiros, combatendo dragoes e bruxas e
monstros de todos os tipos. Quando finalmente o fogo apagou e a bagunca
no escritorio era imensa, se jogaram numa poltrona para admirar seus
feitos.
– Se for pra fazer isso toda vez que eu for pra casa de uma
garota, eu acho que nao tem problema — suspirou Paul entrelacando seus
dedos com os de John e virando sua cabeca para encara-lo feliz e suado, o
outro igualmente.
– Tia Mimi falou que um dia eu vou querer sair por aih e beijar garotas — torceu o nariz.
– Beijar? Eca, por que beijar?
– Ela disse que eh assim que voce demonstra que voce gosta de alguem.
– E voce gosta de garotas?
– Claro que nao! Eu... Gosto de voce — recebeu um sorrisinho surpreso.
– Eu tambem gosto de voce. Isso significa que a gente tem que beijar? — a
ideia incomodava o mais novo um pouco, mas ja que era com John talvez
nao tivesse problema.
– Acho que sim.
– Ok. Voce ja beijou alguem?
– Nao, mas eu ja vi uma vez numa revista. Eh mais ou menos assim — John
soltou a mao que segurava e colocou suas duas maos cada uma em um lado
do rosto de Paul, lambeu os labios e inclinou sua propria cabeca
encostando-os nos do pequeno, ficaram assim por um tempo ate que nao
pareceu mais tao estranho, a respiracao do outro fazia cocegas, mas alem
disso nao era nada de mais.
Entao um estalo e a porta do escritorio abria enquanto uma Mary em panico apertava os olhos em procura do filho, e quando seu olhar parou na poltrona seu coracao escapou uma batida. Seu Paulie, uma criaturinha meiga e inocente, beijava o seu amiguinho DO SEXO MASCULINO bem no lugar proibido. E Paul nao era exatamente quem conduzia aquele ato pecaminoso, John segurava o seu rosto e ELE o beijava, era quase um estupro. Sem nem pensar duas vezes, debaixo dos olhares assustados e confusos do garotos, agarrou o pulso do filho e saiu arrastando-o ate alcancar a porta da entrada debaixo de protestos,
tentando ignora-los e botar toda a culpa em John que com certeza tinha
mais consciencia do que fazia. Ah ela teria uma boa conversa com Mimi sobre o que ela andava ensinando ao sobrinho, e eles nunca mais ficariam no
mesmo comodo.
– Dois garotos se beijando, Meggie! Isso eh... Errado! — Mary estava aos prantos enquanto Paul sentava quieto num banco na frente da casa de Meg, que tentava acalmar a amiga.
– Mary, eles sao so criancas, eles nao sabem direito o que estao fazendo! — quando a outra finalmente se calou, suspirou e deu um sorriso reconfortante —
Pelo que devem entender, isso eh so uma demonstracao de afeto e carinho
pelo outro...
– Mas eh errado! Alguem tem que explicar para eles que ele nao podem sair por aih beijando quem eles bem entenderem.
– Nao eh quem eles bem entenderem, eles sao melhores amigos. Qual eh o problema realmente?
– Sao dois garotos, pelo amor de deus!
– Dois garotos que tem amor um pelo outro, nao se importam em
compartilhar uma coisa que eles vem os adultos fazerem quando se amam,
voce deveria se orgulhar dele por ter sentimentos tao bonitos, nao dar
bronca e fazer ele se sentir envergonhado e ate traumatiza-lo para
relacoes futuras — suas palavras talvez nao valeriam nada se o seu
marido nao fosse o maior psicologo da cidade, e Mary engoliu a seco ao
perceber como a outra estava certa. Ela havia realmente pegado pesado,
mas Meg tinha que entender que ela entrou em panico, nao estava
acostumada a esse tipo de coisa, tinha sido criada num ambiente
diferente, mas uma coisa que ela odiava se sentir era irracional.
– Eu... Me desculpe, voce esta certa, eh que...
– Eu entendo, mesmo.
– O que eu faco? — olhou para Paulie que tinha os dois bracos entre as pernas e uma expressao triste e inconformada.
– Converse com ele, mas pense no que eu falei. Mesmo que ele seja novinho e nao saiba o que faz, eh agora que se marcam as primeiras impressoes da vida adulta. Diga que... Amar eh bom e nao tem problema algum, mas que ele eh muito novo e deveria deixar essas coisas para quando ele aprender mais sobre a vida — Mary tinha muito orgulho de ter Meg como amiga naquele momento, sorriu ainda envergonhada e se despediu com um beijo no rosto.
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