Boycott Luv

5 Críticas


Cozinhando com Roger Bourloque era a mais nova sensação do canal de culinária. E estava fazendo sucesso, pois todos achavam que aqueles pratos maravilhosos que apareciam na TV eram realmente feitos por ele. Ninguém desconfiava que por trás das câmeras, quem realmente cozinhava era Amy Dior, um renomado cozinheiro — sim, Amy é um homem — e amigo meu. O que sobrava para nós, a equipe do “Alecrim” era apenas chorar de rir com toda aquela pompa e gabação, tão desajeitada quanto um ganso tentando dançar balé.


-------------------


E aquela era uma noite de sábado, restaurante cheio, garçons andando pra lá e para cá, atendendo eficientemente os clientes e nós da cozinha correndo como doidos para os pratos saírem na mais perfeita ordem. Não tinha folga. Eu mexia alguma coisa no fogão, no freezer, temperava aqui, cortava de lá, soltava ordens aqui e ali. A cozinha do Alecrim é aberta, então todos que estão comendo lá, podem ter uma visão privilegiada de cada movimento nosso.

E bem, para minha surpresa, Kyle apareceu lá, com aquele amigo estranho que eu nem lembro mais o nome e o Elliot. Vieram jantar depois da volta da faculdade. O amigo estranho em questão também se demonstrou um terrível enjoado, que fez questão de reclamar desde o formato dos talheres, aos lenços caprichosos que os garçons usavam. Aposto que também reclamaria aos deuses da comida.

Mas, quem importa? Eu estava feliz que o Kyle estava por lá, e esse sim, adorava a minha comida. Por exemplo, quantas tardes de domingo passamos na cozinha, eu preparando os pratos mais diferentes e exóticos o possível e ele comendo e elogiando cada mínima coisinha? Acho que pelo menos eu dei sorte nisso, pois Kyle come de tudo, e não é resistente a pratos diferentes. Então, eu tenho uma ótima cobaia para treinar meus dotes culinários.

Estava tudo em sua santa normalidade, eu aproveitando para espiar de vez em quando o Kyle lá na mesa dele, quando Tifa desce exasperada do escritório, parecendo que teria uma cria. Seus olhos estavam esbugalhados e a respiração ofegante.

— Elman Rocker está vindo. — disse ela assim que conseguiu falar alguma coisa.

Foi durante um segundo que todos os presentes na cozinha simplesmente pararam de fazer o que estavam fazendo e olharam para a chefa. Uma cena até cômica, que chamou a atenção de alguns clientes. E de repente, como em um estouro, logo depois do tempo que precisamos para entender a gravidade de nossa situação, começamos todos a correr que nem bestas desembestadas pela cozinha, desempenhando suas funções o mais eficientemente possível, para soltar seus pratos da melhor forma possível, e o mais rápido possível.

Deixem-me explicar. Elman Rocker é um famoso crítico culinário, que por pouco não arruína o Alecrim depois de uma crítica devastadora. Foi na época que eu estava procurando um emprego. O restaurante estava às moscas, prestes a falir. Eu fui a última esperança de Tifa ao ser contratado, e consegui milagrosamente alavancar o restaurante de volta à ativa.

Agora, essa pessoa de caráter desumano havia voltado, para infernizar a vida da pobre chefa. Eu ainda tenho uma leve suspeita de que ela ainda tem pesadelos, onde ele corre atrás dela em uma perseguição maluca com um facão de carne em uma mão e uma concha em outra.

E, imponente como um gavião decolando aos céus, o homem entrou no restaurante, atraindo muitos olhares alheios. Antes mesmo que um garçom pudesse o levar para alguma mesa, ele negou a guia, dizendo que havia pessoas o esperando ali. Perguntei-me quem raios teria coragem de jantar com esse indivíduo.

E para minha surpresa, ele se sussurrou quem procurava ao garçom, e esse o guiou para a mesa onde Kyle estava sentado. Logo depois, o mesmo garçom chega ao balcão que separa a cozinha do resto do restaurante, alegando que Rocker gostaria de falar com o chef, ou seja, comigo.

Engoli em seco, e me aproximei da mesa. Porém, ao contrário do que pareça, mantive uma postura firme. Já ouvi falar que chefs já desmaiaram só com o olhar devastador desse crítico.

— Boa noite. Em que posso servi-los? — perguntei educadamente, lançando meu melhor sorriso creme-dental para o homem.

— É bem provável que você não saiba, mas esse é meu filho — e apontou para o amigo estranho do Kyle. Bem que eu desconfiava da figura! — viemos aqui, por opção dele e de seus amigos, saborear sua comida. Por favor, nos traga o seu melhor.

— Sim senhor. Faremos nosso melhor e além. — respondi, dando assim as costas e deixando-os nas mãos dos garçons.

Agora, o máximo que eu podia fazer para não ser morto por uma chefa psicopata, era o melhor: Cozinhar. Soltei vários pratos diferentes. E não houve um momento em que o amigo esquisito cujo qual eu não lembro o nome não reclamou da comida. Acho que ninguém nunca havia amaldiçoado tanto o meu salmão com molho de maracujá a não ser o Bourloque.

A coluna de Elman Rock sairia na semana que vem, e com isso, eu perderia o emprego. Já contava com isso.


Estava mais frio do que nunca, e pela primeira vez eu não estava feliz com aquilo. Pelo contrário. Eu ainda estava esparramado pelo sofá, ainda de jaleco e cheirando a gordura e carne, quando Kyle se sentou ao meu lado, e encostou a cabeça em meu ombro.

— Você está bem? — perguntou, afagando meu cabelo.

— Mais ou menos... — respondi. Nunca ouvi minha voz tão frustrada desde que pirulitos de três sabores haviam saído de linha — Acho que vou ter que exercer minha função pra qual fui formado, porque, meu filme como cozinheiro foi para o saco.

— Não diga isso. O Edgard não gostou da comida, mas eu não vi o Sr. Rocker falar de nada... Além do mais, estava tudo muito bom. Você não vai perder o emprego. Se perder, eu saio rodando a baiana naquele jornal!

Não pude deixar de rir com Kyle nesse momento. Por mais besta que ele seja, é a única pessoa que consegue me deixar melhor em momentos assim. Isso, eu tenho que admitir.


E a crítica no jornal saiu assim:

“Ontem, em minha visita ao Alecrim, eu me senti como um herói da pátria. Imagino que se eu nunca tivesse enviado aquela crítica anterior, eles nunca teriam achado alguém como aquele Chef de cozinha que está lá. Em toda a minha vida de crítico, nunca imaginei que alguém pudesse comer uma comida preparada com tanto zelo, tão deliciosa e preparada com tanto carinho quanto aquela que eu comia quando era criança, na fazenda de meus pais. Um restaurante que com toda a certeza do mundo eu aprovo.”


Chupa essa, amigo esquisito do Kyle. E Bourloque também.


Notas finais
Mesma coisa que eu disse no cap. passado sobre os reviews -n
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.