Bourbon Street
9 Capítulo Nove - Posso entrar?
Notas iniciais
Três dias.
Esse era o tempo que eu havia ficado sem ver o Nicholas. Não era porque eu não queria e, sim, porque não podia. O fato de eu ter voltado a trabalhar atrapalhou muito a minha vida social — se é que eu tinha alguma — e me impediu de fazer muitas coisas. Também teve o caso da minha separação, onde eu tive que assinar uma papelada e me deu uma dor de cabeça enorme.
Naquele dia eu cheguei à minha casa bastante cansado, porém ainda era cedo e, mesmo estando com sono, permiti-me a sair um pouco. Eu precisava relaxar, beber, e talvez transar com alguém.
Caminhei pelas ruas escuras da cidade até encontrar a delegacia de polícia em que já estava acostumado frequentar.
— Oi Enzo — Amélia me cumprimentou assim que pus os pés no local — O Sr. Phillips está na sala de depoimentos — apontou para o fim do corredor.
— Acha que ele ficaria incomodado se eu o esperasse em sua sala? — a garota sorriu e balançou a cabeça em negação — Obrigado — disse ao caminhar até a porta de vidro.
Joguei-me no sofá de couro sem me preocupar com nada, afinal, Nick não se importaria com aquilo. Pelo ao menos era o que eu esperava.
A minha única preocupação durante os dias em que passei longe era o fato dele estar decidido a encontrar respostas sobre o tráfico na boate gay, onde, já sabíamos, tinha homens esperando a hora certa para agir. Porém, ele era treinado, adulto e sabia do que estava fazendo, então porque não deixá-lo livre? Além de que eu não tinha nenhuma autoridade sobre ele.
A porta se abriu bruscamente, mostrando Nicholas na sua forma máscula e impositora. Sua expressão demonstrava pura raiva e impaciência e, assim que pousou os olhos em mim, pareceu ficar ainda mais vermelho.
— O que... você... está... fazendo... aqui? — indagou palavra por palavra e eu rapidamente me ajeitei no sofá.
— Estava te esperando — respondi.
Suas mãos se fecharam em punho à medida que ele se dirigia até sua poltrona. Assim que se sentou, voltou a me encarar com aquele olhar viperino, que fazia arder todo o meu interior.
— Sai daqui — rosnou entre dentes — Agora — praticamente gritou.
— Hey, Nick, o que está acontecen...?
— Sai daqui agora, Carter — gritou enraivecido, mas eu não mexi nenhum músculo sequer.
— Não — me impus — Qual o seu problema?
— O meu problema? — ele se levantou rapidamente e andou até mim — Você some por três dias e quando volta já quer se impor diante a mim? — soltou um sorriso sarcástico — Vá se foder.
— Espera aí — falei em um tom mais baixo — Está nervoso porque não vim te ver?
Se realmente fosse aquilo, eu ficaria bastante feliz, o que não era nada bacana diante da cena que se passava.
— Eu estou nervoso porque tenho problemas e um deles é você — colocou o indicador no meu peito e aproximou seu rosto do meu, como uma forma de me desafiar — Você é o mais insuportável de todos os meus problemas, Enzo Carter — afastou-se olhando irritadiço para o teto.
Eu não sabia o que falar, afinal, eu realmente não sabia o que eu havia feito de tão errado. Portanto, a única coisa que eu podia fazer era esperar.
Nicholas se sentou novamente, levando suas mãos até o rosto e massageando suas têmporas, como se pensasse no que fazer.
— Nick... — sussurrei ao me ajoelhar na sua frente — Foram apenas três dias, não há porque ficar irritado.
— Com quantos homens você transou? — indagou de repente e eu me afastei, levemente assustado com a pergunta.
Desde que ele havia entrado naquela sala eu havia sido paciente, mas acabou, eu não continuaria sendo bonzinho.
— Como é? — me levantei — Você acha que eu sou o que? Uma prostituta?
— E não é? — cerrou os olhos de forma sarcástica.
— Vá se foder, Nicholas — deixei que a raiva percorresse minhas veias e me dominasse — Diferente do que você acha, eu não transo com todos que vejo pela frente.
— Claro, você os vê por trás — ele se levantou abruptamente.
Não sei por quanto tempo ficamos nos encarando, completamente enraivecidos. Meu corpo tremia de raiva e a tensão entre nós poderia ser apalpada. Minhas mãos estavam fechadas em punho, assim como as de Nicholas.
— Vá se foder — rosnei estridente e, antes que eu pudesse enfiar um soco naquele rostinho desenhado, virei-me e saí da sala.
Nicholas não me impediu, na verdade, eu estava bem nervoso para escutar o que acontecia a minha volta. Tudo que eu queria naquele momento era gritar de indignação, mas eu me controlava. Sempre fui bom no autocontrole, pena que estava perdendo essa capacidade.
— Enzo, está tudo bem? — Amélia perguntou educadamente ao me ver passar.
— Sim, obrigado — respondi irritadiço.
Sem sequer olhar para trás, saí daquela delegacia e comecei a caminhar pelas ruas na direção da minha casa. Com certeza aquele seria o pior dia da minha vida. Ou não, sempre pode piorar.
xXx
Eu tinha razão, sempre pode piorar.
Agarrei uma boxer branca dentro de uma das gavetas e a vesti, aproveitando para enxugar meu cabelo com a toalha.
Voltei à sala e me joguei no sofá, afundando-me no mesmo.
Respirei fundo, tentando pensar direito. Eu não sabia direito o que estava sentindo por Nick, mas sabia que estava ferrado, porque simplesmente não conseguia parar de pensar no assunto.
O barulho da campainha me fez assustar e eu acabei pulando de onde estava. Com certeza eu não estava esperando visitas e se fosse Jeane, eu a colocaria para fora novamente. Nós não tínhamos mais nada para conversar.
Levantei-me e sem prestar atenção em como estava vestido, caminhei até a porta e a abri.
Parado divinamente sob a luz da lua, Nick mantinha seu olhar no chão. Estava vestido com a mesma jaqueta de couro e transpirava masculinidade.
— Posso entrar? — levantou o rosto alguns centímetros.
Respirei fundo, pensando que eu seria um idiota se o deixasse entrar. Portanto, empurrei a porta, deixando o caminho livre para ele, que caminhou suavemente para dentro da casa.
Voltei a me jogar no sofá, sem olhar diretamente para ele, que se manteve parado à soleira da porta.
— O que aconteceu? — fui frio.
— Minha mulher me expulsou de casa — resmungou chateado e eu o olhei.
— E porque ela fez isso? — fingi não dar importância — Cansou da sua bipolaridade?
— Ela acha que eu estou traindo-a — informou ao se jogar tranquilamente em um dos sofás, como se estivesse em casa.
— E não está? — cerrei os olhos — Pelo que eu saiba foi apenas uma vez... — murmurei aos sussurros, lembrando-me da nossa primeira vez — Deve ter mais, não é? — revirei os olhos.
— Foi apenas uma vez — fora firme — Com você.
— Hm...
Acho que fiquei feliz de saber que ele ficara apenas comigo, além da mulher, claro. Porém, logo veio a minha mente que eu era a “amante” dele e, logo, tudo desmoronou.
— Desculpe-me — falou de repente.
— Pelo o que? — nem ousei encará-lo.
— Por hoje — resmungou — Eu fui um completo babaca, mas é que eu tinha acabado de ter um problema com um dos acusados de roubo e, para completar, minha mulher me ligou e começou a gritar comigo. Eu fiquei ensandecido de raiva... — suspirou pesadamente — Acabei descontando tudo em você, desculpe-me... por... por... por te chamar de prostituta.
— Está tudo bem — me levantei — Porque pior do que ser prostituta, é ser cliente dela.
Ao chegar ao fim do corredor, olhei para trás.
— Fique à vontade, pode dormir aí se quiser.
Caminhei até meu quarto e me joguei na cama, puxando os cobertores para cima. Fazia frio e eu não queria acordar pela madrugada tremendo como um louco.
Vários minutos se passaram, os quais, tentei dormir, mas o pensamento e a lembrança de que Nick estava bem ao meu lado estavam me atormentando.
Meus olhos já estavam quase se fechando quando ouvi um barulho não muito longe. A porta do quarto se abriu e, em menos de um minuto, eu já podia sentir a cama se mexendo.
Nick deitou ao meu lado e meu coração parecia que estava dançando rap dentro do meu peito. Suas mãos envolveram minha cintura e me puxaram para mais perto. Senti seu membro roçar em mim e acabei percebendo que — para meu desespero — ele estava vestindo apenas a cueca.
Continuei fingindo que estava dormindo, mesmo ao sentir sua respiração quente na minha nuca. Ele não parava de se mexer, talvez, tentando arranjar uma posição confortável.
— Fica quieto, Nicholas — pedi depois de algum tempo e rapidamente ele obedeceu.
Eu estava me sentindo incrivelmente bem abraçado a ele. Seu perfume invadia meus pulmões e sua respiração quente me acalmava.
Novamente Nicholas começou a se mexer e, em um movimento rápido, virei-me de frente para ele, empurrando-o para a parede e mantendo-o preso entre mim e a mesma.
Seus olhos se encontraram com os meus e eu tive a confirmação de que estávamos bem. Sem sequer falar algo, Nick agarrou minha cintura com as mãos e afundou o rosto no meu pescoço, moldando seu corpo ao meu. Puxei os cobertores e nos cobri direito antes de envolvê-lo com meus braços.
O meu único medo era acordar pela manhã e não vê-lo novamente.
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