Bourbon Street
34 Capítulo Extra - Se é o medo que te move, não se mova
Notas iniciais
[Nicholas]
Era tarde da noite e as ruas estavam silenciosas, não passava sequer um carro, não se ouvia nem mesmo o barulho dos morcegos.
Excelente escolha de casa, pensei ao me deitar de qualquer jeito no sofá pequeno da sala. Revirei os olhos e suspirei ao me deparar com tamanha ironia da minha parte. Detestava tudo naquela casa, desde a localização até os móveis e o cheiro.
Não possuí muito depois de me separar de Denise, minha primeira e única esposa. A verdade é que não desejei possuir muita coisa depois de perder Enzo para um dos meus ex-namorados. Sentia-me cansado só de pensar no que passei por ele, mas não deixava de me lembrar há todo momento que a culpa era inteiramente minha.
A casa era pequena — possuía apenas quatro cômodos, entre eles um quarto, um banheiro, uma sala e uma cozinha —, mal pintada e o sofá não era confortável.
Ultimamente nada me animava, nem mesmo sexo.
— Nicholas?
Danny apareceu à beirada do corredor vestindo apenas uma cueca, possuía o cabelo desarrumado e olhos cansados.
— Achei que estivesse dormindo — murmurei, abrindo espaço para que ele se encaixasse no sofá, mas ele não se aproximou.
Seus olhos castanhos claros continuavam fixos nos meus, procurando respostas para perguntas há muito tempo questionadas. Respirei fundo e estendi a mão na sua direção.
— Quer que eu te faça dormir?
Danny sacudiu a cabeça em negação e voltou até o quarto, fechando a porta com força.
Eu me importava com Danny, apesar dele pensar o contrário, mas se eu não havia contado nem ao Enzo — quem eu realmente amei — os meus mais profundos segredos, não seria para ele que eu contaria.
Bufando, levantei-me e segui até o quarto, encontrando o corpo muito branco do rapaz deitado sobre a cama, os cabelos loiros compridos esparramados no travesseiro. Seus olhos se abriram assim que acendi a luz, parecia surpreso.
— Quer conversar? — Trocava o peso do corpo de um pé a outro — Posso dormir no sofá se você quiser espaço.
— Você querendo conversar, Nicholas? Pode esquecer — virou-se de lado, escondendo-se debaixo das cobertas.
— Sou um pouco reservado, só isso.
— Sei.
— Nos conhecemos faz pouco tempo, Danny. Você entende isso?
O rapaz ruminou de debaixo das cobertas e eu tomei aquilo como um não. Não estava a fim de conversar, por isso, desliguei a luz e fechei a porta ao sair, voltando a me jogar de qualquer jeito no sofá.
Acabava por me sentir um pouco cansado quando precisava lidar com situações como aquela. Danny era um cara legal, o único defeito é que queria saber demais. Não estávamos juntos há muito tempo e só o que eu ouvia era cobranças sobre meus ex-namorados ou ex-esposa.
Estava quase adormecendo no sofá quando meu celular tocou, caído sob as almofadas. Tomei um susto ao ver quem era.
— Enzo? — Sentei-me rapidamente, ansioso.
— Ei, Nick — falava baixinho — Eu só queria agradecer por ter me devolvido o cordão.
— Ah, claro, não se preocupe, docinho.
— Nick, espera — exclamou ao perceber que eu desligaria a chamada a qualquer momento — Eu queria que soubesse que foi importante para mim perceber que você se lembrou do meu aniversário.
Sorri.
— Tudo bem, Carter.
— E... eu queria que soubesse que não sinto rancor de você.
— Você deveria, docinho, já que quase se matou por minha causa.
— Você foi bom para mim depois...
— Eu não sei amar, Carter, essa é a verdade. Quando vejo que os sentimentos dos outros são intensos, me perco nos meus próprios e no dos outros, acabo sem saber o que fazer e, com isso, falo besteira, como as que falei para você. Odeio me sentir pressionado e... foi o que aconteceu. Só não vou dizer que sinto muito por que sei que está feliz com o Rafael.
— O-o que você disse sobre...?
— Não, Enzo, não vamos falar disso, está bem? Já é tarde, passaram-se muitos anos, acabou.
— Tudo bem, Nick.
— Boa noite, Carter.
— Imagino que o Danny esteja esperando...
— Na verdade, ele está dormindo.
— Boa noite, Nick.
— O Rafael está dormindo?
— Não, está me esperando.
Suspirei.
— Claro que está. Boa noite, Carter.
— Boa noite.
Assim que a chamada se encerrou, me senti diferente, quando como se para de ouvir um barulho que há muito tempo se fazia presente, era como estar sozinho sem realmente estar sozinho. Não me sentia assim há muito tempo.
Recostei-me no sofá e só acordei no outro dia, quando a luz do sol ultrapassou as janelas e as cortinas abertas e alcançaram meus olhos.
— Bom dia — uma voz animada vinha da cozinha.
— Bom dia, docinho.
Ouvi passos lentos e abri os olhos, dando de cara com Danny.
— O que você disse?
— Hã... Bom dia?
— Bom dia, docinho? — Parecia uma cobra prestes a dar o bote.
— Hã... acho que sim.
— Você nunca me chamou assim.
— Hã... não sei o que deu em mim — levantei rapidamente, correndo para o banheiro — Preciso de um banho. Já volto.
Precisava me afastar se quisesse pensar com clareza, mas naquela manhã não foi possível.
— Você chamava o seu ex de docinho — Danny vinha andando na minha direção.
— Como é?
— Não se faz de bobo. Andou conversando com ele? Sonhando com ele?
— O que você quer de mim, Danny?
— A verdade, Nicholas.
— A verdade é que eu estou com você, não precisa se preocupar.
Danny revirou os olhos e, jogando o cabelo para o lado, deu meia volta e andou até a cozinha, pisando com força.
— O que mais você quer de mim? — Voltei para a sala totalmente nu — Eu disse a verdade.
— Você não entende mesmo, não é?
— Não — exclamei — Não entendo, por isso preciso que me explique.
Danny fechou as mãos em punho, os dentes cerrados.
— Ele é uma ameaça para o nosso relacionamento, só você não percebe isso. Continua o tratando como um amigo, quando na verdade ele é só o seu ex, o mesmo ex que te deixou para ficar com o seu ex-namorado, e mesmo assim você continua correndo atrás dele.
— Ele é só um ex, Daniel. Só isso. Eu não corro atrás dele.
— Leonard viu vocês juntos ontem.
— Como é? — A raiva pareceu se tornar parte de mim naquele instante — Leonard não viu nada, e sabe porquê? Porque nós não estávamos juntos. O Leonard deveria tomar conta da vida dele.
Meu celular começou a tocar e eu olhei para o sofá, que era onde ele estava.
— Atende, vai ver é o seu amante.
Rosnei de raiva, mas caminhei até o telefone. Era Denise.
— O que foi?
— Eu que pergunto. Porque está estressado? Brigou com o namoradinho?
— Não, Denise. O que você quer?
— Quero saber que horas você vem buscar o Vinicius.
Parei por um instante, perguntando-me que dia era hoje.
— Hã...
— Você se esqueceu do seu filho de novo, não é?
— Não, não, não... é que eu... eu ainda não...
— Esquece, Nicholas, eu já sabia...
— Denise, não... — Mas ela já havia desligado a chamada — Droga — joguei o celular no sofá com força, o que fez com que ele fosse lançado para cima e caísse no chão com a tela para baixo.
Levei as mãos ao rosto, procurando me acalmar, mas só a respiração de Daniel ao meu lado me deixava irritado.
— Sabe, Daniel... Desde que nos conhecemos você quer mandar no que eu faço, com quem eu faço e quando eu faço, e quer saber? Eu quero que você vá se foder, eu não sou sua mulherzinha, não sou obrigado a continuar com você, então sai da minha vida, sai da minha casa e nunca mais apareça na minha frente.
— É isso que você quer?
— É exatamente isso que eu quero, dá o fora daqui.
— Tudo bem — sorria com malícia — Quero ver se você vai encontrar alguém que te coma como eu comi.
— Sai daqui — gritei tão alto que até mesmo eu me assustei — Sai daqui antes que eu te mate.
— Como fez com o Enzo?
Parti para cima dele, mas ele correu para o lado contrário.
— Não vou pedir outra vez. Vou tomar meu banho e quando eu sair, não quero ver nada seu aqui, muito menos você.
Enquanto me banhava, ouvindo os barulhos de Daniel do lado de fora do banheiro, pensava no Enzo e em como minha vida teria sido diferente se estivéssemos ficado juntos. Acontece que a culpa era minha, eu havia falado demais quando deveria ter ficado calado, eu que sempre dizia o que queria e o que não queria quando me sentia abandonado.
Ao sair do banheiro, Daniel não estava mais em casa, o que me deixou um pouco mais aliviado. Ainda nu e molhado, andei até o celular e disquei o número do Enzo, sem perceber imediatamente na tela quebrada.
— Ei, Enzo, eu queria que você...
— Oi Nicholas — não era o Enzo.
— Rafael... — Suspirei — Oi.
— O que você quer com o Enzo mesmo?
— Nada.
— Me pareceu que você queria algo.
— Não... e-eu... não é nada, me desculpa.
— Fiquei sabendo que veio atrás dele ontem, e eu queria que você soubesse que eu não gostei. Eu quero que você fique longe, entendeu?
— Quem é você para me pedir isso?
— Sou o marido dele, quem cuidou dele quando ele mais precisou, diferente de você.
Suspirei, não deixava de ser mentira.
— Tanto faz.
Não queria mais escutar desaforo, por isso desliguei antes que ele pudesse continuar. A verdade é que minha manhã mal havia começado e já estava uma merda. Deitei-me no sofá e continuei a olhar para o teto sem emitir qualquer comportamento, só podia pensar no quanto eu havia transformado a minha vida em algo ruim. Havia criado a minha própria tempestade, mas não queria lidar com ela.
Soltei o ar pesadamente, pensando em como queria simplesmente sumir, e em como todo mundo parecia querer o mesmo. Então meu celular tocou novamente, era Amélia. Deixei cair na secretária eletrônica, não estava mais com paciência para nada.
— Ei, Nick. Eu só queria saber se ainda vamos assistir aquele film...?
— Ei — peguei o celular — Tudo bem?
— Achei que não estivesse perto do celular — ela parecia animada.
— Eu estava tomando banho. Hã... Nós marcamos hoje, certo?
— Amanhã às 19 horas.
— Você está ocupada hoje?
— Não que eu saiba, porquê? Você está bem? Está diferente...
— Então porque não saímos hoje?
— Não vai fazer mal.
— Posso te buscar as 18?
— Claro.
— Ótimo, te vejo mais tarde.
Se existe algo no mundo que eu mais odeie é estar sozinho. A solidão me amedronta mais do que qualquer coisa, obrigando-me a fazer coisas terríveis, como dizer coisas absurdas para quem realmente amo ou não dizer nada, ou até mesmo me envolver com pessoas que eu nunca pensei em me envolver.
Dizem por aí que é melhor estar sozinho do que mal acompanhado, mas não funciona para mim, prefiro estar bem acompanhado, mas quando realmente não dá, até a má companhia se faz boa.
Dizem por aí que é falta de amor-próprio, já eu... eu acho que é excesso de amor-próprio, porque se soubessem o que sinto e penso quando estou sozinho, não sairiam mais de perto.
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