Bourbon Street

16 Capítulo Dezesseis - Percepções


Notas iniciais
Espero que gostem :3

Acordei feliz, sentindo um sorriso idiota brincar em meus lábios e uma animação há muito tempo não sentida.

Olhei para o lado e me deparei com a cena mais bela que podia presenciar. Finalmente Nicholas Phillips estava deitado ao meu lado durante a manhã.

Soltei um sorriso mais idiota do que o normal, mas antes que pudesse passar o dia parado, apenas observando-o, levantei-me e andei até o banheiro.

Depois de tomar um longo banho quente, vesti minha boxer e encarei meu reflexo no espelho. Aquele cabelo estava me incomodando mais do que tudo. Portanto, decidi que iria sair e cortá-lo antes mesmo que Nick acordasse.

Vestindo uma roupa qualquer e dando uma última olhada em Nicholas, saí de casa.

A rua estava mais do que cheia, o que me incomodou um pouco.

— Bom dia — cumprimentei o barbeiro assim que adentrei o local.

Havia alguns homens fazendo a barba e cortando o cabelo e, quando seus olhos me encontraram, eles apenas contorceram a feição em puro nojo e voltaram a olhar para frente.

Suspirei pesadamente, tentando guardar minhas emoções presas dentro de mim. Eu precisava ser confiante para passar o mesmo exemplo para Nick.

— Bom dia, Enzo — o homem moreno sorriu — O que vamos fazer hoje? — indicou uma cadeira.

— Preciso cortar o cabelo, Eric — joguei-me no assento.

— Como sempre?

— Claro — suspirei.

Eric era um amigo de longa data e sempre foi muito gentil. Não era novidade para ele o fato de eu ser gay.

— Você está bem? — assim que terminou seu trabalho, apoiou as mãos nos meus ombros e me encarou pelo espelho.

— Certamente — era verdade.

— Fico feliz — ele girou a cadeira, colocando-nos de frente. Ele sorria — Até mais, então.

Levantei-me, já assentindo, e entreguei o dinheiro para ele antes de me afastar rapidamente.

Confesso que andar na rua estava mais desconfortável que o normal, mas aquilo não me desanimou.

Puxei a porta de casa e adentrei o espaço quente e confortável. Antes de entrar no quarto, respirei fundo, tentando me recompor.

Nick estava sentado na beirada da cama com as mãos tapando o rosto e os ombros um pouco tensos.

— Oi — sorri.

Ele ergueu o olhar e eu pude ver que suas mãos tremiam.

— Nunca mais faça isso — suspirou com a voz falha.

— O quê? — não entendi.

— Nunca mais me deixe acordar sozinho.

Eu ri baixinho e andei até ele, ajoelhando à sua frente.

— Você se deixou cativar por mim, docinho?

— Cala a boca — segurou minha mão que acariciava seu queixo — E você está... lindo — sorriu.

— Acordou nervoso porque eu não estava aqui? — ignorei sua afirmação.

Ele suspirou pesadamente e ainda segurando minha mão com força, abaixou o olhar para o chão.

— Apenas preocupado — longa pausa — Tive medo de sair para te encontrar e acabar te vendo estatelado no chão de alguma avenida.

Sorri um sorriso melancólico e o puxei para um beijo. Mal toquei seus lábios e já me afastava.

— Não sou um suicida, Nicholas. Não se preocupe, se eu morrer não será por escolha minha.

Ele abriu a boca para responder, mas o barulho do despertador fez com que nós dois esquecêssemos o assunto. Ele sorriu com a distração.

— Desculpe-me, tomei a intimidade de mexer no seu despertador.

— Não ligo — sorri, puxando seu lábio inferior com os dedos — Quer dizer que vai trabalhar hoje?

Ele assentiu, já se levantando. Fiz o mesmo. Ele pegou o despertador e o desligou.

— Infelizmente.

— Achei que gostasse do seu trabalho — sussurrei um pouco desanimado, pois já sabia o que veria a seguir.

— E gosto, mas hoje vai ser um dia difícil — ele procurava alguma roupa que servisse nele em uma das gavetas — Para nós dois.

Sentei-me na beirada da cama e deixei que meu rosto pendesse entre minhas mãos.

— E eu estou esperando você dizer que vai até a delegacia me ajudar a suportar tudo isso.

Ergui o olhar e o encarei um pouco tenso.

— Pensei que iria querer distância de mim enquanto estivéssemos em público.

Ele riu sarcástico.

— Eu quero você ao meu lado, docinho.

Sorri.

Ao encerrarmos o assunto, Nick se moveu até o banheiro, afinal, como ele havia dito há muito tempo, seu banho matinal era sagrado.

Eu já tinha me arrumado, pois teria que procurar outro emprego e, estava sentado no sofá da sala, esperando que Nick aparecesse.

— Hey, posso vestir sua jaqueta? — Nick gritou de dentro do quarto.

— Não vejo problema — foi o que eu respondi.

— Ótimo, porque eu não iria tirá-la mesmo — ele apareceu na sala com um sorriso sapeca estampado em seus traços.

— Ridículo — o puxei pelo pescoço e o beijei.

Nick colocou as mãos na minha cintura e me puxou para mais perto. Continuei beijando-o com voracidade até ele tentar partir o beijo. Não deixei que ele se soltasse. Continuei meus movimentos, acariciando seus lábios incessantemente com os meus.

— Respira, Carter — ele me empurrou suavemente pelo peito — Precisamos ir.

— Eu só queria me despedir, já que não podemos ser vistos juntos lá fora — olhei para baixo.

— Não seja ridículo, seu babaca — com uma mão segurou minha cintura e com a outra ergueu meu queixo — Pronto para o mundo lá fora?

— Você está?

— Estou... — suspirava — ... estou com muito medo.

Levantei minha mão livre e toquei seu rosto.

— Eu também — assumi.

— Não parece.

— Estou tentando ser forte para poder passar confiança para você — mordi o lábio — Sinto que devo ser forte para nós dois, desculpe-me por não conseguir.

Ele sorriu simpático.

— Você sempre consegue o que quer, Enzo — ele parecia estar sendo sincero — Há alguns meses eu não estava ao seu alcance, mas agora você me tem — beijou minha testa — E eu te tenho, estou certo?

— Unhun — murmurei — Sou seu.

— Completamente? Não existirá mais ninguém? — ergueu as sobrancelhas.

Revirei os olhos.

— Não sou uma prostituta, Nicholas, fique tranquilo, não vou trair você.

— Eu acredito — seus lábios tocaram os meus suavemente — Agora vamos antes que eu me atrase.

Ri baixinho e o segui de perto, sendo puxado pela mão. Quando aproximamos do seu carro, ele sorriu.

— Vem comigo?

— Não, preciso procurar um emprego novo — balancei a cabeça e ele riu.

Eu trocava mais de emprego do que de cueca.

— Quer carona?

— Não precisa, nem sei para onde vou.

— Hm — ele fez biquinho — Boa sorte, então — se aproximou aos poucos, colando a boca no meu pescoço.

Olhei ao meu redor, vendo que havia umas duas pessoas na rua. Longes, mas conseguiam ver a cena se quisessem.

— Vai me ver na delegacia mais tarde? — meu corpo arrepiou por inteiro ao sentir seus toques. Balancei a cabeça em sinal afirmativo — E talvez... depois... você possa me deixar conhecer as várias partes da sua casa.

Rimos juntos.

— Só se você não se sentir tão inseguro — lembrei-me de como ele havia ficado durante a nossa primeira vez.

— Eu nunca me senti assim — fingiu espanto.

— E meu pau tem vinte e cinco centímetros — comecei a andar diretamente para o lado contrário em que ele ia. Sequer olhei para trás.

Ouvi a risada de Nick e a porta do carro se abrindo.

— Acredito que não, hein — gritou, divertido — Talvez uns vinte e dois — riu alto.

Ri baixinho e continuei meu caminho.

xXx

Procurei emprego por toda a cidade, entreguei currículos e me dei mal. Nada. Não consegui nada e não recebi resposta alguma.

Cansado de andar por toda a cidade, caminhei até a delegacia. Assim que cheguei, parei de frente para a porta e respirei fundo, tentando encontrar onde minha coragem havia se escondido.

Assim que empurrei a porta, todos os olhares foram transmitidos para mim. Senti a tensão me envolver e antes que eu pudesse perguntar para Amélia sobre Nicholas, ela olhou para baixo, aparentemente irritada e pronunciou:

— Está na sala dele.

Suspirei pesadamente, sentindo-me culpado por ter dado esperanças a ela.

— Amélia, desculpe-me — apoiei as mãos no tampo da mesa.

— Não tem porque se desculpar, Enzo — Ela ainda olhava para baixo.

— Tem sim, eu fui um babaca, desculpe-me.

— Tudo bem — finalmente olhou nos meus olhos — Agora porque não me deixa em paz e vai ver o que seu namorado está fazendo com o Sr. Pucket?

Ajeitei os ombros e mordi o lábio tentando não parecer tão afetado. Não era que eu não confiava em Nick, foi apenas o jeito dito que me abalou. Nicholas não transaria com um homem que não fosse eu.

Assenti de leve e me afastei. Andei pelo corredor com o pensamento único de que ainda não estava tudo bem. Estava apenas começando.

Toquei a maçaneta da porta de vidro e antes de empurrar, pude ouvir a voz de Nick.

— É só disso que preciso, só de uma confirmação.

— Não sei, Nicholas, não prometo nada.

Empurrei a porta devagar.

Os olhos do delegado pararam sobre mim e um sorriso simpático formou em seus lábios. Sorri junto e virei o rosto para cumprimentar o outro homem, que estava sentado completamente confortável no sofá.

O rapaz avaliou meu corpo sem distinção nenhuma antes de olhar em meus olhos e me cumprimentar.

— Oi — sorriu.

Antes que eu pudesse abrir a boca para falar alguma coisa, Nicholas tomou frente do assunto.

— Rafael, esse é o Enzo — abriu os braços e alargou o sorriso.

Não sei por que, mas senti algo diferente no ambiente, era como se Nick estivesse escondendo algo de mim. Cerrei os olhos ao observar o homem, que mantinha a pose descontraída.

— É um prazer — sorri de forma falsa para Rafael.

Nick não podia nem sonhar que eu havia percebido algo.

— Nicholas fala bastante em você, Enzo, já estava cansado de você e olha que eu nem te conhecia — riu, divertido.

— Não sei se fico feliz ou triste — tentei me animar, mesmo que não estivesse com vontade.

— Sorria, amigo — ele se levantou e parou na minha frente — É o melhor a se fazer — deu um tapinha em meu peito e se afastou a passos largos, andando até a porta — Até mais, Nicholas, acho que está certo, eu deveria arriscar — sequer olhei para trás, mas só de observar a feição de Nick pude saber que realmente havia algo errado.

Respirei fundo e me joguei no sofá, tapando meu rosto com uma almofada bege. Pude ouvir o barulho da cadeira se mexendo e eu sabia que Nick vinha até mim.

Suas mãos me tocaram e seu corpo subiu sobre mim, provocando uma série de tensões em minha pele. Todos os meus poros se arrepiaram ao sentir para onde sua mão descia.

Retirei a almofada do meu rosto e segurei suas mãos, tentando impedir que ele continuasse.

— Está tudo bem? — ele perguntou e eu assenti — Conseguiu o emprego?

— Não.

— Sabe de uma coisa? — ele cerrou os olhos, aparentemente pensativo.

— Não.

Ele me ignorou.

— Rafael é dono de uma rede de consultórios de psicologia, porque não tenta conseguir um emprego com ele?

Não gostei daquilo, não sei por quê.

— Quem é ele? — foi o que eu respondi.

— Um amigo — riu — Por quê? Está com ciúmes?

Neguei com a cabeça.

— Posso tentar, se quiser — pronunciei e recebi um sorriso.

— Incrível — ele definitivamente não sabia disfarçar.

Eu sabia que tinha algo de errado, só não sabia o que era, mas certamente tinha algo a ver com Rafael. O que estava acontecendo?

— Porque está com essa cara triste? — colou nossos lábios em um selinho rápido.

— Só estou cansado — tentei sorrir.

— Hm... — ele me tocou, enfiando a língua na minha boca e tirando todo o meu fôlego — Quer ir para casa? — partiu o beijo depois de algum tempo.

— Adoraria — sorri, melancólico.

Eu estava mesmo com vontade de me jogar na cama depois de um banho relaxante.

Nick sorriu e novamente me beijou, firmando suas mãos na minha cintura e apertando nossos corpos.

Ouvi um barulho vindo da porta e, antes que eu pudesse nos separar, uma voz ressoou por todo o local.

— Mas que porra...?

Notas finais
Mereço comentários? xD