Bourbon Street

32 Capítulo Trinta e Dois - Quando o amor se torna opção


Notas iniciais
Bom, chegou o momento o/ Este é o último capítulo, espero que gostem. E eu tenho um pedido a todos vocês, sei que muitos leem, mas nem todos comentam. Vocês que leem, mas não comentam, por favor, comentem neste último capítulo, digam o que acharam. Vai ser importante para mim. Boa leitura :* E até algum dia.

Aos meus vinte e nove anos de idade, eu percebi o que o mundo é verdadeiramente e, posso resumir em poucas palavras, dizendo: o mundo é apenas o habitat natural de bilhares de predadores. Homens e mulheres, bêbados ou sóbrios, realmente não importa, pois de qualquer forma e em qualquer momento, eles estarão prontos para atacar. Alguns dizem que o mundo é dos espertos, não creio, o mundo é daqueles que aproveitam ao máximo do que a vida pode proporcionar.

Penso muitas vezes sobre o que Deus queria para a humanidade quando decidiu criá-la. Será que ele sabia o que o mundo iria se tornar? Realmente não importa, porque essa é uma pergunta que nunca será respondida, eu só acho que as pessoas deveriam se lembrar um pouco sobre o que é o amor, compaixão e amizade.

Certo dia, ouvi um homem de meia idade dizer para uma senhora:

— Dá para acreditar nisso? O mundo está cheio dessas bixas.

Eu quis me aproximar e perguntar:

— Afinal, qual o seu problema?

Mas não o fiz, pois aprendi com a vida que o silêncio é um amigo que nunca trai, além de que, não se pode mudar a alma das pessoas. A verdade é que ninguém nasce racista e preconceituoso. Ninguém. Então o que é isso? Quem são essas pessoas que se acham melhores do que os outros? Quem são? Eu lhes digo: São pessoas vazias, que nutrem dentro de si um preconceito idiota ligado a falso moralismo e à mesma frase de sempre ‘Isso não é de Deus’.

Afinal, eu lhes pergunto, o que não é de Deus? O amor? Pois o que eu sinto pelo meu namorado — sinceramente — é amor. Então o que está errado? O amor? Eu estou errado em amar? É isso?

Sinto muito por todos que sentem preconceito, sinto muito por serem tão mente fechada, sinto por suas vidas serem completamente vazias. A verdade é que eu não desejo isso para minha vida, não penso em conviver com essa gente, não porque eu tenha preconceito com quem tem preconceito, mas, sim, porque quem é vazio por dentro, deve se isolar, para que assim, não contamine mais e mais pessoas. Talvez eu esteja sendo radical, talvez não, eu só quero que o mundo entenda o certo e o errado. Enquanto pessoas descriminam pessoas como eu simplesmente pelo fato de amarem uma pessoa do mesmo sexo, outras pessoas matam, roubam e sequestram. Afinal, quem está com a razão?

É, talvez eu tenha me exaltado.

— Tenha uma boa noite, Enzo — um dos recepcionistas passou por mim, cumprimentando-me. Respondi com um aceno de cabeça enquanto continuava a caminhar para fora da torre.

Há quase dois anos eu trabalhava ali. Bom, não era exatamente o que eu queria, mas era bom. Eu não estava reclamando, trabalhar ali é o sonho de qualquer psicólogo e nunca nenhum deles reclamariam.

Porque eu não queria então?

Simples, meu namorado é o dono daquilo tudo e de mais um pouco. É um pouco vergonhoso ser seu braço direito durante todas as tardes e não poder abraçá-lo ou beijá-lo sabendo que quando saíssemos dali, iríamos direto para cama. Ou quase isso.

Na saída do meu trabalho, todos os dias, encontro uma pessoa que nunca imaginei encontrar em tais condições.

— Oi, Paul — parei e o cumprimentei com um sorriso sarcástico delineando meus lábios — Catou muitos pedaços seu hoje?

Ele sequer olhou na minha direção, o que me fez sorrir largamente.

— Você teve sorte em não ir para a cadeia ao lado do seu namorado.

Ele continuava varrendo os chãos da rua em completo silêncio, como se não houvesse ninguém ao seu redor.

— Sabe, eu fico pensando às vezes, será que ele está dando muito por lá?

— Cala a boca — ele rosnou entre dentes, ainda com os olhos no chão — Suma daqui.

— Ah, claro — sorri ainda mais — Mas só porque você precisa varrer por onde eu passei.

Sai dali, divertindo-me com meu senso de humor sádico, enquanto caminho até minha casa.

Eu não sei muito sobre o que aconteceu com Paul, mas Lia havia me dito o suficiente para eu entender. Pelo que eu havia entendido, ele guardara uma paixão não correspondida por Nicholas desde sempre, e aquilo o fez se desintegrar aos poucos e, quando me viu com o delegado, a paixão se tornou ódio e ele decidiu que faria Nicholas sofrer por tudo o que o havia feito sentir. Então, quando teve uma chance, se uniu aos bandidos da boate, passando informações importantíssimas, até que em um dia uma delas funcionou. Até demais. Nicholas ficou em coma por quase quatro meses e a culpa realmente não era minha. Saber daquilo me deixou totalmente aliviado. O que foi descoberto logo depois impressionou todo mundo. O Sr. Chapman — um dos meus ex-chefes e putinha particular — era o chefe do tráfico e a clínica de psicologia era como uma lavagem de dinheiro. O mais estranho foi descobrir que Paul e ele tinham um relacionamento sério. Eu nunca imaginaria. E, enquanto o Sr. Chapman passaria três anos na cadeia, Paul passaria três anos em liberdade, limpando as ruas de New Orleans. Aquilo me deixava com um sorriso enorme nos lábios.

Talvez eu realmente fosse um monstro.

Talvez eu fosse apenas feliz.

E, falando em Nicholas, ele havia começado a trabalhar em um corpo de bombeiros. Eu o via poucas vezes e, sempre que tinha a oportunidade de conversar ou o via se aproximar, fingia atender o celular e rapidamente me afastava. Ouvir seu nome não me faria chorar, não mais. A última vez em que o vi, estava namorando uma das recepcionistas de uma famosa loja de doces. Eu tinha dó dela e, mentalmente, a desejava boa sorte. Sobre sua família, ele não descobriu nada sobre o sumiço dos pais ou sobre quem é o verdadeiro pai de Vinicius, odiava o marido da sua ex-mulher e, cá entre nós, acredito que ele não esteja tão sossegado quanto parece estar. Eu só desejo que ele seja feliz, por mais que tenha feito mal para tanta gente.

Quando cheguei em casa, encontrei exatamente aquilo que eu queria ver.

— Ei, Enzo, vem para cá — Ralph, o médico que cuidou de Nicholas durante o coma e, agora, nosso amigo, chamou — Estamos quase bêbados.

Aquilo me fez sorrir.

Olhei para a mesa onde estavam, procurando vestígios do que realmente queria e acabei encontrando um par de olhos azuis a sorrir para mim. Sorri também, cumprimentando não só ele, mas também Lia, Amélia e meu irmão mais novo. Eles pareciam jogar baralho, ou coisa parecida. Nunca entendi muito dessas coisas.

Rafael, que havia saído mais cedo do trabalho, se levantou e andou até mim, acolhendo-me em um abraço carinhoso e cheio de paixão.

— Estamos bem?

— Mais do que bem — sorri, mordendo sua bochecha — Acredita que aquele cara apertou minha bunda de novo?

Ele se afastou por alguns centímetros, observando meus olhos.

— Se eu fosse ele, também apertaria — sorria de lado — Sua bunda é uma delícia.

— Não se importa mesmo, não é?

Ele colou nossos corpos, deslizando seus lábios pelos meus.

— Eu confio em você — sussurrou — E no meu taco.

O acompanhei com um sorriso.

— Eu gosto muito do seu taco — disse com um sorriso de orelha a orelha.

E, de repente, ele se afastou.

— Papai, papai, papai.

Ao ouvir aquela voz, agachei-me e, não demorou muito, para eu receber um abraço apertado.

— Como foi na escolinha? — perguntei, bagunçando os cabelos loiros do garotinho em meus braços.

Ele se afastou.

— Chato — mostrou a língua — Como sempre.

Ri de lado, sendo acompanhado por Rafael.

— Onde está seu irmãozinho, Lipe? — perguntava ao me colocar de pé.

— No jardim, brincando com o Max.

Cerrei os olhos e pensei sobre o assunto.

Quem era Max?

— Deixa comigo — apertei a mão de Rafael com a minha ao mesmo tempo em que tentei me afastar, mas ele me segurou e olhou dentro dos meus olhos.

— Vamos juntos.

Sorri de lado, aceitando.

Ao chegarmos ao local exato, presenciamos uma cena que acalmou nossos corações. Bernardo dormia tranquilamente sobre a grama do jardim, tinha os braços abertos como se tentasse fazer as asas de um anjo, os cabelos negros estavam bagunçados e a roupa, suja.

No final, descobri que Max era um passarinho com a asa quebrada, que os dois encontraram no jardim. Rafael o levou para dentro e o deu água e pedacinhos de pão, pensando que era isso que Bernardo queria desde o começo.

Levei o menino para sua cama assim que consegui. Olhando para seu rostinho angelical, lembrei-me do dia em que Rafael e eu o conhecemos.

Não havíamos nos casado ainda, mas como todo casal, queríamos construir uma família. Então decidimos adotar uma criança. Toda papelada havia sido providenciada e o dia havia chegado, estávamos no orfanato e olhávamos para todas as crianças em completo silêncio.

A assistente social estava ao nosso lado, mas também em silêncio. A decisão era nossa, precisávamos nos decidir. Então, parados na porta do pátio, observamos cada criança em especial.

Rafael havia gostado de uma menininha loira de olhos especialmente negros que brincava de bonecas no fundo da sala, dizia ver meus olhos nos dela, mas eu não concordei, então ele desistiu.

Devia ter passado quase uma hora quando, de repente, um garotinho passou correndo, tropeçou em um carrinho e caiu aos pés de Rafael. Ele começou a chorar e seu choro era tão comovente, que fez com que o homem se rendesse. Rafael o pegou no colo, vendo-o fazer beicinho enquanto lágrimas enchiam seus olhos.

— Enzo — ele sussurrava com os olhos azuis ainda concentrados no pequenino — O que acha dele?

Eu sorri de lado.

— Tem os seus olhos.

E realmente tinha. Belos olhos azuis claros combinando perfeitamente com os fios dourados em seu cabelo.

— Senhores, vai ser um pouco difícil se o escolherem — a assistente social se manifestou.

Entreolhamos-nos.

— Porque? — dissemos em uníssono, olhando para ela.

— Porque ele não está sozinho — apontou para outro garotinho.

Ele estava no chão, sentado, observando a cena de forma concentrada. Os olhos negros tentando entender o que acontecia.

Eram gêmeos.

Gêmeos abandonados ao nascer. Impressionante como o mundo é idiota. E, mais ainda, as pessoas. Eles eram de placentas diferentes, por isso possuíam diferentes características. Pouquíssimas, como o cabelo e os olhos.

Rafael e eu não podíamos deixá-los, não depois de ver uma performance tão natural vinda de um deles.

Então meu olhar cruzou com o de Rafael e eu entendi que o coração dele também havia sido roubado.

E, ao ver o menino dormindo tranquilamente em sua caminha, desci as escadas e me sentei com meus amigos. Como Ralph mesmo havia falado desde o início, estavam bêbados. Quase todos. Lia cantava em alto e bom som versos do Guns N’ Roses, enquanto Ralph ria por qualquer coisa. Rafael, por sua vez, bebia suco de melancia e observava os outros.

Assim que me sentei ao seu lado, ele apoiou a mão forte em minha coxa e me olhou nos olhos.

Aqueles olhos azuis pareciam nunca deixar de me enlouquecer.

Naquele momento eu entendi que nem toda história de amor é contida em uma piscina de pétalas de rosas, assim como nem todo eu te amo é verdadeiro. Bem como, a ausência dele também não é motivo para criar mágoa.

Meu amor por ele começou no fim não só de um, mas de dois casamentos. Entretanto, quem disse que o fim é algo ruim? Aqueles fins tiveram recomeços, ciclos intermináveis de alegria e tristeza, que, enfim, acabou.

Quando optei por ele, não optei por amá-lo, mas, sim, por ser amado. Mas a verdade é que eu não só fui amado, mas também amei. E amo. Amei ontem, amo hoje e amarei amanhã. E nunca me cansarei.

E sabe por quê?

Porque a vida é um morango e só o que você deve aprender é como saboreá-lo.

E qual a diferença entre Rafael e Nicholas?

Um me amava.

O outro amava a minha dor.

Notas finais
Bom, então é isso, chegamos ao fim. Mas como bem disse o Enzo neste capítulo, nem todo fim é ruim, e esse não é. Quero agradecer a todos que comentaram, todos que favoritaram, todos que acompanharam e todos que recomendaram. Bourbon Street foi uma história que me marcou muito, não só porque eu achei que não conseguiria terminá-la, mas também pelo fato de que nela, eu “quebrei” uma das coisas que mais respeito. O amor. Não o amor no sentido literal. Tipo, em minha cabeça, o amor não tem fim, se você ama alguém de verdade, o amará para sempre. Entretanto, em Bourbon Street eu quis mudar. Não por simplesmente mudar, mas para mostrar que nem todas as pessoas no mundo querem nosso bem e, que mesmo as amando, não é bom para nós mesmos entregarmos nossa felicidade a alguém que não se importa. Gosto de pensar que o Enzo ensinou algo para todos nós, até mesmo para mim. Outra coisa que me impressionou bastante foi o fato de eu ter conseguido fazer um personagem completamente contrário a mim. O Rafael tem tudo que eu não tenho. Paciência. Muitas vezes eu quis fazer com que ele desse um soco no Nicholas, mas aí eu respirei e pensei “Poxa, ele não é assim” e então eu fiz com que ele mantivesse a calma. Isso é um pouco difícil para mim, já que eu preciso — muitas vezes — lutar em um Tatame para deixar a tensão de lado. Gosto de pensar que o Rafael me ensinou alguma coisa. Talvez ele realmente ensinou. Ensinou que as coisas não acontecem de um dia para o outro, que tudo tem um momento certo para acontecer, que nem tudo se resolve com brigas e discussões. Bom, talvez tenha ensinado a vocês também. Como o Léo Junior disse, Bourbon Street parece uma história qualquer e, de certa forma, eu concordo. É sobre isso que eu quero escrever, sobre a realidade do mundo, sobre pessoas comuns com problemas comuns. Não preciso da fantasia, vivo na realidade desse mundo. Infelizmente. Existiram muitas teorias sobre o final de Bourbon Street. Teorias que me divertiram, teorias que se aproximaram realmente do que aconteceria, teorias que me tiraram a paciência. Sinto muito, Maria Paula, mas não. Não vai existir Enzo Phillips e muito menos Nicholas Carter. Eu realmente agradeço sua recomendação, suas palavras e seu amor pelo Nicholas. Espero não ter despedaçado seu coração com as últimas revelações. Kira, sinceramente, você foi um dos leitores mais engraçados, justamente por criar um milhão de teorias e quase nunca acertá-las, por ser tão bipolar em relação aos personagens e por desejar a morte lenta de quase todos hahah’ Sim, eu sei que você desejava a morte do Paul. Mas o fim dele foi bem melhor, não acha? Pelo menos agora você vai parar de tentar adivinhar qual seria o fim dele kkk’ Ginny Weasley, fantástica não é a história, mas sim a forma como você encara os capítulos hahah’ Eu me diverti com seus comentários e peço desculpar por sempre demorar a respondê-los. Eu realmente não sei por que eu demorava tanto kk’ Marcus Miller, da forma em que colocou Bourbon Street, deixa-me muito feliz. Fico lisonjeada em possuir uma história que chamou sua atenção. Quando você comentou pela primeira vez, eu pensei que também iria xingar o Enzo, por sei lá o que, já que pareceu que todo mundo estava o xingando. Tadinho do meu bebê. Mas, quando vi que era um comentário completamente diferente, um sorriso nasceu no meu rosto. Muito obrigada por isso. Peço desculpas se perdi a paciência com alguém (não sei se isso aconteceu), mas, se aconteceu, peço desculpas. Sinceramente. Bom, Bourbon Street não é uma história que todo mundo vai gostar, mas é uma história onde todos podem se sentir em casa e acalorados com tantos leitores incríveis como vocês. Todos aqui possuem problemas, mas a mágica de Bourbon Street é fazer com que os mesmos sejam esquecidos. Mesmo que por um curto período de tempo. Até algum momento o/