Boulevard Of Broken Dreams

8 Capítulo 8 - A sacerdotisa


Notas iniciais
Sobre o capítulo passado. Arthur estava em Paris porque o tratado que reconheceu a independencia americana foi assinado em Paris, junto com outros acordos com a Espanha, talz, mas não coloquei porque fugia um pouco do foco da historia. Desculpe se alguém nao sabia e ficou confuso.

Beijo e bom capitulo! :D

Desgraçado.


Alfred correu de volta à sua capital, seu peito ardendo, sua boca amaldiçoando Arthur incontáveis vezes. Desejando que tudo de ruim acontecesse a ele.



Quando finalmente chegou à Washington, a primeira coisa que viu foi um rapaz incendiando um importante edifício. Seus cabelos loiros balançavam levemente em meio à fuligem e, ainda que ele estivesse de costas, dava para perceber o quão desolado ele estava.



– Inglaterra! – gritou o garoto, se aproximando levemente trôpego, morto de ódio.


Arthur voltou seus olhos verdes para Alfred. E havia mais que decepção ali. Ele observou o garoto por meros segundos antes de desviar o olhar. O verde refletia as chamas alaranjadas que lambiam o prédio à sua frente, mas seu rosto era completamente sem expressão.



– Inglaterra! – gritou o garoto, puxando o outro pelo ombro com força, virando-o para si.



Arthur bateu na mão dele e o empurrou longe.



– O QUE INFERNOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO? – berrou Alfred, que caíra no chão com o empurrão.



– O que infernos você está fazendo, você quer dizer. Garoto, isso não é um jogo. – disse mortalmente sério, se agachando na frente do outro, fitando-o. – Você não tem ideia do que faz. Você ao menos sabe o que significa invadir um país? – perguntou, muito sério. Ele tentou continuar olhando nos olhos de Alfred, mas não conseguiu. – Você tem sorte do Matthew não ser um país soberano ainda. Você não sabe o horror que é quando um país soberano é invadido. Especialmente a sua capital. – engoliu em seco e fechou os olhos. Ele nunca teria coragem de fazer aquilo com Alfred. Não, aquilo não era uma invasão, era um aviso. Não era como o que acontecera consigo. Não era igual. Quando voltou a abrir os olhos, o garoto conseguiu ver o quão perturbado ele havia ficado com a ideia.



– Eu sou um país escolhido por Deus para ser melhor que todos os outros. Eu tenho o direito de invadir e forçar os outros a seguir o meu exemplo. – disse com um sorriso meio insano, totalmente indiferente ao olhar que Arthur tinha. Ele parecia muito assustado, assombrado por lembranças que ele não queria ter.



Arthur se levantou, olhando para longe novamente. Sem mais uma palavra, ele saiu andando, seu longo sobretudo acompanhando graciosamente seus movimentos.



– Inglaterra, volta aqui! – gritou o garoto, morrendo de ódio no chão. Um de seus olhos estava fortemente fechado, seu peito ardendo. Mas não era só dor física. Ele não conseguia aceitar como Arthur era mais forte e muito mais poderoso que ele. Ele não conseguia aceitar a humilhação que sentia ao ter seus planos fracassados, ao ser repreendido daquele jeito.



– Eu não vou perder meu tempo com você, garoto. – respondeu Arthur, seco, em um tom que nunca usara com Alfred. Alguma parte do garoto ficou extremamente chocada e magoada. Mas essa parte estava isolada da consciência de Alfred. Existia como que por trás de um muro e não conseguia mais alcançar seus olhos, nem seus lábios, para dizer o que importava, para olhar para Arthur como ele queria ter olhado.



Arthur se virou uma última vez, seus olhos verdes cintilando perigosamente. – Isso foi só um aviso. Não pense que pode mexer comigo. E não ouse tocar em mais um fio de cabelo de Matthew. – sua voz foi firme, mas seu olhar tremeu. Sua determinação vacilava perto de Alfred. O garoto era muito querido para ele, era difícil ter de feri-lo, ameaçá-lo daquele jeito. Mas, principalmente, era doloroso olhar naqueles olhos claros dele e ver tanta ambição e ódio crescendo. Porque isso tornava o garoto irreconhecível. Porque fora difícil perder Alfred uma vez. E agora Arthur se via perdendo-o pela segunda vez.



Então, o loirinho deu-lhe as costas.



Alfred gritou atrás dele, pedindo que milhares de maldições caíssem sobre ele. Arthur não se virou para olhar. Mesmo quando Alfred gritava o quanto o odiava. Arthur não se voltou para olhar. Ele apenas fechou os olhos por um momento, as palavras do garoto magoando-o mais uma vez; mas não olhou.



Porque ele simplesmente não tinha a menor condição de assistir Alfred deixando-o outra vez.



E talvez tenha sido um erro. Porque, longe de Arthur, o psicopata crescia e o garoto se perdia cada vez mais. Ao mesmo tempo, quem poderia culpar Arthur por simplesmente não ter mais estrutura emocional alguma? Por se importar tanto? Ter se aberto para depois ser magoado tantas vezes por quem ele acreditava que nunca o machucaria? Doía, magoava. Porque ele sentia algo de muito especial pelo garoto. Porque era triste que tudo tivesse que ser daquele jeito. E ao admitir sentir tudo isso, Arthur se tornara tão humano quanto qualquer outro e, portanto, vulnerável.



Por isso seu olhar tremia, ele se magoava, ele fugia. E por isso ele não olhou para o garoto de novo. Por isso ele voltou para casa e fingiu não ver mais nada do que Alfred fazia.



Eles assinaram um tratado de paz, mas em dias diferentes. Arthur não queria passar por outra reunião em que ele teria que fitar o garoto, fingir que estava tudo bem, quando no fundo, ele só queria que tudo voltasse a ser como antes. Quando ele só queria que Alfred voltasse a sorrir como ele sorria e que as tardes voltassem a ser gastas como eles as desperdiçavam antes, em chás e passeios.



Alfred ainda viria a ganhar uma batalha contra os ingleses, posterior ao tratado. E aquilo encheria o seu povo de orgulho, aumentaria o ego do garoto. E Alfred, longe de Arthur, longe dos sentimentos que ele lhe inspirava, era cúmplice fácil de seus governantes. Ele sucumbiria cada vez mais rápido à vozinha em sua cabeça.



Porque Alfred invadiria as terras do México. Expandiria suas fronteiras, obtendo acesso a dois oceanos diferentes. Conquistaria o Texas, mataria muitos para conquistar o Oeste. Exterminaria o resto de seus nativos, procurando ouro país adentro. Da próxima vez que eles se veriam, seus olhos azuis estariam atrás de lentes frias, de óculos que não eram dele.



E Alfred já começaria a ter um leve aroma de sangue na ponta de seus dedos.



Já Arthur resolveu tentar seguir em frente, fosse lá o que isso significasse. Ele foi para casa, arrumou os seus papéis, sentou-se em sua escrivaninha e voltou a trabalhar. Trabalho era realmente algo interessante. Na maioria das vezes era chato e entediante, mas fazia-o sentir-se necessário. Porque o seu trabalho lhe exigia prazos e metas. E, por bem ou por mal, era alguma coisa pela qual ele poderia esperar. Era algo que chegaria, era uma coisa certa, com a qual ele poderia contar. Arthur, intimamente, vivia com medo de que tudo voltasse a ruir de repente, de que algo ruim fosse acontecer a qualquer momento. Então, prazos, metas e rotina eram coisas das quais ele passou a gostar muito. Porque eram racionais, constantes, entediantes, até. Mas davam alguma estabilidade aos seus pensamentos, que conseguiam fugir da confusão de sentimentos que ele já, há muito, desistira de tentar entender.



O próximo evento diferente ao qual ele prestou alguma atenção foi quando ele teve alguns negócios a tratar com Portugal. A situação era razoavelmente comum. A França dando trabalho. Simplesmente, Napoleão resolvera que era uma boa ideia isolar a Inglaterra da Europa, em qualquer coisa que ele chamou como Bloqueio continental. A economia de Portugal ruiria sem o comércio com os britânicos, então ele furou o bloqueio, ao que Napoleão respondeu invadindo o seu país. Mas o esperto fugiu com a corte para uma de suas colônias na América. Tudo isso escoltado por navios ingleses. Agora, seus chefes o mandavam ir lá, sondar o mercado que eles estavam explorando recentemente. O loirinho suspirou e jogou os papéis pela mesa.



Por Deus, ele só queria um descanso. Era tanta coisa sobre a sua cabeça nos últimos tempos. Em 1807, Napoleão tentando isolá-lo, 1812 guerra anglo-americana, 1814 queda de Napoleão, Revolução Industrial... Bom, pelo menos Napoleão tinha caído e parado de encher a sua paciência. Em parte, ele devia agradecer a Ivan. Afinal, a campanha fracassada dos franceses na Rússia seria algo que abalaria o poderio de Napoleão. Quem diria que aquele frio dos infernos em que Ivan vivia acabaria por protegê-los? Enfim, Congresso de Viena...



Tanta coisa acontecendo na Europa e estavam dando a ele um trabalho secundário, que envolvia comércio e não lutas. Seus chefes provavelmente perceberam suas olheiras cada dia mais fundas, seu olhar sempre perdido, seu chá cada dia mais sem sabor. Talvez eles tivessem ouvido um choro baixinho vindo do seu quarto à noite. Arthur deitou com a bochecha contra a madeira da mesa, olhando vagamente para frente. Quem sabe se ele não tentasse cumprir essa tarefa relativamente simples, mas longe de toda aquela confusão, ele não conseguisse colocar em ordem seus pensamentos? A Europa era sempre tão cheia de guerras, tão cheia de confusões... E o loirinho sabia que não era bem vindo na maioria dos lugares ali. Ele não queria mais pensar no seu relacionamento com Alfred que a cada dia se deteriorava mais. E ele devia deixar Matthew cuidar das suas coisas um pouco, sem sufoca-lo com sua constante e incômoda presença. O loirinho suspirou. Olhou os papéis de novo. Brasil.



Arthur deu de ombros. Bem, eis o seu próximo trabalho.



A viagem foi desconfortável como sempre. O mar tinha algo de liberdade, algo de colorido e fresco, mas Arthur não estava com cabeça para perceber nada disso. Havia apenas o desconforto, o cheiro que ia ficando cada dia mais insuportável, o tédio e o morasmo que lhe faziam companhia. Ele nem sabia direito onde estava indo. As informações que ele tinha do lugar, eram meio vagas e ele nunca teve real interesse em saber alguma coisa a mais. Nunca tinha ido pessoalmente até lá também. Depois de vários e vários dias arrastados e enjoativos, eles chegaram.



E Arthur só conseguia pensar em uma coisa assim que desembarcou. Estava quente.



Sua camisa social já aderia ao seu corpo e suas bochechas estavam muito coradas. A corte foi para o seu lado, seus tripulantes para outro e Arthur não dava a mínima. Simplesmente, estava muito quente. Ele iria derreter, com toda a certeza. Meio zonzo, ele andou até a sombra de uma àrvore, respirando aliviado. Ainda assim, estava quente.



– Por que me mandaram pra esse caldeirão fervendo no fim do mundo, Deus do céu? – exclamou ele, exasperado.



– Hey isso não foi muito gentil! – disse uma voz meio rindo atrás dele.



Arthur virou-se, vendo-se fitado por olhos levemente amendoados, em um tom de madeira nobre e algum quê de verde no fundo acastanhado. Olhos esses completados por um rosto de traços razoavelmente delicados e cabelos escuros e lisos, apenas levemente ondulados nas pontas. O rapaz tinha a pele muito macia com cor de leite e café e trazia um sorriso meio brincalhão nos lábios. Ele era absurdamente bonito.



– Desculpe, senhor...? – disse Arthur, deixando a pergunta pairar.



– Você pode me chamar de Lu. – e estendeu-lhe a mão. – Eu sou o Brasil.



– Inglaterra. – murmurou Arthur, ainda meio constrangido. – Err... Desculpe o que eu disse. É só que está realmente muito quente aqui. – confessou ele, as faces muito vermelhas e a franja já meio grudando na testa.



–Hehe, mas também vestido assim, vai pra onde, homem? – riu-se o outro, observando o monte de roupa que o europeu insistia em usar em pleno Rio de Janeiro, três horas da tarde, sem uma única nuvem no céu. Sem dúvida, qualquer um cozinharia debaixo da camisa social, do colete, do sobretudo, da calça grossa, das botas e das luvas que o britânico usava. – Vem cá, eu te ajudo! – disse o brasileiro por fim, puxando o inglês pelo braço e arrastando-o pelas ruas. – Aliás como é o seu nome? – perguntou, curioso, sem grandes cerimônias. Luciano costumava viver bem sozinho, uma vez que o português raramente vinha para desperdiçar o tempo dele ali com ele. Nunca vira alguém tão agoniado em ir embora logo.

Além do mais, era difícil manter muita amizade com outras colônias, já que as metrópoles sempre queriam ficar mandando e desmandando nelas. Agora, com a elevação do Brasil à Reino Unido com Portugal, o garoto tivera mais visitas, mas poucas realmente se interessavam em conversar com ele ou conhecê-lo. Somado a isso, Luciano percebera que sua visita parecia muito solitária, então resolvera tentar ser amigo dele.



– Arthur... Arthur Kirkland. – respondeu o britânico, meio sem graça com a proximidade com que o brasileiro o escoltava.



– Hmm, nome de realeza! – piscou o outro, rindo levemente.



Arthur riu um pouco também, estranhando o jeito muito aberto do outro. Chegaram à uma casa mediana, na qual o brasileiro entrou sem nenhuma cerimônia. Arthur foi atrás, murmurando um pedido de licença.



– Anda, tira isso aí, você vai cozinhar e morrer! – riu-se o outro. – Achei que não fosse querer se trocar na rua, então te trouxe para cá. Você pode ficar aqui , eu acho que seus governantes não vão se importar. Você pode tomar um banho, se quiser – e, sem ofensa, acho que você devia. – e saiu murmurando qualquer coisa sobre europeus e sua mania de não tomar pelo menos uns dois banhos por dia como os seus nativos faziam.



Arthur sentou-se em uma cama simples que ficava próxima, rindo. Aquele garoto falava com a maior potência militar do mundo como se estivesse chamando o vizinho para tomar chá – até com menos cerimônia. Mas, interessantemente, isso fez certo bem ao loirinho. Seu trabalho ali era muito simples, possivelmente até sem muita utilidade, mas era uma grande chance de entender a confusão dentro de si e finalmente separar quem era a Inglaterra de quem era Arthur Kirkland.



Com um suspiro aliviado, ele retirou o sobretudo e o colete, seguido das luvas e da camisa ( com alguma relutância). Agora, sem tudo aquilo de roupa, percebera que até tinha um vento muito agradável que entrava pelas janelas. Ainda assim, o banho lhe pareceu uma excelente ideia.



Bem, muita coisa parecia estar acontecendo ali também. Em 1808 houve abertura dos portos, o que foi o fim do pacto colonial para o jovem rapazinho. Liberdade industrial e criação do Banco do Brasil. Já em 1810, vieram os tratados com a Grã-bretanha de aliança e amizade e de comércio e navegação. A partir dele, e eis a visita de Arthur, os ingleses tiveram direito a tarifas alfandegárias baixíssimas, ainda menores que a dos portugueses. Aquele portuga até conquistou a Guiana Francesa, mas acabou sendo devolvida para o idiota do Francis durante o Congresso de Viena. O loirinho suspirou. Incrível como cada movimento de um país influenciava nos outros.



Será que... a independência de Alfred influenciaria aqueles países também?



Com essa dúvida ainda em mente, Arthur saiu do banho, encontrando uma camisa social leve e uma calça leve também. Vestiu-se e foi encontrar o brasileiro, que estava na cozinha bebendo uma caneca de café.



– Bem melhor, não? – perguntou ele sorrindo ao ver Arthur sentando-se à mesa, seus cabelos molhados e penteados, suas faces agora de volta ao tom pálido e seus olhos verdes mais focados e atentos.



– É sim, obrigado. – sorriu Arthur de volta, apoiando os braços na mesa e pousando o rosto sobre as mãos. Lu distraidamente devorava uma broa de milho que a vizinha lhe deixara. Com alguns minutos de insistência, convencera o britânico a provar um pedaço ( ou seja: abrira a boca do desconfiado à força e enfiara lá). Ao que Arthur teve que admitir que era muito boa, ainda que sua comida fosse melhor. O pobre ingênuo curioso do Luciano rira e pedira para provar a comida de Arthur qualquer dia desses (ele se arrependeria desse dia por toda a sua existência)



O loirinho sorriu, voltando a pousar o rosto sobre as mãos, com a face meio deitada sobre a mesa. Balançava as botas distraidamente por baixo da mesa, olhando vagamente para frente. Por um momento, ele se sentiu realmente normal. Como se ele, Arthur, fosse só um rapaz comum com seus vinte anos, sentado a tomar lanche com um amigo, também tão jovem quanto ele. Não era, no entanto, como estar com Alfred. Era algo diferente. A percepção disso foi uma das coisas que levaria Arthur a, aos poucos, entender o que era o que ele sentia pelo garoto e onde aquela profunda afeição se tornaria amor.



Porque Arthur percebeu que não era apenas da paz e quietude que ele sentia falta. Nem eram das risadas. Ele se sentia bem agora, em paz, aproveitando um dia comum como qualquer outro na vida de uma pessoa. O brasileiro era engraçado e uma boa companhia, mas ele sentia falta de Alfred em si. Daquele Alfred com o qual ele dançara uma tarde inteira. Arthur olhou a caneca que o outro pousou sobre a mesa, observando a fumaça ascender pelo ar, formando formas sinuosas e delicadas.



– Eu odeio café. – comentou ele em um suspiro.



– Sério? – perguntou o brasileiro como se o inglês tivesse ficado insano. – Como uma coisa dessa é possível?



– Eu acho que eu prefiro chá mesmo. – desconversou o loirinho.



– Uma coisa não exclui a outra. – respondeu o outro dando de ombros.



– É... – Arthur respirou fundo, bagunçando os cabelos. – É só que... O Alfred provavelmente preferiria café. Ou qualquer coisa menos chá, eu acho. – terminou em um murmúrio, seu olhar voltando a se perder.



– Alfred? – o brasileiro pensou um pouco. – Aaah! Não o que ficou independente esses tempos aí?



– Esse mesmo. – suspirou o britânico, se ajeitando na cadeira, agora com o cotovelo na mesa e o rosto sobre a palma da mão.



– Ele era uma colônia sua, não?



– Era...



Luciano sorriu meio sem graça. Arthur tinha um olhar tão carinhoso. Alfred provavelmente era muito mais que uma colônia para ele.



– Você... sente a falta dele. – não era uma pergunta.



Arthur acenou com a cabeça, olhando para baixo.



– O que vocês costumavam fazer quando estavam juntos? – perguntou, um tanto curioso. Como seria ser uma colônia de povoamento e não de exploração? Como seria significar tanto para alguém?



E Arthur lhe contou das vezes em que ele passeava com Alfred por aí ou quando o ensinara a dançar. O outro ria em imaginar alguém tão orgulhoso como os Estados Unidos chorando porque estava com medo de dormir sozinho. Mas o que o intrigava era a doçura com que as lembranças pareciam fluir nas palavras de Arthur. A tarde se passou sem que os dois notassem, entre pessoas falando alto e risos. Arthur conseguiu contar sobre a independência do seu garoto sem chorar, o que era uma primeira vez. Luciano ouviu, interessado, percebendo o britânico triste.



– Ah Arthur, mas não se preocupe. – disse ele, sorrindo ternamente enquanto pousava o rosto sobre as mãos, seus cabelos macios tocando com suavidade a mesa, enquanto seus olhos muito profundos olhavam sonhadoramente para frente. – Ele vai voltar pra você.



– Não... Ele me odeia, lembra? – retorquiu o loirinho, apoiando os cotovelos na mesa, meio conformado.



– Eu acho que tudo depende de como você vê as coisas. Por exemplo. Ele pode querer que você pare de pensar nele como um pirralho incapaz de se cuidar sozinho. Eu sei como isso pode ser irritante. – disse rindo.



– É, talvez... – murmurou Arthur. Ele conseguia distinguir um Alfred que estivera triste em deixá-lo, mas ele ainda via um Alfred que ficava cada dia mais insano. E ele se perguntava qual deles sobreviveria.



– Mas, principalmente, acho que você precisa se preocupar menos. – concluiu Luciano, olhando meio pensativamente para a caneca, já vazia. – Nós somos países, mas eu acho que também somos nós mesmos. Acho que o importante é só nós sabermos onde começa o nosso trabalho e onde começa a nossa vida pessoal, se é que dá pra ter alguma com um trabalho doido desse. – disse rindo um pouco, tentando quebrar o clima sério.



Arthur olhou no fundo dos olhos do outro, considerando realmente as palavras dele. Realmente, ele era visivelmente mais velho que Alfred. Mas nunca esperara ouvir dele algo tão digno de nota como o que ele acabara de ouvir.



O sol baixou gentilmente e Luciano acendeu uma vela. Quando Arthur finalmente ficou silencioso de novo sua expressão era mais leve. Ele acabara contando das coisas boas e ruins e tivera a chance de repensar um pouco. No fundo, talvez ele só precisasse de um amigo, para ouvi-lo às vezes. Um vento agradável brincou com os cabelos dos dois.



– E como foi sua infância com Portugal? – perguntou Arthur, virando-se para fitar o brasileiro. Para a sua surpresa, ele riu. Mas a risada não alcançou os olhos dele. Ele estava triste.



– Aquele portuga? Por cinquenta anos ele me largou aqui sem nem querer muita conversa. – disse com um meio sorriso, seus dedos brincando com a alça da caneca. – Ele vinha desmatar um pouco das minhas àrvores, pra fazer tintura pras roupas de vocês, europeus. – Sua testa franziu um pouco enquanto ele continuava. – Então, os franceses começaram a fazer acordos com alguns dos meus nativos, aí Portugal teve algum interesse em mim. Ocupou um pouco do litoral e saiu plantando cana-de-açúcar. – continuou, meio sem emoção. Mas era evidente que ele se sentira sozinho. – Os holandeses fizeram alguma bagunça aqui, querendo tomar conta, mas acabou não dando certo. Acho que a única vez em que Portugal realmente olhou pra mim foi quando eu já estava no começo da adolescência. Que foi quando ele achou ouro por aqui... Ouro esse que nem ficou com ele, eu acho. – e riu-se de novo, balançando a cabeça.



– Como assim? – perguntou o loirinho, franzindo a testa levemente.



– Meu ouro foi pra você. – disse simplesmente o outro. – Minhas riquezas em boa parte devem ter ido pra você... Afinal, ele costumava dizer qualquer coisa sobre uma dívida que tinha com a Inglaterra e de que ele usaria parte do dinheiro pra isso. Bom, a outra parte foi toda para farra, certeza. – suspirou. – Bom, agora que a corte dele veio toda pra cá, ele tem se interessado em promover mais a cultura e a arte, já que ele não quer morar sem algumas mordomias, eu acho. – de fato, traria a missão artística francesa. O brasileiro olhou meio perdido para o lado de fora, fitando o céu cheio de estrelas.



Os dois se calaram.



Arthur teve tempo de passear pela cidade sozinho, uma vez que Luciano por vezes tinha assuntos a resolver. Sem um rumo certo, ele apenas vagou, observando as pessoas.



Um pouco longe dali, havia uma grande casa senhorial, com muitos escravos. Arthur se sentou embaixo de uma àrvore e ficou olhando meio de longe a rotina daquelas pessoas. Havia o dono da propriedade, que andava por aí em roupas muito bonitas, cheio de ouro e riquezas. E havia os escravos, vivendo sem calçados, com roupas rasgadas, embaixo do sol o tempo inteiro. Dentre os muitos serviçais, ele percebeu uma moça. Muito bonita, na verdade. Ela tinha um tom de moreno mais claro, as ancas largas e os cabelos pretos ondulando na ponta, em uma diferente mistura de etnias. Ela não tinha tempo de se arrumar, não tinha roupas bonitas, mas era visivelmente bela. O dia todo chamavam por ela, mandando-a limpar qualquer coisa que alguém derrubara, rindo-se do serviço dela, humilhando-a na frente das visitas.



Mas o que realmente chamava a atenção era que ela não chorava por isso. Ela simplesmente fazia o seu trabalho durante o dia e no finalzinho da tarde conversava alegremente com todos os outros, em uma força interior que Arthur, ainda de coração meio partido, admirou.



Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta



Mas aquela rotina parecia desgastá-la muito mais rápido do que deveria. Ela carregava coisas pesadas, fazia milhares de serviços o dia todo sem direito a um único minuto de descanso. O loirinho olhara em volta e percebera que todos os olhares que os homens dirigiam a ela eram de malícia, acompanhando os movimentos dos quadris dela enquanto ela trabalhava. Então ele se sentiu meio triste. Porque ela tinha defeitos e qualidades como qualquer um, não era mais nem menos que nenhuma outra pessoa. E ainda assim, ninguém a olhava como igual, ninguém parecia ver que ela era bem mais que um corpo para se usar por uma noite. E ainda assim, ela sorria e mostrava toda aquela força que Arthur não fazia bem ideia de onde vinha.



Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta


Arthur apenas observava, distraído de seus problemas. Quando ninguém estava olhando, os escravos faziam várias festividades. Ritmos de suas terras natais, dança, risadas e sorrisos em meio a um inferno evidente. Ele nem entendia como era possível. Cada um ali já tinha sido surrado em público, ostentavam feridas enormes em suas costas, suas mãos doíam e sangravam do trabalho, o proprietário os humilhava e mandava açoitar. As condições eram péssimas, a comida era pouca, o trabalho era árduo e incessante e a maioria morria bem jovem. As meninas, todas, mas especialmente as bonitas, eram estupradas enquanto ainda novas, usadas de objeto e brinquedo sexual para seus proprietários. E Arthur só conseguia imaginar o que era viver ali, numa vida sem qualquer perspectiva, sabendo-se desprezado por toda uma sociedade, usado e humilhado. Ele já se sentira humilhado pelas vezes em que procurara sexo por se sentir carente, tentando buscar alguma coisa que substituísse amor de verdade.



Ele só podia imaginar o que era ter de servir às vontades sexuais de alguém que ele não queria, inúmeras vezes.



E mesmo assim, no meio daquele inferno, durante a noite, eles se reuniam e brincavam. Mesmo a moça. Arthur sabia que ela já tinha sido violentada dezenas de vezes. Sabia que ela tinha um filho bastardo, que nunca teria o reconhecimento do pai. Mas ainda assim, ela cuidava do garoto com carinho, ela não demonstrava fraqueza diante dele.



Arthur começava a entender porquê o brasileiro ria-se de tudo, ainda que muitas vezes a sua risada não chegasse aos seus olhos.



Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que rí
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta



O loirinho, sentado sobre uma pequena mureta, balançou os pés pensativamente. Se era possível alguém viver assim, era possível ele seguir em frente, não era? Ao ver tudo aquilo, ele se lembrara de tudo o que já passara. O horror da peste negra, se espalhando e exterminando metade do seu povo. Invasões, guerras civis. Ele já tinha conseguido tanto, já tinha suportado tanto. Mesmo que não estivesse feliz, percebia que precisava voltar a enfrentar o mundo. Mesmo que já não fosse o mesmo, mesmo que estivesse meio sem direção e de coração partido. Ele devia voltar a tentar, parar de fugir do que ele não conseguia entender.



Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre



Ele olhou durante o resto da noite a silenciosa festa na senzala. O vento da noite estava meio frio, mas Arthur não se importou. Apenas deixou-se ficar ali um pouco, tentando tirar um pouco de força para seguir em frente. No outro dia, aquelas pessoas teriam um dia horrível. E Arthur provavelmente teria alguns anos horríveis pela frente também.



Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria


Mas ele não deixaria o mundo pisar nele assim. Ele tinha um orgulho e era a maior potência militar do mundo, ainda que seu coração fosse só o de um adolescente magoado. Ainda assim, ele voltaria ao seu trabalho, dessa vez, de verdade.



Ele ouvia as conversas murmuradas dos escravos. Estranhamente, as pessoas da senzala brincavam de sonhar com o futuro. Sobre fugir, sobre serem libertos, sobre dias em que nada daquilo aconteceria mais. O mais estranho é que eles pareciam realmente acreditar naquele futuro.



Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida....


Arthur não sabia se aqueles sonhos se realizariam ou não. Mas ficou um pouquinho mais otimista.



Quando voltou para a casa de Luciano, encontrou-o assando um bolo simples. Os dois se sentaram e conversaram sobre muitas coisas.



Mas resolveram não dizer sobre as questões entre os países. Porque política era algo muito transitório, especialmente vista por alguém que já viveu séculos. Um dia eles poderiam ser aliados e no outro, inimigos mortais. Podia ser que eles nem mais tivessem a oportunidade de se verem ou se falarem. Então, não falaram de governo. Não falaram de países.



Arthur vira um lado horrível da escravidão, que ele, sinceramente, esquecera que existia, mas também não disse nada sobre isso. Porque provavelmente soaria muito hipocrisia, uma vez que a Inglaterra fora o maior traficante de escravos do mundo. Agora o seu governo pressionava o Brasil pela abolição, mas só porque queriam um mercado consumidor para os seus produtos advindos da Revolução Industrial.



Os dois conversaram sobre tudo e sobre nada. E Arthur teve a chance de perceber como havia uma pessoa, tão diferente do seu país, vivendo ali em seu peito. Percebeu que existiam assuntos fora do trabalho. Ao entender a divisão sutil que separava os interesses do seu governo do que pensava o seu povo e do que ele mesmo pensava, Arthur conseguiu organizar melhor seus sentimentos.



Quanto ao seu governo, não havia muito o que se fazer, então ele tratava como trabalho tudo o que fosse referente a isso. Quanto ao seu povo, ele procurava influenciar decisões para que pelo menos a maioria dos seus meninos fosse feliz.



A grande questão continuava sendo os sentimentos dele mesmo. Arthur não entendia muito bem e continuaria a não entender pelos próximos anos. Ele esbarraria com Alfred algumas vezes e, em cada uma dessas vezes, o garoto lhe inspirava sentimentos diferentes. Geralmente, Alfred era arrogante, até frio consigo. Mas havia vezes, em que Arthur conseguia ver um breve clarear por trás dos olhos azuis dele. E nessas vezes, o garoto continuava arrogante, mas era diferente. Ele sorria, fazia brincadeiras bobas. E por vezes, olhava para Arthur de um jeito que o fazia estremecer.



Arthur não percebia que eram duas pessoas diferentes. Não percebera que, aos poucos, se apaixonara por uma delas. O problema era que essa pessoa por quem ele se apaixonava se tornava cada dia mais distante. Era como se fosse um anjinho que se isolava cada vez mais para o fundo da mente do garoto, que construía um muro em volta daquela parte de si que ele renegava.



Talvez, em algum lugar no fundo do seu coração, Arthur soubesse que amava Alfred de um jeito diferente. Mas ele ainda tinha medo de assumir essa pequena possibilidade. Procurava não se envolver muito, não se aproximar demais do garoto. Não tinha muito certeza se queria incentivar aqueles sentimentos a crescerem ainda mais, a um ponto em que ele já não pudesse ignorá-los. Então, o loirinho varreu aqueles sentimentos da sua consciência, deixando-os dormir escondidos em um cantinho.



AS CARTAS — Arcano 2



A SACERDOTISA

Entre os dois pilares da luz e das trevas, ou da misericórdia e da severidade, sentada na posição de equilíbrio central, encontramos a Grande Sacerdotisa.


SIGNIFICADO DIVINATÓRIO


Sabedoria. Sagacidade. Bom senso. Cultura. Compreensão. Serenidade. Esclarecimento. Objetividade. Discernimento. Educação. Entendimento. Percepção. Emoções ocultas. Ausência de sentimentos. Relacionamentos platônicos. Tendência para evitar envolvimentos emocionais.



Os próximos anos seriam difíceis...


28 de julho de 1914 – Estoura a primeira guerra mundial.


Notas finais
Bom, aqui temos um pouquinho do Brasil o/ EEE! Bom, se voces quiserem saber mais ou menos como eu imagino o Lu, aí vai: http://26.media.tumblr.com/tumblr_m1ntvsxjgj1qmadlzo1_1280.png Visitem o tumblr askbrazil, tem mais por lá, adoro o trabalho dessa artista xD

A música é Maria Maria, do Milton Nascimento, mas recomendo a versão da Mercedes Sosa ( ta em espanhol, mas é uma bonita versão)

Como já perceberam, essa historia aqui é o mais canon possível, seguindo os fatos históricos, mas eu to pulando algumas coisas ( porque senao iamos ficar pra sempre aqui discutindo historia, o que não é meu objetivo xD)

Estou postando certinho, mas tá dificil e o pessoal disse que tá passando uns erros... Bem, talvez isso atrase um pouco o proximo capitulo, mas nada grave, eu espero.

Como resultado da enquete ( que só alguns responderam porque a maioria ignora as notas finais) temos gilbert e Elizinha! o/ xD Teremos mais enquetes, aguardem xD

Como ninguém le as notas finais mesmo, eu vou é me esbaldar xDDD Agradecimentos a todas as pessoas lindas e maravilhosas que comentaram o capitulo passado! E um beijo especial pra quem recomendou *-* Sintam a indireta, tiia e valquiria xD

Ainda não respondi todos os reviews porque tava tentando postar o capitulo aqui certinho, mas ja to indo la, viu? xD É a primeira vez que entro no nyah desde que eu postei, entao to fazendo tudo agora, mas preferi botar o capitulo logo pra não enrolar mais voces xD Beijo, beijo pessoas lindas!