Boulevard Of Broken Dreams

17 Capítulo 17 - O Enforcado, parte III


Notas iniciais
Agradecimentos super especiais à Ichimoku Riye e Bia Miyazaki, que assim como a Ju, a susipolela, valquiriaclara e tiia recomendaram essa minha historinha besta xD

Arthur perdera a consciência enquanto virava outra noite no quartel general. Fora levado e imediatamente internado, passando algumas semanas em coma. Saído de outra guerra mundial. Dessa vez arrasado e fraco, mas como sempre, sozinho. A europa inteira passava fome. O império britânico existia apenas em livros agora. Ele devia até a alma para os Estados Unidos. As pessoas estavam aliviadas, mas se perguntavam o que seria do dia seguinte. As mães enterravam seus filhos. Filhas enterravam os pais. Pessoas se procuravam e se perdiam. Arthur só podia ficar deitado o dia inteiro. Ele não tinha forças para se levantar ainda. Na verdade, mal sabia a diferença entre estar em coma e estar acordado.

A dor se tornara uma constante em seus dias. Mesmo o monótono quarto de hospital parecia menos repetitivo do que a dor que insistia. Arthur nem mais reagia, apenas se deixando sentir, deixando-se estar ali, jogado em um quarto isolado, esperando uma cura que talvez nunca viesse. Especialmente, esperando alguém que nunca viria. Todas as esperanças que ele costumava ter lhe pareceram tolas e inalcançáveis. Os dias se repetiam e ele não tinha ideia do que seria amanhã. Será que ele sobreviveria?

Mais importante do que isso... ele queria sobreviver?

Da sua cama, Arthur fitou a janela aberta. Um sol fraco e pálido lhe fazia companhia em seu leito. A cama era simples e pequena, em metal pintado de branco. Os lençóis eram ralos e tinham uma cor branca antiga. Havia uma mesa de cabeceira, onde jaziam vários livros que já não conseguiam mais prender a atenção de Arthur. E ao lado, havia uma cadeira, para quem viesse visita-lo. Só que ninguém vinha.

No máximo, chegavam cartas de seus chefes, documentos a assinar. Uma vez ao dia uma enfermeira passava pela porta para ver se ele ainda estava vivo. E isso era tudo.

Não havia ligações, não havia flores nem consolo. Era só ele, sozinho. Quando tinha muita sorte, o que era raro, uma fadinha entrava pela janela e lhe fazia companhia. Só que com o tempo, elas foram ficando cada vez mais raras. Ninguém mais acreditava nelas. Arthur sabia como era. Ninguém mais acreditava nele também.

Com razão. Não havia mais motivos para acreditar em Arthur e ele sabia disso.

O loirinho deu um suspiro pesado, ainda tentando ignorar a agonia que percorria cada pedacinho do seu corpo. Ainda precisava ignorar seu coração, que insistia em lhe maltratar também, doendo, fazendo-o reviver momentos que ele queria esquecer.

Uma enfermeira apareceu, como sempre, averiguando se ele ainda vivia. Notou que as bandagens precisavam ser trocadas, o sangue já manchava a cama. Silenciosamente, ela trocou as ataduras, ao que Arthur procurou ficar quieto. Sibilou quando ela aplicou algum tipo de remédio e tentou não se mexer, não gritar. E principalmente, não chorar, independente do quanto ele estivesse com vontade.

A tortura acabou em alguns minutos e ela deixou a sala novamente. Quando finalmente Arthur se viu sozinho, encolheu-se um pouco, tímidos gemidos de dor deixando seus lábios. Sua mão apertou a área sensível perto do quadril, onde estava o ferimento que mais sangrava. O loirinho sibilou e tentou respirar fundo, mas doía muito. Contra a sua vontade, as lágrimas escaparam quando ele fechou os olhos diante de uma fisgada repentina no ferimento. Ele ofegou e virou na cama, fitando o teto.


- Você deveria ser melhor que isso. – murmurou para si mesmo, uma das mãos tirando as lágrimas do caminho com força.

As horas se passaram quietamente, mas Arthur não fez questão de contá-las. O dia seguinte as traria de volta exatamente na mesma ordem, exatamente do mesmo jeito. Ele permaneceu sentado na cama, olhando vagamente para um ponto na parede branca do hospital. O sol passou pelo meio do céu e começou a descer, mas Arthur não se moveu. Apenas quando o sol morria no horizonte ele voltava seus olhos esverdeados para a janela.

E o sol do fim da tarde o consolava. Não era frio como o sol pela manhã, nem o queimava como sol de meio dia. Era algo morno como um abraço e era o mais próximo que Arthur podia chegar de um, de modo que todo dia ele se virava e por alguns minutos, permitia-se ser envolvido por aquele breve calor.

Ele não podia evitar as lembranças de uma época em que todos os dias ele sentia uma constante e aquecida felicidade, que o acompanhava e envolvia. Quando a enfermeira trazia o jantar, ele não podia evitar as lembranças de uma época em que ele e Alfred dividiam a mesa e conversavam sobre o que o dia lhes trouxera. Quando o quarto era preenchido pelo solitário e metálico som da colher afundando na sopa aguada, ele não podia evitar se lembrar do riso de Alfred, que o fez feliz em outra época e que agora parecia assombrá-lo.

Naquela noite, Arthur fez o mesmo que sempre fazia. Observou e agradeceu à enfermeira responsável e fingia se preparar para comer. No entanto, quando ela fechava a porta, ele simplesmente encarava o prato sem a menor motivação. Ele ouvia algumas crianças suas passando fome. Ele sabia o preço que estava pagando por aquela guerra. E além de tudo, ele se sentia profundamente sozinho e a sensação lhe embrulhava o estômago. Naquela noite, ele fez como sempre fazia. Mergulhou a colher entre os enormes pedaços de verdura boiando sobre a superfície pálida do líquido e depois levantou o talher e a virou, permitindo o líquido ralo voltar ao prato. Ele sabia o gosto que aquilo tinha. Nas primeiras semanas ele se esforçara para comer. No entanto, depois o esforço lhe pareceu sem sentido, então ele passou a ignorar a comida. Ele colocou o prato ao lado da cama e esperou que outra enfermeira levasse. Quando Arthur desistira da comida, convencera uma das enfermeiras a levar a parte dele para a família dela, que provavelmente precisava muito mais do que ele.

A noite avançava e o quarto branco ficava gradualmente mais frio. No entanto, não era o frio noturno que lhe parecia gelar os ossos. Seus próprios sentimentos de solidão e autodesprezo pareciam encharcar-lhe até os ossos em um frio estranho e insistente.

E nesses momentos, ele não conseguia deixar de se lembrar de quando Alfred o abraçara e o protegera quando ele estivera ferido e magoado, em um outro quarto de hospital, em outros dias. As lembranças vinham em sua mente, nítidas como uma foto recente. Ele conseguia ver os olhos claros do garoto, lembrava do calor do abraço dele, sabia como era o perfume que ele usava. Conhecia a voz dele quando sussurrava. Ele sempre se via atingido pelas mesmas belas e insistentes lembranças de algo que não existia mais.

Ele não queria mais se lembrar de Alfred. Porque chegara um momento em que até a bondade dele se tornara simplesmente uma lembrança dolorosa.


Entretanto, o mundo era grande demais e as preocupações do jovem britânico, irrelevantes. Mesmo a melancolia com que ele observava as estrelas era tola, considerando que ele parecia acreditar que a noite era absoluta. Obviamente que não era. Metade do mundo via a clara e abençoada luz do dia. Para outra pessoa, o dia havia apenas começado.

Estava ensolarado e a luz aquecida entrava até a varanda da casa. Iluminava vagamente o cômodo interno devido à parede, que era apenas uma porta de correr coberta com folha de arroz. O chão de madeira combinava com a fragilidade das portas externas e com a quase completa ausência de móveis. Dentro da casa não havia luz alguma acesa. Apenas o primeiro cômodo recebia a luz de fora. O resto estava muito escuro e deserto.

No entanto, a casa não estava deserta. Havia alguém ali. Uma pessoa apenas. Se alguém olhasse de longe, pensaria que era apenas um pequeno garoto. Ele era pequeno, de fato, seus ombros delicados e a pele muito pálida, em contraste com cabelos muito negros. A franja caía sobre o seu olho esquerdo, que era um castanho profundo. Havia um buraco onde seria seu olho direito, o que lhe dava uma aparência mórbida quando ele tentava piscar, a pálpebra tocando o vazio onde estivera seu olho antes. Trajava apenas uma calça branca e coturnos, metade de seu traje militar. Honda Kiku tocou levemente o lado direito de seu tronco. Então recolheu a mão e fitou-a com um olhar vago. Seus dedos pálidos estavam recobertos por pedaços de carne podre.

Lembrava-se com nitidez. Era uma manhã clara e pacífica em uma cidade que ele amava muito. Por volta de seis da manhã, já havia muita vida nas ruas. As crianças passavam correndo e os velhinhos se cumprimentavam pelas portas das lojas e ruas. Basicamente só havia crianças, mulheres e idosos ali. Os homens e jovens rapazes estavam todos muito longe de casa, lutando por uma causa que já não fazia muito sentido. Kiku partiu ainda por volta das seis horas da manhã, pronto para atender mais compromissos de seu trabalho. Já estava longe quando realmente aconteceu. Ele estava na mesma casa que agora. Seus olhos liam com atenção os papéis à sua frente. Quando ele terminou, espreguiçou-se um pouco e suspirou. Um pouco de chá lhe soara bem.

Só que, de repente, um lampejo de luz perpassou seus olhos e os cegou. A luz se tornou quase como chama e ele sentiu os olhos queimarem. Do lado direito com mais força, até que ele sentiu algo estranho escorrendo de seu olho direito. Logo depois, a dor expandiu, irradiando desde o lado direito de seu tronco, que imediatamente começou a queimar de dentro para fora. O grito de dor ficara preso em sua garganta devido ao choque quando encarou o ferimento horrendo que se expandia. Logo, a pele não resistiu e rasgou, revelando que a carne interna fervia e apodrecia, escorrendo pelo seu lado.

Então, ele ouviu. Milhares de pessoas gritando, muitas apenas em pensamento, pegas tão subitamente pela morte que se alastrava, que o grito ficara preso em suas gargantas. Uma pergunta ecoava nas mentes que foram consumidas pelo inferno radioativo. “Por que aqui...?” Era uma grande área civil. Eles não...

Kiku não pôde pensar muito além disso. A dor sobrecarregara seus sentidos e seu corpo se recusou a manter-se consciente. No entanto, não fora como desmaiar. Era como cair em um abismo sem fundo.

Quando despertou, ele estava ali. Exatamente onde estivera quando perdera a consciência. Ele olhou novamente para o próprio tronco e percebeu que era como se estivesse desintegrando. Havia algumas moscas sobre si, vorazes em seu apetite necrófago, que o julgaram morto.

O pânico o invadiu e ele se moveu, trôpego, se arrastando pelo piso, gritando. Seu sangue marcava o piso e ele sentia-se impregnado com o cheiro de morte. Ele removera a parte de cima do uniforme, sacudindo-o e deixando-o para trás. O grito se tornara um choro contínuo e engasgado, desesperado e chocado. Arrastou-se até o cômodo mais isolado da casa, fechando tudo o que podia para evitar que mais insetos o tentassem comer vivo. Encolheu-se em um canto, apoiando-se contra a parede, fitando o chão à sua frente. Sua mente estava vazia. Ele só não queria mais ver ninguém. Na verdade, ele tremia, assustado, temendo que alguém o visse. Porque sabia que a crueldade que lhe seria imposta talvez não tivesse limites.


From morning to night

I stayed out of sight


De manhã até de noite,

Eu fiquei fora de vista


Sua cabeça pendeu para o lado e encostou-se na parede enquanto ele continuou jogado no canto, meramente sentindo dor. Seus olhos não tinham foco algum. Nem ele poderia culpar os insetos que o queriam devorar. Ele não era muito diferente de um cadáver no momento.


Didn’t recognize I’d become

No more than alive

I’d barely survive

In a word... overrun.


Eu não reconheci que tinha me tornado

Não mais do que vivo

Eu mal sobreviveria

Em uma palavra... ultrapassado.


Ele poderia saber o que estava acontecendo. Só que o rapaz não tinha a mínima condição de se mover. Os sons eram apenas um borrão incômodo, que seus sentidos não conseguiam interpretar. Mesmo as imagens eram apenas um estorvo, algo que sobrecarregava seu corpo, que no momento dava tudo o que tinha para interpretar a dor que se espalhava lentamente.


Won’t hear a sound

(He’s curled into the corner)

From my mouth

(But still the screen is flickering)

I’ve spent too long

(With an endless stream of garbage to...)

On the inside out

(....curse the place.)


Não se escutará som algum

(Ele está encolhido no canto)

Da minha boca

(Mas ainda assim a tela está oscilando)

Eu gastei muito tempo

(Num raio de lixo sem fim para...)

Do lado do avesso

(...amaldiçoar o lugar)


Sua visão embaçava em imagens confusas. Sobre seus próprios filhos, muitos deles, vítimas de uma morte tão súbita que deixara apenas sua sombra para trás. Seus corpos sublimaram. Ferveram. As cenas horrendas e grotescas se repetiam. O rapaz ainda não sabia quem era o responsável. Mas sabia que tinha subestimado a que nível a crueldade humana poderia chegar em uma guerra.


My skin is cold

(In a sea of random images)

To the human touch

(The self-destructing animal)

This bleeding heart's

(Waiting for the waves to break)

Not beating much


Minha pele está fria

(Em um mar de imagens aleatórias)

Ao toque humano

(O animal auto-destrutivo)

Esse coração sangrando

(Esperando as ondas quebrarem)

Não está batendo muito...



Arthur viu as gravações. No entanto, a cena era surreal. E ele não podia acreditar. Dentro de poucos quilômetros do raio de alcance da bomba, as pessoas haviam evaporado. Os que estavam mais longe estavam queimados da cabeça aos pés. Alguns sem braços. Outros sem as pernas. Sem metade do rosto. A deformidade e a morte radioativa. O câncer. E ele nem chegara a ver os bebês que nasceriam abortados e disformes pelos próximos anos. Mesmo assim, Arthur se recusou a acreditar no que seus olhos claros viam pela tela.

Ele concordara com aquilo. Reino Unido e Canadá se uniram aos Estados Unidos e criaram o Projeto Manhattan. A ideia inicial era, em último caso, jogar a bomba sobre os alemães. Arthur soubera daquele plano, mas nunca imaginara que seria algo assim. Alfred vivia dizendo coisas impossíveis e fazendo planos infantis. Quando ele dissera que ia fazer os alemães desaparecerem no ar, Arthur não o levara a sério. Nem se interessara em saber mais do projeto. Outras pessoas de seus país talvez tenham se envolvido mais a fundo, mas Arthur Kirkland, não. Ele foi para os campos de batalha e traçou estratégias militares, fazendo como sempre fizera. Esquecera completamente daquilo.

Quando Alfred lhe contou que ia usar a arma contra o Japão, Arthur se assustou. Aquela brincadeira parecia estar saindo dos limites e ele começou a temer pelo seu amigo. Kiku era pequeno, delicado, tinha a voz suave e controlada, gestos comedidos e infinito gosto por flores e chá. Por mais que ele fosse inimigo agora, algo em Arthur reagiu quando ele soube.

Seu pressentimento era justificado. Pela tela, Arthur viu, mas não pôde acreditar.

As lágrimas escorreram sem que ele tivesse controle sobre elas. Seu rosto não expressava dor ou tristeza. Apenas choque.

Era tão difícil de acreditar que ele ainda se sentia... dormente. O tamanho do estrago que estava feito era tão grande que ele não tinha sequer esperança de tentar amenizá-lo. Simplesmente, o remorso o corroía por dentro e a culpa parecia se arrastar dentro de sua garganta. Como se ela se arrastasse em lama, pegajosa, trancando a passagem de ar, seus finos dedos agarrando suas vísceras.

Arthur se sentia doente. Mesmo depois que seus ferimentos melhoraram minimamente e ele pôde voltar às reuniões, ele ainda se sentia doente. Toda vez que ele olhava para aqueles olhos claros maculados e chafurdando em cobiça e sentimentos negativos, ele se sabia culpado. Quando Alfred entrou naquela sala, Arthur desviou o olhar novamente. Aquela vinha sendo sua saída para aquela agonia constante a que sua consciência o submetia.

Apenas ouvindo a voz dele e as mentiras doces e bonitas que ele inventava com seu tom infantil e seu fingimento de jeito atrapalhado já era o suficiente. Já doía o suficiente sem que ele tivesse que se lembrar de que tinha estragado a própria felicidade e a da pessoa que ele mais amava. Era como se ele fosse amaldiçoado e tudo o que ele tocasse estivesse condenado.

Três dias depois da primeira, os Estados Unidos lançaram a segunda bomba. Outro distrito civil.

- Little boy e Fat boy... Eles fizeram um bom trabalho, não é? – Alfred sorriu, de braços cruzados, analisando alguns papéis. A segunda bomba não caiu exatamente onde ele queria, mas o Japão tinha rendido e ele sabia que a maioria dos países tremia ao ouvir o seu nome. Algumas fotos foram passando de mão em mão enquanto o americano revisava os dados.

Arthur não conseguiu conter a ânsia de vômito. Ele saiu da sala e correu até o banheiro, revirando o seu estômago para fora, com acessos de tosse seca, profundamente enojado, culpado, doente até o fundo da alma. Por Deus... Eles deram um nome para aquilo. A invenção que trouxera o inferno radioativo tinha nome. Como se fossem crianças.

Sua cabeça se ergueu e ele fitou a própria expressão mortificada. Seus olhos verdes estavam irritados e ele suava frio. Suas mãos seguraram o mármore da pia com força, seus braços tremiam. Como as coisas tinham chegado àquele ponto?

Suas mãos soltaram a pedra fria e foram até seus cabelos loiros bagunçados, puxando-os para trás com força, ainda fitando sua figura aterrorizada no espelho. Como ele tinha chegado àquele ponto? Não bastava a dor? Não bastava o quanto de sangue que já fora derramado? Os ferimentos abertos em seu tronco e em suas mãos, não eram o suficiente? Não bastava ele destruir qualquer um que o amasse? Ele ainda teria que engolir a culpa que o engasgava e o nojo que ele sentia toda vez que se olhava no espelho?

Respirou fundo, tentando clarear a mente e afastar os sentimentos que o sufocavam. Ele precisava voltar para a sala de reuniões.

Foi um pouco vacilante que ele saiu e andou de volta até a sala. No entanto, seu passo estancou quando ele viu um rapaz ao longe.

- Honda...

O rapaz trazia algumas bandagens escondendo um dos olhos. O único olho visível era bem sem expressão, quase fosco. Seu rosto também parecia evitar denotar qualquer sentimento. Quando ele sentiu Arthur se aproximar, fitou-o e deixou-lhe um sorriso pequeno, vazio e educado. Recusou-se a dizer qualquer coisa. Seus chefes deixaram claro o que aquela rendição significava. Era humilhar-se para os Estados Unidos. Seu exército imperial, que nunca tinha perdido uma única batalha, estava banido. Fora proibido e tropas norte-americanas se instalaram em seu território. Ele estaria naquela reunião por formalidade. Ele sabia que nunca seria ouvido e que falar talvez fosse algo muito arriscado. Seus dedos apenas encontraram a maçaneta da sala e a abriu quietamente.

I murmured a vow of silence and now

I don't even hear when I think aloud

Extinguished by the light I turn on the night

Wear its darkness with an empty smile


Eu murmurei um voto de silêncio e agora

Eu não ouço mesmo quando penso alto

Extinto pela luz, eu acendo a noite

Visto sua escuridão com um sorriso vazio


Arthur entrou logo atrás dele. Os olhares da sala se voltaram para os dois, a exceção de Alfred, que ainda lia algumas folhas de dados. Kiku andou devagar até uma cadeira vazia. A dor o confundia e ele mal enxergava as pessoas naquela sala. Seus sentimentos eram difusos e a cada passo ele sentia um pouco do ferimento abrir. Sua determinação apenas que o manteve consciente ali. Seu corpo já havia sobrecarregado com a quantidade de dor crescente que ele suportava. No entanto, ainda havia algum orgulho nele e, mesmo que lentamente, ele se reerguia.

I'm creeping back to life

My nervous system all awry

I'm wearing the inside out


Eu estou me arrastando de volta à vida

Meu sistema nervoso está todo desregulado

Eu estou do lado do avesso.


Arthur conseguia sentir o cheiro de morte que permeava o rapaz. Seu olhar se desviou. Um rapaz com nome de flor, mas que cheirava à podridão. Aquela guerra tinha pervertido o mundo.

Kiku conseguia ouvir os murmúrios e cochichos dos outros países. No entanto, ele permanecia absolutamente inerte. Seus cabelos muito negros caíam lisos como seda e faziam contraste com sua pele pálida e com as bandagens que cobriam um de seus olhos. O outro olho castanho não olhava para lugar algum em especial. Todo o seu esforço se focava em mantê-lo sentado, com uma postura decente e aparentemente consciente. Os cochichos que preencheram a sala não lhe chamaram a atenção e ele os ignorou.

Look at him now

He's paler somehow

But he's coming around


Olhe para ele agora

Ele está mais pálido de algum jeito

Mas está voltando a si.


-Heyy! Japão! – Alfred acenou da cabeceira da mesa. Ivan estava na cabeceira oposta, ouvindo-o com alguma impaciente oculta em sua expressão suave. Kiku virou a cabeça lentamente e seu olhar recaiu vagamente sobre o outro rapaz.

- Que bom que você resolveu parar com aquela estupidez! E não se preocupe. Minhas tropas estão lá para te proteger, você não precisa mais de um exército, o herói vai estar lá por você! Eu te perdoo por ter acabado com as preciosas vidas dos meus jovens em Pearl Harbor, eu sou um cara legal e vou te proteger. – o olhar de Alfred dirigiu-se para Ivan. – É muito bom estar do meu lado, você entende...

Arthur olhou o garoto com incredulidade. O resto da sala ficou em completo silêncio, a maioria com a expressão tão mortificada quanto a do loirinho. No entanto, todos os olhares se voltaram quando ouviram uma voz baixa e suave, frágil e levemente trêmula se manifestar.

- Eu concordo... com o América. – e o garoto com nome de flor não olhou nos olhos de ninguém. Seus lábios mal se moveram e o rapaz engasgou, mas ele disse o que sabia que precisaria dizer se quisesse viver.

He's starting to choke

It's been so long since he spoke


Ele está começando a engasgar

Faz tanto tempo desde que ele falou


- É muito bom concordar comigo, Japão... – o garoto sorriu de lado com alguma satisfação. – Afinal, eu sei o que é bom para o mundo, você sabe...

O olhar do outro rapaz foi vago e ele teria dado de ombros se conseguisse se mover no momento. Já não importava mais.

Well he can have the words right from my mouth

Bem, ele pode ficar com as palavras da minha boca.


Alguém bateu à porta e ela entreabriu, revelando um dos empregados responsáveis por prover as nações naquele encontro.

- O coffebreak já foi servido. O horário do intervalo previsto já começou, quando os senhores quiserem, por favor sigam para a sala no terceiro andar. A reunião continuará na sala 4, onde serviremos o café. Com licença.


Todos se retiraram da sala, à exceção de Arthur e Kiku. Nenhuma palavra foi trocada entre eles. Nenhum deles tinha estômago para comer qualquer coisa no momento. Não havia o que ser dito. Arthur não conseguia pensar no que dizer em um momento como aquele. Simplesmente esperou o intervalo terminar e ofereceu a mão ao outro rapaz para ajudá-lo a chegar à outra sala. Educadamente, ele lhe disse que não era preciso. Os dois caminharam lentamente pelo corredor, feridos e silenciosos.

Arthur ocupou a cadeira ao lado de Kiku. Alguns minutos depois, um bilhete chegou, passando de mão em mão por baixo da mesa.

Era um poema.

Estava escrito duas vezes. A primeira, em português e vinha assinada pelo brasileiro. A segunda, estava em inglês, o que capacitava qualquer um ali a ler. Os olhos esverdeados de Arthur percorreram as linhas e ele sentiu a garganta apertar.

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas, ah, não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A anti-rosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa, sem nada


Arthur engoliu em seco e passou o bilhete para o seu verdadeiro destinatário. E o garoto com nome de flor percorreu aquelas linhas. Ao fim, apoiou os cotovelos na mesa e escondeu o rosto entre as mãos. Finalmente, ele reagiu como lhe era de direito. Como que se tivesse sido liberto de uma responsabilidade invisível de ser forte, ele soltou um suspiro trêmulo. Seus ombros pequenos tremeram e ele começou a chorar. Arthur conseguia ver as lágrimas caindo como chuva fria de inverno sobre o vidro da mesa. Em absoluto silêncio, o rapaz finalmente conseguiu chorar pelas crianças que perdera.

O loirinho engoliu em seco e conteve as próprias lágrimas. Ele não tinha direito de chorar. Não olhou para o rapaz ao seu lado. Era um momento pessoal dele e que Arthur não tinha o direito de olhar. Seus olhos vagaram pela mesa. Logo, achou o autor do bilhete. Ele estava com os olhos um pouco vermelhos e parecia ter chorado durante o breve intervalo. Ao lado dele, estava o português, seu ex-tutor. Quando os dois viram o pequeno Kiku em lágrimas, o mais novo desviou o olhar, um tanto incerto se tinha feito o certo. O mais velho, no entanto, sorriu de lado e lhe bagunçou os cabelos, voltando a prestar atenção à reunião em seguida.

Arthur notou que o bilhete fora passado de modo que não fosse lido por Alfred naquele momento. Uma hora ele saberia e provavelmente não ligaria, mas não seria ali que ele leria aquilo.


As reuniões prosseguiram no mesmo ritmo estranho por aqueles anos. Seis meses depois do lançamento da bomba atômica, A União soviética já possuía uma igual. O muro de Berlin subiu e separou a Alemanha, tornando-se quase um símbolo daquele mundo bipolar.

E enquanto isso, a Europa ainda lutava para se reerguer totalmente. Arthur ainda levava no corpo muitos ferimentos abertos, que ainda não tinham cicatrizado. Em muitas reuniões, ele não estava ouvindo o que se passava. Meramente sentava ali, de braços cruzados, verdadeiramente exausto e pouco disposto a falar qualquer coisa. Não funcionaria, de qualquer forma. Ele já desistira de tentar buscar de volta o seu garoto. Talvez fosse temporário, talvez o tivesse perdido para sempre... Arthur não tinha certeza. O fato é que ele não se sentia capaz. Ele mal suportava olhar Alfred nos olhos e não reconhecê-lo mais.

Isso porque a guerra fria estava apenas começando.


SIGNIFICADO DIVINATÓRIO


Vida em suspensão. Transição. Mudança.(reversão da mente e da maneira de viver. Num sendido passivo, a apatia e a inércia. Tédio. Abandono. Renúncia. As mudanças das forças da vida. período de trégua entre acontecimentos significativos. Sacrifício. Arrependimento. Reajustamento. Terão que ser feitos esforços para que a pessoa possa rumar para um objetivo, que mesmo assim talvez não seja alcançado. Regeneração. Rendição. Falta de progresso. Uma pausa na vida. Fatores externos que têm forte influência. Você talvez se sacrifique demais. Seus sacrifícios talvez não sejam apreciados.



Notas finais
Oláá! :D Vamos agora à minha interminável sessão de explicações xDD (mentira, é rápido xD)
A música do capítulo é Wearing the Inside out, Pink Floyd. (http://letras.mus.br/pink-floyd/109954/traducao.html)-> pra quem tiver a fim de dar uma olhadinha xD E o poema, acho que a maioria sabe, mas é Rosa de Hiroshima, Vinicius de Morais. Nenhuma delas me pertence, em nada, nada, nada. Só peguei emprestado porque as amo muito, assim como emprestei Hetalia xD E essa fic não tem fins lucrativos, não me processem, please kkkkkkk
Bom, no fundo, as bombas foram o começo comeeeeço da guerra fria. Afinal, como eu escrevi, seis meses depois a URSS já tinha a dela. Por isso os rumores de que ela já sabia da bomba antes do lançamento. Como todos sabem a espionagem soviética é incrível u.u Eles deixaram os americanos soltarem e depois roubaram o projeto kkkkkkkkkk Ou ao menos é o que contam por aí os historiadores. Enfim, eu não sei até onde é verdade, onde não é, não sou agente secreto nem tenho vontade de ser xD
Ah e alguém perguntou se as cartas sao verdadeiras! São sim, os significados e os símbolos. Jogue no google e divirta-se, tarot tem umas coisas bem interessantes xD
Fora isso, eu agradeço muitissimo a Ichimoku riye, lolies-chan, invisibleJu, Biaa, Labi, Shin no tamashi, Cath e Lirium por terem comentado capítulo passado! o/o/ Obrigada, vocês fazem a vida de ficwritter valer a pela *-* E, mais uma vez, obrigada a quem recomendou essa fic *-* Sério, vocês fazem isso aqui valer a pena xD E me inspiram pros próximos capítulos xD Vou lá responder, aliás! Enfim, deixa eu calar a boca xDD Beijo, beijo! :DD