Boulevard Of Broken Dreams
19 Capítulo 19 - A Força
Notas iniciais
Ahh e um super beijo para Labi, minha portuguesinha maravilhosa, que está me ajudando a descobrir quem é o Senhor Afonso xD (explicarei melhor nas notas finais, vamos ao capítulo xD)
Alfred não soltou Arthur por nenhum momento naquela noite. Tampouco dormiu. As horas se passaram lentamente e o veludo azul escuro cheio de diamantes que formava o céu noturno logo se tornou uma profusão de cores. Primeiro azul claro, então rosa, vermelho, alaranjado e, finalmente, o sol. O anjo viria a qualquer momento.
Nervoso demais para continuar deitado àquela altura, Alfred sentou-se na cama, afastando alguns fios dourados da frente dos olhos de um Arthur que dormia. Ele ainda estava quente, mas a febre parecia começar a ceder.
O sol não durou muito, sendo logo coberto por algumas nuvens. No entanto, as nuvens não conseguiam conter a luminosidade excessiva, ao que Arthur remexeu incomodado, fechando um pouco a expressão. Alfred levantou e puxou as cortinas completamente, vedando o máximo de claridade possível. Mal dava para saber se era dia ou noite daquela forma. Voltou à beirada da cama, vendo que a expressão de Arthur suavizara e ele continuara a respirar ritmicamente.
Alfred fitou-o por alguns momentos. Ele era... simplesmente adorável dormindo. Ainda que sua expressão não relaxasse completamente, seus lábios entreabriram e ele respirava quietamente por entre eles. Os cabelos claros eram curtos e um tanto bagunçados, mas a cor deles acentuava as feições para um lado mais angelical. Além disso, dormia um pouco de lado, levemente encolhido, fazendo-o parecer menor.
Era uma coisa difícil tentar associar a imagem de Arthur ao grande Império Britânico. Ao Reino Unido em si. Quanto sangue ele já não derramara? Guerras civis, guerras mundiais, decapitações... Ele não conseguia imaginar aquilo. Ele não conseguia imaginar alguém como Arthur por trás da guerra do ópio. Como poderia? Como imaginar o loirinho distribuindo uma droga tão letal e tão viciante a um povo, para fazê-lo sucumbir aos seus interesses? Como imaginar aquele rapaz febril, adormecido sob a luz suave da manhã, executando pessoas? Traficando escravos?
Não, aquilo não era Arthur. Mas então, quem era?
Seu polegar fez carinho devagar sobre a bochecha do loirinho, que se mexeu um pouco. No entanto, o carinho era confortável e delicado, então ele continuou a dormir. Alfred engoliu em seco. Se ele pudesse desejar alguma coisa, do fundo do coração, ele desejaria que Arthur ficasse livre de ser uma nação. Ele merecia uma vida bem melhor que aquela, com certeza.
Quando o anjo veio, assistiu a despedida silenciosa dos dois amantes. Amantes apenas no sentido de que se amavam, porque nunca haviam verdadeiramente provado um do outro. Mesmo assim, o olhar de Alfred era mais triste que a maioria dos amantes. Sua mão afastou a franja do outro da frente de seu rosto. E o beijo pousou apenas na testa de Arthur, parte por devoção, parte por respeito e parte por despedida. Mas quando sua mão fez menção de se afastar, o loirinho segurou-a. Alfred sentiu o coração bater contra a garganta. O outro meramente dormia, alheio ao mundo.
Foi com imensa tristeza que Alfred desvencilhou-se da mão de Arthur e acompanhou o anjo.
Quando o loirinho acordou, não teve certeza ao certo de que horas eram. Alguém havia gentilmente fechado as cortinas, impedindo que a luminosidade o acordasse e, portanto, impedindo-o de saber a que altura do dia estava. Ainda sentindo a cabeça meio pesada, ele se arrastou na cama e tateou a mesa de cabeceira, checando seu relógio de pulso. Este lhe informou que já eram dez e meia. Com um suspiro frustrado, ele rolou na cama, afundando o rosto no outro travesseiro. O tecido tinha um aroma levemente mentolado, que não deveria estar ali.
Com o perfume, a noite passada lhe veio à mente de uma vez. Alfred.
Arthur sentou-se na cama, uma mão arrastando os cabelos para trás enquanto ele tentava raciocinar. Havia ainda a pilha de livros que ele olhara na noite passada e alguns estilhaços em sua cabeceira. Agradeceu mentalmente o fato de que não se cortara com eles ao tentar alcançar o seu relógio. Fitou o lado vazio na cama.
Aí o que aconteceu em seguida foi algo automático. Ele não estava realmente pensando quando voltou a deitar, agora no travesseiro adjacente ao seu. Não fora exatamente proposital, mas ele inspirou fundo. No entanto, sua consciência questionou a tolice do que ele fazia, de modo que ele se afastou rapidamente, como se o travesseiro tivesse lhe dado um choque, virando para o outro lado.
Seu coração martelou com força contra o seu peito e ele respirou fundo, tentando se acalmar. Ele se sentia levemente eufórico, ao mesmo tempo em que angustiado. Euforia, que fazia seu coração disparar em lembrança de como dormira abraçado ao outro. Mas certa angústia porque talvez nunca o visse de novo. Havia ainda certo embaraço por estar agindo daquela forma. Ao mesmo tempo que havia contentamento por tê-lo feito. Era um outro sentimento que agora se misturava ao sentimento terno que ele descobrira. Era algo eufórico e fugaz que se somava ao sentimento aquecido e doce, duradouro e profundo que ocupava seu peito.
Ele se encontrava naquele momento estranho e crucial em que paixão e amor coexistiam e ambos pareciam trabalhar juntos para confundi-lo.
Arthur levantou-se rapidamente, decidido a tomar um banho e ignorar a quantidade torrencial de sentimentos que pareciam ter tomado seu coração. Sentiu as bochechas esquentaram quando lembrou-se de que deixara o garoto abraçá-lo. Por que fizera algo assim? Era totalmente inapropriado e vergonhoso! Suas faces ficaram ainda mais avermelhadas. Não queria voltar a ver Alfred tão cedo depois da cena que fizera no dia anterior.
Sem contar que ele não estava muito certo sobre o que deveria pensar sobre o dia anterior. Arthur não sabia bem como deveria... interpretar o que acontecera. Era confuso demais. Até onde ele deveria levar Alfred a sério? Todo mundo sabia que ele fazia brincadeiras fora de hora. Até onde ele podia acreditar na própria capacidade de julgamento? Arthur sempre confiara nos próprios pensamentos, mas agora... ele nunca podia ter certeza. E se ele estivesse simplesmente se iludindo? E se aquela torrente de sentimentos confusos o estivesse cegando?
Arthur tinha quase pânico da ideia de acreditar em algo com todas as suas forças. E se ele estivesse se enganando? Ele já tinha problemas o suficiente sem ter que lidar com mais esperanças perdidas.
As roupas ficaram no chão do banheiro e Arthur se encarou no largo espelho.
Seus olhos verdes encontraram seu reflexo. Seu rosto era daquele jeito desde que ele podia se lembrar. Havia algumas lembranças borradas de sua infância, mas fora um período triste e violento, que ele se esforçara para esquecer. Guerras demais, mortes demais, insegurança, medo das invasões constantes. Lembrava-se vagamente de ser uma criança esquisita e rejeitada. De ter sido rechaçado pelas sobrancelhas estranhas que contrastavam com o cabelo muito claro e muito bagunçado. Sabia que era desajeitado e pequeno e que ninguém particularmente gostava da sua pessoa.
Seus olhos claros se voltaram para a imagem atual. Lentamente, ele desfez as bandagens que Alfred fizera, revelando as costas e o tronco nus. Seus olhos encararam a imagem. Aquela sim tinha sido a imagem que o acompanhara desde muito tempo. Fora com aquela mesma face que ele unificou a grã-bretanha sob o seu comando, que ele fundou um império e tornou-se quem ele era. Derramara sim muito sangue e enriquecera seu país. Arthur tinha crescido, seu corpo tinha alongado e os músculos haviam delineado. Ainda que a pele continuasse pálida e seus ossos ainda fossem evidentes, fazendo-o parecer um tanto magro demais. No entanto, havia um apelo sensual inegável ali e ele o usara a seu favor incontáveis vezes. Prazer era algo que qualquer um podia lhe oferecer e ele de muito bom grado aceitara várias vezes.
Mas o que existia além daquilo?
Seu corpo estava marcado com centenas de cicatrizes. Muitas delas tornando-se brancas com o tempo, outras, mais recentes, ainda levemente violáceas e vermelhas. Ele virou-se um pouco de lado e notou o estrago que os estilhaços fizeram em suas costas. Muitos cortes feios somavam-se às cicatrizes antigas e aos ferimentos que cicatrizam da guerra mais recente. Seus olhos desceram e fitaram o piso frio abaixo de seus pés. A bandagem ensanguentada repousava sobre o ladrilho branco. Por que Alfred se dera ao trabalho? O espelho à sua frente lhe dizia que seu corpo estava em pedaços. E seu corpo fora o que atraíra as pessoas desde sempre. Quem olharia para o rosto esquisito que ele tinha?
Suas íris esverdeadas se encontraram novamente no espelho. Havia algumas lágrimas ali e Arthur ficou verdadeiramente estupefato com a pessoa que estava ali. Seus olhos verdes pareceram quase translúcidos, claros como, por vezes, ele reparara que os olhos de Alfred ficavam. Era límpido como uma gota de orvalho.
Sem seu uniforme militar, sem medalhas de guerra, sem declarações políticas na ponta da língua.
Quem era Arthur Kirkland?
Alfred desencadeara uma sucessão de eventos que nem mesmo ele poderia prever. Quem imaginaria que apenas por amar alguém e sem nem ao menos lhe contar se poderia fazer essa pessoa mudar tanto? Arthur vinha descobrindo aquela pessoa à parte que ele era, descobrindo sonhos que ele julgava não ter.
Arthur ficava cada vez mais livre, cada vez mais ele mesmo. No entanto, também ficava cada vez mais solitário. E não era como se ele soubesse como lidar com aquilo. Ele conhecia o orgulho, não necessariamente a auto-estima. Ele conhecia o respeito alheio, não necessariamente fora amado. Então, como amar aquela pessoa que ele estava se tornando?
Ele não sabia. Por isso, sentia-se estranhamento solitário. Ele queria entender e, ao mesmo tempo, não queria. Arthur não era alguém que gostava de mudar coisa alguma se podia evitar. Ele não queria aceitar que seus sentimentos mudaram e não queria aceitar que ele mesmo havia sido mudado pela maneira como Alfred agia. Não queria admitir que o fato de Alfred olhá-lo nos olhos, beijar-lhe o rosto, era algo que o havia feito mudar. Era algo que o deixava feliz, ainda que ele não conseguisse entender o motivo. Arthur sentia-se magoado.
Não era o amor que o machucava. Mas o fato de que ele tinha a irritante mania de provar que ele estava errado sobre muitas coisas. Porque ao mesmo tempo em que Arthur se odiava, aquele sentimento inútil o fazia querer que alguém em particular o amasse. Ao mesmo tempo em que Arthur se convencera de que nada além da ambição existia e de que era bem melhor ficar longe das pessoas, aquele sentimento insistia em lhe mostrar que existia felicidade e doçura em se ter alguém ao seu lado. E o conflito entre seus ideais antigos e o que os fatos lhe mostravam agora o confundiam. Não fora o amor responsável por machucá-lo aquele nível. Mas sua resistência em acolhê-lo certamente o ferira. Assim como feriu Alfred, sem que Arthur sequer tivesse conhecimento disso.
No entanto, toda aquela mágoa e todo o caos em que seu coração se encontrava não eram suficientes para fazer com que o sentimento minguasse. Ele ainda queria o abraço de Alfred. O abraço daquele garoto ainda era o melhor lugar do mundo inteirinho. As palavras bobas, os toques delicados, os olhares de quase cumplicidade.
Arthur negava, mas, no fundo, ele queria ter aquela pessoa ao seu lado.
Havia sim, alguma expectativa por parte de Arthur quando ele avistou um rapaz alto de olhos azuis na sala de conferências. Quanto o rapaz sentou-se na cadeira que indicava “Estados Unidos da América” Arthur ainda o fitava um tanto esperançoso. Era um tanto embaraçante, mas seus olhos procuraram os dele e seus braços possivelmente ainda o queriam para si.
No entanto, o outro rapaz não retornou o olhar. A reunião iniciou como se nada tivesse acontecido.
Havia, entretanto, algo de diferente nos olhos azuis do outro. Ao mesmo tempo em que não estavam claros como deveriam ser, também não estavam sombrios como haviam estado antes. O anjo protegera Alfred o melhor que pudera, conseguindo trazê-lo de volta intacto. No entanto, trouxera-o adormecido e assim o deixara. O garoto esperaria então uma oportunidade, um momento em que poderia voltar a si. Até lá, o loirinho teria de aprender a conviver com a ausência de Alfred. Com a ideia de que talvez nunca mais o visse.
Essa era uma tentativa quase desesperada do anjo para que Arthur valorizasse as chances que tinha de ficar perto do garoto. Para que ele enxergasse que não podia se dar por derrotado sem tentar. Porque pensar que Alfred nunca o amaria e, portanto, não confessar seus sentimentos a ele era como admitir derrota sem nem ter pisado no campo de batalha. Ele só não contara o afinco com que Arthur fugiria da questão.
Com o decorrer dos dias, outros problemas surgiram na vida Arthur, ocupando-o e desviando sua atenção de seus problemas pessoais.
Não havia como negar que seu império colonial decaíra e seus dividendos não eram mais tão rentáveis. Assim sendo, o Reino Unido voltou seus olhos para a europa, uma vez que o mundo não mais estava mais ao seu serviço.
No entanto, as reuniões acerca do que viria a se tornar a União Européia andavam um tanto travadas para o lado de Arthur. Ao mesmo tempo em que queriam a economia do Reino Unido fortalecendo o novo bloco econômico, ainda o viam com extrema desconfiança. A França de modo especial.
- Arthur, por que logo agora você quer ficar amigo da gente? – resmungou Francis, cruzando os braços e jogando os papéis sobre a mesa. – Por que você não continua na sua e nos poupa da sua presença?
- Francis... – a voz do alemão veio um tanto alerta. – ele é uma grande economia. A comunidade europeia do carvão e do aço funcionou bem e, comigo, Itália, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e você, já estabelecemos o Mercado Comum Europeu. Lembra, 1957? O Reino Unido é parte da Europa e vai dar força para a gente. – disse, prático como sempre.
O francês bufou, ajeitando uma mecha para trás da orelha nervosamente.
- Sim, Ludwig, mas você também não pode esquecer de para que estamos nos unindo. – seu olhar azul foi sério e dirigiu-se para os demais países na mesa. – Nós decidimos deixar as diferenças um pouco de lado e isso inclui perdoar vocês, mesmo que tenham estado contra nós durante a Segunda Guerra. Nós nos esforçamos por tratados regionais e a comunidade do carvão e do aço surgiu principalmente para ajudar a reconstruir o que a guerra arrasou. Vocês sabem tão bem quanto eu que a Europa perdeu destaque. Nós estávamos divididos e acabamos nos enfraquecendo. Essa união da europa agora somos nós dizendo ao mundo que somos competitivos, que ainda temos voz na política internacional. – seu olhar recaiu sobre Arthur. – Que nós ainda podemos fazer frente aos Estados Unidos. Entendem agora? Meu chefe vê com muita desconfiança a entrada dos britânicos no bloco. Vocês sabem sobre... como era o nome? – a hesitação foi completamente irônica e Arthur corou porque sabia o que viria. – Special Relationship. O relacionamento tão especial entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. É... muito especial pelo o que vejo. – seu olhar claro foi de desdém e ele apontou para Arthur acusadoramente. – Ele vai ser nada mais que porta-voz dos interesses americanos aqui na Europa. Ninguém vê? Ele só vai nos atrapalhar! – disse, exasperado, irritado com a discussão.
- Francis, seja realista. – Arthur cruzou os braços e sua postura era altiva, ainda que defensiva. Era assim toda vez que ele se sentia acuado ou magoado. – Vocês precisam de mim, quer gostem ou não.
- Honhon, nenhum de nós gosta de você, Inglaterra, fique sossegado. – o olhar foi frio e as palavras, verdadeiras.
- Não perguntei se gostam de mim. A verdade é que vocês precisam de mim. Pra mim pouco importa o que você acha ou deixa de achar. – seu olhar verde era sério e afiado. — Assim que o seu chefe sair pode ter certeza que eu vou estar dentro do acordo. – seus braços continuavam cruzados e um meio sorriso surgiu em seus lábios. – E não pensem que eu não vou fazer exigências. Eu não me juntaria a vocês de graça. Aliás, gostaria de não ter que fazer isso nunca, vocês bem sabem que eu não acredito nessa história de europa juntinha como se fôssemos amigos. Mas, muito bem, vamos ver onde isso vai chegar. — um silêncio pesado e desagradável seguiu-se às palavras do britânico.
Um funcionário bateu a porta e anunciou o coffe break. O clima tenso perdurou enquanto os participantes da reunião lentamente deixavam a sala e se dirigiam ao salão.
Arthur organizou seus papéis e se levantou com toda a dignidade que tinha. Quem o olhava de fora, achava que ele era forte e seguro como o leão que acompanhava a Bretanha nas estátuas que se espalhavam pela Inglaterra. Ele não permitia que ninguém visse quem ele verdadeiramente era. Ele não confiava a ninguém suas dúvidas e inseguranças.
Exceto... Alfred.
- Hey, Inglaterra. – a voz do francês soou e os dois se encararam. – Você não é bem vindo.
- Há, como se eu precisasse das boas vindas de algum de vocês. – o sorriso veio torto e cínico.
- Você acha que ninguém percebe como o seu governo fica cheio de agrados para aqueles americanos? – o francês se levantou, olhando Arthur de cima, aproveitando-se da diferença de poucos centímetros. – Aposto que você apóia isso também. Afinal, você nunca admitiu a humilhação de ter perdido para o Alfred quando ele era só um pirralho.
- Você fique fora disso. – Arthur não gostava de lembrar daquilo e gostava menos ainda do tom jocoso com que o outro tratava suas lembranças. Aquele período significara muito mais para ele do que qualquer além de si mesmo e Alfred podiam saber.
- Você acha que se bancar o cachorro deles o Alfred vai voltar para você? – a risada do francês veio, cheia de ressentimento sobre muitos assuntos que nunca foram resolvidos entre os dois.
- Eu não sei do que você está falando. – o tom foi calculadamente monótono, de modo a realmente irritar o outro. Seus olhos verdes direcionaram um olhar ainda mais cínico. – Se você quiser competir sobre esse aspecto, sugiro que lembre... A quem mesmo o Matthew considera como família? Você? Ah, não, me desculpe, parece que sou eu. – seu sorriso alargou.
- Você não abra a boca para falar do Matthew. – a voz do francês tremeu de ódio e os dois se encararam.
- Então eu sugiro que você não abra a boca para falar de mim e do Alfred. – ainda que o tom tenha continuado frio, o coração de Arthur bateu com força quando ele se ouviu falando aquelas palavras. Por que ele não podia admitir que alguém sequer falasse do seu garoto?
- Admita, Arthur, você quer é chamar a atenção dele, porque é um velhote solitário que já perdeu a forma. Só aquele garoto estúpido gosta de você e isso porque ele não consegue enxergar que você é a criatura mais sem graça e medíocre que já pos os pés no mundo! – Francis disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça, decididamente irritado, querendo atingir o outro. Matthew era diferente das outras pessoas e o francês se importava com ele. Nunca perdoara o inglês por ter tomado dele a única pessoa que ele realmente adorara.
- Você tenha cuidado com a língua, desgraçado. — a voz do britânico veio em tom de ameaça, mas o francês riu.
- Acha que pode disciplinar alguém? — não havia como se intimidar. Ele vira Arthur chorar e se oferecer como uma prostituta quando Alfred o deixara. Francis achava que fora por orgulho, mas, independente das razões, sabia que o outro não era tão forte quanto queria demonstrar. — Arthur, esqueceu? Você é pior que a vagabunda mais barata que alguém poderia comprar no cais. — imediatamente um tapa atingiu-lhe com força, calando o que quer que ele fosse dizer depois.
Arthur estava acostumado com as constantes discussões com as demais nações europeias, mas não podia negar que estava magoado daquela vez. Ele não ligava para a maioria do que aquele francês falava, mas o assunto Alfred ainda era delicado para si. Ele ainda era excessivamente inseguro acerca do garoto e dos sentimentos que tinha por ele. Futuramente, Francis veria Alfred chorando no banheiro por ter discutido com Arthur de novo. E nesse futuro, ele ficaria com pena e ajudaria o garoto, em parte para redimir sua culpa no assunto. Afinal, ele fomentara sentimentos de inferioridade em Arthur, que viriam a convencê-lo de que Alfred nunca o amaria.
Palavras ditas na raiva, descuidadamente, tinham o estranho costume de ferir gente demais. Ainda que palavras não devessem significar tanto, elas significavam. Elas magoavam e feriam e não havia como retirá-las, uma vez ditas. O estrago estava feito.
A porta da sala se abriu, revelando Ludwig, que chegara um pouco adiantado do fim do coffebreak, com Feliciano a tiracolo. O italiano despreocupadamente ocupou sua cadeira, seguido do alemão, que olhava Francis e Arthur levemente preocupado.
Arthur respirou fundo, apertando os olhos entre o indicador e o polegar.
- Desculpe, senhores, vamos voltar à reunião.
Quando finalmente a reunião terminou, Arthur suspirou aliviado, recolhendo seus papéis e afastando sua cadeira. Algumas nações conversavam cordialmente entre si enquanto a sala ia se esvaziando. O britânico também saiu, andando a passos largos pela multidão no corredor. No prédio aconteciam várias reuniões simultâneas, aproveitando a semana em que havia conferência entre todas as nações. Havia salas menores, que suportavam eventos com número reduzido de nações e as salas mestras, para os encontros globais. Normalmente todas as conferências aconteciam no mesmo prédio. Logo, os corredores estavam muito cheios, dificultando a circulação.
Arthur, em meio à multidão, acabou esbarrando em alguém. Reconheceu um rapaz de pele cor de mel e olhos castanhos profundos, um tanto claros, que contrastavam com cabelos muito pretos. O loirinho quase sorriu diante do conhecido, mas imediatamente mudou de ideia quando percebeu o quão acuado ele parecia.
- O que...? – a pergunta começou, mas o brasileiro não parecia querer responder coisa alguma, de modo que murmurou um pedido de desculpas e correu por entre as pessoas.
Algo no tom dele e no olhar que ele tinha incomodou Arthur de algum jeito. Desde que ele podia se lembrar, Luciano era extremamente vivaz e sorridente, dizia o que lhe vinha à cabeça. Demorou alguns minutos até que Arthur lembrasse porque seu amigo estava tão reticente e porque evitava falar demais.
Quando o brasileiro finalmente viu-se em casa de novo, deixou escapar um suspiro. No entanto, antes que ele pudesse realmente pensar em ficar aliviado, um militar veio cumprimentá-lo e saber tudo sobre a reunião. Luciano respondia, ainda que estivesse visivelmente tenso.
A ditadura militar já durava dez anos no Brasil.
Claro que ele sentia a insegurança e o medo dos seus meninos em sua própria pele. Ele sabia de cada manobra, sabia de cada torturado. Sabia também que a culpa o crucificava e que a noite vinha para que ele revirasse na cama, fechando os olhos e vendo cenas que ele não queria ver.
Naquela noite, não foi muito diferente. A janela aberta deixava entrar uma brisa quieta de outono e o céu estava muito claro. Quando o rapaz debruçou para olhar para fora, ficou vários minutos calado, estupefato diante de um azul muito profundo, cheio de estrelas que deitavam uma luz prateada sobre o mundo abaixo de si. A camiseta verde-água que o rapaz vestia não o protegia do vento gelado que a noite trazia, mas aquilo não o afastou da janela. Seu corpo estremeceu com força, frágil diante das dificuldades que vinha passando.
Fora uma história comprida. No Irã governava o Xá M. Reza Pahlevi, que queria instituir uma revolução a fim de modernizar o país segundo moldes ocidentais. Externamente, aproximou-se dos Estados Unidos, que pressionou a favor dessas reformas para moldes ocidentais. Afinal, assim abria-se um grande mercado consumidor para vários produtos americanos como cosméticos e maquiagem para as mulheres, que, com as reformas, andariam como as ocidentais. Bem, o Irã era de maioria xiita e as reformas não foram bem vistas. Assim, houve um golpe e assumiu o Aiatolá Khomeini, que acaboucom as reformas e instituiu uma teocracia, o regime dos aiatolás. O problema foi o que aconteceu em seguida. Os Estados Unidos concederam asilo ao Xá e Khomeini o queria de volta, para ser julgado. No entanto, os americanos negaram. O Irã então rompeu relações com os Estados Unidos e mandou baixar a produção de petróleo, fazendo os preços subirem estratosfericamente. Luciano nada tivera a ver com toda a confusão, mas pagou por ela, como muitos outros. O segundo choque do petróleo o atingira com força.
O Brasil era um país predominantemente rodoviário e dependia do petróleo. Quando o preço subiu daquela maneira abrupta, a economia sofreu um baque violento durante o primeiro choque do petróleo. A febre viera alta e a tontura o manteve em casa por dias. No entanto, ao contrário de um certo britânico com sorte, ninguém o visitara. Não era como se ele estivesse esperando que alguém viesse, então ele não estava surpreso. Apenas rezava para aquilo passar logo. Foi naquela época que o Brasil passou a desenvolver o biocombustível, a partir da cana-de-açúcar. Foi um período complicado de adaptação e o segundo choque do petróleo não veio em boa hora. Seu trabalho acumulava na mesa e a cobrança dos seus chefes para que ele se recuperasse logo o deixava ainda mais nervoso.
Ainda havia muitos problemas internos. Embaixadores sequestrados em troca de presos políticos... Nem era preciso dizer que aquilo gerou uma confusão ainda maior e que o estado do rapaz piorou. Mesmo agora, ele mal se sustentava em pé. Era uma questão de tempo até tudo convergir na década de 80, a década perdida para a economia do seu país.
Fios muito negros se agitaram um pouco ao sabor da brisa, chocando-se com a cor prateada das estrelas que se refletiam nos olhos do rapaz. Ele simplesmente continuou a olhar para cima, um pouco sonhadoramente.
No entanto, nem mais ele sabia se seus sonhos faziam algum sentido.
Suas terras eram tão extensas. Havia tanta vida ali. Ele ainda guardava, no fundo de suas memórias, imagens sobre uma época em que ele vivia entre aquelas florestas, ouvindo histórias mágicas de um povo que vivia ali desde que eles podiam se lembrar. Ele ainda podia lembrar do perfume doce de uma moça, que talvez tenha sido sua mãe, talvez apenas tenha cuidado dele, não havia muito como saber. Ela morrera quando ele ainda era muito pequeno.
Mas o rapaz lembrava. Lembrava de tanta coisa. Das inúmeras pessoas que vieram morar ali. Dos costumes e histórias que elas foram trazendo. Era tudo tão diferente! Ele não podia negar que queria que aquelas pessoas passassem a gostar dali também. De início, ele ficava triste quando ouvia os que diziam que suas terras eram inferiores, que seu povo era preguiçoso e que ele mesmo era inferior. Mas o rapaz tentava entender. Claro que era longe da Europa... Tudo bem que ele fosse uma colônia. Mas... ele podia mudar, se quisesse, não?
Só que era tão difícil. E sozinho ele sabia que nunca conseguiria. E com quem contaria? Era triste ouvir os outros lhe dizendo que ele era só um subdesenvolvido, condenado a ficar sempre à sombra das grandes nações. Mas o que lhe doía mesmo era ouvir os seus filhos repetindo aquilo.
Arthur era inseguro sobre si mesmo, mas mesmo ele não podia imaginar o que se passava com o rapaz naquele quarto. Ele não era comparado todos os dias com o restante dos outros países. Ele não ouvia o dia inteiro de como ele era inferior. Que ele era feio e incapaz. Aqueles olhos verdes não viam os rastros de destruição que deixaram no mundo. A escravidão marcou muitos povos. E as guerras cobravam os preços mais altos dos perdedores, não dele.
No entanto, Arthur ainda era um amigo muito importante. Luciano nunca o culpara pelo o que acontecera. No entanto, toda vez que ele olhava no fundo dos olhos claros do outro, ele percebia o quão distantes eles eram. Os olhos de uma cor amadeirada muito nobre logo embaçaram como um suspiro embaça uma vidraça. Era importante separar o profissional do pessoal.
Luciano deu as costas à janela, fitando a escuridão do quarto. Não importava quantos amigos ele tentasse ter. Nunca haveria ninguém em sua casa esperando, nunca haveria alguém pensando sobre ele, não havia alguém com quem ele pudesse falar sobre aquilo. A maioria dos seus amigos era humana e morria rápido demais para alguém como ele, que estava condenado a viver para sempre. Suas terras eram muito, muito grandes e, dentro de muitos quilômetros, ele era o único assim.
Era incrivelmente solitário.
Mas ele nunca contaria a ninguém. O rapaz respirou fundo e tirou as lágrimas da face, como acontecia todas as noites. Ele nem se lembrava qual fora a última vez que alguém o abraçara e tentara conter o seu choro. Quem se importaria? O soluço engasgou em sua garganta e ele fechou os olhos. O soluço foi contido à força e ele respirou fundo outra vez.
- Vamos lá, cara. Respira. – murmurou consigo mesmo, tirando as lágrimas do rosto com força. Amanhã o dia começaria de novo e, quando o sol despontasse em sua janela, ele precisava estar sorrindo de novo. Tudo bem se ainda pensavam mal dele lá fora. Tudo bem mesmo que nada das suas lembranças tivesse tido significado. Tudo bem se seus filhos o odiassem. Estaria tudo bem mesmo que ninguém desse a mínima se ele chorasse sozinho todos os dias. Mesmo que ninguém o mimasse ou o abraçasse. – Amanhã vai ser melhor do que hoje. – murmurou, respirando fundo outra vez, engolindo o choro. E quando amanhã chegasse, não encontraria uma prova sequer da sua tristeza. Amanhã ele acordaria cedo e iria trabalhar, como seus filhos mais simples e mais honestos fariam, sem uma única reclamação.
Seus olhos encontraram os papéis sobre sua escrivaninha. Já fazia dez anos que a ditadura militar fora instaurada e governava o país. Com apoio americano, por medo que o comunismo se espalhasse na América Latina. Assim como o apoio, vinha também muito mais dos Estados Unidos. Técnicas e equipamentos de tortura, assim como aulas instrucionais... tudo.
Já havia muita gente que estava se cansando daquilo tudo. Da censura às músicas, às notícias, às pessoas. No entanto, a sociedade ainda estava dividida e as opiniões divergiam. Havia desconfiança e medo constantemente no cotidiano daquela época. A guerra fria cobrou seus preços a muita gente.
Em lembrar de Alfred... Luciano inevitavelmente lembrou-se de Arthur. Os dois ainda eram um caso perdido. Com um suspiro, o rapaz sentou-se em sua escrivaninha. Arthur sempre fora uma família para Alfred, isso era claro. Em parte, ele achava ambos estúpidos por não perceberem os sentimentos um do outro. Mas, em outra parte... era difícil entender uma situação se se está tão envolvido nela.
Por exemplo, ele nunca soube o que Afonso realmente achava de si. Nunca soube se a cumplicidade inicial significara alguma coisa. Nunca soube se aquele lusitano sentia falta dele. Não o vira às lágrimas como Arthur estivera na independência de Alfred. Claro, eram situações diferentes. Mas, realmente, o rapaz não sabia muito o que pensar. Talvez... ele simplesmente não fizesse falta. Talvez aquele chato tivesse colônias melhores com que se preocupar e nem desse pela sua falta.
Um sorriso um tanto triste perpassou suas feições. Não era hora de pensar sobre aquilo. Acima de tudo, ele estava admirado pelo o que acontecera em Portugal. Sim, 25 de abril de 1974... A Revolução dos Cravos.
Não podia deixar de ficar estupefato com a reviravolta dos fatos. O assunto ainda era muito polêmico no Brasil que vivia sua primeira década de ditadura. Portugal se tornara um assunto delicado. As pessoas tinham certo medo de manifestar uma opinião. Porque ao mesmo tempo em que havia certo clima de medo entre as pessoas, também era verdade que o Brasil se industrializara fortemente naquele período, ganhando maior destaque e competitividade.
Mas, mesmo assim, Luciano estava admirado com a revolução. Era incrível como as pessoas tinham aquela capacidade de mudar as coisas, se se unissem. Seu sorriso alargou um pouco.
- Com certeza aquele portuga deve estar todo besta de alegria agora. – murmurou consigo mesmo. Seu sorriso escorregou. Será que assim como Afonso encontrara uma nova era, ele também a encontraria? O que se poderia esperar? O que seria dele em alguns anos?
Havia tanto entalado na garganta no rapaz. Tantos sentimentos, mágoas e pensamentos que ele nunca dissera a ninguém. Porque ele acreditava que era importante sorrir sempre. Que a vida podia ser bem melhor, mas que ela ainda era bonita. E como ninguém nunca lhe perguntava, ele nunca contava. Mas a verdade é que ele sempre estivera profundamente triste e sozinho por dentro. Isso se refletia nas músicas que ele escrevia, que, embora parecessem alegres, muitas tinham letras extremamente tristes. E era o seu jeito de desafogar a dor. Porque era melhor escrever poesia do que chorar, não é mesmo?
Foi quando se percebeu quase chorando de novo que o rapaz pegou um papel e começou a rabiscar uma música, que nunca chegaria ao seu destinatário. Com certeza seria censurada, mas ele quis escrevê-la.
Sei que estás em festa
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guardo um cravo para mim...
Aquele português babaca. Devia estar todo feliz. Luciano riu consigo mesmo. Estava impressionado, na verdade. Mas gostava de alfinetar o outro com apelidos bobos, piadinhas e adjetivos. Queria estar dividindo daquela felicidade com ele agora. Mas tudo aquilo era impossível.
Não só estavam fisicamente muito longe, como haviam se distanciado muito nos últimos anos. Tanto havia mudado. A ditadura instaurada por Salazar tinha caído e havia certa esperança de que muito florescesse do que acontecera ali. A ditadura na América Latina ainda duraria muitos anos. Ninguém sabia ao certo o que aconteceria no futuro.
Eu queria estar na festa
Com a tua gente
E colher pessoalmente uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar...
Sei também o quanto é preciso
Para navegar
No entanto, por mais que o som das ondas quebrando na praia estivesse viva em sua memória, o rapaz já não podia ouvi-la. A capital não era mais litorânea. Junto com a mudança da capital, ele também mudara de casa. Brasília fora inaugurada ainda em meio aos anos 60. E, de lá para cá, muita coisa tinha acontecido. Mas ele ainda lembrava do mar e de como Afonso lhe contava inúmeras histórias sobre ele. Sobre como o mar podia ser terrível, mas inebriante. O rapaz se lembrava de ficar curioso sobre o que existia além do oceano, pelo o qual seu tutor parecia tão apaixonado. Lembrava-se do quão estranho fora o primeiro contato com os europeus. Um sorriso meio divertido pousou sobre as feições delicadas do moreno. Afonso vinha vestido com uma tonelada de roupas e parecia incrivelmente deslocado nas areias sedosas da praia. O primeiro contato fora pacífico por ambas as partes, todos curiosos acerca uns dos outros. Luciano lamentava imensamente o que acontecera depois, mas gostava de se lembrar que, no início, ambos se deram bem.
O que será que ele estaria fazendo agora...?
Lá faz Primavera
E cá estou doente
O vento suspirou e o quarto ficou levemente mais frio. Decidido a melhorar o mais rápido que seu corpo permitisse, o rapaz decidiu-se por fechar a janela. Ainda com o papel na mão, caminhou até a vidraça, disposto a fechá-la. No entanto, seus olhos se detiveram na paisagem. Havia algumas gotas de chuva ainda sobre as folhas, em algo incrivelmente delicado e que dava a impressão de que o mundo nada mais era do que um imenso jardim, que, por vezes, parecia ocorrer aos anjos regar-lhe as flores. Com o vento, as gotinhas se balançavam nas folhas, ao que o rapaz verdadeiramente sorriu, lembrando-se de uma de suas filhas mais queridas, que realmente o enchia de orgulho. Lembrava-se do que ela escrevia de cor. E foi de cor que ele murmurou consigo mesmo.
- Gosto da gota d’água, que se equilibra na folha rasa, tremendo ao vento.– Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra; e ela resiste, no isolamento. Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto: pronto a cair, pronto a ficar – límpido e exato. E a folha é um pequeno deserto para a imensidade do ato.
Era simplesmente sublime e delicado. Como alguém podia ainda ter coração suficiente para dedicar sua afeição a uma folhinha e uma gotinha de água?
Se ainda existiam pessoas assim, então existia possibilidade de mudar. Se a injustiça ainda chocava as pessoas, então ainda valia a pena. Claro que aquele crescimento não alcançara a todos, mas quem sabe um dia? Havia muito a resolver, mas... quem sabe? Luciano respirou fundo e sorriu, com tudo o que conseguia.
Arthur vinha andando pelos corredores, procurando a sala de conferências. Avistou Luciano com alguns papéis, muito sério. Ficou em dúvida se deveria cumprimentá-lo e preparava-se para passar reto. No entanto, o rapaz ergueu os olhos e sorriu, acenando.
– Hey, Arthur. – deixou os papéis um tanto de lado. – Já é hora da reunião, não é? Então não vamos poder nos falar muito, você senta mais longe, com o Alfred e os outros. – comentou brevemente, sabendo que a conversa não poderia se estender muito.
– É... – talvez alguma pena tenha transparecido seus olhos verdes, porque o rapaz a sua frente imediatamente sorriu ainda mais e apontou um dedo para o britânico.
– Um dia a minha economia vai passar a sua! – seu sorriso não vacilou nem um pouco mesmo quando Arthur riu com gosto e balançou a cabeça. Os dois seguiram para a reunião e tomaram seus lugares.
O Brasil se tornou a sexta economia mundial no final de 2011, quando ultrapassou o PIB do Reino Unido segundo o FMI. Segundo informações do Fórum Econômico Mundial, foi o país que mais aumentou sua competitividade, pulando oito posições na lista no ano de 2009, ultrapassando a Rússia. Desde a década de 90, leis acerca de responsabilidade fiscal atraíram investidores e, em 2008, ganhou o selo de investimento seguro. O setor tecnológico sofisticou-se e a Embraer já é a terceira maior fabricante de aviões no mundo.
Matthew ocupava-se em organizar as cartas que o francês ia jogando pela mesa depois que as lia atentamente. Logo, em sua mão formava um montinho de cartas cada vez maior. Francis parecia terrivelmente absorto no que descobria, murmurando consigo mesmo teorias sobre o que poderia estar gerando um jogo tão anormal quanto aquele. O canadense decidiu-se por não atrapalhar, ocupando-se com seus próprios pensamentos. Suas mãos logo começaram a organizar as cartas que ficaram largadas sobre a mesa.
Mas então, deixou que elas caíssem de novo na mesa e uma delas deslizou pelo vidro, pousando perto da mão do francês, que distraidamente puxou-a.
– Huh? Ei, você, pequena. – murmurou charmosamente para a carta, colocando uma mecha para trás da orelha. – Eu já tirei você hoje. – murmurou, deixando-a de lado e voltando ao seu jogo.
Matthew pegou a carta rejeitada a fitou-a com atenção. O descaso que o francês dispensara a ela apenas por ser uma carta repetida magoou um pouco o pequeno canadense. Francis era sempre assim. Ele gostava das novidades, da arte e do belo, até um pouco do exagero. Ele não tinha interesse em coisas que ele já tinha, em cartas que já passaram por sua mão.
Ele não podia amar Matthew de verdade. Ou ao menos era o que o canadense acreditava. Mesmo que o francês o notasse, como confiar nele? Ao contrário de Matthew, Francis falava demais. E, por falar demais, falava muitas coisas que não eram verdade. Ele gostava de destilar o seu charme sobre as outras pessoas, independente de quem elas fossem, simplesmente por gostar do jogo da conquista. Por que com Matthew seria diferente? Como ele poderia acreditar que Francis não tinha interesse nele por sua aparência? Matthew parecia com Alfred e Alfred realmente não era de se jogar fora. Na verdade, ele era cobiçado, não só por ser jovem e bonito, mas também pela força e influência que ele tinha.
O canadense fora comparado a Alfred uma vida inteira. Mesmo Arthur já confundira os dois, sem querer. Mesmo que Francis percebesse a diferença, o que poderia garantir que o ‘amor’ que ele declarava era só pela aparência? Pela novidade da conquista?
O que o garantia que não seria descartado como aquele arcano repetido?
Mal sabia o delicado canadense que exercia sobre o francês um poder muito maior do que podia sonhar. Não por força bruta, mas sutilmente, como tudo que fazia. Discretamente, ocupara o coração do outro, até que, para Francis, não existisse verdade maior do que o fato que amava Matthew. No entanto, por mais que jurasse, não podia dar-lhe prova alguma da sinceridade de seus sentimentos.
Arcano 11 — A força
Uma figura feminina, enfeitada com flores, e coroada com o símbolo do infinito, segura nas mãos a juba de um leão, cuja boca ela está para fechar ou para abrir. A mulher veste o branco da pureza e da pura força espiritual, ao passo que o leão é vermelho, o que indica paixão e energia emocional. O poder exercido pela mulher sobre o animal é evidentemente de caráter espiritual e não de força bruta, e o seu domínio sobre ele parece ser tranqüilo. A eternidade concede a ela uma força que não é deste mundo.
SIGNIFICADO DIVINATÓRIO
Força. Coragem. Força moral. Convicção. Energia. Determinação. Resolução. Resistência. Ação. Percepção das tentações e das capacidades físicas e mentais para superá-las. Confiança. habilidade inata. Zelo. Fervor. Força física. A matéria dominando a mente e, alternativamente, a mente dominando a matéria, dependendo das circunstâncias. Realização. À custa de consideráveis perigos, a pessoa consegue o que quer. Forças ocultas em atividade estão sendo desafiadas. Heroísmo. Força para resistir, a despeito de todos os obstáculos. Esforços incansáveis. Libertação.
Notas finais
Hmm, quanto ao capítulo. As poesias são da maravilhosa Cecília Meireles e o poema é Tanto Mar, do Chico buarque, que foi escrita para um português amigo dele na época da Revolução dos Cravos, é.
E háá, sinta essa Labi! xD Escrevi sobre Portugal o/o/ xD Ainda pretendo escrever mais, mas não sei se estou fazendo direito xDD
Hmm, que mais. Ah sim, como perceberam, deixei um capítulo para todos os 'canadás' da época xD Portugal, Brasil, Canadá... pessoal que não andei falando muito, dei uma pincelada para não dizerem que não falei das flores xD Depois dessa passagem, voltamos à confusão bipolar, teremos algumas curiosidades, tensões e, se Deus ajudar, termino a guerra fria no capítulo que vem xD Não sei se vai sair muito grande... Enquete, preferem um capítulo grandão ou duas metades? ._.
E enfim, só xD Desculpem, mas há muito o que explicar xD
Beijo beijo para Bia Miyazaki, InvisibleJu, Labi, Akimi-chan, Cath, Lirium-chan, Nocturne e gabee! o/
Fale com o autor