Boulevard Of Broken Dreams

18 Capítulo 18 - Os amantes


Notas iniciais
(A capa da fic será trocada em alguns dias xD Não é porque eu mudei de ideia ou algo assim, estava previsto desde o começo. É só que a capa é meio que uma metáfora das coisas... Enfim, quando chegar mais pra frente, todos entenderão xD Só estou avisando com antecedência para não gerar confusão para quem já se acostumou com a atual capa xD)

Arthur entrelaçou as mãos e apoiou a testa sobre ambas, soltando um suspiro frustrado. Ele estava preso em mais uma reunião completamente inútil. Teoricamente eles deveriam discutir soluções para o mundo, trocando ideias sobre projetos que seus governos tinham, defeitos e qualidades das leis e decisões. Só que era idiota pensar que isso funcionaria numa situação como aquela. Os Estados Unidos tentava provar que o capitalismo era melhor, assim como a União tentava provar que o socialismo era melhor. Em hipótese alguma eles admitiriam defeitos em seus projetos um para o outro. Cada um queria para si o maior número de aliados. Por que eles mostrariam os defeitos para quem quisesse ver? Sem contar que os projetos eram ultra-secretos atualmente e os dois países se espionavam constantemente. Pensar que eles se sentariam para trocar ideias dos projetos que seus governos tinham era tolice.

Logo, as reuniões se tornaram meramente fachada.

Não era raro que as duas super potências mundiais se sentassem à mesa de reuniões e desandassem a jogar xadrez um contra o outro enquanto os demais países do mundo assistiam. Arthur mantinha sua posição de aliado dos Estados Unidos, mas pessoalmente estava sem paciência.

A reconstrução do seu país exigia muitos esforços e mudanças bruscas, medidas novas, mão-de-obra e dinamismo. Tudo aquilo tinha um efeito colateral péssimo para o loirinho. Com a reconstrução, seus ferimentos estavam se fechando, verdade. No entanto, todo aquele rebuliço interno o deixava doente. Fazia dois dias que estava com uma febre que se recusava a baixar, sem contar que estava um tanto zonzo. Seu corpo estava pesado, como se ele tivesse levado uma surra recentemente. Bem, de certo modo, fora algo mais ou menos assim.

No momento, sua testa febril repousava sobre suas mãos entrelaçadas e ele queria nada mais do que que aquela reunião acabasse. Era inútil ficar ali e ele não era fã em particular de nenhum outro país, assim como não tinha amigos ali. Seu olhar repousou sobre Alfred. Bem, eis alguém que ele realmente não odiava. No entanto, mesmo Alfred não estava realmente ali. A representação dos Estados Unidos não era nada como o seu garoto. Os sorrisos eram falsos, os risos escondiam intenções políticas. Seu olhar procurava oportunidades nas situações.

Não havia o jeito meio sem noção do seu garoto. Não havia brincadeiras, nem sorrisos largos e sinceros. Não havia excesso de gesticulação, como se ele tentasse se expressar com os braços. Não havia aquele jeito bagunçado e um tanto desleixado. Mais do que isso. Os olhos dele. Estavam... errados.

A reunião finalmente chegou ao seu fim e todos se levantaram. Arthur levou alguns segundos para perceber o movimento e seguir porta afora também. Seu olhar encontrou o de América, que educadamente acenou com a cabeça.

Alfred teria corrido e esbarrado em umas dez pessoas diferentes, apenas para dizer uma dúzia de coisas bobas e dar-lhe um abraço de urso. Quando Arthur reclamasse, o garoto lhe diria algo sobre ter pouca resistência porque estava velho.

Inicialmente Arthur achara irritante. Mas naqueles anos de guerra fria, ele percebeu que sentia certa falta daquilo. Os intervalos de consciência de Alfred aconteciam cada vez mais espaçadamente, até que praticamente inexistiam. Queria ver o seu garoto de novo, falar com ele.

No fundo, Arthur sabia porque tudo chegara aquele ponto e não podia dizer que não sabia como era. Ainda que não admitisse isso nem em seus próprios pensamentos, a verdade é que ele, de certa forma, sabia. Só que com ele havia sido diferente. Ele nunca tivera uma consciência individual antes de conhecer Alfred. Suas atitudes nunca o incomodaram e ele nunca esteve dividido. Ele conhecia e aceitava a tenebrosa ambição humana como quem aceita o fato de que o dia sucede a noite. Mesmo depois, era fácil separar o seu trabalho dos seus sentimentos. Trabalho era tudo aquilo que ele entendia e sentimentos era tudo aquilo que não fazia sentido. Era fácil não misturar uma coisa com a outra.

Agora, vendo a nova geração de potências mundiais, Arthur não podia dizer que não sabia como era. Ele sabia como era ser enfeitiçado pela perspectiva de se dar bem em cima dos outros. No entanto, agora ele era maduro o suficiente para se perguntar até onde aquilo valia a pena. Agora ele era maduro o suficiente para olhar em volta e se perguntar por que era mesmo que todo mundo cruzava os braços e deixava o inferno acontecer bem na frente dos seus olhos.

No entanto, aquilo era de certa forma como as pessoas agiam. Talvez os bons fossem maioria, mas eles se calavam diante do que era errado. Eles se acostumaram. Afinal, existe um comodismo encantador em fingir que o problema é dos outros.

Se bem que, à bem verdade, ele precisava ser prático. Arthur também não poderia dizer que se sentia inclinado a ajudar. Ele ainda era uma nação prestigiada e mantinha relações comerciais muito boas com os integrantes do seu império colonial. Em parte, tudo aquilo alavancava a reconstrução do seu país de forma significativa. América... talvez a maioria das nações dissesse que ele era cruel ás vezes. Mas era também verdade que tratava Arthur muito bem. Não era a proximidade infantil de Alfred, mas algo respeitoso e até amigável. Na verdade, muitos percebiam a proximidade crescente dos dois e se perguntavam quais seriam os reflexos daquilo. Os europeus não particularmente gostavam da visível preferência de um pelo outro.

Durante a reunião, o britânico notara o mais novo grupinho de países na Europa. Bélgica, Holanda e Luxemburgo andavam de muita conversa, selando acordos comerciais a fim de deixar um pouco de lado as rivalidades e se focar na reconstrução. Era também fato que aquilo estava ganhando proporções, mas Arthur não se interessou. Ele nunca gostara dos seus vizinhos e não particularmente queria trabalhar com nenhum deles. Arthur não era alguém que fora ensinado a confiar nos outros. Além do mais, a grã-bretanha era uma ilha, o que sempre o deixou mais de lado, menos Europa e mais ele, isolado. Isso sem contar que seu império colonial podia não ser o mesmo do antes, podia estar começando a ruir, mas ainda gerava dividendos.

Não significava que aqueles tempos estavam sendo fáceis, mas significava que eventualmente ele superaria. Ou ao menos era nisso que ele queria acreditar. Claro que ainda ele ainda era um Império decadente. Lógico que seu corpo sentiria o que significava aquela descida da Europa colina abaixo diante da ascensão de duas super potências. Mas... tinha que ter um jeito de sair daquilo. Ele só tinha que suportar o mal-estar contínuo e a insegurança quanto ao futuro. Eram anos incertos e todo mundo sentia isso. Era de estraçalhar os nervos observar o mundo caminhar na tênue linha da Guerra fria, na preocupação constante de para onde aquilo os ia levar. Na perspectiva de uma catástrofe próxima.


A volta para casa foi silenciosa e longa, mas Arthur se deu por muito satisfeito em não ter desmaiado na rua. Quando viu-se em casa, fechou a porta e escorou-se a ela, lentamente sentando no chão. Ele estava enjoado e a febre o deixava desconfortável. As mudanças eram bruscas e, de certo modo, agora ele entendia um pouco como era o colapso de um império. Assim como o avô do pequeno italiano desaparecera com o fim do império romano, Arthur sentia que entendia como acontecia. Foi lembrando de como um homem, que era grandioso como o império romano, havia sucumbido com facilidade, que o loirinho sacudiu a cabeça e levantou, apoiando-se na parede.

– Eu não quero morrer assim. – murmurou consigo mesmo, tirando o sobretudo pesado e jogando alguns papéis de lado, rumando para o próprio quarto. Ele estava um tanto assustado com a ideia de morrer em meio à dor e... sozinho.

Nem mesmo Arthur entendia. Ao mesmo tempo que ele se sentia bem sendo solitário, ele não queria ficar sozinho. Talvez ele só não fosse uma pessoa de multidões... Se ele tivesse uma só pessoa...

Mas o que ele podia fazer se a pessoa que ele amava tinha sumido? O que ele poderia pensar? E se Alfred nunca mais voltasse? Pior, e se Alfred fosse mesmo o América e o rapaz que ele conhecia fosse só uma ilusão sua? E se ele tivesse estado a enxergar o que queria ver? Se fosse possível saber o que Alfred pensava, isoladamente do que os Estados Unidos fazia... Será que Alfred se importava? Mais do que isso... Será que Arthur conseguiria separar um do outro? Sendo sincero, Arthur culpava o garoto pela política do país dele. Como superar aquilo?

O caminho para o quarto foi feito mecanicamente e a porta foi aberta com certo desleixo. A roupa social logo foi jogada sobre uma cadeira e ele abriu o armário procurando algo confortável. Achou uma calça preta simples e uma camiseta branca em meio a uma pilha particularmente alta de roupas. Obviamente, para a sua irritação, a pilha tombou e derrubou algumas revistas e livros velhos, empilhados em um canto do armário. E como sua tendência ao desastre era notável, Arthur ainda sentiu quando um livro antigo e pesado caiu em seu pé e levantou um monte de pó, levando a uma sucessão de tosses secas, que piorava ainda mais a dor de cabeça.

Ainda que tentado a chutar o livro, queimá-lo e depois jogar as sobras pela janela, Arthur se abaixou para pegá-lo. No entanto, o conteúdo lhe interessou. Levantou-se ainda encarando a página aberta. Era um velho livro de magia branca.

Decidiu por sentar em sua escrivaninha e ler melhor aquelas páginas. Não era como se ele fosse conseguir trabalhar no atual estado em que seu corpo estava e seria bom se distrair um pouco da tontura e náusea. O dialeto muito antigo ainda fazia sentido em sua cabeça e foi relativamente simples o começo da leitura. No entanto, havia partes importantes que ele precisaria retomar depois. Acabou por anotar alguns pontos-chave em um papel à parte, evitando grifar o livro.

Em meio à outras páginas e páginas, Arthur acabou abrindo outros livros, empilhando-os meio desajeitadamente sobre a escrivaninha. Ameaçava escurecer lá fora quando ele pensou que talvez já fosse o suficiente. No entanto, uma página chamou-lhe a atenção.

Bem naquela página, talvez houvesse uma resposta para algumas de suas perguntas. Na verdade... havia um jeito de chegar às respostas que ele mais desesperadamente queria.


– Brittania. – ele chamou com a voz firme, fechando os olhos e se concentrando.


Sobressaltou-se levemente quando enxergou um anjo à sua frente. Talvez o susto nem fosse tão grande se não fosse o fato de que Arthur ainda estava de olhos fechados.

– Qual o problema, Arthur? — e aquele rapaz podia ser apenas o seu reflexo no espelho. Não fossem duas asas que se projetavam de suas costas e uma tênue luz sobre sua cabeça.

– Como você... sabe o meu nome? – foi a primeira questão que lhe veio em mente enquanto ele fitava com certo deslumbre as asas medianas e acetinadas do anjo.

– Eu sei tudo sobre você. – e sorriu. – por que eu não saberia do meu protegido?

– Anjo da guarda... – a realização acendeu na mente de Arthur, que lembrou-se de algumas passagens do livro, ainda estupefato pela extraordinariedade da situação.

– Mas me diga então. Por que me chamou? – o tom era solícito e havia uma sensação de familiaridade muito grande. Como se... estar na presença do anjo fosse algo muito natural, uma sensação que ele tinha desde... sempre.

No entanto, diante da pergunta, Arthur lembrou-se do seu propósito inicial. Mordeu o lábio inferior, hesitando um pouco. As perguntas que ele queria fazer talvez soassem tolas diante da grandeza de tudo o que ele podia perguntar. Mas eram sinceras. Eram as coisas que mais o afligiam.

– Eu... Eu queria... respostas. – foi hesitante, mas era um começo.

– É sobre ele, não é? – o anjo suspirou e tocou a testa de Arthur, que sobressaltou-se e abriu os olhos. No entanto, o anjo continuava ali quando suas pálpebras revelaram as íris verdes.

– É só que... Eu não sei mais o que pensar sobre... nós. – o fato de Arthur ter juntado a si mesmo e a Alfred em “nós” o fez corar levemente. No entanto, ele respirou fundo e continuou. — Eu não sei se... eu posso acreditar em sentimentos que eu tenho por... um assassino. – o final da sentença saiu em um sussurro e ele olhou nos olhos do anjo. Para a sua surpresa, ele parecia um tanto reprovador.

– Quem você ama não é um assassino.

– Mas ele-!

O olhar do anjo deteve a continuação da frase. A verdade era que Arthur não sabia separar o seu garoto da nação e ainda exigia que Alfred soubesse. Bem no fundo, o loirinho sabia quem era o seu garoto. Mas ele não queria saber. Porque aquilo o fazia perceber como ele amava aquele Alfred, o seu garoto. E isso o levava à inevitável parte de ter de confiar nele. E aquela ideia o apavorava. Confiar era algo assustador. Entregar-se e tentar um relacionamento significava assumir o risco de que tudo desse errado e que eles nunca mais se olhassem na cara.

Portanto era muito mais fácil tentar se convencer de que odiava Alfred.

– Eu... muito bem, talvez ele não seja um assassino, mas... – admitiu, ainda que um tanto relutante. – Mas eu não consigo entender o que ele pensa.

– Se ele te dissesse o que pensa, você ouviria? – havia algo quase cético no tom do anjo, mas era muito mais reflexivo que maldoso.

– Claro que sim... – murmurou Arthur, mas desviou o olhar. Na verdade, não sabia o que faria se Alfred começasse a dizer as coisas tão francamente. O loirinho era alguém que se acostumara a esconder seus sentimentos e lidava muito mal com a ideia de cartas na mesa.

– Então essa é a sua chance.

O olhar do anjo fixou-se em algum ponto atrás de Arthur, que se virou para olhar. Era um rapaz alto, de olhos infinitamente azuis e cabelo cor de caramelo. Ele ainda usava um casaco familiar, mas por baixo dele, estava uma roupa casual. O uniforme militar não estava presente e ele poderia ter dito que só tinha 19 anos que qualquer um acreditaria.

E embora Arthur soubesse, mais do que qualquer coisa, quem estava à sua frente, a pergunta ainda deixou seus lábios em um murmúrio.


– ... quem é você?


– ... – por um momento, o rapaz não respondeu. Ele se aproximou alguns metros e Arthur pôde perceber que ele era levemente translúcido, como o anjo o era. No entanto, a voz dele era exatamente como deveria. — Alfred. Alfred F Jones.

– ... Estados Unidos da América? – Arthur começava a entender o que o anjo fizera.

– Não. Só Alfred.

O silêncio recaiu sobre eles. Finalmente, Arthur se viu frente a frente com quem podia lhe dar respostas que ele queria. O britânico ainda não tinha ideia de como o anjo fizera para separar a consciência de Alfred do corpo dele, mas não era isso que o preocupava. O fato era que, pela primeira vez, não havia nada além dos dois.

– Onde você esteve...? – a pergunta veio em um tom extremamente magoado. Arthur notou a culpa nos olhos do outro, mas aquilo o irritou de alguma forma.

– Eu... sinto muito.

– É só isso?! Você sente muito?

O garoto hesitou. Arthur tinha um olhar quase feroz, aqueles olhos verdes firmes e expressivos como duas jades postas em chama. Alfred sabia que devia uma explicação a ele, mas ao mesmo tempo sua parcela de culpa o crucificava e entalava suas palavras.

–Não somos nós que tomamos as decisões, mas somos nós que sentimos as consequências. Eu só... não queria mais. Era tão confuso. A política externa do meu país é... loucura. Mas tem muita gente apoiando. Elas... falavam comigo. Mesmo que eu não concordasse, minha assinatura estava em cada um dos documentos que já foram aprovados. – engoliu em seco, mas seu olhar não desafiou o de Arthur. Tentava forçar as palavras para fora, mas nem mesmo ele entendia a linha que dividia a própria mente. — E... eu não esperava. Não faz nem algumas décadas e meu país estava quebrado, na pior crise que eu já tinha visto. Eu... achei que ia morrer. E agora... eu sou uma potência mundial. Tudo mudou muito rápido. Eu já não sabia lidar com aquilo sozinho. Por isso, eu ouvia os conselhos na minha cabeça. Eu deixava acontecer, eu achava que... estava certo, sabe? Mas depois que eu encontrei você ferido, andando pelos destroços da sua capital... Eu... – seu coração apertou e ele mordeu o lábio, tentando distrair-se do doloroso nó em sua garganta. – Depois daquilo... eu fiquei desesperado para que tudo terminasse. Quando me disseram que tudo podia acabar, eu consultei você e... entreguei o controle da situação para... eu não sei o que era aquilo. Era como se fosse outra pessoa na minha cabeça.

Omitiu a parte do quão era assustador deixar aquilo acontecer. Não contou do pânico que sentia quando se perguntava se conseguiria voltar a si novamente. Pareceu-lhe patético então ele não contou do medo que tinha de perder completamente a sanidade. Medo de nunca mais acordar. O pânico de tentar voltar a si, como um afogado tenta voltar à superfície antes que seja tarde demais e ele sufoque e afunde, morra e apodreça no fundo do rio.

No entanto, era uma sensação que ele viveria de novo se significava nunca mais ver o loirinho gritar de dor em seus braços. Talvez o amor fosse um pouco egoísta. Alfred apostaria tudo que tinha e qualquer outra coisa ao seu alcance para proteger algo que ele amava.

– Mentiroso.

A acusação veio e atingiu o garoto como um tapa ardido. Se fosse qualquer outra pessoa, aquilo não seria nada. Mas era Arthur. Era o seu mundo inteirinho, era a sua pessoa mais especial. As lágrimas vieram, mas ele se recusou a derramá-las. Sua respiração quebrou, esperando que Arthur continuasse. Porque com certeza tinha mais.

– Não finja que se importa. Eu não preciso das suas mentiras. – a voz veio clara, mas as mãos tremeram. – Eu até posso tentar acreditar nas suas boas intenções até o fim do conflito na europa. Mas isso não explica o que aconteceu com o Honda.

– Em parte, explica. – murmurou o garoto, encontrando dificuldades em não engasgar no próprio choro entalado. – mas eu não estou aqui para tentar justificar as manobras militares do meu país. Até porque, se eu estivesse, teria de dizer que havia a sua assinatura na maioria daqueles papéis. Talvez você não tenha lido, mas você assinou aquilo.

Arthur abriu a boca para contra argumentar, mas o anjo o olhava com alguma seriedade. Foi com um olhar um pouco decepcionado que ele atendeu ao pedido mudo de Arthur para que ele sumisse por um tempo. A verdade é que o anjo estava certo. Se fosse para pensar em tudo de um jeito pessoal, como ele podia justificar o império que ele criou, enriquecendo às custas dos outros? Arthur engoliu em seco e desviou o olhar.

– Eu não fiz aquela guerra sozinho. – a voz de Alfred saiu clara, mas baixa e sua expressão era de dor.

– Eu sei. – Arthur fitou os olhos claros do seu garoto. Claro que sabia. Reconhecia que o anjo estava certo e que ele andara julgando Alfred pelo país que ele representava e não pela pessoa que ele era. Reconhecia que tinha derramado sua própria parte de sangue.

No entanto, ele precisava achar uma maneira de deixar de amar aquela pessoa. Tinha sido assim desde que eles se separaram, em 1776. A verdade é que ele queria esquecer aquele passado, mas temia, mais que por sua vida, que aquilo se repetisse. Então discutir com ele, mantê-lo longe... Manter qualquer um longe. Era um jeito de tentar se proteger. De nunca mais estar tão exposto, tão vulnerável, tão passível a sentir dor.

Só que, de todas as outras pessoas, Alfred era o único que insistia. Mesmo beirando à insanidade, ele o procurava, confiava nele, cuidava dele, conversava, brigava, irritava, provocava, se importava.

Só que Arthur não entendia aquilo.

Seu olhar baixou e a franja escondeu seus olhos claros.

– Arthur, por favor. Olha pra mim... – pediu o garoto, com duas safiras enevoadas de lágrimas fitando com certo desespero a figura do loirinho. – Eu não quis acusar você. Eu- Se você preferir, pense que tudo isso é culpa minha. Eu não me importo se você me culpar. Só... olha pra mim. – uma lágrima desceu quente pela face do garoto e o pedido soou... estranho. Não era como se ele pedisse para Arthur simplesmente olhar para ele. Mas ele parecia querer que Arthur olhasse e realmente o visse. Sem a sombra de quem eles tinham sido no passado, sem política, sem guerra, sem mentiras, nem ninguém além dos dois.

Ele só transformou em palavras o que tinha buscado a vida inteira.

– Arthur, olha pra mim... – o pedido foi inseguro e um tanto nostálgico. Alfred se sentiu outra vez como a criança que passava os dias no cais, esperando que sua família voltasse para casa. Sentiu-se longe de tudo, vivendo e morrendo em um fiozinho de esperança.

– Vai embora. – murmurou, dando as costas ao garoto.

– Arthur...

– Por favor. – não era do feitio de Arthur pedir alguma coisa, mas naquele momento, ele o fez.

– ... Por que?

– Porque sim. – era a melhor resposta para quem não sabia porquê. Afinal, por que ele queria ficar sozinho?

– Arthur.

– O que você quer que eu faça? Eu não quero acreditar em você! Eu não quero criar expectativas! Nada na minha vida dá certo quando eu tenho esperanças em alguma coisa! Eu não... – o desabafo engasgado se interrompeu e tornou-se só um sussurro, que não foi direcionado a ninguém em especial. — E se isso também for um sonho?

– Arthur, do que você-

– No hospital. Eu... – porque ele estava contando sobre aquilo? — Ah, me deixa!

– Não! Arthur, espera! – a realização atingiu o garoto com força. Então Arthur lembrava daquilo? Será que... ele... fora importante para ele? — Aquilo- Aquilo não... não era sonho. – a verdade veio em um murmúrio um tanto encabulado.

– O que...

– Eu... menti. – na hora, admitir a verdade pareceu algo certo, então foi o que Alfred o fez. Ele, por si mesmo, era um tanto idealista e certamente tinha pouca habilidade em ler as entrelinhas e dizer as coisas numa hora apropriada. Arthur estava nervoso e aquilo não particularmente o ajudava a se acalmar.

– Você o que?! – se antes Arthur estava nervoso agora ele estava chocado e a um milímetro de furioso. — E-então! A-aquilo aconteceu? –

– Arthur, calma. – ele não estava muito certo de a que Arthur se referia quando dizia “aquilo”, optando por tentar acalmá-lo antes de perguntar sobre o que ele estava falando.

– Pro inferno com a tua calma! – o britânico deu alguns passos para trás, perplexo. — Porque porra de motivo você me beijou então?!

– Porque! P-porque! – e claro que Alfred engasgou e teria ficado roxo de vergonha se projeções de consciência corassem. — Ora, porcaria, porque eu quis!

– Você- — fosse lá o que Arthur iria dizer, sua indignação foi tão grande que a frase entalou. — Vai embora!

– Arthur, espera! – aproximou-se, mas lembrou-se de que não podia tocá-lo.

– Você acha que foi engraçado?! E-Eu aposto que você ouviu alguma história dos outros! Eu sei a fama que eu tenho, mas isso não te dá esse direito! – e continuou a recuar, tentando recuperar a distância que Alfred havia diminuído.

– Não! Eu não-

– Me deixa, inferno! – percebendo que não havia mais espaço para trás, Arthur saiu porta afora, deixando Alfred falando sozinho. Ele desceu as escadas em um borrão, tentando chegar inteiro no andar de baixo, aliando elementos pouco compatíveis como febre e tontura, muitos degraus e pressa.

Provavelmente aquele francês maldito tinha dito sobre seus hábitos pouco... ortodoxos em relação ao sexo em seus anos de juventude. Na verdade, Antonio também podia dizer uma palavra ou duas sobre a questão. Arthur corou quando se deu conta do número de pessoas que podiam dar uma palavra ou duas sobre a questão.

– Arthur, espera, deixa eu falar!

A voz de Alfred soou exatamente ao seu lado e o britânico se sobressaltou. Virou-se imediatamente para olhar, vendo-se fitado de muito perto por olhos muito claros. Imediatamente, ele se inclinou para trás, recuando apressadamente muitos passos de uma vez.

– Arthur, cuidado! – mas Arthur não viu. Alfred chegou a alcançá-lo, mas seu toque era etéreo e seus dedos não conseguiram se fechar na cintura de Arthur.

As costas do loirinho encontraram a quina de uma das altas mesas de canto e seu corpo empurrou o vaso de cristal que repousava sobre o móvel. Já sem equilíbrio, ele tentou se virar para ver o estrago, mas seu corpo se projetou ainda mais para trás e foi com um estrondo que ele caiu sobre os estilhaços.

– Arthur! – o grito que o garoto deu foi tão inútil quanto sua tentativa de tomar o outro no colo. Suas mãos não alcançaram e sua voz não fez Arthur se mover. Ele batera a cabeça na quina do móvel com tanta força que apagara na hora. Lentamente, o peso de seu corpo fazia os estilhaços afundarem, cortando-o e reabrindo ferimentos recém-fechados. — Droga, Arthur! – praguejou o garoto, olhando em volta em pânico. Não havia ninguém em casa além dos dois. E Alfred bem sabia que ninguém visitava Arthur. Mesmo os países próximos como a Escócia ou França não o ajudariam, mesmo que ele conseguisse contatá-los.

O sangue fluía continuamente e, pela segunda vez na vida, Alfred viu Arthur completamente vulnerável. Para alguém que tinha quase mil anos, o garoto não pode deixar de pensar como era difícil Arthur se descuidar assim. A primeira vez que o vira assim fora na segunda guerra. Só que mesmo lá, o britânico não fora ferido por descuido. Era a primeira vez que Alfred via Arthur cometer um erro daqueles.

Tudo porque Alfred quisera estar ao lado dele?

Ele tentou engolir a sensação de culpa que queimava no fundo da garganta e o sufocava. Foi com desespero que ele olhou em volta outra vez, procurando qualquer coisa que pudesse ajudar. Qualquer coisa mesmo. Talvez um endereço, um contato... Foi um pedaço de papel rabiscado com a letra de Arthur que chamou sua atenção. Alfred pegou o papel e reconheceu uma modalidade apressada da caligrafia do outro. Estava anexado à pagina de um livro muito antigo que estava sobre a mesa, aparentemente uma tradução de uma língua que os homens há muito haviam esquecido.

Peça e será atendido.”- existem muitas formas de se chamar uma entidade superior, mas existem maneiras mais simples. Simplesmente, acredite e chame pelo seu anjo.

Algumas linhas depois havia um nome sublinhado. Brittania.

Anjo...? Agora pensando bem... havia alguém atrás de Arthur, não havia? Ou teria sido um espelho? Desaparecera depois de um tempo, então o garoto só vira de relance. Embora... talvez ele tivesse visto asas. Seus olhos releram o papel. Alfred não era alguém particularmente religioso, mas seu desespero o faria tentar qualquer coisa.

– Brittania?

Nada aconteceu. O garoto respirou fundo e tentou imaginar um anjo. Droga, se podiam existir heróis talvez anjos também pudessem, não é? Seus olhos azuis se fixaram em Arthur. Um caco particularmente grande ameaçava abrir o couro cabeludo dele. Alfred fechou os olhos e murmurou com o máximo de fé que conseguiu reunir.

– Brittania, por favor.

– Sim? – a voz veio por trás e o garoto se virou, abrindo os olhos e se deparando com uma cópia de Arthur, ainda que alada. Ele olhou novamente o loirinho caído e foi com certo pânico que ele segurou o anjo pelos ombros.

– O-olha eu não tenho tempo pra explicar! Você precisa ajudar o Arthur! – o anjo piscou algumas vezes, confuso. Quando seus olhos encontraram o protegido no chão, a realização pesou no olhar dele.

– Eu sabia que não devia ter me afastado como ele queria... – murmurou consigo mesmo, voltando a olhar para Alfred. – Eu poderia ter impedido, mas não posso reverter o que aconteceu.

– E-então me deixa ajudar! – agoniou-se o garoto, engolindo a vontade de chorar. – Eu preciso do meu corpo de volta!

– Eu não tenho como fazer isso agora. Eu gastei quase toda a energia que eu tinha descendo até aqui e separando a sua consciência da sua mente corrompida. – a explicação veio baixa e, embora o anjo não o estivesse acusando, o garoto sentiu o peso das palavras dele. – Eu até posso te dar uma forma corpórea agora, mas... Eu não posso manter esse paradoxo por muito tempo e não vou poder fazer muita coisa por alguns dias...

– O que você quer dizer com isso? – a voz de Alfred tremeu quando o anjo o fitou com intensidade de quem sabia muito mais do que ele.

– Quer dizer que se eu te conceder forma física agora, eu não vou poder fazer sua consciência voltar ao seu corpo original. E não posso manter os dois de você por muito tempo. Uma pessoa não existe em dois lugares ao mesmo tempo, eu não posso manter esse paradoxo.

– Mas.. em alguns dias seus poderes voltam, não?

– Sim, mas não é natural que uma consciência fique fora de seu corpo. Esse você de agora desapareceria antes que eu tivesse poder para te mandar de volta completamente.

Houve um gemido baixo de dor, ao que Alfred correu e se aproximou de Arthur, percebendo que o estilhaço cortara mesmo sua cabeça e o sangue manchava lentamente os cabelos claros dele.

– Eu prometi que ia protegê-lo... – seus olhos azuis voltaram-se para o anjo. – Eu faço qualquer coisa, anjo. Só me deixe ajudar nessa. Eu o deixei sozinho várias vezes e não vou fazer isso de novo. – os lábios dele tremiam levemente e a frustração de estar com os braços atados naquela situação inflamava seus olhos claros.

O anjo suspirou e fitou o protegido. – Se você desaparecer... ele vai ficar triste.

As palavras dividiram o garoto, que ao mesmo tempo acreditava nelas e ao mesmo tempo duvidava delas. No entanto, sua resposta não mudaria. O anjo ficou em silêncio também e passou a ponderar a situação.

– Eu... consigo te conceder forma corpórea por algumas horas... e posso te manter em forma etérea por alguns dias talvez. Depois, eu mando você de volta, mas... Eu não vou conseguir restaurar sua mente. O que significa que...

– Pro inferno o que isso significa! – gritou o garoto em desespero. – Eu aceito.

O anjo hesitou, mas, em um suspiro, postou-se ao lado de Alfred e tocou-lhe o ombro. Uma sensação estranha de formigamento percorreu o corpo do garoto, que fitou a própria mão deixar de ser translúcida. Imediatamente, ele tomou o loirinho nos braços e o aninhou contra o peito, murmurando uma confusão de juras de que tudo ia ficar bem. Foi com um suspiro de alívio que ele sentiu o coração de Arthur batendo contra o seu e a respiração dele contra o seu pescoço. Era por aquilo que ele aceitara qualquer condição. Arthur não podia morrer, mas Alfred sempre tivera, em algum lugar no fundo dos seus pensamentos, medo de perdê-lo em definitivo. Talvez seu coração pressentisse que um dia, Arthur desistiria e tentaria acabar com a própria vida.

– Onde eu posso achar alguma coisa pra esses cortes? – perguntou, meio encabulado. Gostaria de não ter gritado. Agora, com Arthur em seus braços, ele estava mais calmo e mais disposto a ouvir. O anjo, no entanto, não parecia guardar qualquer tipo de rancor. Sua voz tampouco parecia alterada. Era plácido e reconfortante.

– Subindo as escadas, segunda porta à esquerda, no armário do quarto dele... Há uma caixa de medicamentos lá. É bem completa. — ele não gosta muito de hospitais... o pensamento ocorreu ao anjo, mas ele não o verbalizou.

Alfred assentiu e, o mais suavemente que pode, subiu as escadas com Arthur seguramente acolhido em seu colo. Encostou a bochecha na bochecha de Arthur, checando a temperatura. Febre, sem dúvida. Com um suspiro preocupado, o garoto virou um pouco o rosto, no ímpeto de beijar a bochecha do loirinho. Entretanto, as palavras de Arthur voltaram a pesar em sua consciência, de modo que ele se afastou. Não havia sentido demonstrar carinho se o outro não acreditava na sinceridade do gesto. E era fato que Alfred sempre soubera o quão difícil seria fazer a ideia de amor entrar na cabeça de Arthur. Não era muito lógico e Arthur demorava a engolir verdades que não entendesse, optando por ignorar e afastar o que quer que tenha despertado uma verdade desagradável.

E se já era difícil convencer Arthur de que o amava, Alfred imaginava o que uma pessoa não teria que fazer para que ele o amasse de volta.

Gentilmente, o garoto desvencilhou o loirinho do seu colo e pousou-o sobre a cama. Uma vez que o anjo não mentia, Alfred encontrou uma caixa de medicamentos dentro do armário do britânico. Em alguns minutos, ele já tinha o que precisava sobre a mesa de cabeceira, assim como uma bacia de água e uma pinça. O anjo não fez comentário algum enquanto Alfred extraía os estilhaços do corpo de Arthur. Apenas pairava a poucos centímetros do chão, observando o trabalho dele com alguma curiosidade. Foi apenas quando Alfred passou a atar algumas bandagens que o anjo se pronunciou, ainda sem tirar os olhos do que o garoto fazia.

– Você até que é bom nisso... – o comentário era positivo, mas não o suficiente para inflar o ego de ninguém, apenas, sincero. Alfred agradeceu baixo, agora tentando tirar um pedaço de cristal particularmente fundo. Por sorte, ou até onde cair e se acabar em cima de estilhaços de vidro pode ser chamado de sorte, apenas os ombros e metade das costas foram atingidas. O anjo observou o cuidado excessivo, ainda que as mãos do garoto tremessem. – Por que você insiste em consertá-lo? – a pergunta não era maldosa, quase como uma criança que de repente encrencara com a dúvida de porque o céu era azul.

– Porque... porque... – Alfred levantou os olhos do que fazia, encontrando o olhar fixo do anjo sobre si. Estivera tentado a dizer alguma bobagem, mas o olhar do outro ser era estranhamente profundo, com alguma força muito grande oculta pelo jeito delicado. Era como o fluxo de um rio. Aparentemente calmo e comum, mas capaz de arrastar qualquer coisa em seu caminho. A pergunta exigia uma resposta e o olhar exigia que fosse verdade. – Porque eu me importo. – murmurou finalmente, voltando a fitar Arthur.

– Se você se importa, por que deixou as coisas chegarem a esse ponto?

Outra vez, a pergunta não era maldosa e não havia acusação nela. O anjo não o estava julgando.

– Porque eu faço tudo errado. – a resposta veio em um murmúrio, seguida por um meio sorriso um tanto decepcionado. O anjo o fitou, confuso. Alfred balançou a cabeça, suspirando e molhando uma tira de tecido para colocar sobre a face febril do loirinho. – O que seria da minha reputação se alguém me ouvisse falando isso. – riu um pouco, torcendo o pano e pousando-o sobre a testa do outro.

– Você é estranho. – o anjo aproximou-se um pouco mais e sentou-se na outra beirada da cama. Observou Alfred molhar as mãos e tocar o pescoço e as faces do loirinho, tentando diminuir um pouco a febre. Ele tinha as mãos largas e era meio desajeitado, mas seu toque foi delicado e cuidadoso.

– Ei... anjo. – foi quase um sussurro, hesitante, como se a ideia tivesse acabado de lhe ocorrer. Gentilmente, ele afastou a franja suada de Arthur da frente dos olhos dele. – você... acha que... você acha possível que ele... eu...

– Isso você mesmo precisa descobrir. – o tom foi sério e pela primeira vez o anjo pareceu realmente preocupado. – Por mais que eu queira, não posso resolver a sua vida por você. Eu posso ajudar, mas não posso te dar as respostas prontas.

Alfred suspirou, fazendo carinho sobre uma bochecha avermelhada de um britânico ardendo em febre. O meio sorriso veio triste e nostálgico.

– Sabe, eu sempre morri de medo de me confessar para ele. – agora decididamente foi um sussurro. Ele tentou engolir o nó em sua garganta enquanto fitava as feições sérias, mas delicadas de Arthur.

– Por que? Seria fácil... – o tom do anjo veio neutro, suave, impossível de ser desvendado.

– Seria mais fácil se ele significasse menos para mim. Se nós não tivéssemos tanto a perder. – o murmúrio veio seguido de silêncio pesado por parte do garoto. Arthur era seu único amigo, sua única família, seu único e mais sincero amor. Qualquer coisa era melhor do que perdê-lo em definitivo. Com o passar do tempo, embora Alfred não admitisse isso nem em seus próprios pensamentos, ele se contentara em simplesmente observar Arthur. A qualquer momento, mesmo nos seus de mais obscura insânia, ele estivera olhando para o outro. Amá-lo de longe era suficiente. – sabe... eu já me confessei para ele várias vezes. – a lembrança veio e um sorriso também.

– Então... – havia confusão no olhar do anjo.

– Quando eu era mais novo... No início, eu dizia na inocência. Mas depois, o significado mudou. – as lágrimas embaçaram a safira clara que parecia formar os olhos dele. – Eu dizia sempre: ei, Arthur, eu amo você. – o garoto riu um pouquinho. – E sabe o que ele me respondia? “Eu também, meu anjo. Agora vá dormir.” Ele nunca entendia e eu nunca tive coragem de explicar. – Alfred tornou a esfriar as mãos na bacia, em seguida tocando novamente as faces quentes de Arthur.

– Medo de ter seu coração partido...? – o olhar do anjo era tão intenso que o garoto podia senti-lo sobre si.

– Na verdade? Não... – seu coração apertou quando ele sentiu Arthur se aninhar contra a sua mão fria, um suspiro trêmulo deixado sobre a palma. – Se eu tivesse medo de ter meu coração partido, eu teria dito alguma coisa muito antes. Eu não o teria assistido trazer um amante diferente para casa a cada semana. – mordeu o lábio inferior, parte pela lembrança, parte pela frustração em não poder baixar aquela febre.

– Então por que?

– É só que... quando ele me respondia. Ele parecia tão... feliz. – a imagem de Arthur lhe respondendo aquilo, sorrindo como se não tivesse um único arrependimento em vida, como se tivesse tudo o que gostaria de ter no mundo... aquela imagem ficara marcada como a ferro quente em sua memória. – Ele estava feliz com aquilo. Por isso eu nunca contei. Eu preferi... tentar fazer com que ele me visse como adulto e, aos poucos, esquecesse de como eu costumava ser. Eu pensei que... ele sofreria menos se me imaginasse como uma pessoa diferente. Eu pensei que deveria mostrar a ele. Achei que ficaria bem se eu desfizesse nossos laços como família e criasse outros. – o riso veio amargo. – Eu fui idiota. Claro que eu não ia ficar bem sem aquilo. Mas eu quis arriscar. Eu era novo e achava que o amor era simples. Que era tudo uma questão de fazê-lo ver meus sentimentos, aí nós iríamos para o nosso final feliz.

– Você ainda assim poderia ter dito a ele. Nenhum de vocês é muito bom com ler as entrelinhas. – o anjo deitou com os cotovelos apoiados na cama, fitando de perto o protegido, que estremecia.

– Eu decidi mostrar a ele em lugar de dizer porque... eu não queria... isso é, eu não podia esquecer. Como foi me confessar para ele. Como aquelas palavras, naquela situação e somente nela, o faziam bem. É minha memória mais bonita e eu não quero que ela seja trocada pela lembrança dele decepcionado ou com nojo de mim por ter vindo a criar esse tipo de amor por ele. Eu tentei que ele esquecesse que me conhecia, para que, talvez, não tivesse tanto nojo de mim. Aí eu, achando que sabia o que estava fazendo, me separei dele e menti, pensando em um dia retirar o que eu disse. – seu olhar era sério, mas depois seu tom amenizou, como de quem falava de coisas que já não podiam ser mudadas. — Mas tudo saiu de controle.

– Por que você esta me dizendo tudo isso? – e, em parte, o anjo não conseguia deixar de sentir certa pena do garoto.

– Porque... Bem, pelo o que eu entendi, talvez minha consciência seja destruída. Então seria bom se alguém soubesse. Pensei em dizer porque acredito que você é confiável e não contará a ninguém. Especialmente para o Arthur. Não é como se ele precisasse de mais provas de que eu sou idiota. – o riso veio em uma pálida imitação de seus risos animados. – Eu não sou bom com sentimentos e palavras e demorei uma vida inteira para entender o que exatamente era isso que eu sentia por ele. Antes, eu imaginava amor como algo abstrato, algo que me contaram que meu sentimento chamava. Por anos eu fiquei imaginando como seria se nós ficássemos juntos. Só que aí eu percebi que tinha certeza de que seria feliz com aquilo, mas... e ele?

O anjo continuou a fitá-lo, seu olhar cheio de perguntas não ditas.

– Eu sempre morri de medo porque eu não sei se posso ganhar do eu que o Arthur guarda nas lembranças. Ele ria da minha inocência, das minhas pirraças e brincadeiras. Mesmo que eu tenha tentado manter isso, não é a mesma coisa. Ele simplesmente se afasta ainda mais. – mal sabia o garoto que já tinha ganhado do seu eu criança. Ele já tinha o coração de Arthur.

– Então você desistiu de se aproximar?

– Hoje eu tentei me aproximar dele de novo e o machuquei de novo. – finalmente, o choro que estava preso em sua garganta escapou, uma lágrima depois da outra, sem que ele realmente tivesse controle sobre isso. – Eu nunca mais vou ser responsável por outro ferimento dele. Juro.

Porque amá-lo de longe era o suficiente, não era? Mesmo que os sorrisos de Arthur nunca fossem para ele. Mesmo que Alfred nunca fosse acordar e se deparar com familiar e sonolento verde. Mesmo assim, era suficiente. Fora de seu alcance, Arthur ficava mais seguro. Era quase o mesmo tolo cuidado de quem não toca a pétala de uma rosa, por mais bela e encantadora que seja, porque sabe que seu toque queima nela como ácido.

Embora talvez fosse ainda mais tolo. Afinal, não era como se Arthur alguma vez tivesse estado ao seu alcance. Ele se sentia como se percorresse uma avenida muito, muito longa e Arthur estivesse sempre muito à frente, quase sumindo no horizonte, por mais que Alfred corresse. Quanto mais ele insistia em avançar, mais distante os dois ficavam. Um dia, uma voz lhe disse que se ele fosse o número 1 do mundo inteiro, Arthur voltaria a falar com ele. Afinal, ele falava com Portugal e outros países importantes da europa. Se Alfred viesse a ser importante também, com certeza Arthur voltaria a falar com ele.

Só que fora mentira e Alfred por si mesmo, deixando de lado seu lado nação, era péssimo em ler as pessoas. À exceção de Arthur, talvez, por ter convivido com ele muitos anos. Mesmo aquilo não lhe valia de nada. Mesmo quando ele viu o sol amanhecer naquele quarto de hospital, por maiores que seus esforços tenham sido, Arthur ainda pareceu inalcançável. Mesmo sempre tendo tido essa impressão, admitir que nunca o teria doeu mais do que Alfred previra.

Porque seus sentimentos nunca alcançariam Arthur. Alfred nunca voltaria a ser ele mesmo inteiramente e nunca seria mais do que o seu trabalho. Talvez ele desaparecesse. Nunca chamaria Arthur para um encontro. Nunca ficaria enrolado com ele no sofá vendo um filme idiota. Nunca saberia se os olhos verdes do outro cintilavam diferente quando fitassem quem ele amava.

Por mais otimista que Alfred sempre tenha se esforçado para ser por todos aqueles anos, não havia muito como evitar as outras lágrimas que se seguiram. Suas mãos tremeram e ele abraçou o corpo febril do loirinho, apertando-o com força. “Nunca” era tempo demais para quem vivia para sempre. E era tempo maior ainda se significava que teria de ser passado tão longe de Arthur.

– Anjo... – o sussurro veio fracamente, um tanto abafado, uma vez que Alfred ainda não desistira de abraçar o outro.

– Sim? – e como o anjo queria poder resolver tudo.

– Nós... morremos? – diante da própria pergunta, o garoto estremeceu e apertou Arthur com um pouquinho mais de força.

– Não.

– Nossa existência como nações... termina? – arriscou, lentamente desvencilhando Arthur de seu abraço e deitando-o sobre os travesseiros, fitando o rosto dele.

– Termina. Tudo termina.

O silêncio preencheu o quarto enquanto Alfred ainda olhava a face inconsciente do outro. Pareceu pensativo enquanto tentava gravar as feições do outro em algum lugar mais definitivo do que sua memória.

– Um amor pode durar mais de uma vida, anjo?

Brittania assentiu.

– Então eu vou atrás dele. Nem que seja no inferno, mas eu vou encontrá-lo. – ele não tinha como saber que não seria no inferno que eles ficariam juntos, mas estava disposto a ir até lá e voltar se isso significava que eles tinham uma chance. Se ele acabasse destruído, ainda achava que teria sua alma. E não importava onde fosse, ele tentaria conquistar Arthur.

Pela primeira vez, o anjo sorriu quase que com humor. Era uma esperança tão pequena que era louvável o fato de alguém ainda querer se apegar a ela. Ele não tinha certeza de como se daria o julgamento de nações, mas se eles tivessem que responder por cada pessoa que morreu sob a responsabilidade deles...

– Talvez você tenha que procurar lá mesmo.

Alfred sorriu de um jeito quase desafiador.

– Você é estranho. – constatou o anjo novamente. – Tem ideia de que sua mente pode ser destruída quando eu tentar forçar a sua consciência de volta ao seu corpo sem retirar a outra parte que você deixou crescer lá?

– Bem, está feito, vamos ver no que dá. – disse dando de ombros, brincando com a superfície da água na bacia. – Aliás... eu estava pensando uma coisa. Se você é um anjo, deveria ser capaz de fazer as coisas ilimitadamente, não? Como criatura divina, você deveria conversar com seu chefe e ser quase onipotente. – havia uma curiosidade quase infantil por parte de Alfred nas razões do anjo. Para sua surpresa, o anjo riu e balançou a cabeça.

– Alfred... – começou ele, voltando a se sentar na cama, tocando os lençóis superficialmente. – Você já viu uma semente de mostarda?

– O quê? – a pergunta foi tão estranha que o garoto voltou seus olhos para o anjo como se perguntasse se ele havia perdido a razão. No entanto, nessas horas, quando a pergunta é muito estranha, a gente acaba por respondê-la para saber onde vai dar. Foi assim que a resposta saiu confusa, mas existente. – Não...

– É menor do que um terço de um grãozinho de arroz. – sua voz era amena, mas havia em algo em seus olhos que denunciava o quanto aquilo era importante. – Eu conheci uma pessoa que disse... se os homens tivessem a fé do tamaninho de uma semente de mostarda, eles poderiam dizer para uma montanha para que ela saísse do lugar e fosse para outro, e ela obedeceria. – seu olhar encontrou o do garoto. – Até onde você acha que vai a sua fé? No momento, você mal consegue acreditar que eu existo. E você não consegue acreditar em uma forma de energia infinda, que não precise de recarga.

– Eu...

– Não, não, está tudo bem. A maioria das pessoas é assim. Eu entendo. – e parecia entender mesmo. Havia certa complacência em seus olhos verdes.- Enfim, eu preciso ir. – disse o anjo em um suspiro, erguendo-se da cama e pairando a alguns centímetros do chão novamente. Fitou carinhosamente Arthur dormindo. – Ele deve acordar em alguns minutos. Você terá forma física até eu voltar. O América continua existindo e agindo por conta própria. Já é um paradoxo você ter forma corpórea, não piore tudo. Em hipótese alguma saia dessa casa e nunca, nunca encontre com ele. Amanhã eu volto, tente não fazer muita bagunça. – disse o anjo, por fim, acenando brevemente e desaparecendo.

– Eu, bagunça? Que besteira... eu.. bagunça... – sua voz foi baixando conforme ele via a caixa de remédios revirada e uma módica poça d’água perto da bacia, manchando a madeira nobre da mesa e o chão. Ainda havia uma confusão de lascas de cristal que ele havia retirado e que ainda estavam avermelhadas de sangue. – Melhor eu arrumar isso antes que a fera acorde... – murmurou, tentando esconder a água com o tapete perto da cama. É, dava para enganar. Pegou a caixa de remédios e decidiu colocá-la de volta no armário.

Foi apenas quando fez isso que reparou no estranho conteúdo do armário. Havia várias roupas de eras diferentes encostadas no lado esquerdo e as mais recentes para o lado direito. Sobre algumas prateleiras havia uma confusão de livros velhos, pentagramas e revistas que mostravam moças com certa falta de roupas. Cartas, documentos históricos e literatura clássica se misturava com coisas modernas, em um caos digno da caixa de pandora.

O garoto despertou de seu devaneio naquele armário quando o dono deste gemeu desconfortável na cama, olhando em volta meio desnorteado.

– Cara, você tem uns negócios muito esquisitos aqui... – comentou Alfred, prestes a abrir as gavetas.

– Pare já de mexer nas minhas coisas, seu americano estúpido! – o choque o fez sentar na cama, mas o movimento brusco fez sua cabeça latejar. — Oww, minha cabeça... – resmungou, largando-se sobre a cama novamente, agora escondendo o rosto com os braços.

– Tch! Chato... – mesmo assim, fechou o armário e sentou-se à beira da cama. – E aí?

– Ugh, agora não. Se quer rir de mim, faça isso depois, minha cabeça parece que vai explodir. – a voz do britânico saiu abafada, uma vez que ele ainda escondia o rosto, em uma tentativa válida de diminuir a tontura.

– Você é burro? Eu não vou a lugar nenhum com você assim. – o biquinho do garoto foi adorável, ainda que estivesse um tanto nervoso. – E até parece que eu ia vir esse caminho todo para rir de você. – dito isso, delicadamente guiou os braços do outro para longe de seu rosto, fitando as faces afogueadas. Arthur sentiu o olhar do outro sobre si e imediatamente o empurrou.

– Certo, certo, eu acredito, só não chegue perto. – murmurou, disfarçando a vergonha como se estivesse ofendido.

Alfred suspirou frustrado, bagunçando os próprios cabelos em nervosismo.

– E o que você está fazendo aqui, aliás? – o tom de Arthur era de alguma suspeita.

– Lembra o seu anjo? Então, culpa dele, vocês que se entendam. Até porque eu nem sei se entendi direito. – disse pensativamente.

– Certo... – disse, um tanto relutante. — Enfim, fora da minha casa. – Arthur virou-se para o outro lado, evitando encarar o garoto.

– O quê?!

– Isso aí. Fora. Eu estou doente e um trapo, não preciso de plateia. Me visite um outro dia, se você se lembrar.

– Eu não estou aqui de plateia, eu vim ajudar!

– Mas eu não preciso! – a implicância era quase boba, os dois sabiam, mas quem daria o braço a torcer?

– Arrgh! – bufou o garoto, extremamente tentado a responder à altura. Mas eis que ele se lembrou das palavras do anjo que, em hipótese alguma ele deveria sair daquela casa. Droga. Engolindo a vontade de retrucar e o ego, ele suspirou. – Muito bem. Eu não estou sendo razoável, mas você também não. – Arthur abriu a boca para responder, mas o garoto pediu silêncio erguendo uma mão. – Eu acho que nós começamos errado. Vamos tentar de novo. – estendeu a mão formalmente. – Eu sou o Alfred, seu amigo e vim te ajudar porque me importo. Seria problemático para todo mundo se você não se cuidar direito, logo, eu vim ajudar no que puder.

Arthur hesitou, mas acabou por apertar a mão que lhe era oferecida.

– Como isso aconteceu? Você não deveria estar aqui... – murmurou o loirinho, deixando os dedos de Alfred um tanto quanto devagar. Para a sua surpresa, a expressão do garoto tornou a ficar séria e, por vários minutos ele não respondeu. Ele meramente deitou na metade vaga da cama e virou-se de lado, fitando-o em silêncio. Arthur virou-se de lado também, encarando olhos claros que o miravam, afastando-se e impondo alguma distância. O garoto pareceu subitamente mais triste quando voltou a falar.

– Importa? – sua mão fez menção de tocar a face do outro, mas ele a recolheu. – Amanhã eu vou ter desaparecido...

– O que você –

– Arthur. – Alfred interrompeu, antes que o outro perguntasse. – Arthur... – repetiu, como se pensasse em como aquilo soava em sua língua.

– É como eu me chamo... – murmurou Arthur, o cenho levemente franzido em irritação já que Alfred parecia pouco disposto a explicar qualquer coisa. Além do mais, a febre o deixava particularmente desconfortável.

O garoto sorriu da resposta mal humorada do outro. Arthur tinha um gênio difícil e era parte da razão de porque Alfred o amava tanto. Percebendo as faces do outro ainda afogueadas, o garoto pousou uma mão fria sobre uma delas, sentindo Arthur suspirar de alívio enquanto fechava os olhos. Alfred ainda deslizou seus dedos até eles se fecharam na nuca febril do loirinho, em algo provavelmente muito mais carinhoso que terapêutico. Sentiu quando o outro estremeceu sob o seu toque, embora ele não pudesse saber se era deleite ou desconforto. Depois, percebendo que seu movimento o delatava, o garoto afastou a mão do pescoço do outro e a levou de volta à bochecha de Arthur, subindo e afastando a franja que tinha voltado a cair sobre os olhos verdes do outro.

– Isso vai passar, Arthur. – prometeu, embora talvez ele não se referisse à febre.

Arthur não viu quando o garoto apagou as luzes, mas certamente ouviu a promessa que ele fizera. E não pode deixar de se sentir melhor com ela. De apreciar a companhia de Alfred. A verdade era que o garoto era a única pessoa que podia invadir seu espaço pessoal sem que fosse incômodo. Aliás, aquilo o fazia até... bem.

Sentiu quando o colchão cedeu um pouco diante do peso de Alfred na outra metade da cama e seu coração bateu com certa força nessa hora. Ninguém soube dizer ao certo quem se aproximou primeiro, mas o fato era que, em poucos minutos, os dois estavam praticamente abraçados. Arthur fazia o seu melhor teatro em fingir que dormia e que, de maneira alguma, aproximara-se intencionalmente. Alfred sentiu as bochechas avermelharem, mas isso não o impediu de continuar exatamente onde estava, um tanto consolado com o fato de que Arthur dormia, ou assim ele acreditava. Foi com essa crença que ele beijou o topo da cabeça do loirinho e murmurou baixinho.

– And an evening breeze, coming from the east, that kissed the riverside… — a canção era mínima, mas Arthur sentia que conhecia aquilo de algum lugar. Alheio ao rapaz que fingia dormir, Alfred continuou. — So I pray now child that you sleep tonight, When you hear this lullaby… May the wind that blows from haunted graves never bring you misery. May the angels bright, watch you tonight, And keep you while you sleep… (então eu rezo agora, criança, que você durma hoje à noite quando você ouvir essa canção de ninar. Que o vento que sopra de tumbas mal-assombradas nunca te tragam miséria. Que os anjos brilhantes olhem por você essa noite e te guardem enquanto você dorme...).

Porque Alfred não estaria ali quando ele acordasse, então, o melhor que o garoto podia fazer era desejar que, ainda assim, Arthur ficasse bem. O loirinho lhe questionaria, mas estava irresistivelmente confortável nos braços do outro e simplesmente com tanto sono... O seu coração se enchia com alguma felicidade estranha e quieta quando ele se percebia tão perto de Alfred. Mal sabia ele que o garoto sentia exatamente o mesmo e que havia uma ternura velada na canção baixa que ele entoava. O som embalou o sono do loirinho, que adormeceu, com a estranha sensação de que aquilo era um tanto familiar.



O Arcano 6 — Os amantes


SIGNIFICADO DIVINATÓRIO


Amor. Beleza. Perfeição. harmonia. Unanimidade.Confiança. Fé. Honra. Começo de um possível romance. Paixão. Sentimento profundo. Tendência para o otimismo. Desatenção a possíveis conseqüências. A pessoa está se deixando conduzir. Liberdade de emoção. Necessidade de experimentar ou de se submeter a provas. Luta entre o amor sagrado e o amor profano. Submissão a uma prova ou exame. Ficar sob observação. Desejo ardente. Tentativa. Possíveis dificuldades. Uma pessoa profundamente envolvida nas emoções e problemas de um amigo ou de um parente. Um assunto de conseqüências significativas.



Notas finais
Bem, como prometi, eis o capítulo. Sinto muitíssimo pelo tamanho que saiu. Sinceramente, fiquei um tempão tentando ver se conseguia separar, mas, talvez vocês concordem comigo, não tem exatamente um lugar muito bom de fatiar esse capítulo. É uma cena só que se desenrola...
E a referência foi a Benelux, sementinha da união europeia. Ainda vou falar mais disso, assim como mais acontecimentos da guerra fria. É só que esse capitulo foi mais focado nos indivíduos. Afinal a vida pessoal desse povo tem que andar, não só a geopolítica kkkkkkkkkk xD
Bom, mas acho que eu recompenso a demora na postagem xD Eu tive uns problemas e ainda teve a questão da métrica aí atrasou. Mas enfim, saiu. Tomara que eu não espante muita gente com esse monstrinho de capítulo xD
Agradeço muito, muito, muito às lindas pessoas que ainda estão lendo (e, com sorte, continuarão mesmo depois desse singelo capítulo kkkkkkk) Labi, Shin no tamashi, cath, lirium, ju, moro-chan, chocolateluv, bia, carol, mah, ichimoku, nocturne e shirayuki! Beijos, minhas musas inspiradoras xD
Enfim, até a próxima (não desistam! kkkkkkkkkk xD) Beijo, beijo :D