Boulevard Of Broken Dreams

13 Capítulo 13 - O Arcano 1


- Eu nunca menti pra você, Arthur... – murmurou, muito baixinho, seus lábios tocando o topo da cabeça do loirinho. – Isso não é real. – entrelaçou seus dedos com os de Arthur e fechou os olhos. – Nós estamos sonhando...

As lágrimas correram pelo seu rosto, uma depois da outra, e ele suprimiu um soluço magoado. Se alguém lhe perguntasse, ele diria que tudo o que ele quis, naquele momento, foi que aquela noite nunca terminasse. Seu coração doía, mas Arthur lhe pareceu em paz. Mesmo que o loirinho não o amasse como ele amava, os dois estavam juntos naquele momento e isso era tudo.

Alfred não se importaria se ele morresse naquele momento. Não se importaria se tudo acabasse bem ali.

E mesmo que nada acabasse, ele queria ao menos que a manhã nunca chegasse e que pudesse segurar o outro rapaz em seus braços indefinidamente.

Contra os desejos do garoto, aquela noite não durou para sempre. No entanto, o sono de Arthur durou algumas horas. Alfred não conseguiu dormir, distraído demais pela presença do loirinho ali. Então, seu tempo foi ocupado com inúmeros carinhos sobre a face de Arthur, com alguns beijos um tanto culpados sobre o rosto dele e alguns suspiros e sussurros que diziam palavras delicadas e macias. Com o passar do tempo, a expressão adormecida de Arthur foi mudando, como se, aos poucos, ele permanecesse inconsciente muito mais por cansaço do que por ter sido dopado. Seu sono tornou-se mais livre. Já quase amanhecia quando ele virou para o lado oposto e quase caiu da cama. Teria caído mesmo, se os braços de Alfred não tivessem se fechado em torno da cintura dele e o trazido de volta. Foi aí que o garoto decidiu se levantar e deixar a cama toda para Arthur. Era realmente estreita demais para os dois.

Levantou-se silenciosamente, recolhendo o casaco e vestindo-o. Arthur trazia as faces um pouco coradas com o excesso de calor. Alfred tentou não ficar feliz demais com o fato de que seu casaco ainda tinha o cheiro de Arthur. No entanto, não conseguiu evitar com que seu coração desejasse que aquele perfume ficasse ali para sempre. Como uma lembrança dolorosa de um amor que nunca se realizaria, mas uma lembrança doce de como era ter Arthur nos braços.

Ainda com o coração aos pulos, foi sentar-se na única cadeira no cômodo, perto da porta. Seus olhos claros se voltaram para o loirinho. Ele mexeu-se novamente em seu sono, virando de frente para o garoto, um pouco encolhido.

O sol pálido de um dia que amanhecia nublado tocou o corpo de Arthur, que repousava entre lençóis que já não o cobriam, uma vez que, durante a noite, ele aparentemente chutara os tecidos e escolhera Alfred para se aquecer. O dia lá fora estava tão cinzento quanto sempre fora e o sol era fraco entre as nuvens. Mas o garoto parou e olhou a cena, verdadeiramente estupefato. Não era o dia em si que era belo, mas o rapaz que repousava sobre aquele leito de hospital era. A luz brincava de deixar os cabelos de Arthur ainda mais dourados e mais claros. O corpo dele, ainda que ferido e maculado, podia ter sido de um anjo que achara por bem dormir um pouco ali. E, embora o garoto não pudesse ver naquele momento, Arthur detinha os olhos verdes mais fascinantes que ele conhecera. Por um momento, ele se perguntou como eles cintilariam sob aquela luz. Porque a luz branca daquele sol pálido tornara belo até mesmo o antigo lençol que jazia esquecido no final da cama. O que não fariam com aquele tom de verde?

Alguns minutos se passaram, mas o garoto ainda não tinha se mexido. O sol, no entanto, consciente de seus afazeres, subiu um pouco mais no céu e fez cintilar sobre Arthur uma lâmina de luz, onde o garoto conseguia ver milhares de pedacinhos de coisas coloridas. A imagem que se fez ali era quase um milagre.

Alfred sentiu um aperto no coração. Naquele momento, Arthur lhe pareceu inalcançável.

Seus olhos desviaram da cena e seus pensamentos se perderam. Ele não soube ao certo no que pensou. Era só um daqueles momentos em que os sentimentos parecem inundar todos os sentidos e nenhum pensamento realmente nos passa pela cabeça. Alfred provavelmente pensou em tudo e em nada ao mesmo tempo. No entanto, um chamado baixo o surpreendeu e ele voltou a olhar para o loirinho, que parecia acabar de acordar.

- Alfred...? – piscou, confuso. A primeira coisa que percebeu é que estava sozinho na cama e que o casaco de Alfred não estava mais ali. Seu coração apertou dolorosamente quando percebeu que o garoto estava do outro lado do quarto, o mais longe possível.

Alfred sentiu o mesmo aperto doloroso, embora fosse por outra razão. Os olhos verdes que procuraram por ele pareciam tão assustados... Eles nunca foram assim. O que estava acontecendo com Arthur?

No entanto, suas divagações foram interrompidas quando ele reparou melhor na cena. O jeito como aqueles lábios macios chamaram seu nome baixinho, uma expressão um tanto perdida no rosto dele... Ele era tão bonito. Alfred ficou desconcertado, desviando o olhar.

- Alfred...? – tentou o loirinho de novo, hesitante. Sua cabeça estava uma bagunça completa e latejava muito. Ele se lembrava de dor e sangue, alguém chamando o seu nome, pessoas gritando, uma pessoa sussurrando, mais dor, alguém o abraçando, olhos azuis voltados para ele, depois uma escuridão muito densa... Mas... Espera, ele se lembrava. Sua cabeça doeu ainda mais, ainda protestando contra as várias noites que ele virara em claro, ressentindo o clorofórmio que intoxicara seu organismo.

Alfred. Alfred estava na confusão de memórias borradas das últimas horas. Ou será que ele estivera delirando? Não seria a primeira vez, ele sonhava com Alfred várias vezes. Embora geralmente fossem pesadelos... Aquilo acontecera ou fora apenas um sonho fora do usual?

– Você... está aqui faz tempo? – perguntou finalmente, ainda hesitando.

- A-Ahn? N-não! Cheguei tem uns cinco minutos! – disse o garoto, uma mão na nuca, embaraçado. O jeito como ele avançara em Arthur na noite passada pareceu-lhe ainda mais vergonhoso naquele momento, o sol pálido o iluminando como um holofote, como se o recriminasse.

Arthur franziu a testa, incomodado com a voz alta demais do garoto. Ele se movia demais e falava demais para sua mente meio dormente. O loirinho piscou algumas vezes, tentando entender a resposta de Alfred.

Então... ele não estivera lá.

— Me mandaram ver como você estava... – disse o garoto finalmente.

— Já viu. Agora já pode ir embora... – murmurou Arthur, respirando fundo, tentando não pensar no quanto o aparente descaso do garoto o machucava.

— Arthur...? – Alfred estranhou o tom levemente ríspido na voz do outro. Geralmente ele mais ou menos entendia as atitudes de Arthur, uma vez que ele o conhecia e o observava há muito tempo. O que... ele tinha dito de errado? – Ahn... quer alguma coisa?

— Não. Vai embora. – Arthur virou de costas para o outro, querendo mais do que nunca ficar sozinho. Doía. Ele tinha tido uma esperança pequenininha de que a noite passada não tivesse sido um sonho. Saber que era apenas uma ilusão sua doía mais do que ele esperava...

— Tem certeza? – arriscou o garoto, ainda incomodado com o tom de voz de Arthur. Por que ele parecia tão triste?

O loirinho tentou responder, mas calou-se, tentando conter uma tosse que ele sabia que viria com sangue. A última coisa que ele queria agora é que Alfred percebesse. Porque provavelmente ele não se importaria.

— Arthur...?

— Vai. Embora! – gritou Arthur, levantando da cama e andando aos tropeços para o lado oposto do quarto, irritado, magoado, confuso. Alfred o olhou fundo em seus olhos e ele pareceu tão chocado, tão... triste. Arthur sentiu o coração apertar ainda mais e a vontade de chorar cresceu dentro dele, um nó se formando na garganta.

— Eu... não deveria ter gritado. – murmurou, virando-se para a janela e olhando para fora. Ele desaprendera a pedir desculpas. – Eu só.... – Arthur teria continuado, mas recomeçou a tossir, tapando a boca e virando para o lado da janela, evitando olhar para o garoto. Apesar de seus esforços, um pouco de sangue escorreu entre os seus dedos e pingou no chão. Arthur ficou absolutamente quieto.

De repente, ele entendeu. Isso era ser uma nação decaindo. O império britânico caindo. A perda não só de vidas, mas de importância no cenário mundial. Isso explicava a dor constante, a hemorragia interna, os ferimentos que demoravam tempo demais para fecharem. Arthur respirou fundo. Ele tinha que mandar Alfred de volta para casa. Provavelmente não era contagioso, mas ele realmente não ia arriscar. Ele teria falado algo para afastar o garoto o mais rápido possível, mas seus olhos encontraram algumas pessoas na porta do hospital. Oficiais britânicos.

Mantenha os alemães ocupados.

- Arthur? – Alfred estranhou o silêncio súbito do loirinho e correu até perto dele. Ele olhava para frente sem foco algum, como na noite passada quando a dor era insuportável. – Arthur? – chamou de novo, vendo os dedos do loirinho manchados de sangue e apertando o parapeito da janela com muita força e a respiração dele começando a quebrar.

Sangue, alguma coisa viscosa descendo pelas coxas. Frio, muito frio... Ele estava sangrando. Alguém o segurava por trás com muita força, seus pulsos doíam. Arthur queria gritar, chorar, qualquer coisa menos continuar ali...

- Arthur!

Um par de olhos muito verdes se voltou para Alfred. Arthur afastou-se e encostou-se na parede, fechando os olhos com força diante da dor no seu tronco, mas esforçando-se para ficar em pé. Tossiu de novo e, dessa vez, não pôde impedir Alfred de ver o sangue. Olhou para fora novamente e viu os oficiais checando papéis antes de entrar no prédio.

— Alfred, é melhor você ir embora. – murmurou, a voz tremendo e seus olhos esverdeados cintilando em algo que parecia desespero. Não era difícil perceber que Arthur não queria ficar sozinho. Não agora. Não ali. Não com aquelas pessoas.

— Do que você está falando, Arthur? Você está tremendo! – acusou Alfred, agarrando uma das mãos de Arthur entre as suas, sentindo-o tremer como uma folhinha ao vento. Havia mais sangue ali. Por que...? Ele deveria se recuperar bem mais rápido do que aquilo. O que estava acontecendo? – Você esta sangrando de novo?

— Não, eu não estou... – mentiu Arthur, desviando o olhar, tentando empurrar o garoto. – Alfred, vai embora, por favor... – sussurrou, metade de si gritando para que ele pedisse para o garoto ficar; a outra metade, cheia de honra e orgulho, lhe dizendo que ele devia lutar as suas batalhas sozinho.

Alfred suspirou e abraçou o loirinho, aninhando contra o próprio peito como fizera na noite passada. Ele sentiu Arthur tentando afastá-lo fracamente, muito mais por orgulho do que porque ele realmente não quisesse aquele abraço. Ele parou de resistir em alguns minutos, desistindo em favor daquele calor aconchegante de colo que ele nunca de fato experimentara.

— Arthur, o que aconteceu com você? – murmurou Alfred, alguma doçura velada em suas palavras, seu polegar acariciando a bochecha macia do outro.

O loirinho, no entanto, apenas afundou o rosto ainda mais em seu casaco, abraçando-o, mas recusando-se a dizer uma só palavra. Ele se sentia tão inútil e fraco por estar assim na frente do garoto. Tão sem valor por não conseguir mais aguentar tudo aquilo sozinho. Ele não queria dizer o que tinha acontecido, porque inevitavelmente choraria se dissesse. E ele não queria que Alfred soubesse. Não queria que ele conhecesse um lado tão patético. Alfred o tinha deixado quando Arthur era o maior império do mundo. Aconteceria algo pior agora se o garoto soubesse que ele estava decaindo. Aquele dia há muitos anos atrás, em um outro campo de batalha, embaixo de uma chuva que infelizmente não fora o suficiente para fazê-lo sumir. De repente, as lembranças vieram à tona e Arthur sentiu-as atingindo-o com força. Pior que qualquer bombardeio, que qualquer hemorragia, que qualquer outro ferimento que ele já tivera em vida.

— Arthur, Arthur... – murmurou Alfred carinhosamente, escondendo-o em seu abraço. – Você realmente não confia em mim, não é... Conta pra mim...– continuou baixinho, magoado e triste. Por que Arthur não contava? O loirinho balançou a cabeça, negando tudo. Ele não contaria. Nem uma palavra.

Alfred suspirou pesadamente, apenas aninhando o outro, seus dedos brincando com os cabelos dele. Afastou-se alguns centímetros, apenas para olhar os olhos claros de Arthur. Ali estava... Vulnerável. Implorando para não ficar sozinho. Cansado de sentir tanta dor. Lutando com cada pedacinho do seu ser para aparentar ser alguém muito mais forte do que ele era.

— Arthur... – abraçou-o apertado, envolvendo-o, tentando consolá-lo de uma dor que ele não entendia. – Sabe... você pode chorar, se quiser. Não vai me fazer pensar menos de você por isso... – murmurou, sentindo a respiração do loirinho quebrar.

— Idiota... – sussurrou Arthur, uma partezinha dele com raiva do garoto. Porque simplesmente, com aquelas pequenas palavras de Alfred, Arthur sentiu as lágrimas descendo sem o seu consentimento, queimando por onde elas passavam, testemunhas fiéis do quanto aquelas lembranças o machucavam. Embora o garoto nem desconfiasse, as lembranças que mais feriam Arthur eram lembranças que ele mesmo fizera. De uma batalha que começou há muitos anos atrás iniciada por ele mesmo, munido apenas de um amor não correspondido. Aquele dia ainda era o pior pesadelo de Arthur. E ele se perguntava... quanto tempo até aquilo acontecer de novo? Quanto tempo até Alfred ir embora outra vez?

Alfred sentiu a camisa que usava ficar molhada com as lágrimas de Arthur. Deu um sorriso de lado, um pouco triste. – Você que é idiota... Você deveria me contar o que aconteceu... – murmurou, apertando o loirinho um pouco mais em seus braços. Sentiu vontade de chorar também. O que estava acontecendo com Arthur? O que poderia ter acontecido de tão doloroso para fazê-lo chorar assim?

Alfred apenas continuou abraçando-o, sentindo as lágrimas dele correndo em silêncio. Arthur se esforçava para não soluçar, nem chorar muito alto. Foi um choro desesperado, mas muito baixinho, como se ele tivesse a esperança de que Alfred não percebesse que ele chorava. Arthur ainda tentava digerir a ideia de que teria que descer e enfrentar os seus superiores. E se... E se o dessem outra ordem como aquela? Ele não queria. O garoto olhou sobre o ombro do loirinho e percebeu algumas pessoas entrando no prédio. Seja lá o que tinha acontecido, Arthur ficara perturbado após ver os próprios oficiais...

Alfred afastou o loirinho de si, dando um sorriso um pouco triste, mas inegavelmente carinhoso.

— Você pode não confiar em mim... Mas eu vou proteger você, Arthur. – os olhos azuis dele cintilaram com muita vivacidade, muito, muito claros, muito determinados. Ele depositou um beijo delicado sobre a testa do loirinho e saiu andando apressado em direção à porta.

Arthur tocou o topo da própria cabeça, chocado. O que...? Por que ele o tinha beijado? E como no sonho? Será que...

Ouviu um sonoro clique vindo da porta. Correu até ela e testou a maçaneta.

Trancada.

— Alfred, o que você está fazendo?! – gritou, esmurrando a porta. – Alfred, abre essa porta! – tentou empurrá-la, mas o garoto aparentemente estava bloqueando-a.

De fato, Alfred estava encostado na porta, um dos seus pesados coturnos escorados na porta, assim como suas costas. Suas duas mãos sentiam Arthur forçar a porta. Mesmo naquele estado, ele era forte o bastante para arrombar o objeto estúpido em seu caminho se ele tivesse vontade. Mas aquilo não era nada bom, ele não deveria estar se mexendo tanto. Ele ainda estava muito ferido...

— Arthur... – chamou baixo, mas firme. O loirinho parou de bater para ouvir sua voz baixa. – Só nessa. Confia em mim.

Os olhos azuis de Alfred fixaram-se no início do corredor. Em poucos minutos, eles se detiveram nos oficiais que vinham atrás de Arthur. Alfred permaneceu encostado à porta, cruzando os braços e fitando-os com certa hostilidade, como um lobo não muito contente em ser acuado.

— America. – os oficiais o cumprimentaram polidamente e gesticularam para que ele saísse da porta.

Alfred não se moveu.

Os homens acharam melhor explicar a situação ao garoto. Ele era um aliado e a ajuda dele era importante, de modo que irritá-lo não pareceu a melhor das ideias. Eles bem sabiam como Alfred sabia ser temperamental.

— Viemos buscá-lo. – disseram, apontando para a porta.

— Art- Inglaterra? – corrigiu-se a tempo, um tanto incrédulo. Para onde iriam levá-lo? Suas feições ficaram ainda mais sérias.

— O dia D já aconteceu, nós temos que levá-lo para o campo de batalha imediatamente. Aliás, ele já está atrasado.

— Ele não vai. – foi baixo, mas havia um tom estranhamente letal no que o garoto dizia. Suas mãos tremiam de raiva.

— O quê? – olharam o garoto como se ele tivesse ficado louco. Ele não parecia muito amigável. A franja caía sobre olhos muito azuis que cintilavam como duas adagas no escuro.

— Ele não vai. – repetiu Alfred, ainda tentando controlar a vontade de matar dolorosamente cada um ali. Como eles podiam fazer uma coisa daquelas? Arthur estava ferido demais para sequer levantar da cama e queriam levá-lo para outra batalha? Como podiam pensar em levar alguém que estava tossindo sangue, com um ferimento aberto na cabeça, para outra luta?

— America, eu não acredito que isso seja assunto seu. — o oficial retorquiu calmamente, não muito contente com a situação, no entanto. – Nós sempre levamos a representação de uma nação ao campo de batalha inimigo.

— Eu compareço no lugar dele.

Arthur congelou por um instante, até seus joelhos finalmente cederem. Ele escorregou silenciosamente até o chão, sentando-se no piso frio.

Houve um suspiro pesado, até os homens acenarem brevemente com a cabeça.

— Ele provavelmente não seria de muita utilidade mesmo... – murmurou, medindo Alfred com os olhos. Não tinha a metade da experiência de Arthur em campos de batalha, mas ao menos o garoto parecia inteiro, ao contrário do britânico. Deixou escapar outro suspiro frustrado. Embora fosse só um pirralho, o país dele tinha um arsenal interessante. Já que ele não poderia contar com a experiência e força de Arthur dessa vez, o jeito era abrir uma concessão ao garoto. – Acompanhe-nos, sim?

Arthur sentiu o peso de Alfred sumir da porta e ele se desesperou. O que aquele garoto idiota estava fazendo? E se... alguma coisa acontecesse com ele? Por que ele estava fazendo aquilo? Proteger? Por que alguém ia querer protegê-lo? Antes que ele pudesse reagir, uma pequena chave foi arremessada pelo vão da porta e os passos se afastaram. Arthur agarrou a chave e a enfiou na fechadura com pressa, errando várias vezes até conseguir encaixá-la e girá-la, abrindo a porta com certo estardalhaço.

No entanto, o som ecoou sozinho pelo corredor. Já não havia ninguém ali.

Arthur se levantou com alguma dificuldade e correu até a janela, abrindo-a para ver melhor. Mas quando olhou, o grupo de homens já estava dentro do carro e partindo. O barulho do motor invadiu a rua e depois tudo recaiu no mais absoluto silêncio.

Ainda atordoado com o excesso de informações, Arthur se jogou na cama, escolhendo fitar o teto até sua cabeça parar de doer. Seu coração batia com tanta força que era bem provável que ele rompesse. Por que...? Por que Alfred estava fazendo aquilo? Arthur não soube o que pensar. Ninguém nunca o havia protegido. Ele sabia como era proteger alguém, mas nunca...

O que estava acontecendo?

O loirinho tocou o topo da própria cabeça. Ele quase podia sentir o beijo que recebera ali. Houve uma brisa mais forte e a porta do quarto bateu. Arthur, por reflexo, virou-se para olhar.

— Espera... – murmurou ele, fitando a porta com atenção. Seus olhos arregalaram. – Aquilo é.. sangue?

- Meus meninos... – murmurou, com o coração apertado, levantando-se bruscamente da cama. Ele sabia, ele sentia, ia acontecer. Iam atingir uma área civil. Suas crianças... Ele se apoiou na beira da cama e obrigou-se a andar até a porta, seu corpo ainda ardendo com os ferimentos anteriores. Seus dedos tocaram a maçaneta, mas foi tarde. Ele sentiu um golpe, pouco acima de seu peito, que o fez gritar, o som ecoando pela construção vazia. Ele se apoiou na porta, sentindo-se começar a tossir. Sua boca foi corrompida com um gosto férrico e a porta à sua frente manchou de sangue. Lentamente, seu corpo fraquejou e ele bateu o rosto contra a madeira, escorregando até bater no chão. Seu corpo tombou meio de lado e sua cabeça bateu no chão com força, reabrindo o ferimento que ele tinha ali.

- Então... eu desmaiei mesmo ali... – murmurou, ainda tentando entender. – Mas... se eu desmaiei ali. Por que eu acordei na cama? – existiam duas possibilidades. Uma delas era Alfred estava falando a verdade e chegara há cinco minutos, tirando-o no chão. Uma noite inteira passada no piso frio e duro explicaria a dor de cabeça e o fato dele estar sentindo o corpo meio pesado e dormente.

No entanto, havia uma outra possibilidade. Seu organismo estava estranho, como se ressentisse algo. Como se... Era estranho, havia algo de errado, ele podia sentir.

Até onde o que ele conseguia se lembrar era realidade e onde começava o sonho? Era estranho que Alfred tivesse chegado a cinco minutos como ele dissera. E mesmo que ele tivesse chegado, de um jeito ou de outro ele teria de tirar Arthur da frente da porta. Mas se ele o tirou do chão... Por que ele esconderia isso? Arthur o conhecia, Alfred não perderia a oportunidade de se exibir de algo assim.

Bem, independente do motivo, o fato era: Alfred o tirara do chão. De um jeito ou de outro, a porta manchada era evidência o suficiente para supor que, ao menos até ele desmaiar ali, ele não estivera sonhando. Depois... depois daquilo, ele se lembrava de Alfred abraçando-o e levando-o para a cama. Então... aquilo aconteceu de verdade? Ou o garoto chegara realmente só pela manhã?

Alfred deveria ter considerado o fato de que Arthur era inteligente e que dificilmente acreditaria em qualquer coisa que lhe dissessem sem evidências. A intuição do loirinho lhe dizia que não fora um sonho. Não tinha como ser. Ao mesmo tempo, uma parte dele tentava impedi-lo de acreditar nisso, para que ele não acabasse decepcionado depois. Ainda havia uma parte racional, que lhe lembrava de que Alfred não tinha motivos para mentir. Arthur tinha que estar pronto para aceitar que aquelas lembranças eram uma ilusão.

Mas... e se fosse verdade? E se... e se aquele beijo tivesse mesmo acontecido? Ele... ele o amava também? Claro, Alfred sempre fora especial, mas... quando foi que aquela afeição pueril teria se tornado amor por sua parte? Mesmo quando o garoto declarara independência, Arthur ainda não o via como via agora.

Não que agora ele não tivesse afeição pelo garoto. Era só que algo a mais parecia ter se somado e mudado drasticamente o sentimento anterior. Como se Arthur tivesse amado uma pessoa e a tido como irmão e depois tivesse amado outra com um amor de adultos. É, era isso. Talvez fosse... um amor de amantes.

Então... ele desejava Alfred?

Arthur parou diante da pergunta. Sim, o garoto era muito bonito. Ele era atraente. No entanto, o loirinho apenas considerara aquilo naquele momento.

Não que ele não pensasse em sexo. Era só que ele nunca... tinha pensado em sexo como expressão de amor. As pessoas que se deitaram com ele jamais o amaram e ele sempre soube. Ele se acostumara a pensar naquilo como satisfação momentânea, algo até meio sujo e sem valor.

Mas agora ele começara a imaginar. Como seria...? Deitar-se com alguém que o amasse? Transar com alguém que ele realmente desejasse, quisesse bem, amasse de volta? Lembrou-se dos curtos lampejos durante a segunda guerra. Sonho ou realidade, ele ainda lembrava como era quando Alfred tocava o seu rosto. O toque dele era tão diferente! Mesmo os beijos castos em sua bochecha... Era diferente. O jeito como ele o olhava às vezes parecia dar uma descarga elétrica em cada pedacinho do seu corpo. Mas era algo... bom. Não do tipo de coisa boa que o deixava culpado depois. Só... boa.

Arthur nunca conhecera amor de tipo algum. Desde quando podia se lembrar, estivera lutando, estivera ferindo e sendo ferido. Nunca houvera tempo. Sua infância não era um lugar de memórias bonitas. Por mais que ele tentasse esquecer aquilo era dor, eram doenças, eram guerras, era a fome. Ele vivera para ver a peste negra exterminar quase a Europa inteira. Vira o horror, o sangue coagulado formando manchas horríveis, alguma coisa matando rápido demais, sem explicação alguma. Quando ele se preocuparia com algo como amor? Ele nunca entendera esses sentimentos.

O mais estranho de tudo isso é que, por mais que ele próprio não entendesse a afeição, ele a ensinara a alguém. Alfred fora mimado por ele. O garoto conheceu chás e bolos, passeios entre lagos e bosques, consolo em noites de temporal. Então fora apenas uma questão de tempo para ele entender a afeição clara de Arthur por ele, embora o próprio loirinho não percebesse. Arthur queria que aquele menino tivesse ao menos um pouco do que ele nunca pudera ter. Por isso Alfred sempre esteve impecável. Os cabelos macios sempre no lugar, as camisas brancas e engomadas, o quarto repleto de brinquedos e livros.

E como o destino é cheio de vontades, quis ele que Alfred aprendesse a afeição e seu coração lentamente a tornasse em amor. Amor esse que, mais tarde, ele ensinaria a Arthur. Porque, no final das contas, tudo volta para a gente.

O rapaz na cama suspirou, franzindo levemente a testa.

— Alfred...? – estaria ele ficando louco ou o travesseiro estava com o cheiro de Alfred? Arthur sentiu-se inspirar fundo, por alguma razão. Por que ele gostava tanto daquele perfume? Por que ele confiara no garoto, deixando que ele falasse o que quisesse aos seus oficiais? Por que... Alfred o protegera? E por que aquilo significava tanto...?

Enquanto o garoto ia para o campo de batalha, o loirinho travava uma luta consigo mesmo e com as memórias borradas que ele tinha. Depois do que Alfred fizera por ele naquela manhã, mais do que nunca, ele precisava usar toda a sua capacidade de raciocínio e descobrir até onde a noite passada existiu.

Até onde ele poderia incentivar aquele fiozinho de esperança e a quieta euforia que se instalavam em seu peito em algo que ele se julgava velho demais para estar descobrindo. Um sentimento diferente, muito diferente... Alguma coisa que fazia o seu coração palpitar e que ele queria entender.

O Arcano 1 — O Mago


SIGNIFICADO DIVINATÓRIO


O Mago significa originalidade e criatividade. Habilidade para utilizar as próprias capacidades a fim de realizar uma tarefa. Imaginação. Perícia. Força de vontade. Destreza. Engenhosidade. Astúcia. Dominação. Autocontrole. Impostura. Simulação enganadora. Desdém. Perplexidade. Unidade de pensamento e emoção. Capacidade para escolher o que deve fazer. Determinação para ver uma tarefa cumprida até o fim. Capacidade de influenciar outras pessoas.

Notas finais
Olá :DD
Enfim, agora acho que chegou todo mundo xD ( recebi review até ontem xD) Agora estamos todos juntos, podemos continuar xD
Aliás, só pra dizer, ando recebendo uns reviews inteligentíssimos, fico ate chocada. É emocionante ver como vocês percebem as entrelinhas! Sem contar que sempre da pra tirar umas ideias muyyy interessantes para por nos capítulos muahaushaush xD
Bom, daqui a pouquinho terminamos a segunda guerra (eu disse que ela ia ser mais intrincada que a primeira xD) e passamos para guerra fria... Eita! xD
Enfim! Obrigada mesmo a todos que comentaram, voces me fazem muito feliz xD Beijo :D