Bouina
9 CAPÍTULO 09
O espelho de cobre tremia nas mãos de Marina. Os olhos que a fitavam de volta eram negros como o fundo do rio, profundos e sem fim. As pupilas, dilatadas, ainda refletiam o brilho lunar que insistia em atravessar a janela de madeira.
As mãos tremiam banhadas em sangue; não o seu, mas dos homens que, horas antes, ousaram ferir a floresta.
O corpo nu, coberto de lama, de culpa e sangue seco, estava exausto. O ar pesado trazia o cheiro de ferro, musgo e terra molhada. Lá fora, a noite se abria em silêncio, e só o coaxar distante dos sapos lembrava que o mundo ainda existia.
Marina deixou o espelho cair, e o som do metal ecoou como um grito contido. Em seguida, caiu de joelhos no chão ofegante. As lágrimas desciam misturadas à sujeira, riscavam-lhe o rosto, traçando caminhos que pareciam queimá-la.
Ela queria apenas ser normal.
Queria viver como qualquer outra mulher.
A besta dentro dela — a cobra negra, ancestral e faminta — havia tomado o controle mais uma vez. E agora, restava-lhe apenas o arrependimento.
“Eu não sou um monstro...” sussurrou entre dentes, mas sua voz parecia vir de outra boca, de outro ser.
Queria namorar, sentir o toque de mãos que não tremessem de medo, sair, rir, dançar sob o luar sem sentir o peso da fera adormecida em seu peito. Mas a besta, não dormia por muito tempo. Às vezes, nem precisava da lua cheia para despertar. Ela não tinha controle de quando acontecia. Era como se ela fosse mais cobra do que mulher.
Quando ela vinha, Marina deixava de existir. A consciência se perdia em sombras, e outro ser assumia; um espírito antigo, cruel e faminto. A cobra rastejava para fora da carne, tomava-lhe o corpo e o destino. E onde passava, restava apenas destruição.
Mas ela sempre se lembrava.
Lembrava de cada osso se partindo, de cada grito sufocado, de cada vida que se apagava sob o aperto de seu corpo serpentino.
E quando voltava a si, o arrependimento vinha; não como perdão, mas como punição.
Tinha vergonha de quem era.
Medo do que podia se tornar.
Culpava-se por nunca se apaixonar, por nunca conseguir sair, por não ser como os outros. Era mulher, bela como a própria lua, mas o reflexo que via no espelho não era o dela, sempre via Boiuna, sempre à espreita, respirando dentro de sua pele.
Pensava na irmã, que também era uma Bouina, mas diferente dela, havia aprendido a conviver com o espírito da serpente. Ela ria, amava, tinha um noivo, uma vida feita de pequenas alegrias humanas.
Enquanto isso, Marina caminhava sozinha pelas margens do rio, conversava com o vento, com as árvores, com o vazio. Falava para ouvir o próprio eco e nem sempre obtinha resposta.
A mãe dizia que eram protetoras da floresta, escolhidas pela própria terra para vingar o que nela se quebrasse. Que cada homem que ferisse um animal, que queimasse uma raiz, que matasse um galho vivo, merecia morrer.
Mas Marina nunca quis ser juíza de ninguém.
Nunca quis o sangue.
Sentada nua, no chão frio, o corpo ainda latejava com o resquício da metamorfose, sussurrou para o vazio:
— Eu não sou um monstro...
A porta se abriu. Sua entrou apressada, com a expressão carregada de dor e de hábito. Era um gesto antigo, aquele de recolher a filha após o sangue.
Cobriu-lhe o corpo com um manto escuro e arrastou para o quintal, onde o rio corria raso, e sem dizer palavra começou a lavar-lhe o corpo. A água era fria, cheirava a folhas e a medo. O sangue escorria em fios finos, dissolvendo-se no fluxo escuro.
Marina chorava em silêncio, com o olhar perdido, a alma encolhida dentro do corpo.
As mãos da mãe tremiam enquanto esfregavam-lhe os ombros, e em sua boca havia preces antigas, ditas em uma língua que já se esquecia.
Ela, a matriarca, sabia o que significava perder o controle. Sabia também que a maldição não se quebrava, havia apenas dor.
Quando terminou o banho, envolveu a filha novamente a manta já gasta e a olhou longamente.
Marina era linda. Os cabelos longos, escuros, colavam-se ao corpo magro, e nos olhos havia uma mistura de inocência e loucura.
— Eu não quero mais isso, mãe. — A voz saiu trêmula, mas firme. — Eu não quero mais viver dessa forma. Eu quero sair daqui. Vamos embora… por favor.
A mãe, de rosto cansado, desviou o olhar para o rio.
— Você sabe que não dá pra fugir, Marina. Onde formos, ela nos seguirá. O espírito condenou, e nossa geração paga o preço.
— Não é justo! — gritou ela com o peito arfando. — Eu não pedi pra nascer assim! Eu não quero matar, eu não quero ser essa coisa!
As lágrimas voltaram, e com elas, o brilho animal nos olhos.
A mãe suspirou, pesada.
— A justiça dos guardiões da floresta é diferente da dos homens, minha filha. O que foi prometido não pode ser desfeito...
— Então eu vou achar um jeito. — murmurou Marina, virando as costas. — Nem que eu precise morrer para isso.
Entrou em casa pisando firme, e as tábuas do assoalho rangeram como se também lamentassem. Quando à noite caiu, ela quase se sentiu entediada, no quarto sozinha, sua irmã mais nova bateu na porta.
— Mana? — chamou. — Vamos pra festa na vila! Mamãe só deixa eu ir se tu for junto. Augusto vai estar lá. Estou com saudades, vamos, por favor?
Marina hesitou. Os ossos ainda doíam, o corpo pesava, mas a vontade de esquecer tudo era maior.
Vestiu o vestido de crochê branco, simples e colado ao corpo, e calçou sandálias de couro. Soltou os cabelos, penteando-os com os dedos, e quando o espelho a refletiu, recuou por um instante. A imagem que a fitava parecia uma aparição; bela como uma sereia, os olhos fundos e brilhantes, os lábios cheios, vermelhos como sangue novo. Havia nela algo hipnótico e perigoso, uma beleza que não pedia licença, mas também não encontrava paz.
As duas desceram até a vila. O caminho era estreito, abraçado por árvores. A luz das lamparinas tremia, riscando de dourado as folhas úmidas e refletindo nas águas escuras do rio. O som das violas e das risadas enchia o ar, misturado ao cheiro doce de cachaça e flor de laranjeira.
Assim que chegaram, sua irmã foi tomada pela alegria. Rodopiava de mãos dadas com Augusto, o noivo de sorriso largo, o olhar terno e o corpo que se movia com o dela como se fossem um só. Riam, tropeçavam, voltavam a dançar, iluminados pelo fogo que crepitava no centro da roda.
Marina afastou-se em silêncio, seguindo o chamado suave do rio. Sentou-se sobre uma tábua gasta, mergulhando os pés na água fria. O luar escorria sobre as ondas lentas, e tudo parecia respirar em um mesmo ritmo: o vento, as folhas, o coração dela.
De onde estava, via a irmã sorrindo, viva, amada. O riso dela atravessava o ar e chegava até ela como uma punhalada doce, lembrando-lhe tudo o que não tinha. Abaixou o olhar para o espelho líquido do rio. As luzes da festa tremulavam sobre sua superfície, deformando seu reflexo.
— Quando será que alguém vai me olhar assim? — sussurrou, e a própria voz pareceu doer.
Quis acreditar que o amor ainda podia encontrá-la, que existia um homem capaz de vê-la além do que habitava sob sua pele. Mas o rio nada respondeu; apenas moveu suas águas, devolvendo-lhe um reflexo de olhos escuros demais, quase inumanos.
Ela desviou o olhar, sentindo o peso do silêncio.
O coração apertou-se em solidão e vergonha.
Sabia que, enquanto a irmã dançava cercada de vida, ela carregava dentro de si a morte e a serpente adormecida, à espreita, esperando o próximo suspiro para despertar.
E sob a lua cheia, o rio pareceu sussurrar seu nome, como se a lembrasse de que amor e maldição, para ela, talvez fossem a mesma coisa.
Um vento fresco veio do leito das águas, lento e roçando-lhe a pele como dedos curiosos. O ar se encheu de um perfume doce e úmido, mistura de folhas amassadas, flor de jenipapo e o cheiro quente da terra recém-molhada. Era um aroma que não vinha da floresta, mas dela; como se o próprio rio tivesse um coração que agora pulsava mais perto.
Marina ergueu o rosto, o vento bagunçando seus cabelos soltos. O rio, que até então dormia, começou a ondular suavemente, emitindo brilhos prateados sob o luar. Ela sentiu o corpo arrepiar, uma presença se aproximava.
Do outro lado, entre o nevoeiro que subia das margens, uma figura começou a tomar forma.
Não andava, flutuava sobre a água, como se o rio o sustentasse por devoção. Os contornos eram humanos, mas a pele refletia o brilho das águas, e cada passo fazia o rio se abrir em círculos luminosos.
— Você me chamou. — disse uma voz baixa, grave, envolvente.
Um homem moreno, alto, de ombros largos e olhar impossível de desviar.
Os cabelos longos caíam soltos, negros como à noite após a chuva, e pareciam guardar o brilho discreto do luar. Vestia uma camisa de linho de mangas largas e calça simples, mas em seu corpo tudo parecia feito sob medida pela própria natureza; forte, sereno e sensual.
— Posso me sentar? — perguntou ele, com voz grave e suave, como o som da água batendo nas pedras.
Por um instante, o mundo pareceu suspenso: o som distante da festa, o coaxar dos sapos, até o farfalhar das folhas; tudo se calou.
Marina apenas assentiu hipnotizada.
— Noite bonita, não acha? — disse ele, olhando o rio. — As águas estão calmas hoje. Costumam se agitar quando algo muda no ar.
Ela o olhou de soslaio.
— Você fala como se conhecesse o rio.
— Conheço. Desde que fui criado.
Ela franziu o cenho.
— Criado?
O sorriso dele se alargou, tranquilo e perigoso.
— De certo modo, sim.
O silêncio caiu entre os dois, quebrado apenas pelo som da água tocando as pedras. Marina sentia o corpo reagir, um calor subindo pelo peito, o sangue pulsando nas têmporas.
Quando ele se virou para ela, o movimento foi suave, quase felino. Os olhos o observavam com calma.
— Eu nunca te vi por aqui. — disse, tentando manter a voz firme. — Mora na vila?
Ele sorriu de novo.
— Moro onde a água descansa. — respondeu ele. — E esta noite vim porque algo me chamou.
Ela desviou o olhar, o rosto em chamas.
— O que te chamou?
— Você. — Ele a olhou de frente, os olhos cintilando à luz da lua. — Nunca vi nada tão bonito em toda a minha existência.
Marina mordeu o lábio inferior, tentando esconder o riso nervoso. A irmã sempre dizia que ela não sabia flertar. E, talvez por isso, aquele homem a desarmava com o simples ato de existir.Ele deu um passo à frente, aproximando-se até que o perfume de folhas molhadas e flor noturna a envolvesse.
— Posso? — perguntou, estendendo a mão.
— O quê...?
— Uma dança.
Ela hesitou, mas a música distante da festa ainda ecoava fraca; violas e tambores misturados ao som do vento e do rio. Ele tomou-lhe a mão antes que ela dissesse sim ou não, e a puxou para si, com delicadeza.
Os corpos se encontraram. O toque dele era quente, firme, e o coração de Marina bateu descompassado.
Eles dançaram sob a lua, naquela pontezinha acima do rio, sem ritmo certo, apenas guiados pelo som da água e o som distante da festa. O rosto dele estava próximo o bastante para que ela sentisse o ar quente de sua respiração. O olhar dele prendia o dela, e quando sorriu, o mundo pareceu não existir mais.
O corpo dele exalava uma energia que fazia o dela estremecer, junto a um cheiro de rio, de terra, de homem e de mistério. Algo que ela nunca viu, nem sentiu em toda sua vida. Era um encantamento mútuo.
Por um instante, jurou ver reflexos prateados no olhar dele e lembrou-se das histórias antigas que a mãe contava, sobre o boto, o sedutor das águas, aquele que vinha às margens disfarçado de homem para roubar beijos e promessas.
Antes que pudesse reagir, ele inclinou o rosto e a beijou.
Não houve pressa. Foi um beijo calmo, mas profundo, como se a conhecesse desde sempre. O toque o fez estremecer, e o rio pareceu se mover junto, murmurando ao redor deles. Quando se separaram, Marina ficou tonta, o corpo leve, o sangue queimando nas veias. Ele ainda a segurava pela cintura, os dedos roçando a pele do vestido.
— Aceita passear no rio comigo? — sussurrou num tom baixo e arrastado.
Marina não conseguiu negar.
— Sim... — disse, quase sem voz. Seu rosto corou em seguida, como se tivesse cometido algo indevido e um leve sorriso curvou os lábios dele.
— Então venha.
Caminharam lado a lado pela margem. O som dos grilos e da água batendo na madeira acompanhava o ritmo dos passos. Marina tentava disfarçar o nervosismo, mas a respiração era curta. Ele, ao contrário, parecia feito de calma. Ao chegar ao pequeno barco, ele estendeu a mão.
— Permite? — disse, com uma cortesia antiga.
Marina segurou a mão dele, sentou-se, e o barco balançou suavemente quando ele subiu, empurrando-o com um único gesto.
Remou com firmeza, mas sem pressa, como se o próprio rio o guiasse. O silêncio era espesso. A lua, redonda e viva, parecia observá-los.
Quando o barco parou, ele largou o remo e a encarou. O olhar dele, intenso, a atravessou como correnteza.
— Posso te contar um segredo? — disse.
Ela assentiu.
— Eu posso acabar com a maldição.
— Que maldição? — A voz falhou.
Ele se inclinou, e o brilho da lua revelou algo que a fez gelar: o reflexo das águas tremia na pele dele, como se o corpo fosse feito do próprio rio.
O que antes parecia um clima romântico, começou a se desfazer diante dela e o terror chegou sorrateiro, como uma sombra fria que se arrasta pelos ossos. Sua barriga gelou, e um instinto antigo de fuga despertou, latejando no peito, mandando que corresse, que saltasse do barco, que escapasse daquele olhar que agora lhe parecia estranho e ao mesmo tempo que a conhecia mais do que ela própria sobre si mesma.
— Aquela que te consome, Boiuna. — murmurou. — Eu te vi nas noites de lua. Eu te ouvi gritar.
Marina recuou, assustada.
— Como sabe disso?
Ele sorriu, e o rio se agitou, como se respondesse por ele.
— Porque fui eu quem te criou.
O silêncio pesou.
— Quem é você? — murmurou.
Ele sorriu, e quando o fez, a superfície da água tremeu.
— Eu sou Karosakaybu, o espírito do rio. Sou o que corre embaixo de tudo que vive. Eu vi teus ancestrais e os castiguei, porque tocaram o sagrado. Mas em ti... há algo diferente. Que me torna curioso. Errante.
— Isso é loucura!
— Loucura é negar seu chamado. — Ele estendeu a mão, mas não a tocou. — Eu posso libertar-te, Marina. Mas há um preço.
Ela o olhou com medo e fascínio.
— Que preço?
— Quero sentir o que vocês sentem. O amor, o desejo, o toque humano. E quero tê-la como minha noiva.
— Eu não... — ela balbuciou, sem saber se fugia ou se aceitava.
Ele inclinou o rosto, os cabelos caindo sobre os ombros.
— Tudo bem, não precisa responder agora. Vou lhe dar tempo. Se mudar de ideia, me encontre na cachoeira, dentro da mata, em três dias, quando o céu for todo escuro.
E então desapareceu. Não afundou, não sumiu: apenas se desfez, como se fosse feito de neblina e luar.
Marina voltou para casa trêmula e com o coração em chamas.
Por três dias, ela não dormiu direito.
Pensava nas palavras dele, na promessa, na beleza que queimava como febre.
Pensava na própria vida, no que havia se tornado.
Quantas vezes acordou coberta de lama e sangue, sem saber o que havia feito. Quantas vezes o medo a obrigou a fugir da vila, a esconder-se da irmã, do amor, de si mesma. A maldição a prendia como uma corrente invisível, e ela já não sabia onde terminava o castigo e começava quem era de verdade.
Sabia também que, se fosse até ele, nada seria o mesmo.
Na terceira noite, ela esperou que todos dormissem. Vestiu o vestido claro, amarrou os cabelos e saiu descalça, com o coração disparado.
Cada passo pela mata parecia guiado por algo que não era inteiramente dela. Os galhos sussurravam, o vento parecia abrir caminho, e o som distante da cachoeira chamava seu nome. Sabia que estava indo ao encontro do desconhecido, mas, pela primeira vez, o medo não a impedia.
Se o preço da liberdade era o mistério, ela o pagaria em silêncio. Porque, no fundo, o que mais desejava não era amor, nem salvação. Era apenas existir sem ferir.
E assim, envolta pela escuridão e pelo som do rio, foi até ele e em segredo. A cachoeira brilhava, parecia ser um lugar mágico, como nunca visto antes. E lá estava ele, sentado sobre uma pedra, o corpo nu da cintura pra cima, a pele molhada reluzindo sob a lua.
— Você veio. — disse ele, sem surpresa.
— Se tudo o que disse é verdade... então me mostre. — disse, o olhar preso ao dele.
Ele se levantou, caminhou até ela, e a cada passo parecia mover o vento.
— O que é verdadeiro não precisa ser provado. — Ele a rodeava, olhava com curiosidade e tocou-lhe o ombro. — Se sente, como o frio da água ou o calor do sangue.
Agora, ele tomou-lhe a mão, e o toque era morno, diferente, impossível de ser humano. Seus dedos deslizaram pelo braço dela com uma curiosidade silenciosa, como quem descobre algo sagrado e proibido. Inclinou-se e beijou-lhe o ombro com lentidão, o hálito quente contrastando com o frio da noite.
Ele a observava dos pés à cabeça, cada gesto era carregado de uma reverência inquietante.
— Você veio até mim... porque aceitou ser a noiva que escolhi? — a voz dele soou baixa, quase um sussurro que se misturava ao murmúrio da água.
Ela não encontrou forças para responder. Seu coração estava descompassado entre o medo e um estranho feitiço que a prendia àquela presença.
— Diante de Tupã e Yby, eu a tomo por esposa. — disse, e a voz ecoou pela floresta.
A água da cachoeira subiu, como se o próprio rio respirasse.
Marina não resistiu. Deixou-se envolver.
O beijo veio suave, depois profundo, e tudo se apagou; o medo, o corpo, a maldição.
Naquela noite, o rio e a mulher tornaram-se um só.
E antes de o dia nascer, Karosakaybu sussurrou em seu ouvido:
— De ti nascerá o fruto do amor e da cura. O sangue se selará, sua maldição agora não existirá mais. Após o nascimento do fruto, toda a linhagem vinda depois dela, terão o destino livre da maldição.
Ela tentou responder, mas o sol já subia e ele se desfez em cintilas líquidas, como cristais de água devolvidos ao rio. Marina chorou e o medo a envolveu como um véu frio. E se dentro dela não houvesse vida, mas o eco de uma maldição?
Na superfície tranquila, um brilho breve surgiu e se desfez. Talvez fosse apenas reflexo do sol nascente ou o último olhar de Karosakaybu, vigiando o fruto do amor e da cura.
E, pela primeira vez, o rio se apaixonou por uma humana; da mesma linhagem que ele próprio havia amaldiçoado séculos antes.
O amor estava nascendo entre a maldição e sua origem.
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